poesia, tradução

Hilde Domin, por Valeska Brinkmann

Hilde Domin (1909 – 2006) foi uma poetisa alemã de grande importância. Filha de judeus, depois de morar na Italia imigrou em 1932 para a Republica Dominicana, onde começou a escrever poemas e de onde se origina seu nome artístico (Domin). Ganhadora de inúmeros prêmios na Alemanha e condecorada com a Ordem del Merito, na República Dominicana. Publicou, entre muitos outros: Nur eine Rose als Stütze (poesia, 1959) e Ich will dich (poesia, 1970). Os poemas abaixo traduzidos são do volume: Rückkehr der Schiffe (poesia, 1962).

Valeska Brinkmann estudou Radio e TV na FAAP em São Paulo. Trabalha na emissora de Radio e TV pública de Berlin, onde vive há 14 anos.Escreve contos e histórias para crianças. Publicou em 2016 Pedrina – A perua que queria ser Pavão/ Die Pute die ein Pfaul sein wollte, pela editora Bübül Verlag Berlin.

* * *

Rückker 

Meine Füße wunderten sich
daß neben ihnen Füße gingen
die sich nicht wunderten.

Ich, die ich barfuß gehe
und keine Spuren hinterlasse,
immer sah ich den Leuten auf die Schuhe.

Aber die Wege feierten
Wiedersehen
mit meinen schüchternen Füßen.

Am Haus meiner Kindheit blühte
im Februar
der Mandelbaum.

Ich hatte geträumt,
er werde blühen.

Volta

Meus pés se admiram
que ao lado deles caminham pés
que não se admiram

Eu, que descalça ando
e não deixo pegadas,
sempre olho as pessoas pelos sapatos

mas os caminhos comemoram
reencontros
com meus pés tímidos

Na casa da minha infância floreia
em fevereiro
a amendoeira

Eu tinha sonhado
que ela iria florear

§

Tauben im Regen

Meine Füße die viel gegangen sind,
meine Füße zwei Tauben
die jede Nacht
das Nest deiner Hände suchten,
meine Kinderfüße.

Die du weggewiesen hast,
sie sitzen im Regen
vor deiner Tür,
aneinander geschmiegt,
zwei Tauben im Regen,

meine Kinderfüße.

Pombas na Chuva

Meus pés que muito andaram
meus pés duas pombas
que cada noite
procuram o ninho das tuas mãos,
meus pés de criança.

Que tu afastaste
eles estão na chuva
na tua porta,
aconchegados um no outro
duas pombas na chuva,

meus pés de criança.

§

Traumwasser 

Traumwasser
voll ertrunkener Tage.

Traumwasser
steigt in de Straßen.

Traumwasser
schwemmt mich hinweg.

Água dos sonhos

Água dos sonhos
cheia de dias afogados.

Água dos sonhos
avança pelas ruas.

Água dos sonhos
me inunda adiante.

§

Flut 

Ich fühle, wie das unruhige
Wasser
deines Herzens steigt.

Ich bitte dich um nichts.

Lasse mich
ertrinken.
Rette das Bild.

Maré Cheia

Eu sinto, como a agitada
água
do teu coração sobe.

Nao te peço nada.

Deixa-me
afogar.
Salva a imagem.

§

Behütet 

Ich schlafe im Schutz
meiner Traurigkeit.
Das Leid wie das Glück
baut Mauern.

Ich, ohne Haus,
immer im Schutz dieser Mauer,
wo der Krieg
stillsteht.

Wo ich an der Wunde
von einer Taube
Brustfeder
sterbe.

Protegida

Eu durmo na proteção
da minha tristeza
O sofrimento, tal como a alegria
constrói muros.

Eu, sem casa,
sempre no abrigo desses muros,
onde a guerra
está quieta.

Onde eu em volta da ferida
das plumas do peito
de uma pomba
morro.

§

April

Die Welt riecht süß
nach Gestern.
Düfte sind dauerhaft.

Du öffnest das Fenster.
Alle Frühlinge
kommen herein mit diesem.

Frühling der mehr ist
als grüne Blätter.
Ein Kuß birgt alle Küsse.

Immer dieser glänzend glatte
Himmel über der Stadt,
in den die Straßen fließen.

Du weißt, der Winter
und der Schmerz
sind nichts, was umbringt.

Die Luft riecht heute süß
nach Gestern –
das süß nach Heute roch.

Abril

O mundo tem cheiro doce
de ontem
perfumes são duradouros

Tu abres a janela
todas as primaveras
entram com esta.

Primavera que é mais
que folhas verdes.
Um beijo contém todos os beijos.

Sempre esse liso brilhante
céu sob a cidade,
na qual as ruas fluem.

Tu sabes, o inverno
e a dor
não são o que mata.

O ar hoje tem cheiro doce
de ontem-
doce que cheira a hoje.

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2 comentários sobre “Hilde Domin, por Valeska Brinkmann

  1. Renato Alves disse:

    Que tesouro estes poemas de Hilde Domin que a querida poetisa patrícia, Waleska Brinkmann, traduziu para nossa língua de Camões! Verdadeiras pérolas! Parabéns, Waleska, “Tu abriste a janela para todas as Primaveras de Hilde entrassem em nosso coração…”

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