poesia

Jacinta Passos (1914-1973)

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A baiana Jacinta Passos nasceu em Cruz das Almas, na região do Recôncavo da Bahia, em 1914, filha de Berila Eloy e Manuel Caetano da Rocha Passos, pertencentes a famílias tradicionais da região, muito católicas. Seu avô paterno, Themístocles da Rocha Passos, duas vezes Senador na Província (depois Estado) da Bahia, é hoje nome da principal praça da cidade. Seu pai, também político, foi eleito deputado estadual quatro vezes, as duas últimas pela UDN.

Jacinta passou a infância entre o núcleo urbano de Cruz das Almas e a fazenda Campo Limpo, de propriedade do pai, onde nascera e morava com a família, mergulhada na cultura do fumo, das tradições africanas e das canções infantis que marcariam sua poesia. Após a transferência da família para Salvador, cursou a Escola Normal, onde se formou com láurea. Trabalhou como professora de matemática, dando aulas particulares e, depois, na prestigiosa Escola Normal onde se formara. Nessa época, era muito religiosa. Praticava a religião com uma entrega total, dedicando-se com fervor e buscando uma união profunda e direta com Deus.

Desde o final da década de 1920 escrevia poemas, em geral de conteúdo religioso. Nos anos 30, ao lado do irmão, o estudante de medicina e também poeta Manoel Caetano Filho, participou de círculos e grupos literários de Salvador, como a Ala das Letras e das Artes (ALA), chefiada pelo crítico Carlos Chiacchio. Seus poemas começaram a circular entre os intelectuais da cidade. Continuava religiosa, mas, à medida que o tempo passava, sua religiosidade ia adquirindo conteúdo social e militante.

A partir da eclosão da Segunda Guerra Mundial, em 1939, envolveu-se fortemente com política. Ao lado do irmão, assumiu posições públicas e participou de movimentos a favor da paz mundial e do final da ditadura do Estado Novo. Denunciou as opressões que pesavam sobre as mulheres, defendendo mudanças imediatas na condição feminina. Continuava católica, porém cada vez mais afastada das posições ortodoxas da Igreja.

Após a entrada do Brasil na guerra, em 1942, participou intensamente da luta antinazista e antifascista, envolvendo-se com grupos de esquerda. Tornou-se também uma ativa jornalista, escrevendo sobre temáticas sobretudo sociais. Foi uma das poucas mulheres da Bahia, à época, a assumir posições políticas públicas e a desenvolver uma intensa e regular atividade jornalística, publicando artigos e poesias no jornal O Imparcial e na revista cultural Seiva. Publicou semanalmente em O Imparcial uma “Página Feminina”, que ampliava muito os assuntos habitualmente reservados às mulheres, introduzindo discussões políticas e literárias.

Jacinta alargou seus contatos literários, dedicando-se com afinco à poesia. Em 1942, publicou o livro Nossos poemas (Salvador, A Editora Bahiana), cuja primeira parte, “Momentos de Poesia”, contém poemas seus, enquanto a segunda, “Mundo em Agonia”, reúne poemas do irmão, Manoel Caetano Filho. O volume mereceu boas críticas na imprensa, firmando os nomes dos dois poetas no meio intelectual baiano.

Jacinta Passos tornou-se amiga de intelectuais comunistas, como Jorge Amado, que no final de 1942 retornara à Bahia, aprofundando a participação em movimentos sociais e feministas. Nessa época, abandonou o catolicismo.

Mudou-se em 1944 para São Paulo, onde se casou com o jornalista e escritor James Amado. No ano seguinte, publicou seu segundo livro, Canção da Partida (São Paulo, Edições Gaveta), contendo dezoito poemas, três transcritos do livro anterior. A edição, extremamente bem cuidada, foi de apenas duzentos exemplares, numerados e assinados pela autora e ilustrados pelo grande artista Lasar Segall. Canção da Partida recebeu críticas muito elogiosas de intelectuais expressivos como Aníbal Machado, Antonio Candido, Gabriela Mistral, José Geraldo Vieira, Mário de Andrade, Roger Bastide e Sérgio Milliet, firmando o nome da poeta no cenário nacional.

