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3 Tristia de Ovídio, por Pedro Yacubian

As Tristia de Ovídio, em cinco livros, são, ao que tudo indica, as primeiras elegias do ciclo de exílio do poeta, com início em 8 AD, depois de relegado por Augusto à antiga cidade de Tomi (hoje Constança, na Romênia), e fim em, provavelmente, 17 AD, com a morte do poeta.

O primeiro poema do livro I é um diálogo do poeta com seu próprio livro. De início, o livro não deve ter nenhum polimento e deve refletir o momento do poeta, cujo exílio de sua Roma, sua família e amigos equivale à morte. O ansiado perdão de Augusto, presente em quase todas as elegias das Tristia, é pedido ao livro, caso a oportunidade se apresente. Ao final, ao chegar ao escritório pessoal do poeta em Roma, o livro encontra-se com alguns dos seus irmãos: os três livros da Ars Amatoria, um dos motivos do exílio do poeta por Augusto, provavelmente em razão de seu conteúdo lascivo, e os quinze livros das Metamorfoses, ainda não publicados. A primeira elegia provavelmente foi escrita no caminho do poeta a Tomi.

No segundo poema do livro I, o poeta encontra-se em meio a uma tempestade, possivelmente após sua saída do porto de Brundisium, na Itália, a caminho de Corinto. As descrições, em diversos momentos, remetem ao Livro I da Eneida, sendo também Eneias um prófugo. A elegia termina com o poeta apelando aos deuses para que dissipem a tempestade. Assim o fazem, reconhecendo que o poeta, ainda que culpado por um crime nunca mencionado em seus versos, não teria agido com dolo

O décimo primeiro poema do livro I é dirigido ao leitor. O poeta descreve as dificuldades de sua viagem a Tomi: as duras tempestades no mar, a crueldade dos bárbaros que o aguardam em terra e seu próprio estado de ânimo. Ao mesmo tempo que, em parte, foi a poesia que o exilou (a Ars Amatoria), é a poesia que diminui sua inquietação em meio aos perigos da viagem. Termina o livro I ansiando a morte (“que a tempestade vença o homem”), desde que possa, antes, dar fim ao seu livro.

Pedro Yacubian (1983) é formado em Direito pela USP. Amante das letras clássicas, traduz textos como forma de estudo pessoal. As traduções, talvez, possam ser úteis para mais do que uma só pessoa.

