poesia, tradução

Alejandra Pizarnik, por Natália Agra e Victor Hugo Turezo

Inalterar capacidades, sentidos na poesia de Alejandra Pizarnik é quase que efeméride. Tanto a busca de uma significação justaposta é instransponível. Argentina incandescente em abordar a surreal crise de sua existência, é também espelho de uma lápide na qual reverbera o escuro e a permissibilidade da morte. Limar a palavra desta poeta é desatar nós. Compilar e tentar aproximá-la daqui é como correr atrás de pássaros ruins, como escreveu Rodrigo Madeira certa vez.

Investigar a crueza de seus poemas é como adentrar num bosque musical e se aproximar de cada espécie selvagem, é como entoar a canção da morte. Sua poesia é quase uma experiência em comunhão com o universo, onde o corpo e a mente são a mesma coisa, numa cosmovisão. E talvez seja essa a essência dos poemas que traduzimos. Talvez conseguimos desvendar um pouco do portal imaginário do inconsciente da Pizarnik.

Natália Agra e Victor Hugo Turezo

***

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Cielo

mirando el cielo

me digo que es celeste desteñido (témpera
azul puro después de una ducha helada)

las nubes se mueven

pienso en tu rostro y en ti y en tus manos y
en el ruido de tu pluma y en ti
pero tu rostro no aparece en ninguna nube!
yo esperaba verlo adherido a ella como un
trozo de algodón enyodado dentro de tela adhesiva
sigo caminando

un cocktail mental embaldosa mi frente
no sé si pensar en el cielo o en ti
y si tirara una moneda? (cara tú seca cielo)
no! tu ser no se arriesga y
yo te deseo te de-se-o!
cielo trozo de cosmos cielo murciélago infinito
inmutable como los ojos de mi amor

pensemos en los dos

los dos tú + cielo = mis galopantes sensaciones
biformes bicoloreadas bitremendas bilejanas
lejanas lejanas
lejos

sí amor estás lejos como el mosquito
sí! ese que persigue a una mosquita junto
al farol amarillosucio que vigila bajo el
cielo negrolimpio esta noche angustiosa
llena de dualismos

 

Céu

olhando o céu

me digo que é celeste desbotado (têmpera
azul puro depois de um banho gelado)

as nuvens se movem

penso em seu rosto e em você e em suas mãos e
no ruído de sua caneta e em você
mas seu rosto não aparece em nenhuma nuvem!
eu esperava vê-lo misturado a ela como um
pedaço de algodão iodado dentro do tecido adesivo
sigo caminhando

um coquetel mental embala minha cabeça
não sei se pensar no céu ou em você
e se eu jogasse uma moeda? (cara, você; coroa, o céu)
não! seu ser não se arrisca e
eu te desejo, te de-se-jo!
pedaço de céu do cosmos céu morcego infinito
imutável como os olhos do meu amor

pensemos nos dois

os dois você + céu = minhas sensações galopantes
biformes bicoloridas bitremendas bidistantes
distantes distantes
longe

sim o amor está longe como o mosquito
sim! esse que persegue um outro mosquito perto
do farol amarelado que vigia, sob o
céu negrolimpo, esta noite angustiante
                                cheia de dualismos

§

 

El miedo

En el eco de mis muertes
aún hay miedo.
¿Sabes tú del miedo?
Sé del miedo cuando digo mi nombre.
Es el miedo,
el miedo con sombrero negro
escondiendo ratas en mi sangre,
o el miedo con labios muertos
bebiendo mis deseos.
Sí. En el eco de mis muertes
aún hay miedo.

 

O medo

No eco de minhas mortes
ainda há medo.
Você percebe o medo?
Sei do medo quando digo meu nome.
É o medo,
O medo com um chapéu preto
escondendo ratos em meu sangue,
ou o medo com lábios mortos
bebendo meus desejos.
Sim. No eco de minhas mortes
ainda há medo.

***

Natália Agra é poeta e editora na Corsário-Satã. Nasceu em Maceió, AL, em 1987. Publicou De repente a chuva (Corsário-Satã, 2017). Já apareceu aqui na escamandro com alguns poemas.

Victor Hugo Turezo é poeta e tradutor. Nasceu em Curitiba, PR, em 1993. Publicou minha massa encefálica despenca como se de um desfiladeiro (Editora Patuá, 2017).