Jacinta Passos continuou fortemente envolvida com política. Lutou pelo final da guerra, pela redemocratização do Brasil, pela liberdade de expressão, pela anistia aos presos políticos e pela ampliação dos direitos das mulheres. Em 1945, ano em que o Partido Comunista Brasileiro (PCB) foi legalizado e lançou uma grande campanha de filiação de novos membros, ingressou oficialmente nesse partido, nele permanecendo até morrer.

De volta a Salvador, foi candidata a deputada federal e a deputada estadual pelo PCB, não se elegendo. Contribuiu para o jornal comunista O Momento e continuou participando ativamente da política. Em 1947, após uma gravidez muito difícil, deu à luz sua filha única. Com o marido e a filha, viveu alguns anos em uma fazenda no sul da Bahia, onde se dedicou à família e à escrita.

Mudou-se em 1951, com a família, para o Rio de Janeiro, onde lançou seu terceiro livro, Poemas políticos (Rio de Janeiro, Livraria-Editora da Casa do Estudante do Brasil). Contendo dez poemas inéditos, políticos e líricos, além de uma seleção de poesias anteriores, Poemas políticos ampliou o prestígio da escritora, tornando-a mais conhecida nos círculos literários do Rio de Janeiro, a capital do país.

No final desse ano sofreu grave crise nervosa, com delírios persecutórios. Ficou vários meses internada em sanatórios do Rio, onde foi diagnosticada como portadora de esquizofrenia paranóide, considerada então uma doença progressiva e irrecuperável. Durante essa internação e nas seguintes, foi tratada à base de choques elétricos, injeções de insulina e barbitúricos. Transferida para a Clínica Psiquiátrica Charcot, em São Paulo, teve o diagnóstico confirmado.

Em 1955, separada do marido e da filha, regressou a Salvador, voltando a residir com os pais. Continuou militando no PCB, um partido em crise, ensinou em comunidades pobres de Salvador e publicou artigos sobre literatura no jornal comunista O Momento, onde, durante alguns meses, foi também responsável por uma página literária. Continuou escrevendo poesias. Recebeu a visita da filha durante duas férias escolares e a visitou, no Rio de Janeiro.

Publicou em 1957 seu quarto livro, A Coluna (Rio de Janeiro, A. Coelho Branco Fº Editor). O volume contém um longo poema épico, de quinze cantos, sobre a Coluna Prestes, marcha de cerca de vinte e cinco mil quilômetros, empreendida na década de 1920, e liderada, entre outros, por Luiz Carlos Prestes, que buscava mudanças políticas profundas para o Brasil. O livro foi bem recebido por críticos como Paulo Dantas. Vários de seus trechos foram transcritos em publicações de esquerda do país, até 1964.

Após permanecer cerca de dois anos na cidade pernambucana de Petrolina, onde vivia sozinha e em extrema pobreza, transferiu-se em 1962 para Aracaju, em Sergipe. Ali morou, também sozinha, em Barra dos Coqueiros, povoação de pescadores situada em frente à cidade. Vivia muito pobremente, em um barraco de madeira, à beira do rio. Possuía uma máquina de escrever, onde, à noite, datilografava poemas e textos políticos, que distribuía pelas ruas durante o dia. Numa época de grande agitação e polarização política, desenvolveu, sozinha e ao lado de integrantes do PCB local, intensa militância junto a pescadores, estudantes e trabalhadores, inclusive após o golpe militar de 1964.

Foi detida em 1965, quando pichava nos muros da cidade palavras de ordem contrárias à ditadura. Recolhida ao 28º BC de Aracaju, graças à interferência da família Passos foi transferida para um sanatório particular da mesma cidade, a Casa de Saúde Santa Maria, onde permaneceu até sua morte, em 28 de fevereiro de 1973, aos cinqüenta e sete anos de idade.

Janaína Amado (disponível aqui).

* * *

 

Canção da alegria

Urupemba
urupemba
mandioca aipim!
peneirar
peneirou
que restou no fim?

Peneira massa peneira,
peneira peneiradinha,
(Ai! vida tão peneirada)
peneira nossa farinha.

Olhe o rombo
olhe o rombo
olhe o rombo arrombou!
olhe o cisco
olhe o risco
urupemba furou!

Eh! sai espantalho
da ponta do galho!

Escorra! Escorra!
Tirai essa borra!

Urupemba
urupemba
mandioca aipim!
peneirar
peneirou
que restou no fim?

