poesia, tradução

Poesia nórdica| Henrik Nordbrandt, por Luciano Dutra

Henrik Nordbrandt (n. 21 de março de 1945 em Frederiksberg) é um poeta dinamarquês que viveu a maior parte da sua vida adulta em países do Mediterrâneo (Turquia, Grécia e Itália), sendo as temáticas dessa região (p.ex. cidades, paisagens e clima) presença marcante na sua poesia. Apesar de ser um poeta ateu bastante crítico do que apostrofa de ”a falta de sentido das religiões”, entende que elas são fonte de ensinamentos relevantes para o cotidiano das gentes. Recebeu em 1980 o grand prix da Academia Dinamarquesa pelo conjunto da sua obra poética e, no ano 2000, o prêmio de literatura do Conselho Nórdico por seu livro Drømmebroer (”Pontes de sonhos”). Além desses e outros importantes prêmios, Henrik Nordbrandt conta também com o amplo reconhecimento do público leitor, sendo um dos poetas mais queridos da Dinamarca, país que de resto trata a poesia como artigo da maior importância. É também tradutor de poesia turca para o dinamarquês.

Luciano Dutra (n. 6 de novembro de 1973 em Viamão/RS) é bacharel em língua e literatura islandesa (2007) e mestrando em estudos de tradução pela Universidade da Islândia. Além de literatura islandesa e nórdica contemporânea, traduz as sagas, obras únicas de prosa de ficção compiladas na Idade Média por autores anônimos da Islândia. Em 2014, fundou em Reykjavík a Sagarana forlag, editora multilíngue especializada na publicação de literatura em tradução entre as línguas nórdicas e o português. Mantém desde 2016 a página Um Poema Nórdico ao Dia (http://www.facebook.com/nordrsudr), que traz diariamente poemas de autores de todos os países nórdicos, a maioria deles até agora inéditos em português, sempre em tradução direta dos idiomas originais.

* * *

FIGO

Como um figo violeta escuro e maduro demais
que se abriu e revelou
seu âmago carmim com as sementes luzidias e besuntadas
e seca gozosamente debaixo do sol do meio dia
jazes comigo no escuro

FIGEN

Som en sortviolet og overmoden figen
der har åbnet sig og blottet
sit lyserøde indre med den glinsende, fedtede frø
og tørrer nydende ind i middagssolen
ligger du hos mig i mørket

§

DESEJO TE POSSUIR

Desejo te possuir, hás de ser minha.
Teu corpo, tua alma
os segredos mais profujndos
serão minha propriedade.
Não possuirás um fio de cabelo
nem um dente
nem recanto escuro algum
na tua mente
que não me pertença.

Senão, de que maneira
eu poderia te vender
por pilhas de prata e ouro
pedras precisas
e todos os produtos de luxo imagináveis?
Ou quem sabe?
Talvez por uma mera taça de vinho
uma noite com uma puta
um punhado de miçangas coloridas
ou uma faca ordinária
com cabo de corda.

Senão, como eu saberia
o significado de te perder?
Com qual medida
mensurar a tua ausência?

Hei de te perder de qualquer forma.
Perco-te um pouquinho a cada dia.
Nos mercados do Oriente
hei de adquirir um estoque de coisas
pelas quais eu poderia te vender
coisinhas
que hão de me fazer lembrar dos sininhos invisíveis
que os teus movimentos o tempo todo
fazem soar no quarto
e o serpenteio frenético de sedas
naquele ponto
onde o teu pescoço encontra os teus ombros.

E se um dia repentinamente
por acaso viesse a te encontrar
tudo isso eu te daria.

JEG VIL EJE DIG

Jeg vil eje dig, du skal være min.
Din krop, din sjæls
dybeste hemmeligheder
skal være min ejendom.
Du skal ikke have et hår
ikke en tand
ikke en eneste mørk krog
i dine tanker
som ikke tilhører mig.

Hvordan skal jeg ellers
kunne sælge dig
for dynger af sølv og guld
kostbare stene
og alle mulige luxusvarer?
Eller hvem ved?
Måske blot for et glas vin
en nat med en luder
en håndfuld kulørte glasperler
eller en tarvelig kniv
med håndtag af sejlgarn.

Hvordan skal jeg ellers få at vide
hvad tabet af dig betyder?
Med hvad
måle dit fravær?