*

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poesia

Ana Paula Tavares (1952-)

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Ana Paula Tavares nasceu em 1952 em Lubango, Angola. Depois de estudar história em Luanda, trabalhou como professora em 1973, mas foi para Portugal alguns anos depois para continuar os seus estudos de história em Lisboa. Ao mesmo tempo, começou a estudar literatura africana de língua portuguesa e obteve um doutorado em história africana. Esteve envolvida com o meio ambiente em várias instituições em São Paulo e Nova Iorque, é membro da Associação dos Escritores Angolanos e da secção angolana da UNESCO. Atualmente, trabalha como historiadora em Lisboa. Seu extenso estudo científico A Apropriação do Escrito pelos Africanos recebeu amplo reconhecimento nos círculos profissionais. Além disso, Tavares recebeu recentemente o premio Mário António, o principal prêmio para autores de língua portuguesa da África. Ana Paula Tavares é uma das mais importantes vozes femininas da poesia angolana contemporânea. Seu trabalho é influenciado pelas obras de três poetas angolanos: David Mestre, Arlindo Barbeitos e Rui Duarte de Carvalho, e pelos poetas brasileiros Bandeira e Drummond. Sua poesia lida com tradições e línguas angolanas, amor e guerra e, especialmente, o papel das mulheres.

sergio maciel

* * *

 

A ANONA

Tem mil e quarenta e cinco
Caroços
Cada um com uma circunferência
À volta

Agrupam-se todos
(arrumadinha)
No pequeno útero verde
Da casca

§

 

MUKAI III

(Mulher à noite)

Um soluço quieto
desce
a lentíssima garganta
(rói-lhe as entranhas
um novo pedaço de vida)
os cordões do tempo
atravessam-lhe as pernas
e fazem a ligação terra.

Estranha árvore de filhos
uns mortos e tantos por morrer
que de corpo ao alto
navega de tristeza
as horas.

§

 

MUKAI VI

P’ra não morrer nos teus lábios de prata
era preciso ser pássaro e serpente

p’ra não sentir os teus lábios de prata
era preciso ser mulher e gente

p’ra não sofrer nos teus lábios de prata
era preciso ser sonho
uma cabaça fechada

P’ra não morrer dos teus lábios de prata
era preciso não ser mulher, pássaro e gente
pintada de cicatrizes

§

 

CANTO DE NASCIMENTO

Aceso está o fogo
prontas as mãos

o dia parou a sua lenta marcha
de mergulhar na noite.

As mãos criam na água
uma pele nova

panos brancos
uma panela a ferver
mais a faca de cortar

Uma dor fina
a marcar os intervalos de tempo
vinte cabaças deleite
que o vento trabalha manteiga

a lua pousada na pedra de afiar

Uma mulher oferece à noite
o silêncio aberto
de um grito
sem som nem gesto
apenas o silêncio aberto assim ao grito
solto ao intervalo das lágrimas

As velhas desfiam uma lenta memória
que acende a noite de palavras
depois aquecem as mãos de semear fogueiras

Uma mulher arde
no fogo de uma dor fria
igual a todas as dores
maior que todas as dores.

Esta mulher arde
no meio da noite perdida
colhendo o rio
enquanto as crianças dormem
seus pequenos sonhos de leite.

§

 

VIERAM MUITOS

“A massambala cresce a olhos nus”

Vieram muitos
à procura de pasto
traziam olhos rasos da poeira e da sede
e o gado perdido.

Vieram muitos
à promessa de pasto
de capim gordo
das tranqüilas águas do lago.
Vieram de mãos vazias
mas olhos de sede
e sandálias gastas
da procura de pasto.

Ficaram pouco tempo
mas todo o pasto se gastou na sede
enquanto a massambala crescia
a olhos nus.

Partiram com olhos rasos de pasto
limpos de poeira
levaram o gado gordo e as raparigas.

§

 

O MAMÃO

Frágil vagina semeada
pronta, útil, semanal
Nela se alargam as sedes

no meio
cresce
insondável

o vazio…

§

 

A ABÓBORA MENINA

Tão gentil de distante, tão macia aos olhos
vacuda, gordinha,
……………..de segredos bem escondidos
estende-se à distância
…………….procurando ser terra
quem sabe possa
…………..acontecer o milagre:
……………………………..folhinhas verdes
……………………………..flor amarela
……………………………….ventre redondo
depois é só esperar
…………….nela desaguam todos os rapazes.

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poesia, tradução

Poesia nórdica| Três tradutores de Karin Boye

Karin Maria Boye (n. 26 outubro de 1900 em Gotemburgo, m. madrugada de 24 april 1941 em Alingsås) é uma escritora e tradutora sueca mais conhecida por sua poesia mas que nos legou também muitos artigos, contos e romances, o mais célebre dos quais é a distópica obra de ficção científica Kallocain (Calocaína, publicada no Brasil em 1974 na tradução do prolífico tradutor Janer Cristaldo). A poesia de Karin Boye, marcada de lado pelo seu engajamento político e doutro por sua complexa vida amorosa, numa época impregnada de preconceitos — mesmo na hoje socialmente avançada Suécia — em que assumir publicamente a homossexualidade nem sempre era uma opção muito promissora. Poeta das grandes ela própria, Karin se viu, entre outros, com os poetas Rilke, Eliot e Whitman, os quais verteu ao seu idioma materno.

* * *

 DÓI TANTO QUANDO

Dói tanto quando o broto enflora.
Ou não tardava a primavera.
Oculta atrás do instante, chora,
refém do clima que congela
onde amargou o inteiro inverno.
Então por que desponta agora?
Dói sempre quando o broto enflora
dói quando cresce
…………………….e quando para.