Farinha fininha
peneiradinha!

Ai! vida, que vida
nuinha! nuinha!

§

 

Canção do amor livre

Se me quiseres amar
não despe somente a roupa.

Eu digo: também a crosta
feita de escamas de pedra
e limo dentro de ti,
pelo sangue recebida
tecida
de medo e ganância má.
Ar de pântano diário
nos pulmões.
Raiz de gestos legais
e limbo do homem só
numa ilha.

Eu digo: também a crosta
essa que a classe gerou
vil, tirânica, escamenta.

Se me quiseres amar.

Agora teu corpo é fruto.
Peixe e pássaro, cabelos
de fogo e cobre. Madeira
e água deslizante, fuga
ai rija
cintura de potro bravo.
Teu corpo.

Relâmpago depois repouso
sem memória, noturno.

§

 

1935

Tenso como rede de nervos
pressentindo ah! novembro
de esperança e precipício.

Fruto peco.

Novembro de sangue e de heróis.

Grito de assombro morto na garganta,
soluço seco dor sem nome. Ferido.
De morte ferido. Como um animal ferido. Luta
de entranhas e dentes. Natal.
Sangue. Praia Vermelha.

Sangue.
Sangue. É quase um fio
escorrendo
sangrento
tenaz
por dentro dos cárceres,
nas ilhas
e nos corações que a esperança guardaram.

§

Canção da liberdade

Eu só tenho a vida minha.
Eu sou pobre pobrezinha,
tão pobre como nasci,
não tenho nada no mundo,
tudo que tive, perdi.
Que vontade de cantar:
a vida vale por si.
Nada eu tenho neste mundo,
Sozinha!
Eu só tenho a vida minha.
Eu sou planta sem raiz
que o vento arrancou do chão,
já não quero o que já quis,
livre, livre o coração,
vou partir para outras terras,
nada mais eu quero ter,
só o gosto de viver:
Nada eu tenho neste mundo,
sozinha!
Eu só tenho a vida minha.
Sem amor e sem saúde,
sem casa, nenhum limite,
sem tradição, sem dinheiro,
sou livre como a andorinha,
tem por pátria o mundo inteiro,
pelos céus cantando voa,
cantando que a vida é boa.
Nada eu tenho neste mundo,
Sozinha!
Eu só tenho a vida minha.

§

 

O inimigo

A Coluna descansou
da marcha, na noite fria.

Ficaram olhos acesos
e a fogueira, de vigia.

Su su su

menino mandu
dorme na lagoa
sapo-cururu

Soldados dormem quietos
Debaixo deste telheiro

em cima pia a coruja
com seu piado agoureiro.

Su su su
menino mandu

Soldados dormem quietos
no bivaque de improviso

até as armas descansam
que este descanso é preciso.

Dorme na lagoa
sapo-cururu

Soldados dormem quietos
na barraca e na varanda,

eis de repente o inimigo
– Depressa, levanta e anda!

Depressa, são feras,
depressa ou quiseras
nas mãos do inimigo
cair, que o perigo
de perto ameaça
de morte ou mordaça
cadeia ou degredo.

Galopa sem medo!

Legalista do Inferno! .
donde o Governo –
tais feras tirou?

Ah! raiva que eu sou.

Depressa e a trote
esporas, chicote,
as crinas revoltas,
de rédeas bem soltas
e bridas também
(Que medo não tem!)
depressa e a trote
mão no cabeçote
o pé na estribeira
encilha e carreira!
esquipa montado
depressa, soldado
que medo não tem.

Legalista do inferno
não vale um vintém!

A Coluna descansou
da marcha na noite fria.

Picaram olhos acesos.
E de repente partia.

§

 

Diálogo na Sombra

— Que dissestes, meu bem?

Esse gosto,
Donde será que ele vem?

Corpo mortal.
Águas marinhas.

Virá da morte ou do sal?
Esses dois que moram no fundo e no fim.

— De quem falas amor, do mar ou de mim?

§

 

Canção atual

Plantei meus pés foi aqui
amor, neste chão.

Não quero a rosa do tempo
aberta
nem o cavalo de nuvem
não quero
as tranças de Julieta.

Este chão já comeu coisa
tanta que eu mesma nem sei,
bicho
pedra
lixo
lume
muita cabeça de rei.

