poesia

Assionara Souza

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Assionara Souza. Escritora, nascida em Caicó/RN e radicada em Curitiba/PR. Formada em Estudos Literários pela Universidade Federal do Paraná, é pesquisadora da obra de Osman Lins (1924-1978). Autora dos volumes de contos Cecília não é um cachimbo (2005), Amanhã. Com sorvete! (2010), Os hábitos e os monges (2011), Na rua: a caminho do circo (2014) —contemplado com a Bolsa Petrobras, 2014; e Alquimista na chuva (poesia, 2017). Sua obra tem sido publicada no México pela editora Calygramma. Participa do coletivo Escritoras Suicidas. Idealizou e coordenou o projeto Translações: literatura em trânsito [antologia de autores paranaenses: http://www.literaturaemtransito.com]. Estreou na dramaturgia escrevendo a peça Das mulheres de antes (2016), para a Inominável Companhia de Teatro.

*

Espelho meu

Estávamos na sala eu e minha mãe
[Agora é que percebo que ela manteve os cabelos longos
Somente até aquele dia]
Eu lia a história de Branca de Neve
Virando as páginas assim que as personagens do
Disquinho azul alcançavam a última linha
— Terminar de ouvir me antecipava a vontade de ouvir de novo —
Mal sabia que alimentava naquele gesto
O pequeno monstro do desejo incontrolável
Minha mãe fazia acabamentos na bainha de uma saia xadrez
O carro parou na frente de casa com uma freada brusca
Olhamo-nos com a mudez sincera dos que sabem que
As cenas do próximo capítulo vêm para abalar o coração
Bateram palmas lá fora
Ela largou a costura
Eu desliguei o disquinho
E toda a paz de nossas tardes
Foi varrida pelo vendaval da notícia que o homem trouxe
Sempre que ouço a história de Branca de Neve
Esbarro naquele ponto em que o caçador
Arranca o coração de um cervo

§

 

Para todos os efeitos, estamos felizes
Não vamos considerar
O tempo que perdemos no trânsito ou ao telefone
Tentando reconduzir a vida
Aos trilhos onde o carrinho desliza sem trancos ou sustos
É preciso confiar na eficácia da ciência
Quando os cientistas saem tarde da noite dos centros de pesquisa
Uma barata os espia roendo os resíduos das drogas que caem das mesas de trabalho
E o psiquiatra jamais adormeceria sem a pílula milagrosa que despluga pensamentos
O que importa de fato é o investimento e a publicidade
De que um mundo admirável está prestes a surgir

Para todos os efeitos, as novas marcas de café e cerveja têm dado um novo alento
Ao homem médio e sem tempo para se dedicar à
Eficiência misteriosa dos clitóris do mundo
É suficiente o uso de poucas palavras em situações burocráticas
Deixando o excesso para a solidão das páginas virtuais
E o amor, o amor, o amor…
Por favor, aguarde na linha e logo mais o atenderemos
Para todos os efeitos, o jazz e a música clássica escorrerão pelos seus ouvidos
Até que a moça do telemarketing com sua voz provinda de insuspeitos grotões
Transgrida a maciez semântica de humanidade própria da frase:
“Bom dia, em que posso ajudar?”

§

 

A Mulher de Lot

Um passo atrás
Enquanto a cidade desaba
Todos correndo
Um tumulto dos diabos
O filho, a filha, o marido
A vizinha da frente — com quem o infeliz tem fornicado
Há mais de cinco anos embaixo de seu nariz
Como se ela não soubesse
Como se ela não tivesse visto de tudo nessa vida
Ele perguntando se a camisa vermelha
— Aquela com um só bolso no lado direito?
— Sim. Essa mesma.
Se a camisa vermelha não estava limpa e bem passada
E o filho indo no mesmo caminho
Tratando-a feito lixo
— A mãe não sabe pronunciar a palavra “estultícia”. Tenta, mãe!
Estúpidos todos
Até a filha, que ela tanto ensinou
Agora andava com um centurião
Um centurião!
Maior desgosto para uma mãe
E depois dessa correria toda
Quando arrumassem pouso
Adivinhem quem prepararia o jantar?
Não teve a menor dúvida
Mirou a cidade em chamas
Uma sensação incrível
Deixar de ser uma mulher de pedra
Seu corpo inteiro puro sal rebrilhando ao sol

***

 

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