poesia

Heleno Godoy (1946-), por Matheus Mavericco

Heleno Godoy no Festival

“Heleno Godoy é um dos maiores poetas goianos”. Oh, sim, claro. Como se possuíssemos pelo menos uma dezena. Em Goiás a maior parte do que já se publicou não era livro e sim esterco quadriculado. Se reconheço a excelência da obra, que sentido faz nivelá-la por baixo? Louvarmos a literatura de nossa região só funciona se no fundo, lá no fundo estamos com os dedos cruzados, sonhando com prováveis grandes escritores que ainda estão por nascer. Na prática, quando mencionamos autores de nossa predileção, aprisioná-los a qualquer tipo de grade geográfica é sempre um modo implícito de menosprezo.

Heleno Godoy estreou na poesia em 1968 com o livro Os veículos, de forte influência práxis. Caso o leitor não se recorde, a poesia práxis é aquela vanguarda que você vislumbra de passagem nos 45 do segundo tempo das aulas de literatura do ensino médio. Seu professor provavelmente o explicou como uma vanguarda de forte preocupação social que polemizou com os concretistas e que (os olhos do professor lacrimejam) manteve o verso. Que lindo. Até pareço um youtuber. Mas que tal irmos além? Sucintamente, a poesia práxis ensinava dois passos de dança: no primeiro o poeta analisava a realidade e visava apreender as estruturas por trás dos fenômenos sociais, por exemplo a vida no campo, nas grandes fábricas ou a porqueira dos três poderes. Depois ele pegava o relatório de dados e, com base nos instrumentos verbais que viessem a calhar, como que reproduzia, recriava ou, se quisermos ser até mais enfáticos e precisos, produzia e criava uma estrutura estética análoga àquela da realidade e que, aspecto importantíssimo, fizesse com que o leitor, até então indefeso, provavelmente acomodado ou quem sabe alienado, encarasse o texto e, como que por tabela, tivesse um vislumbre da estrutura social destrinchada pelo poeta.

O Heleno aprendeu a lição de casa. Quando travou contato com os preceitos praxistas, ele era um jovenzinho na casa dos seus 17 anos. Fazia parte de uma congregação chamada Grupo de Escritores Novos, o GEN. O propósito era o de discutir e promover literatura no estado, coisa que, verdade seja dita, fizeram e fizeram bem. Que tenham formado nomes como Miguel Jorge, Yêda Schmaltz ou o próprio Heleno, destaques na literatura goiana, é apenas o ápice, afinal de contas o grupo, quando de vento em popa, chegava a contar com dezenas de pessoas em suas reuniões.

Todavia, o leitor deve entender que a preocupação de ordem estrutural e analítica da poesia práxis não se traduziu em adoção monástica e monótona por parte do poeta goiano. Pelo contrário. Quando digo que aprendeu a lição de casa, quero dizer que incorporou o que havia pra ser incorporado da vanguarda e (coisa que os próprios vanguardistas costumam fazer já no ano seguinte) manteve a pesquisa estética em dia praticando “novas artes, novo engenho”. Ou seja: a relação do Heleno com a poesia práxis é a relação de qualquer poeta inteligente com qualquer coisa. Pressupõe uma cabeça nutrida e estofada com o que de melhor a tradição literária oferece.

Você percebe isso se pôr reparo na tendência de nítido viés construtivista da poesia do Heleno, ou seja, uma poesia de pendor cerebrino e analítico que executa muito mais a música com ideias a que se referia Ricardo Reis do que os arroubos sentimentais de boa parte dos contemporâneos de Heleno (poesia parece que estagnada no pântano liricoide da pior safra da geração de 45); você percebe esse nítido viés na poesia do Heleno se condimentar não só poesia práxis no caldeirão mas se for mais longe e adicionar a figura de João Cabral, de Afonso Félix de Sousa em seus melhores momentos (penso em especial no Íntima parábola), de Mallarmé, Horácio e tantos mais.

É por isso que mesmo quando Heleno trabalha o rico manancial dos sentimentos, ele o faz sempre de forma pensada, levando a cabo o que foi dito pelo Fernando Pessoa ortônimo a certa altura do célebre poema da pobre ceifeira: “O que em mim sente ‘stá pensando”. Assim, no 46 de Sob a pele (2005), por exemplo, o leitor verá o modo como o trabalho a respeito do tema da saudade, de forte eminência lírica, não é feito à maneira inocente e deslumbrada de um Casimiro de Abreu strikes again. Pelo contrário. A estrutura anafórica de cada estrofe e o talhe paralelístico que estabelecem entre si nos remete de imediato a procedimentos recorrentes na poesia práxis – mas não só.

Penso que a poesia do Heleno integra uma tradição poética peculiar que concebe menos o poema ou o verso isolado do que o efeito estético do conjunto, no que podemos ligá-lo às cantigas trovadorescas, aos painéis históricos no corpo das epopeias (o exemplo literal é o do início do Canto VIII de Os Lusíadas), às sequências parnasianas (em especial o Bilac de Tarde), ao melhor do alto modernismo e da geração de 45 (Jorge de Lima, o romanceiro de Cecília, Afonso Félix), às séries cabralinas, a experimentos de vanguarda (não só os praxistas mas também os de Affonso Ávila e Haroldo de Campos) ou, no caso da poesia contemporânea, a recortes generosos de Paulo Henriques Britto, Wladimir Saldanha e Érico Nogueira, bem como, em Goiás, ao Pio Vargas de Anatomia do gesto no final da década de 80 ou Miguel Jubé entre os mais novos. O resultado só podia ser ótimo: o saudosismo esperado quando falamos de poemas assim é invertido na própria medula, fazendo com que o recorte dos versos, se nas duas primeiras estrofes sugere que algo de fato resta de maneira deslocada e incômoda (é o caso das palavras “amargo”, “mágoa” e “praga” na primeira estrofe, ocupando, cada qual, o espaço solitário de um único verso), já na última mostra a reversão do quadro com a inclusão enfática de um “não” em seu começo, pronto pra fazer com que o poema, uma composição em anel, se reinicie.

Muito mais poderia ser dito. Escrever poesia em Goiás é difícil. Num estado que durante a maior parte de sua história revelou um silêncio incômodo em suas letras, onde até mesmo poesia ruim era difícil de encontrar, não espanta que mesmo um poeta de excelência sofra dificuldades em transcender a masmorra do planalto central. E quando o faz, parece que nem isso é o suficiente se não tivermos uma conjunção de esforços críticos, acadêmicos e editoriais em prol da obra poética. Ou por acaso bastou que em 2006 um leitor do calibre de Luiz Costa Lima escrevesse uma ótima resenha elogiosa na Folha de São Paulo a seu respeito (clique aqui)?

Hoje o momento é mais propício. A vinda de Inventário, contendo a poesia completa do autor acrescida de fortuna crítica, denota um admirável empenho. Publicado pela editora goiana martelo e com organização da professora Solange Fiuza, o leitor interessado fará bem investindo parte do seu ordenado adquirindo a obra, que, se querem saber, sai a preço módico especialmente se considerarmos o fato de ser obra poética completa: o esforço de uma vida.

 

Heleno Godoy, nascido em Goiatuba, Goiás (1946), é, desde 1991, professor titular de Literatura Inglesa do Departamento de Línguas e Literaturas Estrangeiras, da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Goiás. É também professor Adjunto de Teoria da Literatura e Literaturas de Língua Portuguesa no Departamento de Letras da Universidade Católica de Goiás, desde 1976. É autor de Os veículos (Práxis, 1968), As lesmas (Agepel, 2002), O ser da linguagem (UFG), A ordem da inscrição (UFG), Identidades prováveis, representações possíveis (2005) e Lugar comum e outros poemas (Kelps, UCG, 2005), entre outros. Em 2015, lançou Inventário: poesia reunida, inéditos e dispersos [1963-2015] (Martelo Casa Editorial), com organização de Solange Fiuza Cardoso Yokozawa, que reúne em 660 páginas toda sua produção.

 

Matheus Mavericco

* * *

 

No limite da hera, esse esplendor
das horas rente ao muro,
a casa se esverdeia – o traço
de um outro estado: sequência.

No limite do vaso, esse furto
do jardim junto à porta,
a casa se enfeita – o trato
de um outro espaço: premência.

No limite da mesa, esse fausto
da horta junto ao prato,
a casa se alimenta – retraio
de um outro espanto: falência.

No limite da cama, esse encanto
do corpo junto ao corpo,
a casa se experimenta – contrato
de um outro assalto: carência.

(de A Casa, 1992)

§

 

46.

ficou daquele tempo este sabor
amargo,
ficou daquele tempo uma certa
mágoa,
ficou daquele tempo uma aguda
praga

uma reclamação contra forças
contrárias,
uma vontade de vingança contra
repreensões,
uma frustração por conta de muitas
proibições

não ficou sequer o desejo da volta
no tempo,
uma angústia pelos anos já cumpridos
nesta masmorra
com que as saudades nos levam
ao esquecimento

(de Sob a Pele, 2007)

§

 

15

Se o amor é forma, então este edifício
foi feito de mármore, talhando condições
de sobrevivência e enfrentamento duro
de qualquer processo de corrosão ou um

outro qualquer que venham a inventar
e a usar contra, destruir o construído,
inventar nomes, acusar desafetos, cair
na tentação fácil das eficácias questio-

náveis ou das perguntas de respostas ob-
vias sobre as relações do dia com a noite
possível e dos encontros clandestinos
ou não, consentidos ou conseguidos

através de expedientes dúbios, como
um vaso de flor cheirosa, um buquê
de cravos caros e luxuosos, uma flor
mais rara ainda, como violeta escura

e refratária, difícil em sua obscura casa
de verdes folhas propositadamente
repletas. Se é assim este edifício, então
pode-se ver nele uma construção mais

frágil, embora mais duradoura, como
um pé depois de outro, a mensuração
o espaço dividido e, às vezes, também
compartilhado. Se o amor é uma forma.

(de A ordem da inscrição, 2005)

§

 

18

É preciso dizer a elas o que elas
significaram. Pessoas são dizíveis,
pois crédulas, e escutam e creem,
quando ouvem, claro, e se veem.

É preciso dizer-lhes de seu barro
em volta, não do estofo de que são
feitos os ditos sobre sua origem.
Essa lama de dentro é só crença.

É preciso dar atenção ao lado lodo
de fora, essa vidraça em mica, uma
aparência fosca de vidro falsamente
medo proposto, propósito amplo

de afiadas espadas postas em uso
quando se diz isso e aquilo e mais
se adiciona, por se querer mais, co-
ação silente e móvel, penetrante.

Vem daí uma dor que é preciso
fazer doer de novo e repetir
propositadamente. As pessoas
são cegas à própria voz ouvida,

são refratárias ao mesmo vento que
as desabriga, sonham com o que é
pesado e duro e, também, sempre,
imponderável, um sol responsável.

(de A ordem da inscrição, 2005)

§

 

O Espelho

Diante de um espelho não se põe
um sujeito, mas uma linguagem.

Nele não se articula um rosto,
mas uma fala comprometida.

O espelho não é, pois, inocente,
reflete o abismo de uma ousadia,

o jogo narcísico de uma mentira,
a ânsia de uma farsa, o medo

de uma falha, o fio branco de um
engodo recente ou centenário,

e o medo, na própria articulação
de suas angústias irresolvidas.

(de Trímeros, 1998)

§

 

Deve haver uma razão para tudo isso:
o porquê de existir esta porta e a janela
abrir para o oeste, esta. Aquela outra,
ao leste, abre seus lados libertos, des-

trancados, e deixa que um sol morno
entre pela manhã, apagando o mofo que
se estende pela parede inconsequente.
Deve haver uma outra razão para isso.

