poesia

Ana Paula Tavares (1952-)

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Ana Paula Tavares nasceu em 1952 em Lubango, Angola. Depois de estudar história em Luanda, trabalhou como professora em 1973, mas foi para Portugal alguns anos depois para continuar os seus estudos de história em Lisboa. Ao mesmo tempo, começou a estudar literatura africana de língua portuguesa e obteve um doutorado em história africana. Esteve envolvida com o meio ambiente em várias instituições em São Paulo e Nova Iorque, é membro da Associação dos Escritores Angolanos e da secção angolana da UNESCO. Atualmente, trabalha como historiadora em Lisboa. Seu extenso estudo científico A Apropriação do Escrito pelos Africanos recebeu amplo reconhecimento nos círculos profissionais. Além disso, Tavares recebeu recentemente o premio Mário António, o principal prêmio para autores de língua portuguesa da África. Ana Paula Tavares é uma das mais importantes vozes femininas da poesia angolana contemporânea. Seu trabalho é influenciado pelas obras de três poetas angolanos: David Mestre, Arlindo Barbeitos e Rui Duarte de Carvalho, e pelos poetas brasileiros Bandeira e Drummond. Sua poesia lida com tradições e línguas angolanas, amor e guerra e, especialmente, o papel das mulheres.

sergio maciel

* * *

 

A ANONA

Tem mil e quarenta e cinco
Caroços
Cada um com uma circunferência
À volta

Agrupam-se todos
(arrumadinha)
No pequeno útero verde
Da casca

§

 

MUKAI III

(Mulher à noite)

Um soluço quieto
desce
a lentíssima garganta
(rói-lhe as entranhas
um novo pedaço de vida)
os cordões do tempo
atravessam-lhe as pernas
e fazem a ligação terra.

Estranha árvore de filhos
uns mortos e tantos por morrer
que de corpo ao alto
navega de tristeza
as horas.

§

 

MUKAI VI

P’ra não morrer nos teus lábios de prata
era preciso ser pássaro e serpente

p’ra não sentir os teus lábios de prata
era preciso ser mulher e gente

p’ra não sofrer nos teus lábios de prata
era preciso ser sonho
uma cabaça fechada

P’ra não morrer dos teus lábios de prata
era preciso não ser mulher, pássaro e gente
pintada de cicatrizes

§

 

CANTO DE NASCIMENTO

Aceso está o fogo
prontas as mãos

o dia parou a sua lenta marcha
de mergulhar na noite.

As mãos criam na água
uma pele nova

panos brancos
uma panela a ferver
mais a faca de cortar

Uma dor fina
a marcar os intervalos de tempo
vinte cabaças deleite
que o vento trabalha manteiga

a lua pousada na pedra de afiar

Uma mulher oferece à noite
o silêncio aberto
de um grito
sem som nem gesto
apenas o silêncio aberto assim ao grito
solto ao intervalo das lágrimas

As velhas desfiam uma lenta memória
que acende a noite de palavras
depois aquecem as mãos de semear fogueiras

Uma mulher arde
no fogo de uma dor fria
igual a todas as dores
maior que todas as dores.

Esta mulher arde
no meio da noite perdida
colhendo o rio
enquanto as crianças dormem
seus pequenos sonhos de leite.

§

 

VIERAM MUITOS

“A massambala cresce a olhos nus”

Vieram muitos
à procura de pasto
traziam olhos rasos da poeira e da sede
e o gado perdido.

Vieram muitos
à promessa de pasto
de capim gordo
das tranqüilas águas do lago.
Vieram de mãos vazias
mas olhos de sede
e sandálias gastas
da procura de pasto.

Ficaram pouco tempo
mas todo o pasto se gastou na sede
enquanto a massambala crescia
a olhos nus.

Partiram com olhos rasos de pasto
limpos de poeira
levaram o gado gordo e as raparigas.

§

 

O MAMÃO

Frágil vagina semeada
pronta, útil, semanal
Nela se alargam as sedes

no meio
cresce
insondável

o vazio…

§

 

A ABÓBORA MENINA

Tão gentil de distante, tão macia aos olhos
vacuda, gordinha,
……………..de segredos bem escondidos
estende-se à distância
…………….procurando ser terra
quem sabe possa
…………..acontecer o milagre:
……………………………..folhinhas verdes
……………………………..flor amarela
……………………………….ventre redondo
depois é só esperar
…………….nela desaguam todos os rapazes.

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