crítica, xanto

XANTO | O poema na era do feed, por Rafael Zacca

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e tiramos uma selfie em plena crise do verso
Thadeu C Santxs

 

Depois da crise do verso, a crise da selfie. Com isso se diz muito e nada. Melhor seria dizer: com a crise do verso, a crise da selfie. Quem segura o livro de Luiz Guilherme Barbosa que a editora kza1 publicou recentemente em quatro volumes, sob o título de Postagens e antipostagens, percebe isso de muitas formas. No primeiro volume, por exemplo, chamado “bss-nv” um novo balanço (e arquivo – o próprio título poderia ser o nome de uma gaveta entre muitas) da Bossa Nova. O texto que abre o fascículo, “Desafinado”, traz a canção de Tom Jobim e Newton Mendonça totalmente privada de suas vogais.

 

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pss pns q ds m d

 

A ausência das vogais é também a ausência da voz que também assina a forma mais famosa da canção, a de João Gilberto, que desde o primeiro Balanço da Bossa, de Augusto de Campos, é aclamada como voz-instrumento, e também, de certa forma, como voz-escritura, a partir de seu canto silabado. Ao remover da canção as suas vogais – isto é, aquilo que representa a passagem de ar e que permite a expressividade de quem fala, em conjunto com a modulação das consoantes – o jogo propõe uma crise da própria canção “Desafinado”, que perde a sua identidade. E, no entanto, justamente graças à supressão das vogais, essa identidade é reforçada, uma vez que a performance de João Gilberto é mais garantida pela modulação da voz que pela identificação da voz, isto é, trata-se de uma voz muito mais consonantal que vogal. Dessa forma, o poema “Desafinado” de Luiz Guilherme pode tanto ser lido como uma teoria sobre a voz de João Gilberto quanto ser visto como um conjunto de selfies do músico, repousando no completo silêncio das fotografias.

Com a crise do verso, a crise da selfie. Também é disso que se trata o poema “Rotina diária de cuidados para o rosto”, que figura no segundo volume, chamado “Tutorial de carão”. O poema é divido em estrofes de versos que são acompanhados por emoticons de rosto disponíveis em aplicativos de conversa. Um unicórnio, um alienígena, um robô, um smile que pisca e engole dinheiro, um fantasma, um smile com um zíper na boca e um rosto de rapaz triste e cabisbaixo acompanham, respectivamente, as seguintes estrofes (omito aqui somente a última):

 

quando eu acordo
antes da hora fico
com medo que esteja
faltando uma parte
do meu rosto

um olho a menos ou
mesmo um buraco onde
havia bochechas
a falta da testa

isso já me aconteceu

procuro evitar para
manter o emprego

embora fosse fácil
matar alguém
para roubar o rosto
e completar o meu

eu não quero
atrapalhar a vida
das pessoas

 

Sociabilidade atrofiada e modos de sociabilidade expandidos fundem-se em uma proporção invertida. O poema, uma brincadeira entre a selfie e o self, revela um ponto importante na história dos meios expressivos. Cada vez que é inventada uma nova mídia, a coletividade humana ganha uma nova camada no seu inconsciente coletivo. Não tanto porque cada nova mídia seja essa nova camada, mas sim porque cada invenção midiática corresponde a um trauma. Desde a voz, a história dos médiuns da linguagem é uma sucessão de eventos diante dos quais temos pouca estrutura para suportar. Ou melhor, desde então uma série infinita de cisões nos define mais que uma suposta unidade. Daí que às vezes caiba à arte o papel de elaborar esses novos meios. Se Viktor Chklovsky estava certo, quando definiu arte como um procedimento que prolonga o nosso estranhamento diante da realidade, é também verdade que ela nos possibilita um tempo longo para lidar com esses traumas.

Também é estranho como vêm dos artistas duas posturas básicas reativas aos novos meios: a rejeição pura e simplesmente do novo meio ambiente como um meio decaído, quando não vulgar, que não está à altura da arte; ou rejeição disfarçada de acolhimento, quando há um reconhecimento da novidade como análogo a um meio anterior. Foi assim, por exemplo, com a fotografia, cuja origem está marcada pelo debate entre aqueles que a odiaram como a um demônio, e aqueles que saudaram a sua qualidade artística adaptando ferramentas de outras formas (como a pintura e o desenho) à sua.