Deve haver uma razão para essa fumaça
branca à tarde, que se dispersa e não
se ajunta, mas incomoda e irrita, claro.
O porquê de haver um vidro de compota

intocado, não para ser comido, mas para
ser deixado lá, sobre a mesa, como um
enfeite, uma chamada, um aviso, medida
de conveniência, paciente presença cuja

razão escapa a quem se indaga sobre…
Mas, se existe razão, por que escapa ela
ao entendimento de quem vive na casa e
nem se pergunta sobre tais fatos? Falha

a percepção que têm da casa: uma ou duas
janelas, uma porta fechada ou aberta, um
sol matutino, aquele vidro abandonado,
como outras coisas entre as paredes da casa.

(de A Casa, 1992)

§

 

Fazer a sesta na tarde quente da casa
vazia, como uma televisão ligada à-toa,
a luz a ser acesa mais tarde, na noite
que nem será menos quente, menos vazia.

Fazer esse repouso, sono interrompido
vez ou outra por barulhos do mundo lá fora,
ônibus, carro, apito, martelada, como uma
volta ao quarto, em si mesmo, uterinamente.

Interior e antes, pois, este sossego quente,
pensante, proposto por um lado só, sem
idade certa, esta que lutasse por algo em
que acreditasse: sonho obscuro, olho rubro.

Um martelo ou chave de fenda largada lá,
sobre uma mesa a um canto: assim fica a
casa em seu abandono de tarde quente, sol
sangrando, paisagem aguda, o fim do dia.

Canto dormente, sofá sonolento e embalado,
perdidas as paixões no corpo adormecido,
embora a hora falhe, o talhe afie, fique
amargo o gosto no lábio, o coração pulsa.

(de A Casa, 1992)

§

 

nos espaços de teu corpo
teu nome em todas as pedras
no espanto de teus traços
teu nome em todas as horas
e meu estar incontável
entre pedras por todas as horas

nos pontos de teu corpo
teu fato em todas as tendas
na marca de teus braços
teu fato em todos os lados
e meu estar incontável
entre tendas por todos os lados

nas amarras de teu medo
teu contra em todas as feras
no vazio de teus laços
teu contra em todos os cantos
e o meu estar incontável
entre feras por todos os cantos

nos confins de tua fuga
teu normal em todas as vagas
no desejo de tua volta
teu normal em todos os dias
e meu estar incontável
entre vagas por todos os dias

(de Fábula Fingida, 1985)

§

 

quem me cala, não consente
e posso ser eu mesmo, descontente
a sonegar, em meu canto
o sentido e a presença

quem me acha, tão contente
e passa a ser eu mesmo, consequente
a inventar, em seu canto
a forma e a anuência

quem me conta? só sequente
e poço a ser eu findo, minudente
a ir de encontro ao canto
o invento e a sequência

quem me encanta? nem vidente
e espaço em mim mesmo, intermitente
a incluir, em seu canto
a soma e a aparência

(de Fábula Fingida, 1985)

§

 

que pedras rolaram de teu rochedo
que chuva caiu sobre teus campos
que ondas bateram em tua praia
que vento soprou sobre tuas cercas
que vagas irromperam em teu abismo
que fogo queimou em tuas relvas

eu rolei como pedra e não me amparaste
eu caí como chuva e não me absorveste
eu bati como onda e não espraiaste
eu soprei como vento e não me protegeste
eu irrompi como vaga e não me evitaste
eu queimei como fogo e não me apagaste

(de Fábula Fingida, 1985)

§

 

Requiem / AEternam lEternal Rest / Repos Éternel / Ewige Ruhe
Requerer Eterno / Eterno Resto / Repouso Eterno / Erguida Rua

Nota: A seguir, “uma longa “tetra-tradução” do texto da missa de defuntos, tal como utilizada por Giuseppe Verdi em sua monumental Messa da Requiem, composta em homenagem a Alessandro Manzoni e apresentada pela primeira vez na igreja de San Marco, em Milão, no dia 22 de maio de 1874. Heleno Godoy partiu do texto da missa em latim, inglês, francês e alemão, para chegar a um texto em português pela mais rigorosa “transcriação”.

 

1.

Requerer eternamente.
Recusar, naturalmente.
Reclamar constantemente.
Erguer, regularmente,
um recurso eterno:
garantir ao que resta,
ó donas e ó senhores
de todos os domínios,
repouso eterno, luz
perpetuada sobre ele.

Nós loucos, senhores,
dizemos ao deus logro
de Sião tão longe, dece-
pados hinos, homen-
agem paga a tíbio redentor.

Elevando a voz exaurida,
em oração, meio de omis-
são a ser pago, quem escuta
nosso pedido racional
e vê nossa flecha?

Deste ônibus caro vem
a fúria bifronte, corrente
que vem de ti e come
o que te omite, a grama
e o eterno resto
e o luminoso brilho.

Aqui, garantindo a regra
e o domingo, ó domínios,
a luz que chia e olhos jamais
deleite, luxo que esmorece, ao
pé de estranho, piedoso dito.

 

2.

Direis a ira do dia, da ilha deste
dia de jogo, tábuas da cólera,
zonas de um Zeus solvente
e consumido.

Séculos nas favas, dádiva
do anúncio sibilante, quando
lêem o teste, já tremendo/
temendo concha e arrocho.

Qual foi o efeito aparente,
em grãos de zimbro, quando,
julgando, vêm venturosos a um juiz?

Quanto tremor neste futuro,
uma concha que se come
para render/arrochar um estrito
arredio, esta flanela flâmula!

 

3.

A turba que mira ouve este trompete
escandindo seu som prodigioso,
pousado e lauto e de posse erguida.

Pôr sepulturas em regiões
acrósticas, graves de lendas,
tais as sepultas ervas,
em chás bebidas.
Com o ressurgir da criatura,
mancando os ares, toda
a criação se arrepende,
recavando a gleba.

Rendendo a conta concha,
judicando e respondendo
ao som juiz da fonte, e afronta
a criatura, a tuba mira e sopra.

 

4.

Livremente, a escritura busca
ser vizinha e ousa, na busca,
ser trazida a proferir, para quem
tudo contém, todo o conteúdo
dado ou entregue a quem anda
por mundos e sítios do mundo,
erguendo sedas e tomando as-
sentos. Donde as cercas sítios de
rios que cercam sedentos apelos,
cachos vendas, ao jugo do verbo
e vento, quem de lado aparece,
apela, ri do resto impuro, nuli­-
ficando o que remanesce e revém
inavegando, rastejando o nada
como súbita flama flâmula e falha.

 

5.

Aqui, a soma de um mísero
tão discurso. Qual chave,
que direito agora?

Miserável sagacidade protege
quem patrocina e roga eventos.

Justo o mais bravamente sábio
e garantido, ajustando as penas
e garantindo um vazamento justificado.

 

6.

Rei tremendo, resto que
lembra a justa majestade
de quem salva, voz sonante,
freio dinheiro grato, a fonte
do posto, pista da propriedade,
e é surdo ao pé da grande volta.

 

7.

Recordar ao pé do justo gentio
suavemente, doce malte erguido.

Qual a soma de tua causa e via,
a razão de tímido olho, por meu
rejeitar o passo de um jogo escalado?

Quaresma, me sediaste o lasso passo,
o que sepultou quem me esposava
ou suspendia, redimindo crustáceos
passos e tais muitos trabalhos em vão,
e vem aqui quem sofre, cruz pendente.

Tanto labor, em teu caso, ritualmente
julgando a vingança e a justa sentença,
ao gerenciar a regra e dar, fato remissão,
o prêmio do esquecimento, antes do dia
reconhecendo a rendição gerida/ querida.

 

8.

De joelhos e gemendo, em gemido tanto
quanto réu, grunhindo como símio acusado,
culpa roubada, guia rendido, pêssego regur-
gitado, esta face em chamas e em suplicante par-
ceria espargindo súplica, céu dela que implora.
Quantas Marias absorvidas, esperadas por sua
perda, vergadas e ladras exaltadas, vergastadas
à ladra fé. Meu preço, assim rendida a esperança,
vai por dívida, vai por menos flechas, prece
minha sem mérito, mas tua a misericórdia,
o bom feito e benigno brilho de fogo eterno ..
Bem, de baixo, e engolfando perenes crimes
ígneos, um lugar de larga esfera, estas ovelhas
localizadas no prado e separadas dos bodes por
entre britas, estátuas na parte destra estendidas
por reta mão entre bocas, estabelecidas como
à minha direita, uma tal dita seita e serventia ..

 

9.

Confrontando os mal ditos danados,
confundindo olho sombra, flamingos
que acirram os aflitas.

Flâmulas consignam-se flambantes,
verdadeiras e devoradoras beladonas.

A vaca que comeu com pressa
o apelo por entre selvas, um ouro
em súplica e bem debaixo da cura
quase cínica, entre cedros reduzida
e zunindo o fim desta verdade.

Gerando meu fim,
ajudando à última hora,
ardendo neste sinal,
queimando este final.

 

10.

Lacrimosa deusa da ilha, furos e toras,
jornadas de lamas, grades de traumas
regurgitando as favas das achas que
arriscam o homem e revivem sua cinza

Justo no mundo, o homem arrisca
a culpa de abater o jugo, este culpado
perdão lugar, aqui erguido em parte
dada e em doce repouso, gentil garantia.

 

11.

Oferto o domínio, jejum cristalizado,
o reino da glória que rói/rui o relicário
e anima o homem fidelidade, o que
entrega aos só fiéis a partilha das almas
de fidançados defuntos, estátuas nos
buracos. E pânico no hall de entrada,
um pênis infernal em profundo lugar,
como jaula de leão ou guelra de leão,
um rato louco absorvendo este tártaro
mar salgado e o engolfando candente
e obscuro. A sede significa santo milagre,
mais que santo nesta tênebra festa, uma
outra porta-estandarte sondando sua re­-
presentação. Luz santa conduzida e que
verá sua luminosidade leite, quando
o óleo prometido, dado à sede de jade
dos defuntos, galopará seminua e sólida
para a sua própria prole posteridade.

Hóstias e preces te louvam em árvore,
te afrontam com pregos, trazem ofertas
e láudano, sacrifícios e praias, luares
nimbos, selos súplicas, memórias fáceis
remendando o dia, ajuntando mais oito
memórias, alta demanda da morte que
domina e faz este passo de morte em
via de traurnatizar, transpirar e vitalizar
de novo, com veemência, o semi-
justo símile na própria prosperidade.

 

12.

Santo, santo, santo sábado este rolo/
dolo santo. Domínio a dar ao sábado
os lordes do grande halo dos armados/
amados do céus e que da terra são
repensados/ renhidos/plenos da glória
tua: um hosana às excelsas e beneditas
células, senhores, um hosana aos mais
altos céus em excelsos halos planaltos.

 

13.

Joelho que se deu e tolhe os pecados do mundo,
que toma do alheio os sinais do mundo, que
afasta os pêssegos do mundo. Dona, eis, pois,
reclamante e garantindo o resto, afastando pés-
segos de novo, dona reclamante e serpentina,
dê a eles um repouso eterno e merecidamente
trocando os pecados deste resto do nosso mundo.

 

14.

Luz eterna,
luxo aéreo
lixo etéreo.

A luz se fez mais eterna,
luxo se fez mais etéreo,
lixo se faz mais aéreo.

Domínios que são pios,
toda arte é boa. O carro
teu é misericordioso.

Seja digno, heliotrópio,
denso em teu gosto,
humilde em teu gasto.

Requisita de tua eterna
dona e da luz perpétua
que perpetuem a tua arte boa
e jamais o repouso misericordioso.

 

15.

Libertem-me, domínios, da morte eterna,
ou entreguem-me, na eterna sorte, à cela
etérea deste jogo terreno. Um dia na ilha
tremenda, tremendo no dia feio, quando
altos e baixos forem abrandados, hinos ao
ungido erguido, o céu movendo-se como
ao julgar o mundo pelo fogo a fazer furor.