Muita cidade madura
e muito livro da lei.

Quanto deus caiu do céu
tanto riso neste chão,
fala de servo calado
pisado
soluço de multidão.

Coisas de nome trocado
– fome e guerra, amor e medo –

Tanta dor de solidão.

Muito segredo guardado
aqui dentro deste chão.

Coisa até que ninguém viu
ai! tanta ruminação
quanto sangue derramado
vai crescendo deste chão.

Não quero a sina de Deus
nem a que trago na mão.

Plantei meus pés foi aqui
amor, neste chão.

§

 

Cantigas das mães

(para minha mãe)

Fruto quando amadurece
cai das árvores no chão,
e filho depois que cresce
não é mais da gente, não.
Eu tive cinco filhinhos
e hoje sozinha estou.
Não foi a morte, não foi,
oi!
foi a vida que roubou.

Tão lindos, tão pequeninos,
como cresceram depressa,
antes ficassem meninos
os filhos do sangue meu,
que meu ventre concebeu,
que meu leite alimentou.
Não foi a morte, não foi,
oi!
foi a vida que roubou.

Muitas vidas a mãe vive.
Os cinco filhos que tive
por cinco multiplicaram
minha dor, minha alegria.
Viver de novo eu queria
pois já hoje mãe não sou.
Não foi a morte, não foi,
oi!
foi a vida que roubou.

Foram viver seus destinos,
sempre, sempre foi assim.
Filhos juntinhos de mim,
Berço, riso, coisas puras,
briga, estudos, travessuras,
tudo isso já passou.
Não foi a morte, não foi,
oi!
foi a vida que roubou.

Padrão
poesia, tradução

Langston Hughes, por Camillo César Alvarenga

Iniciei este texto em 2015, revisando agora para esta publicação. O ensaio nasce de um texto em inglês que lia sobre o autor e que deu origem a estas breves linhas que grafei aqui. Em especial, a tradução de “Good Morning Revolutions” não é inédita, publiquei antes num blog junto a “The Negro Speak of Rivers”, fora estas duas exceções, todas as outras versões em português são apresentadas por mim, aqui, pela primeira vez ao público.

Camillo César Alvarenga

***

ENSAIO, TRADUÇÃO E OUTRAS TRADUÇÕES – LANGSTON HUGHES.

 a partir de Ibn Arabi, que diz que este é um fato verdadeiro, um de seus amigos, que era um dervixe Abdal, foi levantado para o céu pelos espíritos, chegou ao Monte Kaf circundando o universo, e descobriu que esta montanha foi em si rodeada por uma cobra. Sabemos agora que não há montanha que circula o universo, nada mais que uma cobra que cerca tal montanha.

 Enciclopédia do Islam[1].

 Edward Said foi um intelectual palestino e pai do Orientalismo, nessa esteira de alianças contra a ordem dominante, tomamos aqui a experiência da moderna poesia negra norte-americana.  Neste sentido, a conexão entre a poesia afro-americana e as raízes da cultura contemporânea nos dá, a saber, notícias de que no Brasil fontes guardam cartas do poeta cubano Nicolás Guillén aptas ao estudo, onde imagino que se encontrarão muitas endereçadas e recebidas de Langston Hughes (1902-1967), poeta estadunidense que tem um tom criativo bem característico, no qual a sua poesia é a manifestação da condição humana do homem negro na América.

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Hughes, ao longo de sua trajetória intelectual, artística e política ganhou uma reconhecida dimensão com seus trabalhos literários como os romances da maturidade, novelas, peças de teatro e musicais. Ele sempre procurou apresentar as formas estéticas, simbólicas e principalmente sociais da vida do negro na América do Norte, no século XX. Expressão de uma literatura em reflexividade com a comunidade negra e em conexão com a dicção da modernidade, distinguia-se das formas literárias que o precederam, ou seja, dos séculos 18 e 19.

Fez parte da organização política “Panteras Negras”, grupo de militantes armados que lutavam pelo fim do racismo nas leis americanas. Poeta da e na luta pelos direitos civis, desde o Harlem suas redes de sociabilidade estendiam-se até ligações internacionais entre as quais estavam poetas de diversas partes do mundo: como o cubano Nicolas Guíllen. L. Hughes, coloca-se contra o racismo e a favor do socialismo e, com isso, entra na alça de mira do macarthismo dos anos 50.