A mesma dor é a dor da gota
que rompe o gelo, anseia e vai,
vacila em vão, o galho agarra
mas cede ao peso, escorre e cai.
É dor de medo, frio e dúvida
ante o escuro do sentir,
é dor daquele que ignora —
se quer ficar
…………………….ou quer partir.

E quando nada mais consola,
o galho o mesmo broto afronta.
Não há mais medo que a tolha,
cai rebrilhando a mesma gota
perante o novo, intimorata
esquece o risco da jornada —
e se engrandece, num segundo,
de toda a fé
…………………….que move o mundo.

(traduzido do sueco por Leonardo Pinto Silva)

JA VISST GÖR DET ONT

Ja visst gör det ont när knoppar brister.
Varför skulle annars våren tveka?
Varför skulle all vår heta längtan
bindas i det frusna bitterbleka?
Höljet var ju knoppen hela vintern.
Vad är det för nytt, som tär och spränger?
Ja visst gör det ont när knoppar brister,
ont för det som växer
………………………………och det som stänger.

Ja nog är det svårt när droppar faller.
Skälvande av ängslan tungt de hänger,
klamrar sig vid kvisten, sväller, glider –
tyngden drar dem neråt, hur de klänger.
Svårt att vara oviss, rädd och delad,
svårt att känna djupet dra och kalla,
ändå sitta kvar och bara darra –
svårt att vilja stanna
………………………………och vilja falla.

Då, när det är värst och inget hjälper,
Brister som i jubel trädets knoppar.
Då, när ingen rädsla längre håller,
faller i ett glitter kvistens droppar
glömmer att de skrämdes av det nya
glömmer att de ängslades för färden –
känner en sekund sin största trygghet,
vilar i den tillit
………………………………som skapar världen.

§

MANHÃ

Quando o sol da manhã penetra pela vidraça da janela,
alegre e cuidadoso
como uma criança querendo fazer surpresa
cedo, muito cedo em um dia de festa —
então me espreguiço cheia de uma crescente exaltação
de braços abertos para o dia que está por vir —
para o dia que é você
para a luz que é você
o sol é você
e a primavera é você
e toda a linda, linda
vida me esperando é você!

(traduzido do sueco por Fernanda Sarmatz Åkesson)

MORGON

När morgonens sol genom rutan smyger,
glad och försiktig,
lik ett barn, som vill överraska
tidigt, tidigt en festlig dag —
då sträcker jag full av växande jubel
öppna famnen mot stundande dag —
ty dagen är du,
och ljuset är du,
solen är du,
och våren är du,
och hela det vackra, vackra,
väntande livet är du!

§

Como posso dizer se a tua voz é bela.
Apenas sei que ela me atravessa,
que me faz estremecer como uma folha
e me despedaça e me arrebenta.

O que eu sei sobre a tua pele e sobre os teus membros.
Eles me abalam apenas por serem teus,
então para mim não há nem descanso e nem paz,
enquanto eles não forem meus.

(traduzido do sueco por Fernanda Sarmatz Åkesson)

*

Como dizer se é bela a tua voz
que me atravessa
e dilacera como uma folha
feita em pedaços.

Que sei da tua pele e dos teus membros
me sacudindo e jurando que sou tua,
roubando de mim o sono e o descanso,
até que que sejam meus.

(traduzido do sueco por Leonardo Pinto Silva)

*

Como posso dizer se a tua voz é bonita.
O único que sei é que ela me trespassa,
me faz estremecer feito uma folha aflita
depois me desfaz e então me devassa.

Que sei eu da tua pele e das tuas pernas.
Comove-me só o fato de que sejam tuas
e eu não terei repouso nem a paz eterna
enquanto elas não forem minhas, nuas.

(traduzido do sueco por Luciano Dutra)

Hur kan jag säga om din röst är vacker.
Jag vet ju bara, att den genomtränger mig
och kommer mig att darra som ett löv
och trasar sönder mig och spränger mig.

Vad vet jag om din hud och dina lemmar.
Det bara skakar mig att de är dina,
så att för mig finns ingen sömn och vila,
tills de är mina.

§

NOITE DE SANTA VALBURGA

Enfim estou junto à montanha do destino.
Em volta, como nuvens de tempestade,
juntam-se seres informes, animais crepusculares,
com suas asas negras,
com seus olhos forsforados.
Paro? Ou ando? A senda segue, sombria.
Se paro pacificamente aqui no sopé da montanha,
ninguém mais me importuna.
E posso assistir serenamente seus embates como jogos nebulosos no ar,
mero olho desgarrado.
Porém se ando, se ando, aí já não sei de mais nada.
Pois para quem anda esses passos
a vida vira uma fábula.
Eu própria fogo,
hei de cavalgar nas serpentes bruxuleantes de fogo.
Eu própria vento,
hei de voar nas pandorgas aladas.
Eu própria o nada,
perdida na tempestade
hei também de me arrojar viva ou morta, feito um destino pesado de futuro.