Tremem os fatos que são egoístas, cinzelados
no medo e trementes, assim também santos
e crentes e tementes, recobrando a angústia
que os dissuade e venera, atendendo ao julga-
mento e à cólera, quando céu e terra serão
abrandados/igualados/irmanados/transformados.

Dias de ira, sim, ó deus da ilha, aquele dia de rato,
jogo da cólera, maldade e angústia, o grande
jogo de te amar/armar, jovem tábua das zonas
de calamidade e miséria. Quando virás julgar
o mundo pelo fogo que o consome, por
séculos ignorando este magno e amargo vale
excedendo em amargura e rico em tão furor?

Reclamo eterno, reclamar eternamente, ó dona
em seus domínios, e garantir a eles e dar-lhes re-
pouso eterno, perpétua luz que lhes brilhe sobre,
com luminosidade aeretérea, aos olhos nunca
em leite iluminados, luz chiada, brilho sobre este
domínio de luxo aéreo, lixo eterno e luz etérea.

(de Lugar-comum, 2005)

Padrão
poesia

Rodrigo Gonçalves (1981-)

 

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Foto de Gabriela Leão.

Rodrigo Tadeu Gonçalves (Jaú, 1981) é professor de Língua e Literatura Latina na Universidade Federal do Paraná, além de tradutor e ensaísta. Atualmente ocupa também o cargo diretor da Editora UFPR. Publicou em 2015 o livro Performative Plautus: Sophistics, Metatherater and Translation e organizou a obra A Comédia e seus duplos: o Anfitrião de Plauto, publicada em 2017, pela Koetter Editorial. Com Guilherme Gontijo Flores e Rafael Dabul, publicou em 2017 o livro Algo infiel: corpo performance tradução (Cultura e Barbárie/n-1). É membro fundador do grupo de performace tradutória Pecora Loca. Ainda é inédito em livro.

 

sergio maciel

* * *

 

tem algo na vazante do orifício que se adumbra no penoso fímbrio calcutado no …..penhasco
tem algo que se encera no tonante perfurar do céu intenso azul polar
tem algo na linguagem do penhasco militar que enfrenta vasos do vermelho que …..ancestral
tem algo intenso austero no verbera-se entroncado no orifício
tem algo de cheirar que adentra a venta suprimindo ocaso velho pirilampo magiar
tem algo solta fosco no bolero enternecido fugaz tem
algo que se esconde nos escombros seculares do recurso alveolar
tem algo que se encrava no orifício pendular que solta farpas nas vidraças
……………tem
algo que atropela a deus dará e ao fim e ao cabo isenta tem algo
tem algo que de algo se faz alto no entrementes do vagar no mundo auspício
estranho algo tem algo tem muito tem mais que algo que soçobra
tem algo na circunferência dessa terra que se encontra ao circundar tem
algo nesse drama que anuncia que algo tem algo não

tem algo

§

 

verme

respirando devagar dissolve o sopro
rareia o ar que insopra alento morno
no corpo que imediato vaza o quente e se enrijece
esfria e ganha a cor que só cadáver tem
nasce um algodão na boca e em outros orifícios
na espera longa pela tampa de madeira enquanto lágrimas
são insuficientes pra hidratar a pele
já mumificada em ocre-cinza
a tampa fecha, cai a caixa
buraco torna-se só terra
daquilo que envolvia os algodões começa a brotar verme
que tateia rasteja se enfia no vão da pálpebra
o eterizado asséptico vira chorume
o toque do recém-nascido verme torna tudo
de volta ao pó que veio, terra, húmus
o verme então é responsável pela decomposição
dos átomos compostos com tamanho empenho
reorganizando-se de volta ao universo
a terra permanece, recebe novo aporte
de matéria-prima

 

§

 

axioma

tal qual paroxismo, hipóstase,
anátema, zeugma, apócope,
hipoclorito
osteogênese imperfeita
……tanatofórica
golpe, glande, corpo cavernoso,
é palavra que ninguém entende
nem quer ter que usar boca língua dente pra falar.

mas que lá na fonte é fonte de autoritarismo
e ortodoxia,
e a ortopraxia ocidental
nos ensina que não se pode questionar sentido
sob pena de incorrer em
petição de princípio

metástase, gangrena
então amém e aleluia
rosana nas alturas
proceleusmática
jônica maior
como uma deusa.

§

 

unha

serve pra rachar e se enroscar em fios que de outra forma jamais existiriam
que vêm a ser para esta única finalidade
pra cair no futebol ou na primeira maratona ou no cuidadosamente
localizado chute involuntário em pé de cama
serve pra escavar as cavidades
apaziguando momentaneamente comichões
serve pra crescer depois que os movimentos
involuntários cessam
deixando inexplicado o acordo de cooperação entre orgânico e inorgânico
do qual parece ser partícipe também a coma, vasta ou rala
serve pra arrancar com alicate em caso de tortura
sendo este o caso em que se exemplifica, no perfazer das partes que a compõem
o supracitado cessar dos movimentos involuntários.

 

Padrão
poesia

2 poema inéditos de Rita Isadora Pessoa (1984-)

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Foto de Cobertura 05.

Rita Isadora Pessoa (1984-) nasceu no Rio de Janeiro, é graduada em Psicologia e não graduada em Estudos de Mídia. Estudou a poeta Sylvia Plath no mestrado em Teoria Psicanalítica (UFRJ) e é atualmente doutoranda em Literatura Comparada (UFF), onde estuda o duplo em sua modalidade animal. Trabalha como tradutora, revisora, astróloga e taróloga. Tem poemas publicados em revistas como Mallarmargens, Escamandro, Germina e nas antologias A nossos pés, (7letras), Alto-mar (7letras), A extração dos dias: poesia brasileira agora (Escamandro). Seu primeiro livro de poesia, a vida nos vulcões, foi lançado no final de agosto de 2016, pela Editora Oito e Meio. Seu segundo livro, mulher sob a influência de um algoritmo, venceu a terceira edição do Prêmio Cepe Nacional de Literatura e será publicado em 2018 pela Editora Cepe. Seu próximo livro, madame leviatã, encontra-se também no prelo.

* * *

 

“em caso de emergência estes demônios serão despejados nos jardins do palácio”

 

este é para os desavisados que
não atinam para a natureza incontidamente dupla do amor,
para os que acreditam na força centrípeta de algumas estrelas
ou creem ainda que isto se trata de um poema.
eu faço das suas palavras as minhas;
[com delicadeza atroz
faço dos seus gestos
……………..os meus]
isto é um aviso
a vocês, os incautos; este aqui é mesmo para vocês,
os angelicalmente
desavisados, os que não sabem o que os espera, os desacordados.
os que aguardam algum tipo de salvação, sob o signo de pisces,
em caso de emergência,
quebre o vidro.
mas não atravesse ainda os estilhaços.
atente para o que desperta ao lado, para o que acende
convoluto
quando o botão é finalmente acionado.

não atravesse ainda os estilhaços,
preste atenção ao ruído surdo,
ao que causa susto
ao pássaro,

à compressão de sua caixa torácica,
ao sopro que eventualmente há de se tornar
uma cardiopatia, um descompasso.

esse enegrecimento do céu
não é do tipo que se liquefaz
e isso não se vê todos os dias,
não é mesmo
eu vejo consolidar-se
como cal que assenta no chão após
a última demão de tinta
o princípio secreto de ruína
e ele não se vai.

se for o caso de emergência,
favor quebrar o vidro,

mas não atravesse
ainda
os estilhaços.

 

obs: em caso de eventos extraordinários, este poema deverá ser destruído.

 

§

 

madame leviatã

 

você sintoniza uma estação de rádio
……………………………sem dificuldade
nas próteses metálicas
dos seus dentes míticos
[você]
com seus inúmeros filhos
………………doados ao circo
atravessa um punhado de séculos
………………montada no lombo
…………….de um cavalo sem nome

[you see I’ve been through the desert
………………on a horse with no name]

………………………………testa os efeitos do galvanismo de hobbes
…………………………….num cadáver fresco
………………………você, a czarina da festa
com sua predileção por animais noturnos
………………………………..por choques elétricos
sempre uma pequena catástrofe express
…………………………….para chamar de sua
…………………………….é o que dizem: velhos hábitos — velho testamento

[…………………….in the desert
you can’t remember your name]

 

…………………….você se impacienta
com as elipses
com a interferência radiofônica
— a supremacia musical superestimada
…………………….da década de 70 —
e corrompe propositalmente
…………………….…………………….a letra

after nine days I let the horse run free
‘cause the desert had turned to sea

the ocean is the desert and the desert is the ocean
[a perfect disguise above]

você supervisiona diligente:
a sobrevivência das línguas mortas
a fabricação seriada de nebulosas
e também a nova edição unabridged do livro de jó
………………..a queda de sodoma & gomorra
a queda da casa de alguém chamado usher

— a visão da cordilheira devastada…… a comove
…………….por um breve momento
o cavalo o galope…… a música incessante dessa estação

………………………………………..e também o rebatimento da luz
……………………….numa outra superfície metálica

[after three days in the desert sun,
I was looking at a river bed
and the story it told of a river that flowed
and it is now dead]

…….aplaude secretamente
o colapso da beleza formal
……………..o objeto no breu
a permanência do deserto
e confirma
a consistência
do relacionamento lésbico
que venho cultivando
distraída
……….com essa jovem senhora
…………………..gótica
de óculos escuros & longas luvas
……………………….de veludo
……………….que
, parada diante de mim
, estende um cartão de visita
…………………..onde
sem elipses ou……. hurt feelings
lê-se:

 

[ codinome
morte ]

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crítica, xanto

XANTO | Antevéspera, noite interior: atravessar uma canção que me atravessa, por Gustavo Silveira Ribeiro

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I

O desejo talvez seja uma língua secreta. Escrito dentro de cada um numa espécie de criptografia particular, de difícil acesso, é às vezes quase impenetrável: código visceral, senha que se carrega imperceptível sob a pele, mas que impele o corpo para a frente, inquieta-o como uma pergunta sem resposta. Nem sempre se sabe o que se deseja, nem mesmo os motivos obscuros que levaram até ali, até a concreção precisa de um objeto. A beleza de um rosto, as sutilezas de uma pele delicada ou de um cheiro suave seriam razões suficientes para justificá-lo? Ou o riso fácil, agradável e projetivo, a inteligência, quem sabe?, seria capaz de motivar conversas de dez, doze horas seguidas, em assuntos que se encadeiam uns nos outros infinitamente, leves e como que naturais? Por outro lado: por que alguém desejaria tornar-se professor, esgrimista, arquiteto? É presumível que existam motivações claras, tangíveis, mas que certamente não esclarecem a vontade radical, vontade que se impõe e é paixão. Tantas vezes (é possível dizer) deseja-se, simplesmente. E isso é tudo: sem explicações ou narrativas de origem.

Se penso agora em todas essas coisas, é claro, é porque tenho os olhos e as ideias voltados para outro lugar. Não quero falar abstratamente, nunca quis. Penso naquilo (naquela) que desejo, muita coisa se mistura de repente e não se esclarece. Uma delas: há encantamento em mim pela ideia de um filho, pela paternidade, talvez até pelo mistério da gestação – uma vida que se faz em silêncio, secreta dentro do ventre, a partir das partes de dois corpos que são fundamentalmente estranhos um ao outro. De onde vem, por que em mim persiste? Inútil investigar, pois a sensação geral é maior do que o pensamento. O bem-estar em torno de crianças é perceptível, a mim e aos demais que me cercam. E isso, esse conjunto de experiências e questões possivelmente explica de modo parcial (sem desfazer a trama espessa dos afetos), o interesse profundo, a alegria e o fascínio que experimento ao ler o poema de Age de Carvalho (ainda inédito em livro) que se inicia com o verso “Segues a tua estrela”. Nele encontram-se a elegância característica do autor, a precisão vocabular e o refinamento das imagens que marcam a sua poesia; nele estão também colocados, de modo ora bastante cifrado, ora explícito e direto, os motivos da germinação e da fecundidade. Como no mito grego (e em tantas outras narrativas cosmogônicas), no poema o céu se relaciona com a origem da vida, numa espécie de reflexão, em escala cósmica, sobre a luta dos contrários (a guerra, a cópula, o mesmo amor) que está na base do surgimento de tudo o que há: terra, águas, corpos, estrelas.