A partir de Nova York seus versos avançam sobre as gerações com a questão da afirmação do negro na sociedade moderna. Atinge os palcos da Broadway, ao passo que, o jazz de Duke Ellington trazia também como Hughes a cultura negra e seu cotidiano para o centro espetacular da vida social norte americana.

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Langston Hughes, Michael Koltyov, Ernest Hemingway, Nicolas Guíllen, 1937

Revelou em sua obra, entre outras, influências do jamaicano Claude Makay e Paul Laurence Dunbar, que escreveu “Ode a Etiópia”. Em suas primeiras obras, Langston demonstra seu interesse pelo blues e jazz e apresenta a cultura, a música e as tradições de sua comunidade frente à imposição da ascensão social do mundo dos brancos. Sua poética entra num período de radicalização durante a grande depressão. Escreve o poema “The Negro Speaks of Rivers” com base na inspiração que lhe gera a extensão do Rio Mississippi até alcançar o México.

Em 1932 em pleno stalinismo vai à Rússia. Escreve contos curtos expressando o caminho da cultura tradicional afro-estadunidense bem como enfrentando situações da experiência social de ser negro na América segregacionista. Publica a tragédia – “Mulato” – em seguida o drama histórico “Emperor of Haiti”. Além da peça – “Dont You Want Be Free?” – uma maneira negra de representar uma forma moderna de teatro revolucionário que se compara a Brecht ou Lorca.

Como tal a sua trajetória, a sua obra legou à sua geração e às vindouras a crítica da problemática da diferença étnica entre “negros” e “brancos” e, por conseguinte, a reflexão estética e política acerca das relações raciais através da poesia. Langston Hughes vem a morrer, vitimado por um câncer de próstata, em New York, em maio de 1967.

capa1

***

GENIUS CHILD

 This is a song for the genius child.
Sing it softly, for the song is wild.
Sing it softly as ever you can –
Lest the song get out of hand.

Nobody loves a genius child.

Can you love an eagle,
Tame or wild?
Can you love an eagle,
Wild or tame?
Can you love a monster
Of frightening name?

Nobody loves a genius child.

Kill him – and let his soul run wild.

 

CRIANÇA GÊNIO

Esta é uma canção para a criança gênio.
Cantá-la em voz macia, a música é selvagem.
Cante suavemente quanto puder –
Para que a música saia da mão.

Ninguém ama uma criança gênio.

 Você pode amar uma águia,
Domesticada ou selvagem?
Você pode amar uma águia,
Selvagem ou domesticada?
Você pode amar um monstro
de nome assustador?

Ninguém ama uma criança gênio.

Mate-a – e deixe correr sua alma selvagem.

§ 

 

THE NEGRO SPEAKS OF RIVERS

I’ve known rivers:
I’ve known rivers ancient as the world and older than the
      flow of human blood in human veins.

My soul has grown deep like the rivers.

I bathed in the Euphrates when dawns were young.
I built my hut near the Congo and it lulled me to sleep.
I looked upon the Nile and raised the pyramids above it.
I heard the singing of the Mississippi when Abe Lincoln
      went down to New Orleans, and I’ve seen its muddy
      bosom turn all golden in the sunset.

I’ve known rivers:
Ancient, dusky rivers.

My soul has grown deep like the rivers.

 

O NEGRO FALA DOS RIOS

Soube de rios:
Soube de antigos rios qual o mundo e tão velhos quanto o
        fluxo de sangue humano em veias humanas.

 Minha alma tornou-se profunda como os rios.

 Eu banhei no Eufrathes quando as auroras eram jovens.
Eu construí minha mansarda próxima ao Congo e seu murmúrio me fez dormir.
Eu vi além do Nilo e ergui pirâmides sobre este.
Eu ouvi a cantoria do Mississipi quando Abe Lincoln
      desceu à Nova Orleans e eu vi este leito
      lamacento dourar-se no crepúsculo.

 Soube de rios:
Anciãos, crepusculares.

Minha alma tornou-se profunda como os rios.

§


THEME FOR ENGLISH B

The instructor said,

      Go home and writ
a page tonight.
    And let that page come out of you—
    Then, it will be true.

