poesia, tradução

Edna St. Vincent Millay, por Mariana Basílio

Edna St. Vincent Millay

Edna St. Vincent Millay (1892 – 1950) foi uma das mais conhecidas poetas americanas do século XX. Em vida, teve tanto da crítica literária quanto do público excelente receptividade – alguns críticos chegaram a comparar seus sonetos aos de William Shakespeare (1564 – 1616). Apesar de, por um longo período, ter sido pouco lembrada, com o passar das décadas, sua obra vem sendo mais divulgada. Seus primeiros livros são os mais conhecidos: Renascence and Other Poems (1917), A Few Figs from Thistles: Poems and Four Sonnets (1920), Second April (1921) e The Ballad of the Harp-Weaver (1922, ganhador do Prêmio Pulitzer).

Em relação à tradução, me organizei na poesia de Millay tentando uma equivalência harmônica entre os quesitos métrica, ritmo e rima, mas priorizando sobretudo o sentido e a sonoridade de seus versos no português, procurando não comprometer a vibe da poeta: tons crepusculares – repletos de ironia, amor, indagação – em pensamentos convexos entre sociedade e individualidade.

Não me esquecendo de dizer que, aos poucos, seu nome vem se mostrando mais presente no Brasil. Como disse certa vez Manuel Bandeira (1886 – 1968): “Nome fabuloso Edna St. Vincent Millay: é um verso, é uma maravilha! Quantas vezes me tenho surpreendido a repetir Edna St. Vincent Millay, Edna St. Vincent Millay, Edna St. Vincent Millay, como repito um verso de Villon ou de Racine ou de Mallarmé!” E assim, repito: Edna St. Vincent Millay, Edna St. Vincent Millay, Edna St. Vincent Millay!

 Mariana Basílio

*

 OBJEÇÃO DE CONSCIÊNCIA

Eu vou morrer, mas
isso é tudo o que farei pela Morte.
Eu a ouço tirar seu cavalo da baia;
Eu ouço pisadas no chão do celeiro.
Ela tem pressa; ela tem negócios em Cuba e
nos Bálcãs, muitas ligações a fazer na manhã.
Mas eu não vou segurar a rédea
enquanto ela ajusta a cilha.
Ela que monte sozinha:
não darei pé na subida.

Embora ela estrale meus ombros no chicote,
não direi a ela para onde a raposa correu.
Com os cascos em meu peito, não direi onde
o garoto negro se esconde no pântano.
Eu vou morrer, mas isso é tudo que farei pela Morte.
Eu não estou em sua folha de pagamentos.

Não direi a ela o paradeiro dos amigos,
nem o dos meus inimigos.
Ainda que ela me prometa muito,
não mapearei o endereço de ninguém.
Acaso sou uma espiã na terra dos vivos
para entregar pessoas à Morte?
Irmã, senha e as plantas de nossa cidade estão
seguras comigo; a depender de mim, nunca serás derrotada.

 

CONSCIENTIOUS OBJECTOR

I shall die, but
that is all that I shall do for Death.
I hear him leading his horse out of the stall;
I hear the clatter on the barn-floor.
He is in haste; he has business in Cuba,
business in the Balkans, many calls to make this morning.
But I will not hold the bridle
while he clinches the girth.
And he may mount by himself:
I will not give him a leg up.

Though he flick my shoulders with his whip,
I will not tell him which way the fox ran.
With his hoof on my breast, I will not tell him where
the black boy hides in the swamp.
I shall die, but that is all that I shall do for Death;
I am not on his pay-roll.

I will not tell him the whereabout of my friends
nor of my enemies either.
Though he promise me much,
I will not map him the route to any man’s door.
Am I a spy in the land of the living,
that I should deliver men to Death?
Brother, the password and the plans of our city
are safe with me; never through me shall you be overcome.

§

 PRIMAVERA

Por qual propósito, Abril, de novo retornas?
A Beleza não é suficiente.
Não podes me acalmar com a vermelhidão
Das folhinhas unidas se abrindo.
Eu sei o que sei.
O sol queima a nuca quando observo
Os espinhos do croco.
O cheiro de terra é bom.
É aparente que não há a morte.
Mas o que isso significa?
Não apenas sob a terra os cérebros
São comidos por vermes.
A vida em si
Não é nada,
Uma taça vazia, lance de escadas sem tapetes.
Não basta todo ano, descendo o morro,
Abril
Chegar como um tolo, balbuciando e espalhando flores.

 

SPRING

To what purpose, April, do you return again?
Beauty is not enough.
You can no longer quiet me with the redness
Of little leaves opening stickily.
I know what I know.
The sun is hot on my neck as I observe
The spikes of the crocus.
The smell of the earth is good.
It is apparent that there is no death.
But what does that signify?
Not only under ground are the brains of men
Eaten by maggots.
Life in itself
Is nothing,
An empty cup, a flight of uncarpeted stairs.
It is not enough that yearly, down this hill,
April
Comes like an idiot, babbling and strewing flowers.

§

TARDE NA COLINA

Vou ser o que é mais alegre
Sob este sol!
Vou tocar cem flores sem
Colher uma só.

Vou olhar com calma as nuvens
E os montes, ver
A grama curvando ao vento,
Vê-la crescer.

Quando as luzes da cidade
Forem se erguendo,
Vou marcar qual é a minha,
E vou descendo!

 

AFTERNOON ON A HILL

I will be the gladdest thing
Under the sun!
I will touch a hundred flowers
And not pick one.

I will look at cliffs and clouds
With quiet eyes,
Watch the wind bow down the grass,
And the grass rise.

And when lights begin to show
Up from the town,
I will mark which must be mine,
And then start down!

ednastvincentmillay1

*

MARIANA BASÍLIO (1989) é poeta. Autora de Nepente (Giostri, 2015) e Sombras & Luzes (Penalux, 2016), atualmente versa Megalômana, e Tríptico Vital (3º lugar ProAC, 2016). Tem poemas em revistas do Brasil e de Portugal, como alagunas, Diversos Afins,Garupa, Germina, InComunidade, mallarmargens, Odara,Raimundo, entre outras. Já apareceu aqui na escamandro com poemas e traduções de Denise Levertov.
Contato: http://www.marianabasilio.com.br

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