No poema de Age, o céu se diz no feminino (apesar da marcação linguística de gênero, que permanece a mesma). E ele existe em toda parte: cobrindo a todos, suspenso no ar, leve como luz-balão, e habitando o interior noturno de uma mulher, espírito e carne. No texto, o corpo feminino é apresentado desde dentro, em focalização íntima: “teu ovário está lindo”. A partir dele, desse órgão (que ocupa uma espécie de centro simbólico do poema) vão se desdobrar e expandir motivos associados à criação e ao nascimento, em multiplicação de signos e símbolos: o corpo da mulher será, ao mesmo tempo, um todo-estrelado, poço subterrâneo – pleno de líquido vital –, caverna obscura (cripta), segredo e promessa, manjedoura tranquila e novelo que não termina de se desfiar, de abrir as suas possibilidades de crescimento e transformação. Seus interstícios naturais (do corpo de uma mulher) são pequenas fendas que permitem vislumbrar o mistério, que aqui não convida à decifração ou ao entendimento, mas à entrega, ao mergulho sem anteparos na escuridão e no que não se conhece – ainda que seja possível intuí-lo: como que contrariando o verso (tão conhecido, tão bonito, mas cujo sentido aponta para a morte) de Dylan Thomas “Do not go gentle into that good night”, o poema de Age de Carvalho apresenta a noite como palco privilegiado da criação, da maternidade e da escrita. Recusa-la é refutar a vida e o novo: daí o elogio (indireto) que faz ao olhar ultrassonográfico, à máquina que permite, quase sem luz alguma, ver – e dizer – a beleza dos ovários e dos folículos, “hipótese deposta” à porta do corpo; daí também o chamado à contemplação quase religiosa desses folículos, receptáculos do mundo e “estrelas subterrâneas”, isto é, imagens espelhadas do infinito, espécies de zonas indeterminadas nas quais tudo o que já existiu e tudo o que ainda pode vir a ser se mistura em amálgama, como potência que aponta, ao mesmo tempo, para o passado imemorial (a matéria estelar – gases, partículas, átomos elementares – que talvez nos constitua) e o futuro. Não será gratuitamente, portanto, que no repertório de imagens do poeta estejam mesclados o aparelho médico, índice do mundo tecnológico moderno, e a narrativa arcaica que circula em torno do céu e do feno, signos que remetem ao sagrado, à tradição do sublime (tão próxima do poeta) e ao próprio Cristo em sua cama improvisada de infante miserável.

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As oliveiras, de Leonilson. 1991.

II

As “quatro estrelas subterrâneas”, a imagem mostra, são na verdade apenas duas. Dois folículos novos, prontos, postos cada um de um lado do corpo – ambos prestes a expelir um óvulo. Mais uma vez, e depois de muitos anos de retenções e adiamentos, silêncio e negativas, o céu se repovoa: a “hipótese deposta” é agora mais do que isso: aposta que deve ser refeita, um novo lance de dados que pode conter um mundo. Encriptada, fechada sobre si, a vida que se promete está ali, como que pela metade. O olhar mecânico que ultrapassa a pele, o sangue, as camadas internas da carne e a espessura dos ossos, e que permite o “mergulho/ no subcéu interior”, não revelava apenas o funcionamento daquilo que, dentro do corpo, resguardado da luz e do ar, é matéria vertente, labirinto da origem, elemento que se expande (pode se expandir) para além dos seus próprios limites; o instantâneo tomado do útero e das trompas, dos arranjos intrincados do ventre feminino, passava a expor a partir de então um compromisso e uma expectativa – ativava um outro tempo, dava início à contagem regressiva para um momento que eu, que nenhum de nós, sabia qual era. Antevéspera: o presente como ponto de passagem para o incerto, para o próximo minuto, as horas seguintes. O tempo em suspensão da espera, estreitamento do instante entre o devir e o vir-a-ser. Um relógio invisível que no entanto bate furiosamente.

Apesar de deflagrar todas essas associações e ideias, o poema de Age de Carvalho, é preciso notar, está situado no momento anterior à angústia: seu movimento é o da expansão, sua perspectiva a do alargamento e do deslimite (a angústia é sempre compressão). No ser particular e restrito de uma mulher, nas cavidades e recessos de seu corpo, o poeta localiza um arranjo de estrelas, diminuta constelação; nos quatro folículos próximos da maturação, parte de um ciclo o mais das vezes infrutífero, ele vê a promessa de big bangs, outros universos ocultos, em estado de latência, na “noite possante/ de teu ventre”. No seu texto, tudo cresce e quer crescer mais. Tudo se dirige para fora, tornando-se, ou se revelando, maior do que é. Dentro do que é pequeno e simples a complexidade inextricável aparece, assim como a simplicidade existe e se afirma no centro do mundo, o coração do mistério. O trânsito de um polo a outro – do baixo ao alto, da escala humana à dimensão celeste – é a tônica do poema, indicando o sentido fundamental da transfiguração que nele (e em boa parte da obra do autor) opera: via linguagem, o mundo se transforma, quase sempre, a partir da abertura: as metáforas e deslocamentos semânticos, os desvios da percepção provocados pelo poeta (que monta e desmonta palavras, mistura a oralidade de conversas banais com a elaboração de versos herméticos e precisos, sempre atentos aos seus aspectos sonoros) agem como uma cunha, instrumento que secciona e abre o real, a materialidade concreta das coisas imediatas, e nele, na massa informe e não-controlável da existência, procura distinguir o inesperado, a fulguração, o elemento elevado, o ponto em que a linguagem falha e não pode mais dizer racionalmente; em meio ao cotidiano, enfim, Age de Carvalho revela (ou inventa) o sublime e o sagrado.

O momento preciso em que essas diferentes dimensões se encontram e interpenetram constitui, quem sabe?, o horizonte fundamental da poética em tela. Isso se dá a ver em diferentes planos da criação, em múltiplas instâncias. A linguagem mesma, sua gênese e combinações possíveis, por exemplo, é sinal do que se apresenta. A análise minuciosa, verso a verso, de um poema como o que aqui importa mostra a mistura, forjada a partir da alternância de registros linguísticos, entre distintos modos de operação: a oração segmentada que conforma a primeira estrofe do poema apresenta uma organização estrutural bastante elaborada, seja pelo uso de um vocabulário particular, construído a partir da fragmentação de palavras e sua reorganização (“além-nuvens”, “subcéu”), uma das marcas formais mais comuns da obra de Age de Carvalho, seja pelo tom algo grandioso que um adjetivo como “fulgurante” confere ao enunciado, arrematando-o; seja ainda pelo que há de incomum e surpreendente na imagem proposta, feita a partir da aproximação de contrários: um mergulho (logo uma descida) na superfície do céu (o que indicaria, naturalmente, um movimento ascensional). A metáfora essencial desse trecho, o firmamento privado, íntimo (“subcéu interior”), vem sintetizar a formulação antitética e assinalar, de modo definitivo, o trabalho delicado e assertivo do poeta com a linguagem, seu afastamento da espontaneidade da fala e da feitura despojada do texto. No entanto, a estrofe seguinte, composta por um único verso isolado (‘Teu ovário está lindo”), traz justamente um entrecho mais imediatamente coloquial, frase que guarda certo aspecto conversacional. Por mais incomum que possa ser, o elogio ao ovário aparece como parte de um diálogo interrompido, do qual o leitor só tem acesso a um fragmento. Transformado em peça de um quebra-cabeça formal – uma vez que parece deslocado no centro do poema, indicando talvez a sua origem excêntrica –, o verso contrasta (em tom e em densidade sintático-lexical) com o que no texto vem antes, o verso/oração que remete ao destino e à sagração do feminino, assim como vai se diferenciar das estrofes seguintes, de igual modo marcadas pela solenidade e pelo caráter próximo do grandiloquente que a linguagem, já numa forma de saudação, assume.

Há como que um ajustamento, na poesia de Age de Carvalho, entre a língua e a representação, as palavras e as coisas. Se o movimento em direção ao sagrado e à elevação importa na configuração do poema em foco e em boa parte da obra do autor, de modo mais acentuado de Caveira 41 (2003) em diante, é natural que o poeta se distancie da coloquialidade e dos arquivos da espontaneidade e da comunicação direta, do humor e da facilidade expressiva tantas vezes explorados na lírica brasileira pós-1970. Mais ligado à tradição experimental da poesia de vanguarda de São Paulo, atento mesmo à visualidade e à dimensão sígnica do poema, o escritor vai concentrar-se na fatura de uma linguagem alusiva, assentada sobre cortes e elipses, colagens de fragmentos textuais de procedência diversa, deslocamentos sutis entre idiomas e processos de condensação semântica, elementos que tornam bastante singular a sua poesia, o mais das vezes facilmente reconhecível pelo leitor familiarizado. A presença, portanto, de versos e sintagmas de aspecto conversacional em seus trabalhos serve antes (é o caso mesmo do poema sobre o qual me debruço) como zona de contraste ou disparador do gesto criativo, espécie de energia inicial a partir da qual o poema pode se desenvolver e diferenciar. Recusando a fala de todo dia, o poeta e o poema, entretanto, se alimentam dela, gestando a partir de sua força a matéria estranha e bela de que sua escrita é feita.

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III

Enquanto leio uma vez e mais outra o poema de Age de Carvalho, tantos meses depois de tê-lo visto pela primeira vez, tenho diante dos olhos e ao alcance das mãos uma mulher em metamorfose, forma em lenta expansão que carrega, como um invólucro vivo, um outro corpo. Para ela, tudo é perturbação e encanto: seus órgãos se rearranjam, há muito mais sangue flutuando nas mesmas veias, uma consciência extrema da própria carnalidade parece determinar cada movimento, a respiração compassada e os passos mais estudados. As “estrelas subterrâneas” que carregava como perspectivas e promessas agora pesam crescentemente sob o pano dos vestidos, materializadas na existência frágil de uma criança. O mal estar da incerteza, antes pura espera e temporalidade vazia, cede passagem a sensações de outro tipo, orientadas pela presença do ser que, mesmo não nascido, já tem lugar no mundo dos vivos. Como no poema, a comunhão com o outro, experiência de alteridade que se dá no próprio corpo feminino é capaz de juntar o que está dentro e o que vive fora, as potencialidades da natureza e os acidentes do acaso: se havia no texto de Age de Carvalho o entusiasmo do mito e do divino diante do vir-a-ser da vida, a certeza de sua afirmação, nem sempre o tráfego dos afetos permitia a mim, ou aos que estavam ao meu redor, considerar a chance, o turbilhão das probabilidades, do mesmo jeito.