(traduzido do sueco por Luciano Dutra)

VALBORGSNATT

Sent omsider står jag vid ödenas berg.
Runtomkring som ovädersmoln
skockar sig formlösa väsen, skymningsdjur,
svartvingade,
fosforögda.
Stannar jag? Går jag? Vägen ligger mörk.
Stannar jag fredlig här vid foten av berget,
då rör mig ingen.
Lugn kan jag se deras kamp som en dimmans lek i luften,
själv blott ett vilset öga.
Men går jag, går jag, då vet jag ingenting mer.
För den som tar de stegen
blir livet saga.
Själv eld
skall jag rida på ringlande eldormar.
Själv vind
skall jag flyga på vingade vinddrakar.
Själv intet,
själv förlorad i stormen
slungas jag död eller levande fram, ett öde framtidstungt.

* * *

OS TRÊS TRADUTORES

Fernanda Sarmatz Åkesson (n. 20 de maio de 1970, em Porto Alegre/RS) é bacharel em ciências jurídicas e sociais pela PUC/RS. Vive em Estocolmo desde 1999, onde completou seus estudos com  cursos de pedagogia e de português para estrangeiros. Trabalha como professora de português (língua materna e língua de herança). Já traduziu obras de ficção e não-ficção. Alguns dos autores traduzidos são: Astrid Lindgren, Peter Englund, David Lagercrantz, Pernilla Stalfelt, Christina Rickardsson. Casada com um sueco, tem uma filha e uma cachorra.

Leonardo Pinto Silva (n. 31 de dezembro de 1970 em Fortaleza/CE) é jornalista e tradutor, majoritariamente do norueguês. Aprendeu o idioma na Noruega, onde concluiu o ensino médio, e já traduziu, entre ficção e não-ficção, mais de trinta títulos de autores como Jostein Gaarder, Karl Ove Knausgård e Thor Heyerdahl, para diversas editoras brasileiras. Recentemente, teve publicado pelas editoras Carambaia (SP) e Moinhos (MG) peças de Henrik Ibsen, que serão encenadas em Porto Alegre pela diretora Camila Bauer, brasileira vencedora do Ibsen Awards 2017. Entre uma obra em prosa e outra, dedica-se à tradução de poesias dos idiomas escandinavos. Vive em São Paulo, é casado e tem dois filhos.

Luciano Dutra (n. 6 de novembro de 1973 em Viamão/RS) é bacharel em língua e literatura islandesa (2007) e mestrando em estudos de tradução pela Universidade da Islândia. Além de literatura islandesa e nórdica contemporânea, traduz as sagas, obras únicas de prosa de ficção compiladas na Idade Média por autores anônimos da Islândia. Em 2014, fundou em Reykjavík, onde vive desde 2002, a Sagarana forlag, editora multilíngue especializada na publicação de literatura em tradução entre as línguas nórdicas e o português. Mantém desde 2016 a página Um Poema Nórdico ao Dia (http://www.facebook.com/nordrsudr), que traz diariamente poemas de autores de todos os países nórdicos, a maioria deles até agora inéditos em português, sempre em tradução direta dos idiomas originais.

 

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Frank O’Hara (1926-1966), por Lucas Túlio

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Frank O’Hara (1926 – 1966) foi, entre outras coisas, um poeta norte-americano fundador do grupo Escola de Poetas de Nova Iorque (New York School of Poets) junto a John Ashbery, Kenneth Koch, James Schuyler e Barbara Guest. Nasceu em Baltimore, embora os anos mais produtivos de sua vida terem acontecido em Nova Iorque, onde a literatura, a música, a pintura e cinema convergiam em único ponto nos poemas de O’Hara. Por ser muito ativo na área das artes, na década de 60 Frank passou a ser um dos curadores do Museu de Arte Moderna de Nova Iorque. Para ele o poema deveria divertir. Dos poemas abaixo, dois são do livro Lunch Poems (1964) – o poeta usava o horário de almoço para caminhar pela cidade em busca de situações e temas para seus poemas. Apenas “Manhã” é de The Collected Poems of Frank O’Hara (1971). Morreu prematuramente, em decorrência de um atropelamento por um buggy em Fire Island. Foi levado ao hospital, mas morreu devido aos ferimentos.