I wonder if it’s that simple?
I am twenty-two, colored, born in Winston-Salem.
I went to school there, then Durham, then here
to this college on the hill above Harlem.
I am the only colored student in my class.
The steps from the hill lead down into Harlem,
through a park, then I cross St. Nicholas,
Eighth Avenue, Seventh, and I come to the Y,
the Harlem Branch Y, where I take the elevator
up to my room, sit down, and write this page:

It’s not easy to know what is true for you or me
at twenty-two, my age. But I guess I’m what
I feel and see and hear, Harlem, I hear you.
hear you, hear me—we two—you, me, talk on this page.
(I hear New York, too.) Me—who?

Well, I like to eat, sleep, drink, and be in love.
I like to work, read, learn, and understand life.
I like a pipe for a Christmas present,
or records—Bessie, bop, or Bach.
I guess being colored doesn’t make me not like
the same things other folks like who are other races.
So will my page be colored that I write?
Being me, it will not be white.
But it will be
a part of you, instructor.
You are white—
yet a part of me, as I am a part of you.
That’s American.
Sometimes perhaps you don’t want to be a part of me.
Nor do I often want to be a part of you.
But we are, that’s true!
As I learn from you,
I guess you learn from me—
although you’re older—and white—
and somewhat more free.

This is my page for English B.

 

PÁGINA PARA O TESTE DE INGLÊS

 O instrutor disse,

      Vá para casa e escreva uma página esta noite.
E deixe esta página sair de você –
Então, esta será verdade.

Eu me pergunto se isto é tão simples?
Eu tenho vinte e dois, sou negro, nascido em Winston-Salem.
Eu fui para escola, depois Durhan,
então aqui neste colégio, no morro sobre o Harlem.
Eu sou o único estudante de cor em minha sala.
Os passos da colina levam até o Harlem,
através do parque, então eu corto o St. Nicholas
Oitava Avenida, Sétima, e venho para o Y, o Harlem Branch Y
Onde eu pego o elevador para minha sala
sento-me e escrevo esta página:

 Não é fácil saber o que é verdade para mim ou você,
aos vinte e dois, a minha idade.
Mas eu acho que eu sou o que eu sinto e vejo e ouço,
Harlem, eu ouço você:
ouvi-lo, ouvi-me – nós dois – você, eu, falar nesta página.
(Eu ouço New York, também.) Eu-quem?

Bem, eu gosto de comer, dormir, beber e amar.
Eu gosto de trabalhar, ler, aprender e entender a vida.
Eu gosto de um cachimbo de presente de Natal,
ou discos – Bessie, Bop ou Bach.
Eu acho que ser (negro) não me faz não gostar
das mesmas coisas que os outros povos de outras raças.

Então vai ser negra minha página que escrevo?
Ser-me, não será branco.
Mas vai ser uma parte de você, instrutor.
Você é branco – ainda uma parte de mim, como eu sou uma parte de você.
Isso é americano.
Às vezes, talvez você não queira ser uma parte de mim.
Nem eu, muitas vezes quero ser uma parte de você.
Mas nós somos, isso é verdade!
Como eu aprendo com você, eu acho que você aprende comigo – embora você está mais velho – e branco – e um pouco mais livre.

 Esta é a minha página de Inglês B. 

§

 

MY PEOPLE

 The night is beautiful,
So the faces of my people.

The stars are beautiful,
So the eyes of my people.

Beautiful, also, is the sun.
Beautiful, also, are the souls of my people.

 

MEU POVO

 A noite está linda,
Assim, os rostos do meu povo.

As estrelas são belas,
Assim, os olhos do meu povo.

Lindo, também, é o sol.
Lindas, também, são as almas do meu povo.

 §

 

A New Song

I speak in the name of the black millions
Awakening to action.
Let all others keep silent a moment.
I have this word to bring,
This thing to say,
This song to sing:

Bitter was the day
When I bowed my back
Beneath the slaver’s whip.

That day is past.

Bitter was the day
When I saw my children unschooled,
My young men without a voice in the world,
My women taken as the body-toys
Of a thieving people.

That day is past.

Bitter was the day, I say,
When the lyncher’s rope
Hung about my neck,
And the fire scorched my feet,
And the oppressors had no pity,
And only in the sorrow songs
Relief was found.

That day is past.

