poesia, tradução

Laura Wittner (1967-), por Rafael Mantovani

laura wittner

Foto: Dino Bronfman.

Laura Wittner nasceu em Buenos Aires em 1967. É formada em Letras pela Universidade de Buenos Aires. Hoje coordena oficinas de poesia e tradução, e trabalha como tradutora literária para diversas editoras. Publicou sete livros de poesia e três antologias entre 1996 e 2016, e sua obra reunida foi publicada recentemente: Lugares donde una no está (Buenos Aires, Gog y Magog, 2017). Também participou de várias publicações e antologias na América Latina, Espanha, França e Inglaterra. Além disso, é autora de seis livros infantis, e já traduziu autores como Leonard Cohen, David Markson, Anne Tyler, entre muitos outros. Recebeu uma série de prêmios, bolsas e menções honrosas em concursos e projetos argentinos e hispanoamericanos. Escreve no blog http://www.selodicononlofaccio.blogspot.com.ar . Apresentamos aqui quatro poemas seus traduzidos por Rafael Mantovani, os dois primeiros da antologia Noche con posibilidades (Montevidéu, Civiles iletrados, 2011), e os outros dois inéditos.

* * *

 

Outra cidade

Quando levanto os olhos vejo neve,
neve que vem brilhando da televisão.
Como sempre, cintilam no mapa
os lugares onde não se está.
Certamente sentiria falta do mercado de flores
e de acordar neste oitavo andar
que se abre desafiando o vento.
A verdade é que só houve um dia de neve
e que há uma possível segunda versão
para as coisas conhecidas.
As malas estão feitas desde sempre
e além disso estão no sofá
em posição de espera.
Esse momento dura, se mantém,
é uma maneira de estar:
estar prestes a ser abandonado.
O poço preto das malas feitas,
reverso do desembarque:
o desejo humano pelo incompleto
que se reflete, dizem,
na predileção pelo pequeno,
o breve, o fragmento.

Otra ciudad

Cuando levanto la vista veo nieve,
nieve refulgiendo desde el televisor.
Como siempre, titilan sobre el mapa
los lugares donde una no está.
Seguro extrañaría el mercado de flores
y despertar en este piso octavo
que se abre desafiando al viento.
La verdad es que hubo un solo día de nieve
y que hay una posible segunda versión
para las cosas conocidas.
Las valijas están hechas desde siempre
y además están sobre el sofá
en posición de espera.
Ese momento dura, se sostiene,
es una manera de estar:
estar a punto de ser abandonado.
El pozo negro de las valijas hechas
reverso del desembarco:
el deseo humano por lo incompleto
que se refleja, dicen,
en la predilección por lo pequeño,
lo breve, el fragmento.

§

 

Um olhar de adeus do trem em movimento

Um olhar de adeus do trem em movimento
gostaria de ser um olhar especial
e é como todos, este lugar que ocupamos
agora, vazio de nós,
inicia o movimento de retrocesso
de recolher-se na memória
para ao mesmo tempo incomodar
dando o sinal de que
continuará existindo,
outros habitantes o percorrerão
como alguém que amamos
e a paisagem irá se modificando,
a lembrança então cada vez mais inexata
não por desgaste
mas sim porque o original vai mudar.
A última coisa que você verá
será também a primeira que verá
quando voltar
(you are leaving Las Pirquitas we are already missing you).
Por outro lado sempre moramos nesta cidade
e quando um domingo passamos perto de barcos encalhados
e pontes cor de ferrugem,
e ao descer do carro vemos que o rio
é uma coisa preta, espessa,
destilando bolhas entre manchas claras
como massas de saliva em expansão
(“formou-se sobre a água uma capa anaeróbica
onde criaturas impensáveis
desenvolvem-se e existem sem oxigênio”)
então não existe pena pelo lugar distante
nem gestos significativos no último olhar
seria inútil se não há limites
para entrar ou sair.

Una mirada de adiós desde el tren en marcha

Una mirada de adiós desde el tren en marcha
querría ser una mirada especial
y es como todas, este lugar que ocupamos
ahora, vacío de nosotros,
inicia el movimiento de retroceso
de replegarse en la memoria
para al mismo tiempo molestar
dando la señal de que
seguirá existiendo,
otros habitantes lo recorrerán
como a alguien que quisimos
y el paisaje se irá modificando,
el recuerdo entonces cada vez más inexacto
no por desgaste
sino porque el original va a cambiar.
Lo último que veas
será también lo primero que veas
cuando regreses
(you are leaving Las Pirquitas we are already missing you).
Por otra parte siempre hemos vivido en esta ciudad
y cuando un domingo pasamos junto a barcos varados
y puentes color óxido,
y al bajar del auto vemos que el río
es algo negro, espeso,
destilando burbujas entre manchas claras
como salivazos en expansión
(“se ha formado sobre el agua una capa anaeróbica
donde criaturas impensables
se desarrollan y existen sin oxígeno”)
entonces no hay pena por el lugar lejano
ni gestos significativos en la última mirada
sería inútil si no hay límites
para entrar o salir.

§

 

Viramos na Libertador

Minha filha diz que o jacarandá
parece uma árvore de outro mundo.
Que essa bruma violeta
não pode estar no mesmo plano que a gente.
Sempre quis ter
uma conversa assim:
calhou de ser justo
com esta menina.

Doblamos por Libertador

Mi hija dice que el jacarandá
le parece un árbol de otro mundo.
Que esa bruma violeta
no puede estar en nuestro mismo plano.
Siempre quise tener
una conversación así:
se me viene a dar justo
con esta nena.

§

 

Voltei a ter um limão na mão

Voltei a ter um limão na mão.
É algo tão perfeito de agarrar.
Eu sabia disto? Lembrava?
Vejam a minha mão: vira uma concha espontânea
e nela não resta nada que não seja
limão: o fresco, o rugoso, o peso,
o perfume terrível, a acidez.
Não há distância entre a mão e o limão.
Significam a mesma coisa por um instante.

Volví a tener un limón en la mano

Volví a tener un limón en la mano.
Es algo tan perfecto de agarrar.
¿Esto yo lo sabía? ¿Me acordaba?
Miren mi mano: se ahueca espontánea
y no queda nada en ella que no sea
limón: lo fresco, lo rugoso, el peso,
el perfume terrible, la acidez.
No hay distancia entre la mano y el limón.
Significan lo mismo por un rato.

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