poesia

Guilherme Conde Moura

Guilherme Conde Moura tem 22 anos, é cariocapixaba e colecionador de bonecas. É pesquisador e multiartista, escreve sobre literatura, artes, esportes e histórias em quadrinho. Publicou Caderno de Segunda Mãe (coletivo garupa, 2015) e mas passo esta matéria perigosa (la bodeguita, 2016). Os poemas aqui selecionados integram seu novo livro de poemas, ainda por vir.
* * *

apoiar-se nos palitos
de dente
,
ao se ver o noticiário,
e lembrar dos
pequenos mutilados
porque
pode ser que um dia
infelizmente

§

explore seu momento

a cidade cresce entre
duas camadas de pele (o mais
profundo)
e abriga mais
coisas do que
imagina                        nossa vã cirurgia

então,
Horácio,
fique a                          espreita
porque até nas entrelinhas
a
história passa
e arrasta

§

bilhetes da viagem à China

[一 ]

quando derramaram
nanquim sobre
o Yangtze

ensinaram a melhor
forma de segurar
a própria cabeça
para não perceber
ela
indo embora

uma baioneta, uma bala
não se sabe onde está
o fio

[二 ]

numa faixa
de pedestres
distraído é
possível morrer,
………….não é questão de
fatalismo, é só de
força
de tempo
e de gesto

diante do verde ou vermelho,
esticar-se e exclamar
:
ah, a paz celestial

§

Elis/zabeth espera
(com algumas coisas de Adília Lopes com algumas coisas de Anne Sexton)

Elis/zabeth espera, já com as digitais gastas
de mercúrio, os pés para dentro,
os braços abraçando um acordeon

sentada em um banco na
cinelândia
ouvindo o quase-canto
de pombos, Elis/zabeth espera
que o pequod surja pela
rio branco

Elis/zabeth espera o
seguro desemprego, um
espaço no caixão, depois
de ter tirado do forno
tantas cabeças
e nunca hesitaria
– se precisasse – em
tirar mais uma

Elis/zabeth espera
o dia de ler Barthes
de descobrir que o dedo
da masturbação é
qualquer um
desde que não o dela

com o dia
entre os olhos, a maçã
meio comida,
Elis/zabeth espera
descobrir que no vôlei
moderno
……………o saque é
uma poderosa arma
porque não pode ser barrado
pela muralha
do bloqueio

a água
e sua
pele

em um
processo natural de
erosão
Elis/zabeth
espera a poeirenta
revelação de
seus cortes de
castrato

o sino da
bicicleta,
um quase-
revoar
de
pombos, o
termômetro e Elis/
zabeth
espera
pela medida
fatal
de viver
em paz

§

agora já não te perco; inevitável cinema

não é impossível
se masturbar
sem ter braços
nem escrever
mas a carta
ainda foi enviada pela metade,
contava a história
de uma professora que lhe
disse de um antigo aluno
que morreu
simplesmente por se barbear
se barbear demais, talvez

fechou o casaco
sentada de frente para o
rio lamacento, onde uma carcaça de
cão boiava
tranquila
a outra, segunda, na ponta dos pés
traçando um arco no ar

[plano detalhe;
a carcaça do cão morto
boiando
]

“podemos tudo”
“podemos algo?”
“me salva”
“não”

a lâmina
o sangue, a carta
pela metade

“eu queria saber” soltou o corpo do ar, as
solas dos pés descalços bateram na terra, largou
os braços “por que o garoto morreu”
“porque se barbeou demais” afundou mais
dentro do casaco
“mas e o cão, por que morreu?”
“alguém matou”
“me salva”

[close-up
na primeira;
o nariz avermelhado de frio]

“e se eu lhe arrancasse os braços?”
“doeria”
“então, posso lhe furar os olhos?”
“você pode tudo, podemos tudo, já disse” voltou a se erguer na
ponta dos dedos

usou a mão esquerda para
tapar o sol, proteger
os olhos
“o cão já sumiu”
“ele não sumiu, ainda está no rio,
só não mais aqui”
“o rio não vai para lugar nenhum”

[corte]

a mão da primeira a
percorrer o rosto da segunda
as respirações
se misturavam em fumaça e frio
abriu com a ponta dos dedos
o olho direito
olhou fundo na pupila, viu seu reflexo, com o casaco
totalmente fechado
“me salva”
“sim”
passou a lâmina de barbear pelo olho gelatinoso que escorreu em uma mistura
de branco e vermelho, pela bochecha

ela sorriu
foi até o olho esquerdo
abriu também, delicadamente
com as pontas dos dedos,
se aproximou encostando a língua
na matéria gelatinosa,
sentiu fome, uma fome de cão

[corte;
a nuca da segunda que está virada para o rio]

“o que vês?”
“a segunda metade da carta”
“nós podemos tudo”
“sim, podemos tudo”

§

Os Sertões; fronteiras

sob
esta cabana de Zinco
(é ferrugem)
tão pequena, menor que teu quarto, que a roda
tanto amedronta,
atrás de uma vitrine, uma
história mal-contada,
construiu uma ponte
que caiu
mas na persistência
de quem sempre coloca pedra sobre pedra
e atira pau contra bala
construiu outra
que ainda está lá, pode ser que caia, talvez Euclides
da Cunha fosse um péssimo engenheiro
mas para além disso
aqui, que é tão
mais frio que o Sertão,
que é também algum Sertão,
em algum lugar de São Paulo a Minas,
onde se pode perder alguma guerra,
abriu-se tempo com sede pura
deu a ver do homem a terra a luta
ou qualquer coisa que se chame
mundo

§

ghost in the shell

esboços do rosto tropical. Mistério,
a argentina se calava no
canto da sala, com
agulhas entre os dentes
e uma concentração digna
de tempos sem volta

era a época das conversas
sobre Artaud
de outras leituras de Hamlet
de um dia fino
confundido entre sábado e
sexta-feira
quando anjos
abriam as linhas do céu anunciando a volta
de todos
mal-entendidos

o ônibus precisava terminar
a viagem; a fronteira
do teu braço

as garotas da escola
esticadas sobre a mureta,
a tensão dos
joelhos, uma
fenda daquela
fome

tão quentes são
as noites em Santos, enquanto
soam os passos

§

Tel-Aviv

a sala de
una história de Ulises
Lima, el risinho amolado
no rincón da luz
do velho abajour belga

“tem certeza que só
…………há um caderno possível?”

os dois ojos que
desenham um arco em
uno cielo cromado

nuestro destaque sci-fi
a última lição de casa
:
Diderot, tão inocentes os carneiros

imagine
as roupas no varal

§

Rembrandt, Pollock

são as
tuas camadas
…………………….o percurso de qualquer retrato invisível

essa sala repleta de
coisas, a mínima esperança de
que haja um fundo,

teu mundo,
horizonte borrado de verde &
roxo, a morte em pleno
verão,
…….um blefe

é tinta que escorre pelo teu pulso, de uma mordida – talvez de leão –
e
desenha essa cidade

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2 comentários sobre “Guilherme Conde Moura

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