poesia

Guilherme Bernardes (1993-)

 

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Guilherme Bernardes nasceu em Curitiba (1993). Terminou o curso de Letras Português/Latim com ênfase em estudos da tradução em 2017. Em 2018 começa seu mestrado sobre a obra do poeta norte-irlandês Paul Muldoon, em que também organizará uma seleção de poemas traduzidos. Faz parte do grupo de tradução e(m) performance Pecora Loca. Seu primeiro livro, de contos, O óbvio nosso de cada dia nos trai hoje, foi lançado pela editora Dybbuk em 2016. Publica esporadicamente no blog reconceber.wordpress.com.

* * *

 

damien hirst: a impossibilidade física da morte na mente de alguém que vive

mas e se pelo menos por enquanto
fosse possível que considerássemos
o fim. fizéssemos dele o poder
pra que pudéssemos dar novo início.
ou mesmo imaginássemos o sempre
eterno e ínfimo mundo sem volta

e que, pra cada um a nossa volta,
será o mesmo nada. porém, quanto
êxito. precisaríamos sempre
estar prontos pra que considerássemos
a possibilidade de outro início.
mas pena que querer não é poder.

ainda acreditamos que o poder
inevitavelmente está de volta
se repetindo porque lá no início
viu-se o sol nascer e se pôr. em quanto
tempo pra que nós já considerássemos
seguro confiar nisso pra sempre.

nada garante que será pra sempre.
e nem que fosse um ser todo poder-
oso, impossível que considerássemos
seriamente o fim. ele sempre volta.
e todos dispostos a porem quanto
fosse preciso, para o novo início,

da própria vida. porque desde o início
é assim. a mesma coisa de sempre.
que vida conseguimos pôr enquanto
sentimos total falta de poder.
a vida fica totalmente envolta
num ciclo. por mais que considerássemos

que, se de fato não considerássemos
o fim como apenas fim, mas início
também, talvez já não fizesse a volta
e mudasse. dessa vez para sempre.
e agora. então finalmente poder-
íamos terminar. mas por enquanto

não há fim. sempre há fins. e tudo volta
como considerássemos o início
a fonte do poder do por enquanto.

§

 

necesse est multos timeat quem multi timent

ele tinha de epíteto temido (
o que era mais do que justificado).
não se viu ninguém sentado a seu lado

que não sentisse falta de um abrigo,
assim que possível, vendo o temido

semblante e nele inevitável fado;
a cada gesto dele um novo estado

de pânico, de não ter existido.
até que em tantos o temor crescia
tanto que ele jamais previra os danos.

apenas viu a multidão na via
não vendo nele mais um ser humano.

videntes, realizando a profecia
de que temê-lo havia sido engano.

§

 

hen panta einai

numa palavra dizer
o começo
e o fim; o que é depois e o
que vem antes;
de modo igual marcar a dois
instantes
e em ambos poder ver
desgraça e apreço; é como
uma mudança de endereço;
a mesma ação, motivos
conflitantes; perder; ganhar; questões
irrelevantes;
quem vai saber se é
impulso ou se é
tropeço
vai ser apenas aquele
que passa; se
a lágrima vem por dor
ou deleite; se o ciclo
do sol é
bom ou desgraça
qualquer chance de que alguém
aproveite tudo da vida enquanto
ela esfumaça;
se é o duplo
sentido entre útil e
enfeite;

§

 

a vida nunca é simples nesse frio

I
a vida nunca é simples nesse frio.
há tanto tempo tudo se embaralha
que o estado natural é o arrepio.

tem vezes que eu nem penso em dar um pio
e tudo se transforma em represália.
a vida nunca é simples nesse frio.

bem mais do que a temperatura hostil,
odeio ouvir dos outros, feito gralha,
que o estado natural é o arrepio.

discordo totalmente do meu tio:
o mundo sempre insiste em ser canalha;
a vida nunca. é simples: nesse frio

eterno e que não dá lugar pro estio,
qual fim pior (que encolhe a genitália)
que o estado natural? é o arrepio

final, já quando o brilho é fugidio
dos olhos, que usarei tal qual mortalha.
a vida nunca é simples nesse frio
que o estado natural é o arrepio.

II
a vida nunca é simples nesse frio.
sair da cama é sempre uma batalha.
mas sempre penso em algo mais sombrio:

tem tanta coisa estranha nesse rio,
tem tanta coisa presa nessa calha,
a vida nunca é simples nesse frio.

não acho raro estar entre o vazio
de um jeito tal que só o vazio se espalha,
mas sempre penso em algo mais sombrio.

os planos de escapar são mais de mil.
mas tudo do que eu tento sempre falha.
a vida nunca é simples. nesse frio

precisa-se de um modo mais sutil
na hora de lidar com a migalha.
mas sempre penso em algo, mais sombrio,

talvez o cheiro azedo, quem sentiu
se lembra, da carniça na navalha.
a vida nunca é simples nesse frio,
mas sempre penso em algo mais sombrio.

§

 

mnemosine

“protect me from what i want”
— jenny holzer

eu vou fazer de tudo que eu puder
pra sempre ter comigo essa lembrança
tua. pra sempre ter comigo alguma
fotografia nossa. como prova
de comprometimento a essa promessa,
te escrevo. quem sabe a tua memória,

ouvindo o que lembra a minha memória,
também se aguce e lembre. se não der
certo, acho que ainda vale a promessa
do início. se ainda houver a lembrança
do que ela era. se alguém desaprova
essa insistência, nós, de forma alguma,

temos motivo pra alarde ou alguma
preocupação. o que conta é a memória.
mesmo que falsa, ela ainda comprova,
no mínimo, um desejo de algum der-
radeiro momento de ser lembrança.
aquilo que eu prometo eu cumpro. meça

muito cuidadosamente a promessa
primeiro, pois não quero ouvir alguma
desculpa esfarrapada. essa lembrança
persiste grudada em minha memória:
nós, deitados na cama, ouvindo there
is a light that never goes out e prova-

ndo que sim, há, depois daquela prova
que a gente estudou tanto, na promessa
de irmos bem, mas que, mesmo assim, nos der-
rubou, e você foi buscar alguma
coisa pra beber. perder a memória
era o plano. extinguir toda lembrança

de que sequer já houve antes lembrança.
funcionou? pra mim, isso apenas prova
que não. não é possível que a memória
desse dia suma. embora a promessa
tenha sido essa. ainda que alguma
luz, de fato, se apague, se eu puder

quebro a promessa. quero essa memória.
prefiro a lembrança como uma prova
de que alguma parte vai transcender.

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