Também se pode observar num poema de Trans [2011], cujos dois primeiros versos já deixam clara a conexão com o que aqui está posto, “Ainda não vens, nonato/ – e virás” (CARVALHO, 2011. P. 26), a mesma assertividade diante do incriado (do nada), daquilo que, pelo modo como foi apresentado pelo autor, só poderia ser abstração científica ou peça de fé. “Nonato”, etimologicamente o que não nasceu, já aparece no texto como sujeito, existência despida apenas – por paradoxal que seja – de corpo. O neologismo recuperado pelo poeta, na verdade uma leitura atenta dos sentidos que se ocultam num prenome muito comum no interior do Brasil, aponta nessa direção. A gravidade desse poema (bem como daquele que a este ensaio interessa mais de perto) vai desaguar numa espécie de alegria instauradora, princípio-esperança que percorre, coerente, a obra de Age, seu interesse pela porosidade das relações entre o rés-do-chão cotidiano e a transcendência. Não há melancolia perante a ausência e a frustração do informe – o que fica mais evidente se se lê esses textos em contraste com, por exemplo, um poema como “Ser”, de Carlos Drummond de Andrade, publicado em Claro enigma, talvez o livro mais sombrio do poeta mineiro. O diálogo do pai com um fantasma, o toque amoroso em seu “ombro nenhum” (ANDRADE, 1979, p. 267), tudo ali, naquela pequena peça de 1951, caminha para a ironia e o lamento – o círculo fechado sobre si da morte e do irreparável. A chegada, o retorno, a vinda definitiva da vida são motivos que, na lírica de Age de Carvalho, constituem pequenos núcleos significantes quando se ligam à questão das origens e da procriação. Nesse poeta tão ligado também à morte e à dissolução mineral da matéria (daí a insistência e o valor da pedra em sua obra, especialmente nos seus livros iniciais), a afirmação da continuidade e o peso da transmissão – biológica, espiritual, ética – têm espaço especial, projetando-se em inúmeros outros poemas escritos sobre os filhos, os pais, a permanência da memória e a transmutação dos que se foram (amigos, parentes, escritores) em novas formas de vida e afeto, existências que seguem numa roseira, num conjunto ordenado de ideias, na poesia mesmo que continua a escrever.

Com o pensamento em sobressalto, o coração disparado pela leitura (que não quer cessar em mim) desse poema, ergo os olhos e começo a distinguir uma mancha tênue, leve, na pele da mulher que está a minha frente e também me observa. Começando na parte mais baixa do ventre, sobe devagar pela barriga, como um risco perpendicular, deve atingir em breve o meio do corpo, alcançar talvez o umbigo. Linha nigra, ouço a sua voz enunciar, enquanto me lembro de Oswald de Andrade: “A teu lado/ Terei o mapa-múndi” (ANDRADE, 1991, p. 64). – Cartas, territórios, totalidades já não me interessam agora. Diante de mim, oferto aos olhos e à imaginação, o que vejo é um meridiano, linha que divide a nossa vida em duas: antes e depois.

 

REFERÊNCIAS

ANDRADE, Carlos Drummond. Poesia e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1979.
ANDRADE, Oswald. O santeiro do Mangue e outros poemas. São Paulo: Globo, 1991.
CARVALHO, Age. Caveira 41. São Paulo: CosacNaify, 2003.
CARVALHO, Age. “Segues a tua estrela”. Manuscrito inédito. 2017.
CARVALHO, Age. Trans. São Paulo: CosacNaify, 2011.

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poesia, tradução

Laura Wittner (1967-), por Rafael Mantovani

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Foto: Dino Bronfman.

Laura Wittner nasceu em Buenos Aires em 1967. É formada em Letras pela Universidade de Buenos Aires. Hoje coordena oficinas de poesia e tradução, e trabalha como tradutora literária para diversas editoras. Publicou sete livros de poesia e três antologias entre 1996 e 2016, e sua obra reunida foi publicada recentemente: Lugares donde una no está (Buenos Aires, Gog y Magog, 2017). Também participou de várias publicações e antologias na América Latina, Espanha, França e Inglaterra. Além disso, é autora de seis livros infantis, e já traduziu autores como Leonard Cohen, David Markson, Anne Tyler, entre muitos outros. Recebeu uma série de prêmios, bolsas e menções honrosas em concursos e projetos argentinos e hispanoamericanos. Escreve no blog http://www.selodicononlofaccio.blogspot.com.ar . Apresentamos aqui quatro poemas seus traduzidos por Rafael Mantovani, os dois primeiros da antologia Noche con posibilidades (Montevidéu, Civiles iletrados, 2011), e os outros dois inéditos.

* * *

 

Outra cidade

Quando levanto os olhos vejo neve,
neve que vem brilhando da televisão.
Como sempre, cintilam no mapa
os lugares onde não se está.
Certamente sentiria falta do mercado de flores
e de acordar neste oitavo andar
que se abre desafiando o vento.
A verdade é que só houve um dia de neve
e que há uma possível segunda versão
para as coisas conhecidas.
As malas estão feitas desde sempre
e além disso estão no sofá
em posição de espera.
Esse momento dura, se mantém,
é uma maneira de estar:
estar prestes a ser abandonado.
O poço preto das malas feitas,
reverso do desembarque:
o desejo humano pelo incompleto
que se reflete, dizem,
na predileção pelo pequeno,
o breve, o fragmento.

Otra ciudad

Cuando levanto la vista veo nieve,
nieve refulgiendo desde el televisor.
Como siempre, titilan sobre el mapa
los lugares donde una no está.
Seguro extrañaría el mercado de flores
y despertar en este piso octavo
que se abre desafiando al viento.
La verdad es que hubo un solo día de nieve
y que hay una posible segunda versión
para las cosas conocidas.
Las valijas están hechas desde siempre
y además están sobre el sofá
en posición de espera.
Ese momento dura, se sostiene,
es una manera de estar:
estar a punto de ser abandonado.
El pozo negro de las valijas hechas
reverso del desembarco:
el deseo humano por lo incompleto
que se refleja, dicen,
en la predilección por lo pequeño,
lo breve, el fragmento.

§

 

Um olhar de adeus do trem em movimento

Um olhar de adeus do trem em movimento
gostaria de ser um olhar especial
e é como todos, este lugar que ocupamos
agora, vazio de nós,
inicia o movimento de retrocesso
de recolher-se na memória
para ao mesmo tempo incomodar
dando o sinal de que
continuará existindo,
outros habitantes o percorrerão
como alguém que amamos
e a paisagem irá se modificando,
a lembrança então cada vez mais inexata
não por desgaste
mas sim porque o original vai mudar.
A última coisa que você verá
será também a primeira que verá
quando voltar
(you are leaving Las Pirquitas we are already missing you).
Por outro lado sempre moramos nesta cidade
e quando um domingo passamos perto de barcos encalhados
e pontes cor de ferrugem,
e ao descer do carro vemos que o rio
é uma coisa preta, espessa,
destilando bolhas entre manchas claras
como massas de saliva em expansão
(“formou-se sobre a água uma capa anaeróbica
onde criaturas impensáveis
desenvolvem-se e existem sem oxigênio”)
então não existe pena pelo lugar distante
nem gestos significativos no último olhar
seria inútil se não há limites
para entrar ou sair.

Una mirada de adiós desde el tren en marcha

Una mirada de adiós desde el tren en marcha
querría ser una mirada especial
y es como todas, este lugar que ocupamos
ahora, vacío de nosotros,
inicia el movimiento de retroceso
de replegarse en la memoria
para al mismo tiempo molestar
dando la señal de que
seguirá existiendo,
otros habitantes lo recorrerán
como a alguien que quisimos
y el paisaje se irá modificando,
el recuerdo entonces cada vez más inexacto
no por desgaste
sino porque el original va a cambiar.
Lo último que veas
será también lo primero que veas
cuando regreses
(you are leaving Las Pirquitas we are already missing you).
Por otra parte siempre hemos vivido en esta ciudad
y cuando un domingo pasamos junto a barcos varados
y puentes color óxido,
y al bajar del auto vemos que el río
es algo negro, espeso,
destilando burbujas entre manchas claras
como salivazos en expansión
(“se ha formado sobre el agua una capa anaeróbica
donde criaturas impensables
se desarrollan y existen sin oxígeno”)
entonces no hay pena por el lugar lejano
ni gestos significativos en la última mirada
sería inútil si no hay límites
para entrar o salir.

§

 

Viramos na Libertador

Minha filha diz que o jacarandá
parece uma árvore de outro mundo.
Que essa bruma violeta
não pode estar no mesmo plano que a gente.
Sempre quis ter
uma conversa assim:
calhou de ser justo
com esta menina.

Doblamos por Libertador

Mi hija dice que el jacarandá
le parece un árbol de otro mundo.
Que esa bruma violeta
no puede estar en nuestro mismo plano.
Siempre quise tener
una conversación así:
se me viene a dar justo
con esta nena.

§

 

Voltei a ter um limão na mão

Voltei a ter um limão na mão.
É algo tão perfeito de agarrar.
Eu sabia disto? Lembrava?
Vejam a minha mão: vira uma concha espontânea
e nela não resta nada que não seja
limão: o fresco, o rugoso, o peso,
o perfume terrível, a acidez.
Não há distância entre a mão e o limão.
Significam a mesma coisa por um instante.

Volví a tener un limón en la mano

Volví a tener un limón en la mano.
Es algo tan perfecto de agarrar.
¿Esto yo lo sabía? ¿Me acordaba?
Miren mi mano: se ahueca espontánea
y no queda nada en ella que no sea
limón: lo fresco, lo rugoso, el peso,
el perfume terrible, la acidez.
No hay distancia entre la mano y el limón.
Significan lo mismo por un rato.

Padrão
poesia

Jacinta Passos (1914-1973)

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A baiana Jacinta Passos nasceu em Cruz das Almas, na região do Recôncavo da Bahia, em 1914, filha de Berila Eloy e Manuel Caetano da Rocha Passos, pertencentes a famílias tradicionais da região, muito católicas. Seu avô paterno, Themístocles da Rocha Passos, duas vezes Senador na Província (depois Estado) da Bahia, é hoje nome da principal praça da cidade. Seu pai, também político, foi eleito deputado estadual quatro vezes, as duas últimas pela UDN.

Jacinta passou a infância entre o núcleo urbano de Cruz das Almas e a fazenda Campo Limpo, de propriedade do pai, onde nascera e morava com a família, mergulhada na cultura do fumo, das tradições africanas e das canções infantis que marcariam sua poesia. Após a transferência da família para Salvador, cursou a Escola Normal, onde se formou com láurea. Trabalhou como professora de matemática, dando aulas particulares e, depois, na prestigiosa Escola Normal onde se formara. Nessa época, era muito religiosa. Praticava a religião com uma entrega total, dedicando-se com fervor e buscando uma união profunda e direta com Deus.

Desde o final da década de 1920 escrevia poemas, em geral de conteúdo religioso. Nos anos 30, ao lado do irmão, o estudante de medicina e também poeta Manoel Caetano Filho, participou de círculos e grupos literários de Salvador, como a Ala das Letras e das Artes (ALA), chefiada pelo crítico Carlos Chiacchio. Seus poemas começaram a circular entre os intelectuais da cidade. Continuava religiosa, mas, à medida que o tempo passava, sua religiosidade ia adquirindo conteúdo social e militante.

A partir da eclosão da Segunda Guerra Mundial, em 1939, envolveu-se fortemente com política. Ao lado do irmão, assumiu posições públicas e participou de movimentos a favor da paz mundial e do final da ditadura do Estado Novo. Denunciou as opressões que pesavam sobre as mulheres, defendendo mudanças imediatas na condição feminina. Continuava católica, porém cada vez mais afastada das posições ortodoxas da Igreja.

Após a entrada do Brasil na guerra, em 1942, participou intensamente da luta antinazista e antifascista, envolvendo-se com grupos de esquerda. Tornou-se também uma ativa jornalista, escrevendo sobre temáticas sobretudo sociais. Foi uma das poucas mulheres da Bahia, à época, a assumir posições políticas públicas e a desenvolver uma intensa e regular atividade jornalística, publicando artigos e poesias no jornal O Imparcial e na revista cultural Seiva. Publicou semanalmente em O Imparcial uma “Página Feminina”, que ampliava muito os assuntos habitualmente reservados às mulheres, introduzindo discussões políticas e literárias.

Jacinta alargou seus contatos literários, dedicando-se com afinco à poesia. Em 1942, publicou o livro Nossos poemas (Salvador, A Editora Bahiana), cuja primeira parte, “Momentos de Poesia”, contém poemas seus, enquanto a segunda, “Mundo em Agonia”, reúne poemas do irmão, Manoel Caetano Filho. O volume mereceu boas críticas na imprensa, firmando os nomes dos dois poetas no meio intelectual baiano.