Lucas Túlio

* * *

 

Ontem lá pra baixo no canal

Você diz que tudo é bem simples e interessante
isso me faz sentir muito melancólico, como ler um bom romance russo faz
estou terrivelmente entediado
às vezes é como ver um filme ruim
outros dias, com frequência, é como ter uma doença aguda nos rins
deus sabe que não tem nada a ver com o coração
nada a ver com pessoas mais interessantes que eu
blá blá
é um pensamento divertido
como uma pessoa pode ser mais divertida que si mesma
como alguém falha em ser
posso pegar emprestado sua quarenta e cinco
só preciso de uma bala de preferência prata
se não dá pra ser interessante ao menos dá pra ser uma lenda
(mas eu odeio toda essa merda)

Yesterday down at the canal

You say that everything is very simple and interesting
it makes me feel very wistful, like reading a great Russian novel does
i am terribly bored
sometimes it is like seeing a bad movie
other days, more often, it’s like having an acute disease of the kidney
god knows it has nothing to do with the heart
nothing to do with people more interesting than myself
yak yak
that’s an amusing thought
how can anyone be more amusing than oneself
how can anyone fail to be
can i borrow your forty-five
i only need one bullet preferably silver
if you can’t be interesting at least you can be a legend
(but i hate all that crap)

§

 

Manhã

Eu tenho que te dizer
como eu te amo sempre
penso nisso em manhãs
cinzas com a morte

em minha boca o chá
nunca está quente
o bastante nessa hora
o cigarro seco o roupão bordô

arrepia-me preciso de você
e olho para fora da janela
vendo a neve silenciosa

À noite na doca
os ônibus brilham como
nuvens e estou sozinho
pensando em flautas

sinto sua falta sempre
quando vou à praia
a areia molhada com
lágrimas que parecem minhas

embora eu nunca chore
e guarde você no meu
coração com um ânimo
tão sincero que te faria orgulhoso

o estacionamento está
lotado e eu estou parado
chacoalhando as chaves o carro
está vazio como uma bicicleta

o que você está fazendo
agora onde você comeu
no almoçou e tinham
muitas anchovas é

difícil pensar em você
sem mim na frase
você me deprime
quando está sozinho
noite passada as estrelas
eram numerosas e hoje
a neve é o cartão de visita
delas não serei cordial

não há nada que me
distraia a música é só
palavras cruzadas
você sabe como é
quando se é o único
passageiro se há algum
lugar mais distante de mim
imploro que não vá

Morning

I’ve got to tell you
how I love you always
I think of it on grey
mornings with death

in my mouth the tea
is never hot enough
then and the cigarette
dry the maroon robe

chills me I need you
and look out the window
at the noiseless snow

At night on the dock
the buses glow like
clouds and I am lonely
thinking of flutes

I miss you always
when I go to the beach
the sand is wet with
tears that seem mine

although I never weep
and hold you in my
heart with a very real
humor you’d be proud of

the parking lot is
crowded and I stand
rattling my keys the car
is empty as a bicycle

what are you doing now
where did you eat your
lunch and were there
lots of anchovies it

is difficult to think
of you without me in
the sentence you depress
me when you are alone

Last night the stars
were numerous and today
snow is their calling
card I’ll not be cordial

there is nothing that
distracts me music is
only a crossword puzzle
do you know how it is

when you are the only
passenger if there is a
place further from me
I beg you do not go

§

 

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poesia, tradução

Edna St. Vincent Millay, por Mariana Basílio

Edna St. Vincent Millay

Edna St. Vincent Millay (1892 – 1950) foi uma das mais conhecidas poetas americanas do século XX. Em vida, teve tanto da crítica literária quanto do público excelente receptividade – alguns críticos chegaram a comparar seus sonetos aos de William Shakespeare (1564 – 1616). Apesar de, por um longo período, ter sido pouco lembrada, com o passar das décadas, sua obra vem sendo mais divulgada. Seus primeiros livros são os mais conhecidos: Renascence and Other Poems (1917), A Few Figs from Thistles: Poems and Four Sonnets (1920), Second April (1921) e The Ballad of the Harp-Weaver (1922, ganhador do Prêmio Pulitzer).

Em relação à tradução, me organizei na poesia de Millay tentando uma equivalência harmônica entre os quesitos métrica, ritmo e rima, mas priorizando sobretudo o sentido e a sonoridade de seus versos no português, procurando não comprometer a vibe da poeta: tons crepusculares – repletos de ironia, amor, indagação – em pensamentos convexos entre sociedade e individualidade.

Não me esquecendo de dizer que, aos poucos, seu nome vem se mostrando mais presente no Brasil. Como disse certa vez Manuel Bandeira (1886 – 1968): “Nome fabuloso Edna St. Vincent Millay: é um verso, é uma maravilha! Quantas vezes me tenho surpreendido a repetir Edna St. Vincent Millay, Edna St. Vincent Millay, Edna St. Vincent Millay, como repito um verso de Villon ou de Racine ou de Mallarmé!” E assim, repito: Edna St. Vincent Millay, Edna St. Vincent Millay, Edna St. Vincent Millay!

 Mariana Basílio

*

 OBJEÇÃO DE CONSCIÊNCIA

Eu vou morrer, mas
isso é tudo o que farei pela Morte.
Eu a ouço tirar seu cavalo da baia;
Eu ouço pisadas no chão do celeiro.
Ela tem pressa; ela tem negócios em Cuba e
nos Bálcãs, muitas ligações a fazer na manhã.
Mas eu não vou segurar a rédea
enquanto ela ajusta a cilha.
Ela que monte sozinha:
não darei pé na subida.

