poesia, tradução

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antonio ruiz, the dream of malinche

‘El sueño de la Malinche’, Antonio Ruíz

uma leitura possível
e repetidamente lida.
como toda leitura,
uma tradução.
traiçoeira?

no méxico e países vizinhos a expressão “¡la malinche!” é equivalente àquela latina: “traduttore, traditore”; a sabida história da tradução que serve de ponte entre dois ou mais grupos culturais e linguísticos, e a figura que traduz pode ou deve ser tida como inimiga e traidora de uma das partes – um conceito clássico da confusão da mensagem com o mensageiro. eis la malinche, princesa asteca: a traidora que ao traduzir y etcéteras passou para o lado espanhol, sendo conhecida como a princesa de hernán cortés, com quem teve um filho – casado este, passou-a para um seu oficial, don juan xamarillo, com quem casou e também teve filhos.

como toda leitura que é uma tradução, abrem-se outras possibilidades tantas de uma visão do paraíso. antes de mim, depois de Rosário Castellanos, escreveu Tzvetan Todorov em A Conquista da América: a questão do outro (com tradução de Beatriz Perrone Moisés):

“A Malinche glorifica a mistura em detrimento da pureza (asteca ou espanhola) e o papel de intermediário. Ela não se submete simplesmente ao outro […], adota a ideologia do outro e a utiliza para compreender melhor sua própria cultura, o que é comprovado pela eficácia de seu comportamento […].”

são tantos documentos, tratados, mitos
e histórias e livros e canções e enfins
esta dona é toda dona do meu coração.

como não amar essa mulher? como não traí-la em sua tradução?
como não amar rosário castellanos que desconstrói seu mito e me entrega somente ela y sua outra: mulher?

sim, quanto a mim, rasuro… 

Grace Barraza-Vega, malinche

‘Malinche’, Grace Barraza-Vega

… em lugar de apresentação

uma mulher bela e inteligente sempre é traiçoeira
dona nina ouço a saber que de dona só um corpo hoje
doña marina não ontem como se dona de um mundo

desmiolado das gentias gentes que não resistem – olha!
selvagens cãezinhos com os rabos entre as pernas –
como se entre a cruz e a espada fosse

foice é mulher do paraíso às ruínas deu ao branco
deu deu tão cortês deu até os nossos deuses – puta puta
mãe de bastardinho ‘inda cabra dum don juan!

eis a mulher toda mulher como se péssima mãe
seus filhos seu homem seu dono seus pares seus ímpares
traíra nahuatl suas duas mil línguas joga o povo à rua

pocahontas
iracema
eva

escuto seus batimentos sua pulsação sua lágrima
na lâmina e digo não sabem desgraçados
mais vil é sim o beijo que a espada quando machado

mulher – te beijo te lambo te línguo até que seja
malintzin – entre parole e la langue, ¡la malinche!
a tradução que te desenterra

nina rizzi

*

la-malinche-mural-diego-rivera

‘Malinche’, Diego Rivera


MALINCHE

Desde el sillón del mando mi madre dijo: “Ha muerto”.

Y se dejó caer, como abatida,

en los brazos del otro, usurpador, padrastro
que la sostuvo no con el respeto
que el siervo da a la majestad de reina
sino con ese abajamiento mutuo
en que se humillan ambos, los amantes, los cómplices.

Desde la Plaza de los Intercambios
mi madre anunció: “Ha muerto”.

La balanza
se sostuvo un instante sin moverse
y el grano de cacao quedó quieto en el arca
y el sol permanecía en la mitad del cielo
como aguardando un signo
que fue, cuando partió como una flecha,
el ay agudo de las plañideras.

“Se deshojó la flor de muchos pétalos,
se evaporó el perfume,
se consumió la llama de la antorcha.

Una niña regresa, escarbando, al lugar
en el que la partera depositó su ombligo.

Regresa al Sitio de los que Vivieron.

Reconoce a su padre asesinado,
ay, ay, ay, con veneno, con puñal,
con trampa ante sus pies, con lazo de horca.

Se toman de la mano y caminan, caminan
perdiéndose en la niebla.”

Tal era el llanto y las lamentaciones
sobre algún cuerpo anónimo; un cadáver
que no era el mío porque yo, vendida
a mercaderes, iba como esclava,
como nadie, al destierro.

Arrojada, expulsada
del reino, del palacio y de la entraña tibia
de la que me dio a luz en tálamo legítimo
y que me aborreció porque yo era su igual
en figura y rango
y se contempló en mí y odió su imagen
y destrozó el espejo contra el suelo.

Yo avanzo hacia el destino entre cadenas
y dejo atrás lo que todavía escucho:
los fúnebres rumores con los que se me entierra.

Y la voz de mi madre con lágrimas ¡con lágrimas!
que decreta mi muerte.

– Rosário Castellanos (para ouvir esta poema na voz da autora clique aqui!)

 

MALINCHE

Do seu trono de mando minha mãe disse: “Morreu”.

E se deixou cair, como abatida,

nos braços do outro, usurpador, padrasto
que a sustentou não com o respeito
que o servo dá à majestade da rainha
mas com esse rebaixamento mútuo
em que se humilham ambos, os amantes, os cúmplices.

Da Praça dos Intercâmbios
minha mãe anunciou: “Morreu”.

A balança
se sustentou um instante sem se mover
e o grão de cacau caiu quieto na arca
e o sol permanecia na metade do céu
como aguardando um signo
que foi, quando partiu como uma flecha,
o ai agudo das carpideiras.

“Desfolhou-se a flor de muitas pétalas,
evaporou-se o perfume,
consumiu-se a chama da tocha.

Uma menina regressa, cavando, ao lugar
em que a parteira enterrou seu umbigo.

Regressa ao Lugar dos que Viveram.

Reconhece seu pai assassinado,
ai, ai, ai, com veneno, com punhal,
com armadilha em seus pés, com laço de forca.

Dão as mãos e caminham, caminham
perdendo-se na névoa.”

Tal era o pranto e as lamentações
sobre algum corpo anônimo; um cadáver
que não era o meu porque eu, vendida
a mercadores, ia como escrava,
como ninguém, ao desterro.

Jogada, expulsa
do reino, do palácio e da entranha morna
da que me deu a luz em leito conjugal legitimo
e que me abominou porque eu era sua igual
em figura e posição
e se contemplou em mim e odiou sua imagem
e destruiu o espelho contra o chão.

Eu avanço até o destino entre correntes
e deixo para trás o que ainda escuto:
os fúnebres rumores com que me enterram.

E a voz da minha mãe com lágrimas, com lágrimas!
que decreta minha morte.

– tradução de nina rizzi

*

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