Miste dig skal jeg alligevel.
Hver dag mister jeg dig lidt.
På Orientens markeder
vil jeg opkøbe sådanne ting
som jeg kunne have solgt dig for
små ting
der vil minde mig om de usynlige bjælder
dine bevægelser hele tiden
får til at ringe i rummet
og en vældig strøm af silke
som det sted
hvor din hals møder dine skuldre.

Og hvis jeg pludselig en dag
tilfældigt skulle møde dig
ville jeg forære dig det hele.

§

O NOSSO AMOR É COMO BIZÂNCIO

O nosso amor é como Bizâncio
deve ter sido
em sua última noite. Deve ter sido,
imagino,
um claridade nos rostos
das pessoas que se aglomeravam nas ruas
ou se reuniam em pequenos grupos
nas esquinas e nas praças
conversando baixinho
isso devia lembrar
da claridade que há no teu rosto
quando tiras os cabelos da frente dele
e me olhas.

Imagino que as pessoas não devem
ter falado muito e apenas de
coisas desimportantes,
que tentavam conversar
mas paravam
sem conseguir dizer o que gostariam
e tentavam outra vez
e desistiam outra vez
e se entreolhavam
e baixavam o olhar.

Por exemplo os ícones antiquíssimos
possuem em si essa claridade
como o clarão de uma cidade em chamas
ou a claridade da morte iminente
que permanece nas fotografias de mortos precoces
nas recordações dos que ficam.

Quando me viro para ti
na cama tenho a sensação
de estar adentrando numa igreja
consumida pelo fogo
há muito tempo
na qual apenas a escuridão nos olhos dos ícones
restou
prenhe das chamas que os destruiu.

VORES KÆRLIGHED ER SOM BYZANTIUM

Vores kærlighed er som Byzantium
må have været
den sidste aften. Der må have været
forestiller jeg mig
et skær over ansigterne
på dem der flokkedes i gaderne
eller stod i små grupper
på gadehjørner og torve
og talte lavmælt sammen
der må have mindet
om det skær dit ansigt har
når du stryger håret tilbage fra det
og ser på mig.

Jeg forestiller mig de ikke har talt
ret meget, og om ret
ligegyldige ting,
at de har forsøgt at tale
og er gået i stå
uden at have fået sagt hvad de ville
og har forsøgt igen
og opgivet det igen
og set på hinanden
og slået øjnene ned.

Meget gamle ikoner f.eks.
har det skær over sig
som ildskæret fra en brændende by
eller det skær kommende død
efterlader på fotografier af tidligt døde
i de efterladtes erindring.

Når jeg vender mig mod dig
i sengen, har jeg en følelse
af at træde ind i en kirke
der er blevet brændt ned
for længe siden
og hvor kun mørket i ikonernes øjne
er blevet tilbage
fulde af de flammer, der udslettede dem.

§

UMA VIDA

Riscaste um fósforo e a chama dele te cegou
e assim não conseguiste achar o que buscavas no escuro
antes de o palito arder entre teus dedos
e a dor te fazer esquecer o que buscavas.

ET LIV

Du strøg en tændstik, og dens flamme blændede dig
så du ikke kunne finde, hvad du søgte i mørket
før den brændte ud mellem fingrene på dig
og smerten fik dig til at glemme, hvad det var.

§

É TÃO IMPORTANTE

é tão importante
de que forma te dizer que

o jeito que tens
de ajeitar o cabelo

quando profundamente
concentrada numa sarda

te refletes certa noite
numa janela que dá para o oeste

é quase tão
bonito quanto a própria primavera

DET ER SÅ VIGTIGT

det er så vigtigt
hvordan man siger til dig at

den måde du har
at rette på håret på

når du dybt
koncentreret om en fregne

en aften spejler
dig i et vestvendt vindu

er næsten lige
så smuk som selve foråret.

§

AGORAFILIA

Tu és o meu amor e o meu desespero.
És a minha loucura e a minha compreensão.
E és também todos os lugares onde nunca estive

e que me conclamam de todos os cantos do mundo.
Tu és esses seis versos
aos quais me restrinjo para não gritar.

AGORAPHILIA

Du er min kærlighed og min fortvivlelse.
Du er mit vanvid og mit indsigt.
Og du er alle stederne, hvor jeg ikke har været

og som kalder på mig fra alle verdenshjørner.
Du er disse seks linier
som jeg må begrense mig til for ikke at skrige.

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