* * *

Livro 1, Elegia 1

Parve – nec invideo – sine me, liber, ibis in urbem:
ei mihi, quod domino non licet ire tuo!
vade, sed incultus, qualem decet exulis esse;
infelix habitum temporis huius habe.
nec te purpureo velent vaccinia fuco –
non est conveniens luctibus ille color –
nec titulus minio, nec cedro charta notetur,
candida nec nigra cornua fronte geras.
felices ornent haec instrumenta libelos:
fortunae memorem te decet esse meae.
nec fragili geminae poliantur pumice frontes,
hirsutus sparsis ut videare comis.
neve liturarum pudeat; qui viderit illas,
de lacrimis factas sentiat esse meis.
vade, liber, verbisque meis loca grata saluta:
contingam certe quo licet illa pede.
siquis, ut in populo, nostri non inmemor illi,
siquis, qui, quid agam, forte requirat, erit:
vivere me dices, salvum tamen esse negabis;
id quoque quod vivam, munus habere dei.
atque ita tu tacitus – quarenti plura legendus –
ne, quae non opus est, forte loquare, cave!
protinus admonitus repetet mea crimina lector,
et peragar populi publicus ore reus.
tu cave defendas, quamvis mordebere dictis;
causa patrocinio non bona peior erit.
invenies aliquem, qui me suspiret ademptum,
carmina nec siccis perlegat ista genis,
et tacitus secum, ne quis malus audiat, optet,
sit mea lenito Caesare poena levis.
nos quoque, quisquis erit, ne sit miser ille, precamur,
placatos miseris qui volet esse deos;
quaeque volet, rata sint, ablataque principis ira
sedibus in patriis det mihi posse mori.
ut peragas mandata, liber, culpabere forsan
ingeniique minor laude ferere mei.
iudicis officium est ut res, ita tempora rerum
quaerere. quaesito tempore tutus eris.
carmina proveniunt animo deducta sereno;
nubila sunt subitis tempora nostra malis.
carmina secessum scribentis et otia quaerunt;
me mare, me venti, me fera iactat hiems.
carminibus metus omnis obest; ego perditus ensem
haesurum iugulo iam puto iamque meo.
haec quoque quod facio, iudex mirabitur aequus,
scriptaque cum venia qualicumque leget.
da mihi Maeoniden et tot circumice casus,
ingenium tantis excidet omne malis.
denique securus famae, liber, ire memento,
nec tibi sit lecto displicuisse pudor.
non ita se nobis praebet Fortuna secundam,
ut tibi sit ratio laudis habenda tuae.
donec eram sospes, tituli tangebar amore,
quaerendique mihi nominis ardor erat.
carmina nunc si non studiumque, quod obfuit, odi,
sit satis; ingenio sic fuga parta meo.
tu tamen i pro me, tu, cui licet, aspice Romam.
di facerent, possem nunc meus esse liber!
nec te, quod venias magnam peregrinus in urbem,
ignotum populo posse venire puta.
ut titulo careas, ipso noscere colore;
dissimulare velis, te liquet esse meum.
clam tamen intrato, ne te mea carmina laedant;
non sunt ut quondam plena favoris erant.
siquis erit, qui te, quia sis meus, esse legendum
non putet, e gremio reiciatque suo,
“inspice” dic “titulum. non sum praeceptor amoris;
quas meruit, poenas iam dedit illud opus.”
forsitan expectes, an in alta Palatia missum
scandere te iubeam Caesareamque domum.
ignoscant augusta mihi loca dique locorum!
venit in hoc illa fulmen ab arce caput.
esse quidem memini mitissima sedibus illis
numina, sed timeo qui nocuere deos.
terretur minimo pennae stridore columba,
unguibus, accipiter, saucia facta tuis.
nec procul a stabulis audet discedere, siqua
excussa est avidi dentibus agna lupi.
vitaret caeleum Phaëton, si viveret, et quos
optarat stulte, tangere nollet equos.
me quoque, quae sensi, fateor Iovis arma timere:
me reor infesto, cum tonat, igne peti.
quicumque Argolica de classe Capherea fugit,
semper ab Euboicis vela retorsit aquis;
et mea cumba semel vasta percussa procela
illum, quo laesa est, horret adire locum.
ergo cave, liber, et timida circumspice mente,
ut satis a media sit tibi plebe legi.
dum petit infirmis nimium sublimia pennis
Icarus, aequoreas nomine fecit aquas.
difficile est tamen hinc, remis utaris an aura,
dicere: consilium resque locusque dabunt.
si poteris vacuo tradi, si cuncta videbis
mitia, si vires fregerit ira suas,
siquis erit, qui te dubitantem et adire timentem
tradat, et ante tamen pauca loquatur, adi.
luce bona dominoque tuo felicior ipso
pervenias illuc et mala nostra leves.
namque ea vel nemo, vel qui mihi vulnera fecit
solus Achilleo tollere more potest.
tantum ne noceas, dum vis prodesse, videto –
nam spes est animi nostra timore minor –
quaeque quiescebat, ne mota resaeviat ira
et poenae tu sis altera causa, cave!
cum tamen in nostrum fueris penetrale receptus,
contigerisque tuam, scrinia curva, domum,
aspicies illic positos ex ordine fratres,
quos studium cunctos evigilavit idem.
cetera turba palam titulos ostendet apertos,
et sua detecta nomina fronte geret;
tres procul obscura latitantes parte videbis, –
sic quoque, quod nemo nescit, amare docent.
hos tu vel fugias, vel, si satis oris habebis,
Oedipodas facito Telegonosque voces.
deque tribos, moneo, si qua est tibi cura parentis,
ne quemquam, quamvis ipse docebit, ames.
sunt quoque mutatae, ter quinque volumina, formae,
nuper ab exequiis carmina rapta meis.
his mando dicas, inter mutata referri
fortunae vultum corpora posse meae.
namque ea dissimilis subito est effecta priori,
flendaque nunc, aliquo tempora laeta fuit.
plura quidem mandare tibi, si quaeris, habebam,
sed vereor tardae causa fuisse morae;
et si quae subeunt, tecum, liber, omnia ferres,
sarcina laturo magna futurus eras.
longa via est, propera! nobis habitabitur orbis
ultimus, a terra terra remota mea.