Com a internet, na era dos mecanismos de pesquisa em websites, o inconsciente coletivo conquistou a sua própria realidade dialética, isto é, cindida, reduzida a uma série de possibilidades de 0 ou 1 no grande histórico da navegação mundial. Esse inconsciente, em constante contato com o supereu social, produziu diversas auto-avaliações. Ao pesquisar no Google a frase “a internet nos torna”, a filtragem nos mostra frases como: “a internet nos torna mais inteligentes”; “a internet nos torna burros”; “será que a internet nos torna estúpidos?”; “a internet nos torna mais felizes”; “a internet nos torna menos humanos”; “a internet nos torna uma sociedade mais integrada”, e assim por diante [1].

Não demora também para que esse julgamento recaia sobre a poesia que se mistura com o meio e com os hábitos virtuais. Entre elogios e maldizeres, distinguimos muito mal o que se passa. Recentemente um poeta sudestino declarou publicamente (em uma rede social…) o seu ressentimento diante de poemas que, segundo ele, se utilizavam diretamente da linguagem da internet e dos memes, com frases feitas, de modo a “facilitar” o jogo para o leitor. Indicava ainda a sua indignação contra a poesia “politicamente correta”, identificando facilidade na comunicação (ou discursividade), engajamento, senso de humor, leviandade e internet. Herdeiro direto de Iumna Maria Simon e do ensaio que em muito contribui para o desentendimento da poesia contemporânea e que a pesquisadora intitulou “Poesia ruim, sociedade pior”, já que ambos os textos, a postagem e o artigo, se insurgem contra certa transa (e gozo) da poesia (Iumna contra o gozo da curtição dos poetas “marginais”; o poeta sudestino, contra o gozo virtual) [2].

Contra essa postura reativa, poetas contemporâneos têm se dedicado a experimentar os novos meios expressivos, permitindo a contaminação de seus textos. Recentemente, em 2016, Carlito Azevedo alterou a rota de sua produção incorporando elementos de seu feed de notícias no Facebook a boa parte do seu Livro das Postagens. As postagens se acumulam ao longo de um grande e único poema, que passeia entre elas com mesma a força lírica com que os poetas passearam, nos séculos passados, pelas ruas. Referências literárias e lembranças de posts são nivelados no poema e atravessam a enunciação como as notificações de novos e diferentes eventos virtuais atravessam indistintamente o dia do usuário da rede social. E dois anos antes, ainda, Alberto Pucheu, o mesmo poeta dos “arranjos” (poemas construídos com vozes alheias, colhidas de ouvido ou em arquivo) afirmou que incorporou ao seu cotidiano de trabalho o costume de escrever poemas diretamente no Facebook, motivo pelo qual passaria a chamar alguns desses textos de “postemas”.

Seria preciso que alguém não apenas inventariasse, como também arriscasse alguma especulação sobre os diferentes modos de interação da poesia com a postagem. Esse estudo deveria tipificar alguns procedimentos, pelo menos metodologicamente, como por exemplo: os poemas que surgem primeiro (isto é, antes de figurar em revistas ou livros) como posts de Facebook (em poetas como Pucheu, Tarso de Melo, Tatiana Pequeno, Bruna Mitrano) e são contaminados por esse meio; os que trabalham com a digitação de emojis (como alguns de Luiz Guilherme, Rob Packer – há, aliás, um interessante estudo de Tomaz Amorim sobre “Comunicação na era do emoji” [clique aqui] na revista Forum); os que aproveitam, ironizam ou satirizam formas comunicativas virtuais (como um soneto recente de Guilherme Gontijo Flores); os que operam dentro da / com a forma da postagem, etc.

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Um trabalho radical, neste último sentido, é o de Thadeu C. Santxs, que, também pela kza1 (Thadeu integra o corpo editorial), publicou “nossa arte é postar” (clique aqui), um livreto que pergunta a si mesmo: “isto é um post?” Tem o tom dos manifestos, e não à toa. Segundo o texto que introduz “nossa arte é postar”: “na nossa arte é postar, / nossa crítica é sobre postar // nossa crítica é sobre // repetir para os posts / as mesmas perguntas // que são repetidas / para a arte”. Trata-se de um programa. E, é claro, de uma via de mão dupla. Com tal programa, Thadeu esconde uma forte especulação sobre a poesia: devolver à poesia as mesmas perguntas que são repetidas para a internet. Como se pudéssemos pesquisar/especular no Google: “a poesia nos torna mais inteligentes”; “a poesia nos torna burros”; “será que a poesia nos torna estúpidos?”; “a poesia nos torna mais felizes”; “a poesia nos torna menos humanos”; “a poesia nos torna uma sociedade mais integrada”, e assim por diante.