Embora ela estrale meus ombros no chicote,
não direi a ela para onde a raposa correu.
Com os cascos em meu peito, não direi onde
o garoto negro se esconde no pântano.
Eu vou morrer, mas isso é tudo que farei pela Morte.
Eu não estou em sua folha de pagamentos.

Não direi a ela o paradeiro dos amigos,
nem o dos meus inimigos.
Ainda que ela me prometa muito,
não mapearei o endereço de ninguém.
Acaso sou uma espiã na terra dos vivos
para entregar pessoas à Morte?
Irmã, senha e as plantas de nossa cidade estão
seguras comigo; a depender de mim, nunca serás derrotada.

 

CONSCIENTIOUS OBJECTOR

I shall die, but
that is all that I shall do for Death.
I hear him leading his horse out of the stall;
I hear the clatter on the barn-floor.
He is in haste; he has business in Cuba,
business in the Balkans, many calls to make this morning.
But I will not hold the bridle
while he clinches the girth.
And he may mount by himself:
I will not give him a leg up.

Though he flick my shoulders with his whip,
I will not tell him which way the fox ran.
With his hoof on my breast, I will not tell him where
the black boy hides in the swamp.
I shall die, but that is all that I shall do for Death;
I am not on his pay-roll.

I will not tell him the whereabout of my friends
nor of my enemies either.
Though he promise me much,
I will not map him the route to any man’s door.
Am I a spy in the land of the living,
that I should deliver men to Death?
Brother, the password and the plans of our city
are safe with me; never through me shall you be overcome.

§

 PRIMAVERA

Por qual propósito, Abril, de novo retornas?
A Beleza não é suficiente.
Não podes me acalmar com a vermelhidão
Das folhinhas unidas se abrindo.
Eu sei o que sei.
O sol queima a nuca quando observo
Os espinhos do croco.
O cheiro de terra é bom.
É aparente que não há a morte.
Mas o que isso significa?
Não apenas sob a terra os cérebros
São comidos por vermes.
A vida em si
Não é nada,
Uma taça vazia, lance de escadas sem tapetes.
Não basta todo ano, descendo o morro,
Abril
Chegar como um tolo, balbuciando e espalhando flores.

 

SPRING

To what purpose, April, do you return again?
Beauty is not enough.
You can no longer quiet me with the redness
Of little leaves opening stickily.
I know what I know.
The sun is hot on my neck as I observe
The spikes of the crocus.
The smell of the earth is good.
It is apparent that there is no death.
But what does that signify?
Not only under ground are the brains of men
Eaten by maggots.
Life in itself
Is nothing,
An empty cup, a flight of uncarpeted stairs.
It is not enough that yearly, down this hill,
April
Comes like an idiot, babbling and strewing flowers.

§

TARDE NA COLINA

Vou ser o que é mais alegre
Sob este sol!
Vou tocar cem flores sem
Colher uma só.

Vou olhar com calma as nuvens
E os montes, ver
A grama curvando ao vento,
Vê-la crescer.

Quando as luzes da cidade
Forem se erguendo,
Vou marcar qual é a minha,
E vou descendo!

 

AFTERNOON ON A HILL

I will be the gladdest thing
Under the sun!
I will touch a hundred flowers
And not pick one.

I will look at cliffs and clouds
With quiet eyes,
Watch the wind bow down the grass,
And the grass rise.

And when lights begin to show
Up from the town,
I will mark which must be mine,
And then start down!

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*

MARIANA BASÍLIO (1989) é poeta. Autora de Nepente (Giostri, 2015) e Sombras & Luzes (Penalux, 2016), atualmente versa Megalômana, e Tríptico Vital (3º lugar ProAC, 2016). Tem poemas em revistas do Brasil e de Portugal, como alagunas, Diversos Afins,Garupa, Germina, InComunidade, mallarmargens, Odara,Raimundo, entre outras. Já apareceu aqui na escamandro com poemas e traduções de Denise Levertov.
Contato: http://www.marianabasilio.com.br

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Guilherme Bernardes (1993-)

 

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Guilherme Bernardes nasceu em Curitiba (1993). Terminou o curso de Letras Português/Latim com ênfase em estudos da tradução em 2017. Em 2018 começa seu mestrado sobre a obra do poeta norte-irlandês Paul Muldoon, em que também organizará uma seleção de poemas traduzidos. Faz parte do grupo de tradução e(m) performance Pecora Loca. Seu primeiro livro, de contos, O óbvio nosso de cada dia nos trai hoje, foi lançado pela editora Dybbuk em 2016. Publica esporadicamente no blog reconceber.wordpress.com.