Jacinta Passos tornou-se amiga de intelectuais comunistas, como Jorge Amado, que no final de 1942 retornara à Bahia, aprofundando a participação em movimentos sociais e feministas. Nessa época, abandonou o catolicismo.

Mudou-se em 1944 para São Paulo, onde se casou com o jornalista e escritor James Amado. No ano seguinte, publicou seu segundo livro, Canção da Partida (São Paulo, Edições Gaveta), contendo dezoito poemas, três transcritos do livro anterior. A edição, extremamente bem cuidada, foi de apenas duzentos exemplares, numerados e assinados pela autora e ilustrados pelo grande artista Lasar Segall. Canção da Partida recebeu críticas muito elogiosas de intelectuais expressivos como Aníbal Machado, Antonio Candido, Gabriela Mistral, José Geraldo Vieira, Mário de Andrade, Roger Bastide e Sérgio Milliet, firmando o nome da poeta no cenário nacional.

Jacinta Passos continuou fortemente envolvida com política. Lutou pelo final da guerra, pela redemocratização do Brasil, pela liberdade de expressão, pela anistia aos presos políticos e pela ampliação dos direitos das mulheres. Em 1945, ano em que o Partido Comunista Brasileiro (PCB) foi legalizado e lançou uma grande campanha de filiação de novos membros, ingressou oficialmente nesse partido, nele permanecendo até morrer.

De volta a Salvador, foi candidata a deputada federal e a deputada estadual pelo PCB, não se elegendo. Contribuiu para o jornal comunista O Momento e continuou participando ativamente da política. Em 1947, após uma gravidez muito difícil, deu à luz sua filha única. Com o marido e a filha, viveu alguns anos em uma fazenda no sul da Bahia, onde se dedicou à família e à escrita.

Mudou-se em 1951, com a família, para o Rio de Janeiro, onde lançou seu terceiro livro, Poemas políticos (Rio de Janeiro, Livraria-Editora da Casa do Estudante do Brasil). Contendo dez poemas inéditos, políticos e líricos, além de uma seleção de poesias anteriores, Poemas políticos ampliou o prestígio da escritora, tornando-a mais conhecida nos círculos literários do Rio de Janeiro, a capital do país.

No final desse ano sofreu grave crise nervosa, com delírios persecutórios. Ficou vários meses internada em sanatórios do Rio, onde foi diagnosticada como portadora de esquizofrenia paranóide, considerada então uma doença progressiva e irrecuperável. Durante essa internação e nas seguintes, foi tratada à base de choques elétricos, injeções de insulina e barbitúricos. Transferida para a Clínica Psiquiátrica Charcot, em São Paulo, teve o diagnóstico confirmado.

Em 1955, separada do marido e da filha, regressou a Salvador, voltando a residir com os pais. Continuou militando no PCB, um partido em crise, ensinou em comunidades pobres de Salvador e publicou artigos sobre literatura no jornal comunista O Momento, onde, durante alguns meses, foi também responsável por uma página literária. Continuou escrevendo poesias. Recebeu a visita da filha durante duas férias escolares e a visitou, no Rio de Janeiro.

Publicou em 1957 seu quarto livro, A Coluna (Rio de Janeiro, A. Coelho Branco Fº Editor). O volume contém um longo poema épico, de quinze cantos, sobre a Coluna Prestes, marcha de cerca de vinte e cinco mil quilômetros, empreendida na década de 1920, e liderada, entre outros, por Luiz Carlos Prestes, que buscava mudanças políticas profundas para o Brasil. O livro foi bem recebido por críticos como Paulo Dantas. Vários de seus trechos foram transcritos em publicações de esquerda do país, até 1964.

Após permanecer cerca de dois anos na cidade pernambucana de Petrolina, onde vivia sozinha e em extrema pobreza, transferiu-se em 1962 para Aracaju, em Sergipe. Ali morou, também sozinha, em Barra dos Coqueiros, povoação de pescadores situada em frente à cidade. Vivia muito pobremente, em um barraco de madeira, à beira do rio. Possuía uma máquina de escrever, onde, à noite, datilografava poemas e textos políticos, que distribuía pelas ruas durante o dia. Numa época de grande agitação e polarização política, desenvolveu, sozinha e ao lado de integrantes do PCB local, intensa militância junto a pescadores, estudantes e trabalhadores, inclusive após o golpe militar de 1964.

Foi detida em 1965, quando pichava nos muros da cidade palavras de ordem contrárias à ditadura. Recolhida ao 28º BC de Aracaju, graças à interferência da família Passos foi transferida para um sanatório particular da mesma cidade, a Casa de Saúde Santa Maria, onde permaneceu até sua morte, em 28 de fevereiro de 1973, aos cinqüenta e sete anos de idade.

Janaína Amado (disponível aqui).

* * *

 

Canção da alegria

Urupemba
urupemba
mandioca aipim!
peneirar
peneirou
que restou no fim?

Peneira massa peneira,
peneira peneiradinha,
(Ai! vida tão peneirada)
peneira nossa farinha.

Olhe o rombo
olhe o rombo
olhe o rombo arrombou!
olhe o cisco
olhe o risco
urupemba furou!

Eh! sai espantalho
da ponta do galho!

Escorra! Escorra!
Tirai essa borra!

Urupemba
urupemba
mandioca aipim!
peneirar
peneirou
que restou no fim?

Farinha fininha
peneiradinha!

Ai! vida, que vida
nuinha! nuinha!

§

 

Canção do amor livre

Se me quiseres amar
não despe somente a roupa.

Eu digo: também a crosta
feita de escamas de pedra
e limo dentro de ti,
pelo sangue recebida
tecida
de medo e ganância má.
Ar de pântano diário
nos pulmões.
Raiz de gestos legais
e limbo do homem só
numa ilha.

Eu digo: também a crosta
essa que a classe gerou
vil, tirânica, escamenta.

Se me quiseres amar.

Agora teu corpo é fruto.
Peixe e pássaro, cabelos
de fogo e cobre. Madeira
e água deslizante, fuga
ai rija
cintura de potro bravo.
Teu corpo.

Relâmpago depois repouso
sem memória, noturno.

§

 

1935

Tenso como rede de nervos
pressentindo ah! novembro
de esperança e precipício.

Fruto peco.

Novembro de sangue e de heróis.

Grito de assombro morto na garganta,
soluço seco dor sem nome. Ferido.
De morte ferido. Como um animal ferido. Luta
de entranhas e dentes. Natal.
Sangue. Praia Vermelha.

Sangue.
Sangue. É quase um fio
escorrendo
sangrento
tenaz
por dentro dos cárceres,
nas ilhas
e nos corações que a esperança guardaram.

§

Canção da liberdade

Eu só tenho a vida minha.
Eu sou pobre pobrezinha,
tão pobre como nasci,
não tenho nada no mundo,
tudo que tive, perdi.
Que vontade de cantar:
a vida vale por si.
Nada eu tenho neste mundo,
Sozinha!
Eu só tenho a vida minha.
Eu sou planta sem raiz
que o vento arrancou do chão,
já não quero o que já quis,
livre, livre o coração,
vou partir para outras terras,
nada mais eu quero ter,
só o gosto de viver:
Nada eu tenho neste mundo,
sozinha!
Eu só tenho a vida minha.
Sem amor e sem saúde,
sem casa, nenhum limite,
sem tradição, sem dinheiro,
sou livre como a andorinha,
tem por pátria o mundo inteiro,
pelos céus cantando voa,
cantando que a vida é boa.
Nada eu tenho neste mundo,
Sozinha!
Eu só tenho a vida minha.

§

 

O inimigo

A Coluna descansou
da marcha, na noite fria.

Ficaram olhos acesos
e a fogueira, de vigia.

Su su su

menino mandu
dorme na lagoa
sapo-cururu

Soldados dormem quietos
Debaixo deste telheiro

em cima pia a coruja
com seu piado agoureiro.

Su su su
menino mandu

Soldados dormem quietos
no bivaque de improviso

até as armas descansam
que este descanso é preciso.

Dorme na lagoa
sapo-cururu

Soldados dormem quietos
na barraca e na varanda,

eis de repente o inimigo
– Depressa, levanta e anda!

Depressa, são feras,
depressa ou quiseras
nas mãos do inimigo
cair, que o perigo
de perto ameaça
de morte ou mordaça
cadeia ou degredo.

Galopa sem medo!

Legalista do Inferno! .
donde o Governo –
tais feras tirou?

Ah! raiva que eu sou.

Depressa e a trote
esporas, chicote,
as crinas revoltas,
de rédeas bem soltas
e bridas também
(Que medo não tem!)
depressa e a trote
mão no cabeçote
o pé na estribeira
encilha e carreira!
esquipa montado
depressa, soldado
que medo não tem.

Legalista do inferno
não vale um vintém!

A Coluna descansou
da marcha na noite fria.

Picaram olhos acesos.
E de repente partia.

§

 

Diálogo na Sombra

— Que dissestes, meu bem?

Esse gosto,
Donde será que ele vem?

Corpo mortal.
Águas marinhas.

Virá da morte ou do sal?
Esses dois que moram no fundo e no fim.

— De quem falas amor, do mar ou de mim?

§

 

Canção atual

Plantei meus pés foi aqui
amor, neste chão.

Não quero a rosa do tempo
aberta
nem o cavalo de nuvem
não quero
as tranças de Julieta.

Este chão já comeu coisa
tanta que eu mesma nem sei,
bicho
pedra
lixo
lume
muita cabeça de rei.

Muita cidade madura
e muito livro da lei.

Quanto deus caiu do céu
tanto riso neste chão,
fala de servo calado
pisado
soluço de multidão.

Coisas de nome trocado
– fome e guerra, amor e medo –

Tanta dor de solidão.

Muito segredo guardado
aqui dentro deste chão.

Coisa até que ninguém viu
ai! tanta ruminação
quanto sangue derramado
vai crescendo deste chão.

Não quero a sina de Deus
nem a que trago na mão.

Plantei meus pés foi aqui
amor, neste chão.

§

 

Cantigas das mães

(para minha mãe)

Fruto quando amadurece
cai das árvores no chão,
e filho depois que cresce
não é mais da gente, não.
Eu tive cinco filhinhos
e hoje sozinha estou.
Não foi a morte, não foi,
oi!
foi a vida que roubou.

Tão lindos, tão pequeninos,
como cresceram depressa,
antes ficassem meninos
os filhos do sangue meu,
que meu ventre concebeu,
que meu leite alimentou.
Não foi a morte, não foi,
oi!
foi a vida que roubou.

Muitas vidas a mãe vive.
Os cinco filhos que tive
por cinco multiplicaram
minha dor, minha alegria.
Viver de novo eu queria
pois já hoje mãe não sou.
Não foi a morte, não foi,
oi!
foi a vida que roubou.

Foram viver seus destinos,
sempre, sempre foi assim.
Filhos juntinhos de mim,
Berço, riso, coisas puras,
briga, estudos, travessuras,
tudo isso já passou.
Não foi a morte, não foi,
oi!
foi a vida que roubou.

Padrão
poesia, tradução

Langston Hughes, por Camillo César Alvarenga

Iniciei este texto em 2015, revisando agora para esta publicação. O ensaio nasce de um texto em inglês que lia sobre o autor e que deu origem a estas breves linhas que grafei aqui. Em especial, a tradução de “Good Morning Revolutions” não é inédita, publiquei antes num blog junto a “The Negro Speak of Rivers”, fora estas duas exceções, todas as outras versões em português são apresentadas por mim, aqui, pela primeira vez ao público.