I know full well now
Only my own hands,
Dark as the earth,
Can make my earth-dark body free.
O, thieves, exploiters, killers,
No longer shall you say
With arrogant eyes and scornful lips:
“You are my servant,
Black man—
I, the free!”

That day is past—

For now,
In many mouths—
Dark mouths where red tongues burn
And white teeth gleam—
New words are formed,
Bitter
With the past
But sweet
With the dream.
Tense,
Unyielding,
Strong and sure,
They sweep the earth—

Revolt! Arise!

The Black
And White World
Shall be one!
The Worker’s World!

The past is done!

A new dream flames.

 

UMA NOVA CANÇÃO

 Falo em nome dos milhões de negros
Despertando para a ação.
Deixe que todos os outros fiquem em silêncio um momento
Eu tenho essa palavra para trazer,
Esta coisa a dizer,
Esta canção a cantar:

Amargo foi o dia
Quando curvei minhas costas
Sob o chicote do traficante de escravos.

Esse dia é passado.

Amargo foi o dia
Quando eu vi os meus filhos sem escola,
Meus jovens homens sem uma voz no mundo,
Minhas mulheres tomadas o corpo – como brinquedos
De povos ladrões.

Esse dia é passado.

Amargo foi o dia, eu digo,
Quando a corda do carrasco
Pendurada em meu pescoço,
E o fogo chamuscou meus pés,
E os opressores não tiveram compaixão,
E só nas canções de tristeza
Socorro foi encontrado.

Esse dia é passado.

Eu sei muito bem agora
Apenas as minhas mãos,
Escuras quanto a terra,
Podem fazer a minha terra-escura corpo livre.
Ladrões, exploradores, assassinos,
Já não dirás
Com os olhos arrogantes e desdenhosos lábios:

“Tu és o meu servo,
Homem Negro –
Eu, o livre! “

Esse dia é passado –

Por enquanto,
Em muitas bocas –
Bocas escuras onde línguas vermelhas queimam
E dentes brancos gelam –
Novas palavras são formadas,
Amargo
Como passado
Mas doce
Como sonho.
Tenso,
Inflexível,
Com violenta certeza,
Eles varrem a Terra –

Revolta! Levanta-te!

 O Negro
E o Mundo Branco
Deve ser um!
Mundo dos Trabalhadores!

O passado é feito!

 Uma nova chama de sonho
Contra o
Sol!

§

 

GOOD MORNING REVOLUTION

Good morning, Revolution
       You’re the very best friend
       I ever had.
We gonna pal around together from now on.
Say, listen, Revolution:
You know, the boss where I used to work,
The guy that gimme the air to cut down expenses,
He wrote a long letter to the papers about you:
Said you was a trouble maker, a alien-enemy,
In other words a son-of-a-bitch.
He called up the police
And told ‘em to watch out for a guy
Named Revolution.

You see,
The boss knows you’re my friend.
He sees us hangin’ out together.
He knows we’re hungry, and ragged,
And ain’t got a damn thing in this world–
And are gonna do something about it.

The boss’s got all he needs, certainly,
        Eats swell,
        Owns a lotta houses,
        Goes vacationin’,
        Breaks strikes,
        Runs politics, bribes police,
        Pays off congress,
        And struts all over the earth–

But me, I ain’t never had enough to eat.
Me, I ain’t never been warm in winter.
Me, I ain’t never known security–
All my life, been livin’ hand to mouth,
        Hand to mouth.

Listen, Revolution,
         We’re buddies, see–
         Together,
         We can take everything:
         Factories, arsenals, houses, ships,
         Railroads, forests, fields, orchards,
         Bus lines, telegraphs, radios,
         (Jesus! Raise hell with radios!)
         Steel mills, coal mines, oil wells, gas,
         All the tools of production,
         (Great day in the morning!)
         Everything–
         And turn ‘em over to the people who work.
         Rule and run ‘em for us people who work.

Boy! Them radios–
Broadcasting that very first morning to USSR:
Another member the International Soviet’s done come
Greetings to the Socialist Soviet Republics
Hey you rising workers everywhere greetings–
         And we’ll sign it: Germany
         Sign it: China
         Sign it: Africa
         Sign it: Poland
         Sign it: Italy
         Sign it: America
         Sign it with my one name: Worker
On that day when no one will be hungry, cold, oppressed,
Anywhere in the world again.

That’s our job!

I been starvin’ too long,
Ain’t you?