* * *

 

damien hirst: a impossibilidade física da morte na mente de alguém que vive

mas e se pelo menos por enquanto
fosse possível que considerássemos
o fim. fizéssemos dele o poder
pra que pudéssemos dar novo início.
ou mesmo imaginássemos o sempre
eterno e ínfimo mundo sem volta

e que, pra cada um a nossa volta,
será o mesmo nada. porém, quanto
êxito. precisaríamos sempre
estar prontos pra que considerássemos
a possibilidade de outro início.
mas pena que querer não é poder.

ainda acreditamos que o poder
inevitavelmente está de volta
se repetindo porque lá no início
viu-se o sol nascer e se pôr. em quanto
tempo pra que nós já considerássemos
seguro confiar nisso pra sempre.

nada garante que será pra sempre.
e nem que fosse um ser todo poder-
oso, impossível que considerássemos
seriamente o fim. ele sempre volta.
e todos dispostos a porem quanto
fosse preciso, para o novo início,

da própria vida. porque desde o início
é assim. a mesma coisa de sempre.
que vida conseguimos pôr enquanto
sentimos total falta de poder.
a vida fica totalmente envolta
num ciclo. por mais que considerássemos

que, se de fato não considerássemos
o fim como apenas fim, mas início
também, talvez já não fizesse a volta
e mudasse. dessa vez para sempre.
e agora. então finalmente poder-
íamos terminar. mas por enquanto

não há fim. sempre há fins. e tudo volta
como considerássemos o início
a fonte do poder do por enquanto.

§

 

necesse est multos timeat quem multi timent

ele tinha de epíteto temido (
o que era mais do que justificado).
não se viu ninguém sentado a seu lado

que não sentisse falta de um abrigo,
assim que possível, vendo o temido

semblante e nele inevitável fado;
a cada gesto dele um novo estado

de pânico, de não ter existido.
até que em tantos o temor crescia
tanto que ele jamais previra os danos.

apenas viu a multidão na via
não vendo nele mais um ser humano.

videntes, realizando a profecia
de que temê-lo havia sido engano.

§

 

hen panta einai

numa palavra dizer
o começo
e o fim; o que é depois e o
que vem antes;
de modo igual marcar a dois
instantes
e em ambos poder ver
desgraça e apreço; é como
uma mudança de endereço;
a mesma ação, motivos
conflitantes; perder; ganhar; questões
irrelevantes;
quem vai saber se é
impulso ou se é
tropeço
vai ser apenas aquele
que passa; se
a lágrima vem por dor
ou deleite; se o ciclo
do sol é
bom ou desgraça
qualquer chance de que alguém
aproveite tudo da vida enquanto
ela esfumaça;
se é o duplo
sentido entre útil e
enfeite;

§

 

a vida nunca é simples nesse frio

I
a vida nunca é simples nesse frio.
há tanto tempo tudo se embaralha
que o estado natural é o arrepio.

tem vezes que eu nem penso em dar um pio
e tudo se transforma em represália.
a vida nunca é simples nesse frio.

bem mais do que a temperatura hostil,
odeio ouvir dos outros, feito gralha,
que o estado natural é o arrepio.

discordo totalmente do meu tio:
o mundo sempre insiste em ser canalha;
a vida nunca. é simples: nesse frio

eterno e que não dá lugar pro estio,
qual fim pior (que encolhe a genitália)
que o estado natural? é o arrepio

final, já quando o brilho é fugidio
dos olhos, que usarei tal qual mortalha.
a vida nunca é simples nesse frio
que o estado natural é o arrepio.

II
a vida nunca é simples nesse frio.
sair da cama é sempre uma batalha.
mas sempre penso em algo mais sombrio:

tem tanta coisa estranha nesse rio,
tem tanta coisa presa nessa calha,
a vida nunca é simples nesse frio.

não acho raro estar entre o vazio
de um jeito tal que só o vazio se espalha,
mas sempre penso em algo mais sombrio.

os planos de escapar são mais de mil.
mas tudo do que eu tento sempre falha.
a vida nunca é simples. nesse frio

precisa-se de um modo mais sutil
na hora de lidar com a migalha.
mas sempre penso em algo, mais sombrio,

talvez o cheiro azedo, quem sentiu
se lembra, da carniça na navalha.
a vida nunca é simples nesse frio,
mas sempre penso em algo mais sombrio.

§

 

mnemosine

“protect me from what i want”
— jenny holzer

eu vou fazer de tudo que eu puder
pra sempre ter comigo essa lembrança
tua. pra sempre ter comigo alguma
fotografia nossa. como prova
de comprometimento a essa promessa,
te escrevo. quem sabe a tua memória,

ouvindo o que lembra a minha memória,
também se aguce e lembre. se não der
certo, acho que ainda vale a promessa
do início. se ainda houver a lembrança
do que ela era. se alguém desaprova
essa insistência, nós, de forma alguma,

temos motivo pra alarde ou alguma
preocupação. o que conta é a memória.
mesmo que falsa, ela ainda comprova,
no mínimo, um desejo de algum der-
radeiro momento de ser lembrança.
aquilo que eu prometo eu cumpro. meça

muito cuidadosamente a promessa
primeiro, pois não quero ouvir alguma
desculpa esfarrapada. essa lembrança
persiste grudada em minha memória:
nós, deitados na cama, ouvindo there
is a light that never goes out e prova-

ndo que sim, há, depois daquela prova
que a gente estudou tanto, na promessa
de irmos bem, mas que, mesmo assim, nos der-
rubou, e você foi buscar alguma
coisa pra beber. perder a memória
era o plano. extinguir toda lembrança

de que sequer já houve antes lembrança.
funcionou? pra mim, isso apenas prova
que não. não é possível que a memória
desse dia suma. embora a promessa
tenha sido essa. ainda que alguma
luz, de fato, se apague, se eu puder

quebro a promessa. quero essa memória.
prefiro a lembrança como uma prova
de que alguma parte vai transcender.

