poesia

1ns inéditos de Diego Vinhas

vinhas

Diego Vinhas (1980-) nasceu em Fortaleza, é graduado em Direito pela UFC e trabalha como defensor público. Tem poemas publicados em revistas como Inimigo Rumor, Sibila, Modo de Usar & Co., Zunái, Jandira, Oroboro, Gueto, Dirty Goat (EUA), dentre outras. Participou de algumas antologias, tais como Todo Começo é Involuntário (Lumme), Antologia de Poesia Brasileira do Início do Treceiro Milénio (Exodus, Portugal), Roteiro da Poesia Brasileira – anos 2000 (Global), Poesia do Dia (Ática) e Tigertail, A South Florida Poetry Annual, Volume VI, Brazil Edition (Tigertail, EUA). Também colabora com publicações independentes voltadas ao heavy metal extremo, como a Lucifer Rising (SP). Foi um dos editores da revista Gazua e publicou os livros de poemas Primeiro as Coisas Morrem (2004) e Nenhum Nome Onde Morar (2014), ambos pela editora 7Letras (RJ), o segundo contemplado com uma Bolsa FUNARTE de Criação Literária. Os poemas aqui reunidos são inéditos e integram o livro Corvos Contra a Noite, no prelo.

*

TEORIA DAS CORDAS

no fim as unidades mínimas da matéria
não seriam pontos sem dimensão (partículas) mas
objetos extensos (filamentos) unidimensionais
semelhantes a uma corda

e a vibração de cada corda em diferentes
frequências originaria as diferentes partículas
como todos os sons possíveis
que se arranca das mesmas cordas
de um violão

por unir as teorias quântica e da relatividade
em uma só estrutura matemática ela
poderia ser uma teoria de tudo

onde qualquer traço de matéria é
no fim por assim dizer
uma dança (também os sulcos no pescoço a xícara
de café de estimação o banco improvisado
os nós de outra corda onde o corpo há pouco
(só aparentemente) parou de vibrar)

§

SENTINELA

o inimigo (o encanto
do inimigo), em
suas muitas línguas,
mira a criança
que desperta após
o homem-do-saco
visitar um pesadelo
e vê no quarto o
escuro multiplicado
em fractais de medo.
sempre perto o bastante
o inimigo ao sorrir
se arma com a gentil
promessa de antídotos
contra o fim. mas (se
toda mãe é uma gárgula
na torre, vigiando a
cria) eu te protejo e
esta luz não te alcança
(o vácuo seguirá a
pulsar no boneco
amputado, a rua como
palco da vida nua), nas
horas de espera, na
cicatriz dentro dos dias,
quero meu filho livre
das garras da esperança

§

MOTOR

entrepernas

sangue em torrente
desde o primeiro parto
na caverna
ou a primeira vez em
que um corpo foi
posse de outro
a pedradas.
o mesmo que escorre
das coxas e pinga
no mapa-múndi
até que as nódoas
formem também
mares golfos
países.
os homens com
as mãos sujas
ensinando meninos
a se sujar sozinhos
para um dia uma
veia no pescoço
dilatada de ódio
invocar a lição
(“abscense of war does
not mean peace”)
e mais um corpo
na estatística
pôr em marcha
o circuito vermelho
em torrente mesmo

entreguerras

§

DIES IRAE

 quando o fundo sobe à superfície o rosto
humano se decompõe neste espelho
(G. Delleuze, sobre pintura de F.Bacon)

sem sintomas prévios
ou estalos de engrenagem
no minuto-agora
a mão rui no contato bruto
com uma têmpora um maxilar
o tempo de espera o discurso
da servidão voluntária revogados
no estampido
do punho fechado
contra (o que a dor pressupõe
ser) um osso
em trânsito
na carne semovente
dançarina
como se de argila e tendões
e pancada
após pancada
atestar
não sem certa beleza
que dentes podem ser
irritante & improvável
& incrivelmente
resistentes

§

PRESENTE

de um tempo
esticado
como braços e pernas no cavalete de tortura
esperando o romper das articulações

na rua
alguma latência bruta
que se tenta ocupar à força

a repetir os nomes

P.S.A.N. , 47, líder comunitário – presente
F.G.P. dos S., 36, quilombola – presente
C. dos S. M.,40, sindicalista – presente
A. D. de S., 43, pedreiro – presente
M.F., 38, vereadora e feminista – presente

as mortes
únicas e iguais

presente

desse tempo esticado

ontem               amanhã

hoje

não sei

 §

  LEI DO ABATE

 tem que ter lei.
tem que bater mesmo.
tem que parar com isso.
tem que se dar ao respeito.
tem que virar comida de peixe.
tem que levar pra casa se tem dó.
tem que defender quem é de família.
tem que insistir que no fundo ela quer.
tem que ver que com essa roupa tá pedindo.
tem que acabar com direito de vagabundo.
tem que deixar claro quem é que manda.
tem que trancar e jogar a chave fora.
tem que honrar a palavra de deus.
tem que dar o recado bem dado.
tem que enfiar a mão toda.
tem que mirar na cara.
tem que matar.

§

COMANDO

não basta a emboscada
o curso encarnado
despovoando nariz e boca
os nove orifícios na lataria
o corpo que uma vez sem vida
agora se chama corpo.

ainda há que se alvejar o nome
a sua história e qualquer
semente: se algum ex
era alguém também matável,
se de outro vizinho ainda a teima
em arder um olhar sem submissão
antes da próxima coronhada na testa
ou queima de arquivo
recomeçar o ciclo – não,

a palavra precisa necrosar (

o medo de nascença e
o medo empírico
em surto de silêncio

) a 70 x 7 palmos do chão

porque não é via nem território
nem sistema nem lua nem bandeira
nem sinal nem senha nem gesto
nem sentido nem poder nem dia

de perdão

***

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2 comentários sobre “1ns inéditos de Diego Vinhas

  1. Bruno Soares dos Santos disse:

    Achei o trabalho do Diego sensacional! escrita fluida, rápida, irônica e contagiante, quando parece que o rumo vai se perder, se encontra naturalmente, seu lirismo é acessível e suas referências diversas nos levam a universos distintos em poucos instantes.

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