Há, nisso tudo, uma energia de gozo com o virtual. Os livros de Luiz Guilherme Barbosa e de Thadeu C. Santxs são fruto de um prazer jovem com a internet. No caso de Luiz Guilherme, isso talvez tenha relação com os fatos de que o poeta co-articula a Oficina Experimental de Poesia e organiza uma oficina literária com alunos seus do Colégio Pedro II do Rio de Janeiro, em Realengo. Muito provavelmente a jovialidade e capacidade experimental se encontram unidas na sua sociabilidade de oficina com alunos, já que se trata não apenas de um convívio, como também prática de compartilhamento de leituras e de processos produtivos com uma geração que já nasceu fraturada pela internet. Não é à toa que alguns de seus poemas têm mesmo uma estrutura que, a um só tempo, se nutre de força jovem, da estrutura de mecanismos de pesquisa virtual, do humor e da repetição:

 

rua que se tem a opção de andar
ruim que se tem a opção de ser
nude que se tem a opção de mandar
rir que se tem a opção de fazer
treta que se tem a opção de postar
cu que se tem a opção de lamber
letra que se tem a opção de tatuar
sílaba que se tem a opção de comer

 

Em uma sociedade dominada pela repressão, a forma social predominante do desejo é o sonho coletivo. Nada mais próximo disso do que a adolescência. Sobre essa proximidade, disse Walter Benjamin: “A criança é capaz de fazer algo que o adulto não consegue: rememorar o novo. (…) Nossas crianças perceberão o caráter simbólico dos automóveis, dos quais nós vemos apenas o lado novo, elegante, moderno, atrevido. (…) A cada formação verdadeiramente nova da natureza – e no fundo também a técnica é uma delas – correspondem novas ‘imagens’. Cada infância descobre estas novas imagens para incorporá-las ao patrimônio de imagens da humanidade.” São também essas imagens que os adolescentes, mais tarde, irão justapor ao seu objeto de desejo. Por isso também seriam documentos como esses que deveriam ser apresentados a historiadores que quisessem compreender tanto as forças repressivas quanto forças desejantes próprias de nossa época. “Postagens e antipostagens” integra uma espécie de “feed” secreto, que se alimenta do que ainda podemos ser com isso tudo. Ao invés de rejeitar os produtos de nosso tempo, arquiteta formas de gozar, como um adolescente que procura o melhor lugar para pixar a própria escola, ao invés de abandoná-la. Ou como um que a ocupa.

 

NOTAS

[1] Nesse sentido, vale a pena considerar como “pré-história” da poesia na era do feed poemas que experimentam a linguagem a partir dos mecanismos de pesquisa virtual, como é o caso em poetas como Angélica Freitas (e os seus “3 poemas com auxílio do Google”) e Érica Zingano (com “Histórico / para solicitar uma placa / ontem / terça-feira, 31 de maio de 2016”).

[2] O que une os dois artigos é a empreitada contra a alienação – embora Iumna certamente não coloque em sua própria equação a variável do engajamento. Ambos atacam a tentativa de comunicação direta com o leitor, identificada como facilitação do discurso e poesia pobre.

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poesia

1ns inéditos de Diego Vinhas

vinhas

Diego Vinhas (1980-) nasceu em Fortaleza, é graduado em Direito pela UFC e trabalha como defensor público. Tem poemas publicados em revistas como Inimigo Rumor, Sibila, Modo de Usar & Co., Zunái, Jandira, Oroboro, Gueto, Dirty Goat (EUA), dentre outras. Participou de algumas antologias, tais como Todo Começo é Involuntário (Lumme), Antologia de Poesia Brasileira do Início do Treceiro Milénio (Exodus, Portugal), Roteiro da Poesia Brasileira – anos 2000 (Global), Poesia do Dia (Ática) e Tigertail, A South Florida Poetry Annual, Volume VI, Brazil Edition (Tigertail, EUA). Também colabora com publicações independentes voltadas ao heavy metal extremo, como a Lucifer Rising (SP). Foi um dos editores da revista Gazua e publicou os livros de poemas Primeiro as Coisas Morrem (2004) e Nenhum Nome Onde Morar (2014), ambos pela editora 7Letras (RJ), o segundo contemplado com uma Bolsa FUNARTE de Criação Literária. Os poemas aqui reunidos são inéditos e integram o livro Corvos Contra a Noite, no prelo.