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poesia

Assionara Souza

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Assionara Souza. Escritora, nascida em Caicó/RN e radicada em Curitiba/PR. Formada em Estudos Literários pela Universidade Federal do Paraná, é pesquisadora da obra de Osman Lins (1924-1978). Autora dos volumes de contos Cecília não é um cachimbo (2005), Amanhã. Com sorvete! (2010), Os hábitos e os monges (2011), Na rua: a caminho do circo (2014) —contemplado com a Bolsa Petrobras, 2014; e Alquimista na chuva (poesia, 2017). Sua obra tem sido publicada no México pela editora Calygramma. Participa do coletivo Escritoras Suicidas. Idealizou e coordenou o projeto Translações: literatura em trânsito [antologia de autores paranaenses: http://www.literaturaemtransito.com]. Estreou na dramaturgia escrevendo a peça Das mulheres de antes (2016), para a Inominável Companhia de Teatro.

*

Espelho meu

Estávamos na sala eu e minha mãe
[Agora é que percebo que ela manteve os cabelos longos
Somente até aquele dia]
Eu lia a história de Branca de Neve
Virando as páginas assim que as personagens do
Disquinho azul alcançavam a última linha
— Terminar de ouvir me antecipava a vontade de ouvir de novo —
Mal sabia que alimentava naquele gesto
O pequeno monstro do desejo incontrolável
Minha mãe fazia acabamentos na bainha de uma saia xadrez
O carro parou na frente de casa com uma freada brusca
Olhamo-nos com a mudez sincera dos que sabem que
As cenas do próximo capítulo vêm para abalar o coração
Bateram palmas lá fora
Ela largou a costura
Eu desliguei o disquinho
E toda a paz de nossas tardes
Foi varrida pelo vendaval da notícia que o homem trouxe
Sempre que ouço a história de Branca de Neve
Esbarro naquele ponto em que o caçador
Arranca o coração de um cervo

§

 

Para todos os efeitos, estamos felizes
Não vamos considerar
O tempo que perdemos no trânsito ou ao telefone
Tentando reconduzir a vida
Aos trilhos onde o carrinho desliza sem trancos ou sustos
É preciso confiar na eficácia da ciência
Quando os cientistas saem tarde da noite dos centros de pesquisa
Uma barata os espia roendo os resíduos das drogas que caem das mesas de trabalho
E o psiquiatra jamais adormeceria sem a pílula milagrosa que despluga pensamentos
O que importa de fato é o investimento e a publicidade
De que um mundo admirável está prestes a surgir

Para todos os efeitos, as novas marcas de café e cerveja têm dado um novo alento
Ao homem médio e sem tempo para se dedicar à
Eficiência misteriosa dos clitóris do mundo
É suficiente o uso de poucas palavras em situações burocráticas
Deixando o excesso para a solidão das páginas virtuais
E o amor, o amor, o amor…
Por favor, aguarde na linha e logo mais o atenderemos
Para todos os efeitos, o jazz e a música clássica escorrerão pelos seus ouvidos
Até que a moça do telemarketing com sua voz provinda de insuspeitos grotões
Transgrida a maciez semântica de humanidade própria da frase:
“Bom dia, em que posso ajudar?”

§

 

A Mulher de Lot

Um passo atrás
Enquanto a cidade desaba
Todos correndo
Um tumulto dos diabos
O filho, a filha, o marido
A vizinha da frente — com quem o infeliz tem fornicado
Há mais de cinco anos embaixo de seu nariz
Como se ela não soubesse
Como se ela não tivesse visto de tudo nessa vida
Ele perguntando se a camisa vermelha
— Aquela com um só bolso no lado direito?
— Sim. Essa mesma.
Se a camisa vermelha não estava limpa e bem passada
E o filho indo no mesmo caminho
Tratando-a feito lixo
— A mãe não sabe pronunciar a palavra “estultícia”. Tenta, mãe!
Estúpidos todos
Até a filha, que ela tanto ensinou
Agora andava com um centurião
Um centurião!
Maior desgosto para uma mãe
E depois dessa correria toda
Quando arrumassem pouso
Adivinhem quem prepararia o jantar?
Não teve a menor dúvida
Mirou a cidade em chamas
Uma sensação incrível
Deixar de ser uma mulher de pedra
Seu corpo inteiro puro sal rebrilhando ao sol

***

 

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