Camillo César Alvarenga

***

ENSAIO, TRADUÇÃO E OUTRAS TRADUÇÕES – LANGSTON HUGHES.

 a partir de Ibn Arabi, que diz que este é um fato verdadeiro, um de seus amigos, que era um dervixe Abdal, foi levantado para o céu pelos espíritos, chegou ao Monte Kaf circundando o universo, e descobriu que esta montanha foi em si rodeada por uma cobra. Sabemos agora que não há montanha que circula o universo, nada mais que uma cobra que cerca tal montanha.

 Enciclopédia do Islam[1].

 Edward Said foi um intelectual palestino e pai do Orientalismo, nessa esteira de alianças contra a ordem dominante, tomamos aqui a experiência da moderna poesia negra norte-americana.  Neste sentido, a conexão entre a poesia afro-americana e as raízes da cultura contemporânea nos dá, a saber, notícias de que no Brasil fontes guardam cartas do poeta cubano Nicolás Guillén aptas ao estudo, onde imagino que se encontrarão muitas endereçadas e recebidas de Langston Hughes (1902-1967), poeta estadunidense que tem um tom criativo bem característico, no qual a sua poesia é a manifestação da condição humana do homem negro na América.

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Hughes, ao longo de sua trajetória intelectual, artística e política ganhou uma reconhecida dimensão com seus trabalhos literários como os romances da maturidade, novelas, peças de teatro e musicais. Ele sempre procurou apresentar as formas estéticas, simbólicas e principalmente sociais da vida do negro na América do Norte, no século XX. Expressão de uma literatura em reflexividade com a comunidade negra e em conexão com a dicção da modernidade, distinguia-se das formas literárias que o precederam, ou seja, dos séculos 18 e 19.

Fez parte da organização política “Panteras Negras”, grupo de militantes armados que lutavam pelo fim do racismo nas leis americanas. Poeta da e na luta pelos direitos civis, desde o Harlem suas redes de sociabilidade estendiam-se até ligações internacionais entre as quais estavam poetas de diversas partes do mundo: como o cubano Nicolas Guíllen. L. Hughes, coloca-se contra o racismo e a favor do socialismo e, com isso, entra na alça de mira do macarthismo dos anos 50.

A partir de Nova York seus versos avançam sobre as gerações com a questão da afirmação do negro na sociedade moderna. Atinge os palcos da Broadway, ao passo que, o jazz de Duke Ellington trazia também como Hughes a cultura negra e seu cotidiano para o centro espetacular da vida social norte americana.

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Langston Hughes, Michael Koltyov, Ernest Hemingway, Nicolas Guíllen, 1937

Revelou em sua obra, entre outras, influências do jamaicano Claude Makay e Paul Laurence Dunbar, que escreveu “Ode a Etiópia”. Em suas primeiras obras, Langston demonstra seu interesse pelo blues e jazz e apresenta a cultura, a música e as tradições de sua comunidade frente à imposição da ascensão social do mundo dos brancos. Sua poética entra num período de radicalização durante a grande depressão. Escreve o poema “The Negro Speaks of Rivers” com base na inspiração que lhe gera a extensão do Rio Mississippi até alcançar o México.

Em 1932 em pleno stalinismo vai à Rússia. Escreve contos curtos expressando o caminho da cultura tradicional afro-estadunidense bem como enfrentando situações da experiência social de ser negro na América segregacionista. Publica a tragédia – “Mulato” – em seguida o drama histórico “Emperor of Haiti”. Além da peça – “Dont You Want Be Free?” – uma maneira negra de representar uma forma moderna de teatro revolucionário que se compara a Brecht ou Lorca.

Como tal a sua trajetória, a sua obra legou à sua geração e às vindouras a crítica da problemática da diferença étnica entre “negros” e “brancos” e, por conseguinte, a reflexão estética e política acerca das relações raciais através da poesia. Langston Hughes vem a morrer, vitimado por um câncer de próstata, em New York, em maio de 1967.

capa1

***

GENIUS CHILD

 This is a song for the genius child.
Sing it softly, for the song is wild.
Sing it softly as ever you can –
Lest the song get out of hand.

Nobody loves a genius child.

Can you love an eagle,
Tame or wild?
Can you love an eagle,
Wild or tame?
Can you love a monster
Of frightening name?

Nobody loves a genius child.

Kill him – and let his soul run wild.

 

CRIANÇA GÊNIO

Esta é uma canção para a criança gênio.
Cantá-la em voz macia, a música é selvagem.
Cante suavemente quanto puder –
Para que a música saia da mão.

Ninguém ama uma criança gênio.

 Você pode amar uma águia,
Domesticada ou selvagem?
Você pode amar uma águia,
Selvagem ou domesticada?
Você pode amar um monstro
de nome assustador?

Ninguém ama uma criança gênio.

Mate-a – e deixe correr sua alma selvagem.

§ 

 

THE NEGRO SPEAKS OF RIVERS

I’ve known rivers:
I’ve known rivers ancient as the world and older than the
      flow of human blood in human veins.

My soul has grown deep like the rivers.

I bathed in the Euphrates when dawns were young.
I built my hut near the Congo and it lulled me to sleep.
I looked upon the Nile and raised the pyramids above it.
I heard the singing of the Mississippi when Abe Lincoln
      went down to New Orleans, and I’ve seen its muddy
      bosom turn all golden in the sunset.

I’ve known rivers:
Ancient, dusky rivers.

My soul has grown deep like the rivers.

 

O NEGRO FALA DOS RIOS

Soube de rios:
Soube de antigos rios qual o mundo e tão velhos quanto o
        fluxo de sangue humano em veias humanas.

 Minha alma tornou-se profunda como os rios.

 Eu banhei no Eufrathes quando as auroras eram jovens.
Eu construí minha mansarda próxima ao Congo e seu murmúrio me fez dormir.
Eu vi além do Nilo e ergui pirâmides sobre este.
Eu ouvi a cantoria do Mississipi quando Abe Lincoln
      desceu à Nova Orleans e eu vi este leito
      lamacento dourar-se no crepúsculo.

 Soube de rios:
Anciãos, crepusculares.

Minha alma tornou-se profunda como os rios.

§


THEME FOR ENGLISH B

The instructor said,

      Go home and writ
a page tonight.
    And let that page come out of you—
    Then, it will be true.

I wonder if it’s that simple?
I am twenty-two, colored, born in Winston-Salem.
I went to school there, then Durham, then here
to this college on the hill above Harlem.
I am the only colored student in my class.
The steps from the hill lead down into Harlem,
through a park, then I cross St. Nicholas,
Eighth Avenue, Seventh, and I come to the Y,
the Harlem Branch Y, where I take the elevator
up to my room, sit down, and write this page:

It’s not easy to know what is true for you or me
at twenty-two, my age. But I guess I’m what
I feel and see and hear, Harlem, I hear you.
hear you, hear me—we two—you, me, talk on this page.
(I hear New York, too.) Me—who?

Well, I like to eat, sleep, drink, and be in love.
I like to work, read, learn, and understand life.
I like a pipe for a Christmas present,
or records—Bessie, bop, or Bach.
I guess being colored doesn’t make me not like
the same things other folks like who are other races.
So will my page be colored that I write?
Being me, it will not be white.
But it will be
a part of you, instructor.
You are white—
yet a part of me, as I am a part of you.
That’s American.
Sometimes perhaps you don’t want to be a part of me.
Nor do I often want to be a part of you.
But we are, that’s true!
As I learn from you,
I guess you learn from me—
although you’re older—and white—
and somewhat more free.

This is my page for English B.

 

PÁGINA PARA O TESTE DE INGLÊS

 O instrutor disse,

      Vá para casa e escreva uma página esta noite.
E deixe esta página sair de você –
Então, esta será verdade.

Eu me pergunto se isto é tão simples?
Eu tenho vinte e dois, sou negro, nascido em Winston-Salem.
Eu fui para escola, depois Durhan,
então aqui neste colégio, no morro sobre o Harlem.
Eu sou o único estudante de cor em minha sala.
Os passos da colina levam até o Harlem,
através do parque, então eu corto o St. Nicholas
Oitava Avenida, Sétima, e venho para o Y, o Harlem Branch Y
Onde eu pego o elevador para minha sala
sento-me e escrevo esta página:

 Não é fácil saber o que é verdade para mim ou você,
aos vinte e dois, a minha idade.
Mas eu acho que eu sou o que eu sinto e vejo e ouço,
Harlem, eu ouço você:
ouvi-lo, ouvi-me – nós dois – você, eu, falar nesta página.
(Eu ouço New York, também.) Eu-quem?

Bem, eu gosto de comer, dormir, beber e amar.
Eu gosto de trabalhar, ler, aprender e entender a vida.
Eu gosto de um cachimbo de presente de Natal,
ou discos – Bessie, Bop ou Bach.
Eu acho que ser (negro) não me faz não gostar
das mesmas coisas que os outros povos de outras raças.

Então vai ser negra minha página que escrevo?
Ser-me, não será branco.
Mas vai ser uma parte de você, instrutor.
Você é branco – ainda uma parte de mim, como eu sou uma parte de você.
Isso é americano.
Às vezes, talvez você não queira ser uma parte de mim.
Nem eu, muitas vezes quero ser uma parte de você.
Mas nós somos, isso é verdade!
Como eu aprendo com você, eu acho que você aprende comigo – embora você está mais velho – e branco – e um pouco mais livre.

 Esta é a minha página de Inglês B. 

§

 

MY PEOPLE

 The night is beautiful,
So the faces of my people.

The stars are beautiful,
So the eyes of my people.

Beautiful, also, is the sun.
Beautiful, also, are the souls of my people.

 

MEU POVO

 A noite está linda,
Assim, os rostos do meu povo.

As estrelas são belas,
Assim, os olhos do meu povo.

Lindo, também, é o sol.
Lindas, também, são as almas do meu povo.

 §

 

A New Song

I speak in the name of the black millions
Awakening to action.
Let all others keep silent a moment.
I have this word to bring,
This thing to say,
This song to sing:

Bitter was the day
When I bowed my back
Beneath the slaver’s whip.

That day is past.

Bitter was the day
When I saw my children unschooled,
My young men without a voice in the world,
My women taken as the body-toys
Of a thieving people.

That day is past.

Bitter was the day, I say,
When the lyncher’s rope
Hung about my neck,
And the fire scorched my feet,
And the oppressors had no pity,
And only in the sorrow songs
Relief was found.

That day is past.

I know full well now
Only my own hands,
Dark as the earth,
Can make my earth-dark body free.
O, thieves, exploiters, killers,
No longer shall you say
With arrogant eyes and scornful lips:
“You are my servant,
Black man—
I, the free!”

That day is past—

For now,
In many mouths—
Dark mouths where red tongues burn
And white teeth gleam—
New words are formed,
Bitter
With the past
But sweet
With the dream.
Tense,
Unyielding,
Strong and sure,
They sweep the earth—

Revolt! Arise!

The Black
And White World
Shall be one!
The Worker’s World!

The past is done!

A new dream flames.

 

UMA NOVA CANÇÃO

 Falo em nome dos milhões de negros
Despertando para a ação.
Deixe que todos os outros fiquem em silêncio um momento
Eu tenho essa palavra para trazer,
Esta coisa a dizer,
Esta canção a cantar:

Amargo foi o dia
Quando curvei minhas costas
Sob o chicote do traficante de escravos.

Esse dia é passado.

Amargo foi o dia
Quando eu vi os meus filhos sem escola,
Meus jovens homens sem uma voz no mundo,
Minhas mulheres tomadas o corpo – como brinquedos
De povos ladrões.

Esse dia é passado.

Amargo foi o dia, eu digo,
Quando a corda do carrasco
Pendurada em meu pescoço,
E o fogo chamuscou meus pés,
E os opressores não tiveram compaixão,
E só nas canções de tristeza
Socorro foi encontrado.

Esse dia é passado.