*

TEORIA DAS CORDAS

no fim as unidades mínimas da matéria
não seriam pontos sem dimensão (partículas) mas
objetos extensos (filamentos) unidimensionais
semelhantes a uma corda

e a vibração de cada corda em diferentes
frequências originaria as diferentes partículas
como todos os sons possíveis
que se arranca das mesmas cordas
de um violão

por unir as teorias quântica e da relatividade
em uma só estrutura matemática ela
poderia ser uma teoria de tudo

onde qualquer traço de matéria é
no fim por assim dizer
uma dança (também os sulcos no pescoço a xícara
de café de estimação o banco improvisado
os nós de outra corda onde o corpo há pouco
(só aparentemente) parou de vibrar)

§

SENTINELA

o inimigo (o encanto
do inimigo), em
suas muitas línguas,
mira a criança
que desperta após
o homem-do-saco
visitar um pesadelo
e vê no quarto o
escuro multiplicado
em fractais de medo.
sempre perto o bastante
o inimigo ao sorrir
se arma com a gentil
promessa de antídotos
contra o fim. mas (se
toda mãe é uma gárgula
na torre, vigiando a
cria) eu te protejo e
esta luz não te alcança
(o vácuo seguirá a
pulsar no boneco
amputado, a rua como
palco da vida nua), nas
horas de espera, na
cicatriz dentro dos dias,
quero meu filho livre
das garras da esperança

§

MOTOR

entrepernas

sangue em torrente
desde o primeiro parto
na caverna
ou a primeira vez em
que um corpo foi
posse de outro
a pedradas.
o mesmo que escorre
das coxas e pinga
no mapa-múndi
até que as nódoas
formem também
mares golfos
países.
os homens com
as mãos sujas
ensinando meninos
a se sujar sozinhos
para um dia uma
veia no pescoço
dilatada de ódio
invocar a lição
(“abscense of war does
not mean peace”)
e mais um corpo
na estatística
pôr em marcha
o circuito vermelho
em torrente mesmo

entreguerras

§

DIES IRAE

 quando o fundo sobe à superfície o rosto
humano se decompõe neste espelho
(G. Delleuze, sobre pintura de F.Bacon)

sem sintomas prévios
ou estalos de engrenagem
no minuto-agora
a mão rui no contato bruto
com uma têmpora um maxilar
o tempo de espera o discurso
da servidão voluntária revogados
no estampido
do punho fechado
contra (o que a dor pressupõe
ser) um osso
em trânsito
na carne semovente
dançarina
como se de argila e tendões
e pancada
após pancada
atestar
não sem certa beleza
que dentes podem ser
irritante & improvável
& incrivelmente
resistentes

§

PRESENTE

de um tempo
esticado
como braços e pernas no cavalete de tortura
esperando o romper das articulações

na rua
alguma latência bruta
que se tenta ocupar à força

a repetir os nomes

P.S.A.N. , 47, líder comunitário – presente
F.G.P. dos S., 36, quilombola – presente
C. dos S. M.,40, sindicalista – presente
A. D. de S., 43, pedreiro – presente
M.F., 38, vereadora e feminista – presente

as mortes
únicas e iguais

presente

desse tempo esticado

ontem               amanhã

hoje

não sei

 §

  LEI DO ABATE

 tem que ter lei.
tem que bater mesmo.
tem que parar com isso.
tem que se dar ao respeito.
tem que virar comida de peixe.
tem que levar pra casa se tem dó.
tem que defender quem é de família.
tem que insistir que no fundo ela quer.
tem que ver que com essa roupa tá pedindo.
tem que acabar com direito de vagabundo.
tem que deixar claro quem é que manda.
tem que trancar e jogar a chave fora.
tem que honrar a palavra de deus.
tem que dar o recado bem dado.
tem que enfiar a mão toda.
tem que mirar na cara.
tem que matar.

§

COMANDO

não basta a emboscada
o curso encarnado
despovoando nariz e boca
os nove orifícios na lataria
o corpo que uma vez sem vida
agora se chama corpo.

ainda há que se alvejar o nome
a sua história e qualquer
semente: se algum ex
era alguém também matável,
se de outro vizinho ainda a teima
em arder um olhar sem submissão
antes da próxima coronhada na testa
ou queima de arquivo
recomeçar o ciclo – não,

a palavra precisa necrosar (

o medo de nascença e
o medo empírico
em surto de silêncio

) a 70 x 7 palmos do chão

porque não é via nem território
nem sistema nem lua nem bandeira
nem sinal nem senha nem gesto
nem sentido nem poder nem dia

de perdão

***

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