Let’s go, Revolution!

 

BOM DIA, REVOLUÇÃO

 Bom dia Revolução:
           Você é a melhor amiga
            Que já tive.
Nós vamos, camarada, por aí juntos de agora em diante.
Ei, ouça, Revolução:
Você sabe, o chefe para quem eu costumava trabalhar,
O cara que me deu um ar para reduzir despesas
Ele escreveu uma longa carta para os jornais sobre você:
Disse que você era uma encrenqueira, uma inimiga-estrangeira,
Em outras palavras, um filho-da-puta.
Ele ligou para a polícia
E disse a eles para vigiarem uma camarada
Chamada Revolução.

Você vê,
O chefe sabe que você é minha amiga
Ele nos vê sair juntos
Ele sabe que nós somos famintos e clandestinos,
E que não temos droga nenhuma neste mundo –
E que vamos fazer alguma coisa sobre isto.

O chefe tem tudo o que ele precisa, com certeza,
     Come até inchar,
     É dono de muitas casas,
     Sai de férias,
     Fura greves
     Trata de política, suborna a polícia
     Compra o Congresso,
     E bota banca em todo o mundo –

 Mas eu, eu nunca tive o bastante para comer
Eu, eu nunca estive aquecido no inverno.
Eu, eu nunca conheci segurança –
Toda a minha vida, vivi com uma mão na frente
             E a outra atrás[2].

 Ouça, Revolução,
Somo companheiros, vê –
Juntos
Nós podemos tomar tudo:
Fábricas, arsenais, casas, navios,
Ferrovias, florestas, campos, pomares,
Linhas de ônibus, telégrafos, rádios,
(Meu deus! Levantar o inferno com rádios!)
Siderúrgicas, minas de carvão, poços de petróleo, gás
Todas as ferramentas de produção.
(Grande dia na manhã)
Todas as coisas –
E transformá-las para as pessoas que trabalham,
Tomá-las e fazê-las funcionar para nós, as pessoas que trabalham.

Camarada! Os rádios!
Transmitindo aquela primeira manhã para URSS:
Outro membro da Internacional acabou de chegar
Saudações para as Repúblicas Socialistas Soviéticas
Ei, vocês, trabalhadores levantando-se por toda parte, saudações –
E nós vamos cantar: Cabula
Cantar: Maré
Cantar: África
Cantar: Ceilândia
Cantar: ZL
Cantar: América
Assinar com meu único nome: Trabalhador.
Neste dia ninguém vai sentir fome, frio, opressão
Em parte alguma do mundo de novo.

Este é nosso trabalho!

 Eu estava morrendo de fome há muito tempo,
Você não?

Vamos, Revolução!

 §

 Olinda,
Fevereiro de 2018.

[1] d’après Ibn Arabi, qui affirme qu’il s’agit d’un fait vèridique, un de ses amis, qui était un derviche Abdal, fut hissé jusqu’aux cieux par les esprits, atteignit le mont Kaf qui encercle l’univers, et constata que cette montagne était elle même encerclée par un serpent. On sait aujourd’hui qu’il n’y a pas de montaigne que encreclerait l’univers, pas plus qu’un serpent qui encerclerait une telle Montaigne. (Encyclopéde I’ Islam) Retirada do livro de Ohmar Pamuk, Le Livre Noir. Tradução minha.

[2] Versão brasileira da expressão: “livin’ hand to mouth/Hand to mouth”.

***

Camillo César Alvarenga é poeta, tradutor e crítico, nascido em São Félix, no Recôncavo da Bahia, em 1988. Autor do livro de poemas Scombros (Edufrb, 2012) e organizador da antologia de poetas baianos Canoas do Paraguaçu (Edufrb, 2012), publicou o poemário OFILTRO (Coleção Oju Aiyê, Portuário Atelier Editorial, 2013) , e recebeu o Prêmio Maximiano Campos de Literatura (Instituto Maximiano Campos) na categoria Micro-Contos (2013).  Em 2018, as plaquetes Macumbe-se e Animítico, uma antologia são editadas pela Editora Kz1, e para a mesma editora o autor prepara uma tradução do livro Islands (1969), de Kamau Brathwaite. Traduziu Langston Hughes, Octavio Paz e Nicolás Guillén, entre outros. Vive em Olinda-Pe.

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