Eu sei muito bem agora
Apenas as minhas mãos,
Escuras quanto a terra,
Podem fazer a minha terra-escura corpo livre.
Ladrões, exploradores, assassinos,
Já não dirás
Com os olhos arrogantes e desdenhosos lábios:

“Tu és o meu servo,
Homem Negro –
Eu, o livre! “

Esse dia é passado –

Por enquanto,
Em muitas bocas –
Bocas escuras onde línguas vermelhas queimam
E dentes brancos gelam –
Novas palavras são formadas,
Amargo
Como passado
Mas doce
Como sonho.
Tenso,
Inflexível,
Com violenta certeza,
Eles varrem a Terra –

Revolta! Levanta-te!

 O Negro
E o Mundo Branco
Deve ser um!
Mundo dos Trabalhadores!

O passado é feito!

 Uma nova chama de sonho
Contra o
Sol!

§

 

GOOD MORNING REVOLUTION

Good morning, Revolution
       You’re the very best friend
       I ever had.
We gonna pal around together from now on.
Say, listen, Revolution:
You know, the boss where I used to work,
The guy that gimme the air to cut down expenses,
He wrote a long letter to the papers about you:
Said you was a trouble maker, a alien-enemy,
In other words a son-of-a-bitch.
He called up the police
And told ‘em to watch out for a guy
Named Revolution.

You see,
The boss knows you’re my friend.
He sees us hangin’ out together.
He knows we’re hungry, and ragged,
And ain’t got a damn thing in this world–
And are gonna do something about it.

The boss’s got all he needs, certainly,
        Eats swell,
        Owns a lotta houses,
        Goes vacationin’,
        Breaks strikes,
        Runs politics, bribes police,
        Pays off congress,
        And struts all over the earth–

But me, I ain’t never had enough to eat.
Me, I ain’t never been warm in winter.
Me, I ain’t never known security–
All my life, been livin’ hand to mouth,
        Hand to mouth.

Listen, Revolution,
         We’re buddies, see–
         Together,
         We can take everything:
         Factories, arsenals, houses, ships,
         Railroads, forests, fields, orchards,
         Bus lines, telegraphs, radios,
         (Jesus! Raise hell with radios!)
         Steel mills, coal mines, oil wells, gas,
         All the tools of production,
         (Great day in the morning!)
         Everything–
         And turn ‘em over to the people who work.
         Rule and run ‘em for us people who work.

Boy! Them radios–
Broadcasting that very first morning to USSR:
Another member the International Soviet’s done come
Greetings to the Socialist Soviet Republics
Hey you rising workers everywhere greetings–
         And we’ll sign it: Germany
         Sign it: China
         Sign it: Africa
         Sign it: Poland
         Sign it: Italy
         Sign it: America
         Sign it with my one name: Worker
On that day when no one will be hungry, cold, oppressed,
Anywhere in the world again.

That’s our job!

I been starvin’ too long,
Ain’t you?

Let’s go, Revolution!

 

BOM DIA, REVOLUÇÃO

 Bom dia Revolução:
           Você é a melhor amiga
            Que já tive.
Nós vamos, camarada, por aí juntos de agora em diante.
Ei, ouça, Revolução:
Você sabe, o chefe para quem eu costumava trabalhar,
O cara que me deu um ar para reduzir despesas
Ele escreveu uma longa carta para os jornais sobre você:
Disse que você era uma encrenqueira, uma inimiga-estrangeira,
Em outras palavras, um filho-da-puta.
Ele ligou para a polícia
E disse a eles para vigiarem uma camarada
Chamada Revolução.

Você vê,
O chefe sabe que você é minha amiga
Ele nos vê sair juntos
Ele sabe que nós somos famintos e clandestinos,
E que não temos droga nenhuma neste mundo –
E que vamos fazer alguma coisa sobre isto.

O chefe tem tudo o que ele precisa, com certeza,
     Come até inchar,
     É dono de muitas casas,
     Sai de férias,
     Fura greves
     Trata de política, suborna a polícia
     Compra o Congresso,
     E bota banca em todo o mundo –

 Mas eu, eu nunca tive o bastante para comer
Eu, eu nunca estive aquecido no inverno.
Eu, eu nunca conheci segurança –
Toda a minha vida, vivi com uma mão na frente
             E a outra atrás[2].

 Ouça, Revolução,
Somo companheiros, vê –
Juntos
Nós podemos tomar tudo:
Fábricas, arsenais, casas, navios,
Ferrovias, florestas, campos, pomares,
Linhas de ônibus, telégrafos, rádios,
(Meu deus! Levantar o inferno com rádios!)
Siderúrgicas, minas de carvão, poços de petróleo, gás
Todas as ferramentas de produção.
(Grande dia na manhã)
Todas as coisas –
E transformá-las para as pessoas que trabalham,
Tomá-las e fazê-las funcionar para nós, as pessoas que trabalham.

Camarada! Os rádios!
Transmitindo aquela primeira manhã para URSS:
Outro membro da Internacional acabou de chegar
Saudações para as Repúblicas Socialistas Soviéticas
Ei, vocês, trabalhadores levantando-se por toda parte, saudações –
E nós vamos cantar: Cabula
Cantar: Maré
Cantar: África
Cantar: Ceilândia
Cantar: ZL
Cantar: América
Assinar com meu único nome: Trabalhador.
Neste dia ninguém vai sentir fome, frio, opressão
Em parte alguma do mundo de novo.

Este é nosso trabalho!

 Eu estava morrendo de fome há muito tempo,
Você não?

Vamos, Revolução!

 §

 Olinda,
Fevereiro de 2018.

[1] d’après Ibn Arabi, qui affirme qu’il s’agit d’un fait vèridique, un de ses amis, qui était un derviche Abdal, fut hissé jusqu’aux cieux par les esprits, atteignit le mont Kaf qui encercle l’univers, et constata que cette montagne était elle même encerclée par un serpent. On sait aujourd’hui qu’il n’y a pas de montaigne que encreclerait l’univers, pas plus qu’un serpent qui encerclerait une telle Montaigne. (Encyclopéde I’ Islam) Retirada do livro de Ohmar Pamuk, Le Livre Noir. Tradução minha.

[2] Versão brasileira da expressão: “livin’ hand to mouth/Hand to mouth”.

***

Camillo César Alvarenga é poeta, tradutor e crítico, nascido em São Félix, no Recôncavo da Bahia, em 1988. Autor do livro de poemas Scombros (Edufrb, 2012) e organizador da antologia de poetas baianos Canoas do Paraguaçu (Edufrb, 2012), publicou o poemário OFILTRO (Coleção Oju Aiyê, Portuário Atelier Editorial, 2013) , e recebeu o Prêmio Maximiano Campos de Literatura (Instituto Maximiano Campos) na categoria Micro-Contos (2013).  Em 2018, as plaquetes Macumbe-se e Animítico, uma antologia são editadas pela Editora Kz1, e para a mesma editora o autor prepara uma tradução do livro Islands (1969), de Kamau Brathwaite. Traduziu Langston Hughes, Octavio Paz e Nicolás Guillén, entre outros. Vive em Olinda-Pe.

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poesia, tradução

Enrique Lihn (1929-1988), por Gilberto Clementino Neto

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Enrique Lihn (Santiago, 1929-1988) foi um dos maiores poetas chilenos do século passado. Além de escritor, foi também desenhista e artista gráfico, modalidade através da qual pôde colaborar com o poeta Nicanor Parra e com o cineasta Alejandro Jodorowsky na publicação da collage histórica Quebrantahuesos (1952), que marcou a vida artística chilena à época. Embora seja uma figura de considerável importância para as letras latinoamericanas, não há ainda nenhuma obra do autor traduzida para o português.

Diario de muerte, livro póstumo, foi publicado em 1989 por Pedro Lastra e Adriana Valdés. Vítima de câncer, Lihn escreveu o livro em seus últimos meses de vida, observando atentamente os sinais que a experiência limítrofe da espera pela morte lhe oferecia, da condição de moribundo, de cujo sentido foi capaz de extrair tanto a amargura quanto o humor.

No caso de alguns poemas que não continham indicação de título, os editores optaram por identificá-los por suas palavras iniciais e entre colchetes.

Sobre o tradutor: Gilberto Clementino Neto (Olinda, 1988) é poeta e doutorando em Teoria da Literatura pela UFPE.

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Buenas noches, Aquiles

Ahora sí que te dimos en el talón
La muerte de la que huyas
Correrá acompasadamente a tu lado

Buenas noches, Aquiles

Boa noite, Aquiles

Agora sim que te acertamos o calcanhar
A morte de que fujas
Correrá compassadamente ao teu lado

Boa noite, Aquiles

§

 

Hay sólo dos países

Hay sólo dos países: el de los sanos y el de los enfermos
por un tiempo se puede gozar de doble nacionalidad
pero, a la larga, eso no tiene sentido
Duele separarse, poco a poco, de los sanos a quienes
seguiremos unidos, hasta la muerte
separadamente unidos
Con los enfermos cabe una creciente complicidad
que en nada se parece a la amistad o el amor
(esas mitologías que dan sus últimos frutos
a unos pasos del hacha)
Empezamos a enviar y recibir mensajes de nuestros verdaderos
                                                                                         /conciudadanos
una palabra de aliento
un folleto sobre el cáncer

Há somente dois países

Há somente dois países: o dos sãos e o dos enfermos
por um tempo se pode gozar de dupla nacionalidade
mas, a longo prazo, isso não tem sentido
Dói separar-se, pouco a pouco, dos sãos a quem
seguiremos unidos, até a morte
separadamente unidos
Com os doentes cabe uma crescente cumplicidade
que em nada se parece à amizade ou ao amor
(essas mitologias que dão seus últimos frutos
a uns passos do machado)
Começamos a enviar e receber mensagens de nossos verdadeiros
/concidadãos
uma palavra de alento
um folheto sobre o câncer

§

 

[Únicamente los muertos no piensan…]

Únicamente los muertos no piensan que trabajan
ni piensan que no piensan ni antitrabajan
llegan a ese nirvana
a través del azar o con el error
de los iniciados
en las antípodas de la sabiduría
Su último destino es, en cualquier caso, el mismo

[Unicamente os mortos não pensam…]

Unicamente os mortos não pensam que trabalham
nem pensam que não pensam nem antitrabalham
chegam a esse nirvana
através do azar ou com o erro
dos iniciados
nas antípodas da sabedoria
Seu último destino é, em qualquer caso, o mesmo

§

 

La mano artificial

Es una mano artificial la que trajo
papel y lápiz en el bolso del desahuciado
No va a escribir Contra la muerte, ni El arte de morir
¡felices escrituras! No va a firmar un decreto
de excepción que lo devuelva a la vida.
Mueve su mano ortopédica como un imbécil que jugara
con una piedra o un pedazo de palo
y el papel se llena de signos como un hueso de hormigas

A mão artificial

É uma mão artificial a que trouxe
papel e lápis na bolsa do despejado
Não vai escrever Contra a morte, nem A arte de morrer
felizes escrituras! Não vai firmar um decreto
de exceção que o devolva à vida.
Move sua mão ortopédica como um imbecil que brincasse
com uma pedra ou um pedaço de pau
e o papel se enche de signos como um osso de formigas

§

 

[Estoy tratando de creer…]

Estoy tratando de creer que creo
no es el mejor punto de partida
pero al menos dudo de mi escepticismo
como de una racionalidad sin antecedentes
no ha sido para mí, en su larga trayectoria
un particular motivo de orgullo

Creer pero lo más lejos posible
de la Iglesia católica y romana
a años luz del superpapa

[Estou tratando de crer…]

Estou tratando de crer que creio
não é o melhor ponto de partida
mas ao menos duvido do meu ceticismo
como de uma racionalidade sem antecedentes
não tem sido para mim, em sua longa trajetória
um motivo particular de orgulho

Crer mas o mais longe possível
da Igreja católica e romana
a anos luz do superpapa

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