poesia

Marcos Nascimento (1986-)

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Marcos Nascimento nasceu numa terça-feira do dia 3 de junho do ano de 1986. Vive nos subúrbios do Rio de Janeiro. Realizou atividades de oficinas literárias junto ao coletivo Oficina Experimental de Poesia. Os poemas aqui apresentados são integrantes do seu primeiro livro, O filho estrangeiro, que será publicado no primeiro semestre de 2018 pela editora Multifoco e com ilustrações do artista gráfico Felipe Nunes. No momento traduz poetas punks que viveram em Nova York entre fins dos anos 70 e início de 80.

* * *

 

Exílio circular

três meses sem ver tua cara
ando paranoico uma metade na rua e a outra
no canto do quarto
o apartamento cresceu de tamanho, agora a sala tem 40 metros e dois pés de altura
flutuo entre um cômodo busco caminhos
nas barricadas que fiz no corredor
se ela visse como o banheiro está – teria um troço ou nadaríamos até as paredes ruírem
caindo no outro lado do lado que teima não abrir

três meses e sonho com dentes no lóbulo
faço arabescos na parede do meu estômago, ele inda assim não para de doer
sabe que minha caligrafia é ruim para escrever em linha reta
perdoa se escrevo teu nome
torto em um coração de bic vermelha
mas se não fosse desse jeito eu não te abrigaria com esse rude afeto

o frio que anda sentindo nessas estradas me cobre todas as noites
beber teu perfume não foi uma boa ideia
me abdiquei da carne, mas ando mordendo tuas fotografias
tocar-te a distância
o sol é indiferente às coisas que ilumina
: rastejar …….suaviza a serpente …………..uma pele para trás esquece ………….outro deserto :
não cai uma gota de chuva desde que você levou minhas nuvens em sua bolsa peruana
a brisa sopra o que sou, fecho as janelas e os vidros batem a fim de serem quebrados
guardo um dos cacos pra ver em mim a tua imagem
vozes ao longe
: não estou
cada estrela tem a duração do querosene.

§

 

Pongo en tus manos abiertas…

para Víctor Jara
“his hands were gentle, his hands were strong”

acho tuas mãos de terra e sedimentos
enterradas (obtusas e
ósseas) em um palmo de deserto
onde os brutos corroeram tua boca até calarem teu ferrão
resgato a mão esquerda – ainda conserva as unhas
penduradas a fio leve junto à carne
mordiscada algumas vezes – deixada para trás
por uma família de vermes
bichos desses que servem para comer herois
sobras do jantar de domingo antes do futebol

colho a mão direita de dentro de um fundo buraco
em estado decomposto, teus dedos
já nada possuem de tua vida – não poderiam dedilhar nenhum instrumento
que não seja seu próprio tendão exposto –
a canção de teu desaparecimento enquanto homem
em sonho ouviremos
de tua boca nostalgias e rancheiras:
Víctor teus filhos procuram teu paradeiro e eu só tenho
tuas mãos para redimi-los
dez dedos que não podem escrever poemas – dez
dedos que não podem acariciar o rosto de quem amas – dez
dedos na brancura do osso – dez
dedos e a escuridão do corte que separa a comunicação entre tato e corpo –
dez dedos que já não podem com o mundo

“essa noite lá pelas bandas de San Ignacio – um homem foi visto andando à procura de duas mãos que lhe foram arrancadas há quarenta anos.”

terá um indivíduo assim mutilado o direito
de voltar depois de morto?
um viés de vingança e soldo, revogar o que lhe foi tirado
vivo Víctor você estará ou estarei eu com as mãos de outro?
Víctor sem mãos para pedir aos céus
sem mãos para apertar o pescoço – de quem –
mas por baixo da camada morte – tua retidão –
tuas mãos agora inúteis ainda fariam miséria
a qualquer tocador de viola ¬
quem poderá desfazer tuas notas – diapasão inquebrantável –
outrora poderíamos cantar em coro o que só a capela fará
em teu isolamento – figura etérea das noites chilenas –
mesmo que teu fantasma andarilho por aí se perca
a ninguém assombra antes ilumina.

§

 

Estrada do Engenho

Eu fui criado no colo de um preto velho
E suas pernas me embalavam ora
Na harmonia de um acalanto
Ora no cavalgar de mar bravo
Seu sorriso me guardava sob os ombros
Por vezes eu me agarrava em seu pescoço
E olhava seus dentes brancos me servindo de patuá

E assim eu ia
Me escorando em seus braços pensava montes distantes
E voltávamos à África flutuando em seus olhos perdidos
Descobrimos a América no rumorejar do seu canto
Antes que eu aprendesse a falar, ele me ensinou a linguagem dos mitos
Sem abrir um único livro que não fosse seu peito
Nunca faltaram capítulos em suas palavras

E não me lembro de seu nome
Me recordo de como costumava chamá-lo,
Vô, o vô preto dum moleque branco
Com ele fui aos tumbeiros e visitei areias da Bahia
E quando o sol cansava de nos iluminar
Minha mãe chamava lá da porta
– Vô, dá ele aqui! Num deixe ele te incomodar!
– Deixa ele comigo, tá quietinho aqui…
Só ele mais eu sabia
Pensamento é sonho
E gente também

Eu fui criado no colo de um preto velho
E agora que todo passado é pó e ruína
A memória sofre ao voltar
Sinto que protegendo minhas costas ele foi meu orixá
E eu, o seu cavalo
Mas era ele que me levava para ver as coisas do mundo
E esse banzo faz a palavra doer
-Me deixa aqui vô, eu fico quietinho
Eu canto pra ele ouvir.

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