poesia

Rodrigo Gonçalves (1981-)

 

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Foto de Gabriela Leão.

Rodrigo Tadeu Gonçalves (Jaú, 1981) é professor de Língua e Literatura Latina na Universidade Federal do Paraná, além de tradutor e ensaísta. Atualmente ocupa também o cargo diretor da Editora UFPR. Publicou em 2015 o livro Performative Plautus: Sophistics, Metatherater and Translation e organizou a obra A Comédia e seus duplos: o Anfitrião de Plauto, publicada em 2017, pela Koetter Editorial. Com Guilherme Gontijo Flores e Rafael Dabul, publicou em 2017 o livro Algo infiel: corpo performance tradução (Cultura e Barbárie/n-1). É membro fundador do grupo de performace tradutória Pecora Loca. Ainda é inédito em livro.

 

sergio maciel

* * *

 

tem algo na vazante do orifício que se adumbra no penoso fímbrio calcutado no …..penhasco
tem algo que se encera no tonante perfurar do céu intenso azul polar
tem algo na linguagem do penhasco militar que enfrenta vasos do vermelho que …..ancestral
tem algo intenso austero no verbera-se entroncado no orifício
tem algo de cheirar que adentra a venta suprimindo ocaso velho pirilampo magiar
tem algo solta fosco no bolero enternecido fugaz tem
algo que se esconde nos escombros seculares do recurso alveolar
tem algo que se encrava no orifício pendular que solta farpas nas vidraças
……………tem
algo que atropela a deus dará e ao fim e ao cabo isenta tem algo
tem algo que de algo se faz alto no entrementes do vagar no mundo auspício
estranho algo tem algo tem muito tem mais que algo que soçobra
tem algo na circunferência dessa terra que se encontra ao circundar tem
algo nesse drama que anuncia que algo tem algo não

tem algo

§

 

verme

respirando devagar dissolve o sopro
rareia o ar que insopra alento morno
no corpo que imediato vaza o quente e se enrijece
esfria e ganha a cor que só cadáver tem
nasce um algodão na boca e em outros orifícios
na espera longa pela tampa de madeira enquanto lágrimas
são insuficientes pra hidratar a pele
já mumificada em ocre-cinza
a tampa fecha, cai a caixa
buraco torna-se só terra
daquilo que envolvia os algodões começa a brotar verme
que tateia rasteja se enfia no vão da pálpebra
o eterizado asséptico vira chorume
o toque do recém-nascido verme torna tudo
de volta ao pó que veio, terra, húmus
o verme então é responsável pela decomposição
dos átomos compostos com tamanho empenho
reorganizando-se de volta ao universo
a terra permanece, recebe novo aporte
de matéria-prima

 

§

 

axioma

tal qual paroxismo, hipóstase,
anátema, zeugma, apócope,
hipoclorito
osteogênese imperfeita
……tanatofórica
golpe, glande, corpo cavernoso,
é palavra que ninguém entende
nem quer ter que usar boca língua dente pra falar.

mas que lá na fonte é fonte de autoritarismo
e ortodoxia,
e a ortopraxia ocidental
nos ensina que não se pode questionar sentido
sob pena de incorrer em
petição de princípio

metástase, gangrena
então amém e aleluia
rosana nas alturas
proceleusmática
jônica maior
como uma deusa.

§

 

unha

serve pra rachar e se enroscar em fios que de outra forma jamais existiriam
que vêm a ser para esta única finalidade
pra cair no futebol ou na primeira maratona ou no cuidadosamente
localizado chute involuntário em pé de cama
serve pra escavar as cavidades
apaziguando momentaneamente comichões
serve pra crescer depois que os movimentos
involuntários cessam
deixando inexplicado o acordo de cooperação entre orgânico e inorgânico
do qual parece ser partícipe também a coma, vasta ou rala
serve pra arrancar com alicate em caso de tortura
sendo este o caso em que se exemplifica, no perfazer das partes que a compõem
o supracitado cessar dos movimentos involuntários.

 

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