Pequeno livro, irás sem mim – não ressinto! – à Urbe:
Ai, pois não é permitido ao teu dono!
Vai, mas como convém ao êxul, sem adornos;
Triste, veste as roupas do meu momento.
Não cubra a ti a murta com as tintas púrpuras –
Não convém essa cor aos anojados –
Sem cinabre teu título, sem óleo as páginas,
Sem brancas bossas tuas bordas negras.
Que essas coisas adornem livrinhos felizes:
A ti cabe lembrar o meu destino.
A frágil pedra-pomes não polirá a capa,
E, hirsuto, terás mechas desgrenhadas.
Não te envergonhes das nódoas; quem puder lê-las,
Saiba que foram pelas minhas lágrimas….
Livro, saúda os locais gratos com estas letras:
Ao menos com o metro os tocarei.
Se alguém, da multidão, ali de mim se lembre,
Se alguém queira saber como eu estou,
Dirás que vivo, mas que não me sinto bem,
E que este meu viver devo a um deus.
Cala além disso (o que busca mais deve ler-te)
Para que não digas o que não deves!
O leitor, já avisado, lembrará meus crimes
E serei réu público para o povo.
Evita defender-me, mesmo que te doa:
Piora com defesa uma má causa.
Alguém encontrarás que sinta a minha perda
E termine estes teus versos em lágrimas,
E deseje, em silêncio (que alguém mau não o ouça!),
Abrandar minha pena, calmo o César.
Este que queira, aos desgraçados, deuses brandos,
Peço também eu que não seja um mísero;
Faça-se o seu desejo e, finda a ira do Príncipe,
Conceda a mim morrer na minha Pátria!
Talvez te julguem, livro, ao cumprir estas ordens,
Como indigno da fama do meu gênio.
Cabe a um crítico ver fato e circunstâncias:
A salvo estarás se ele atenta a estas.
Poemas nascem urdidos por sereno ânimo;
Meus dias são nuvens com males súbitos…
Poemas procuram o ócio e a calma do escritor;
Mar, vento e duro inverno me fustigam…
Todo medo obsta à poesia; eu, em ruína, penso
Que espada me atravessará o pescoço…
Mesmo estes versos um juiz justo admirará
E os lerá, indulgente, como sejam.
Dá-me o Meônida e cinge-o com tantos desastres:
Perderá todo engenho por tais males!
Lembra, enfim, livro, de ir indiferente à fama,
Sem pejo caso, lido, desagrades;
O destino a mim não é assaz favorável
Para que julgues merecer encômios.
Quando a salvo, tangia-me o amor pelas louvas
E ardia em mim a busca pela fama.
Basta-me hoje não ter ódio pela poesia:
Este exílio nasceu da minha arte.
Mas tu, vai em meu lugar, tu, que podes, vê Roma!
Se os deuses me tornassem meu livro hoje!…
Não penses tu que, um estrangeiro em grande urbe,
Possas ir e vir sem ser percebido.
Mesmo sem nome, sabem de ti pelo estilo;
Se dissimulas, claramente és meu.
Mas sê furtivo, para o Poema não ferir;
Como antes ele não é mais querido.
Se alguém crê que não devas ser lido porque
Meu és e te arremessa do seu colo,
Diz “olha o título. Não mais ensino o amor;
A obra já recebeu pena condigna.”
Quiçá esperes, se enviado ao alto Palatino,
Que eu te ordene a ir à casa do César.
Que os augustos lugares e deuses perdoem-me!
Dali o raio veio em minha testa.
Sim, recordo, ali há clementíssimos deuses,
Mas temo aqueles que me golpearam.
O mínimo ruflar de asas assusta a pomba,
Águia, ferida pelas tuas unhas.
Não ousa o cordeirinho afastar-se do estábulo
Se ávido lobo o teve entre seus dentes.
Faetonte o céu evitaria se vivesse,
E a audácia co’os corcéis não ousaria.
Eu também, pois senti-as, temo as armas de Júpiter:
Troa e creio ser alvo de hostis raios.
Quem escapou o Cafareu da esquadra Argólica
Sempre do mar Eubeu desvia a vela;
Minha barca, uma vez batida por tormenta,
Teme ir ao lugar onde foi ferida.
Então cuidado, livro: observa com receio,
E baste-te ser lido pela plebe.
Quando Ícaro excedeu-se com as débeis asas,
Altivo deu às águas o seu nome.
Daqui não posso dizer se usas remo ou vento:
Momento e lugar te darão o plano.
Se a ele, ocioso, puderes ser entregue, se
Tudo vês brando, se a ira arrefece,
Se alguém te exibe, mesmo com medo e receoso,
E mesmo pouco te diz, aproxima-te!
Num bom dia e com mais sorte do que teu dono
Lá chegues e mitigues os meus males!
Pois estes ninguém, a não ser quem me feriu,
Pode curá-los, como com Aquiles.
Cuida, enquanto o bem fazes, não prejudicar, –
A esperança em mim é menor que o medo –
Ao reacender a ira que nele dormitava
E tornar-te outra causa de castigo!
Quando em meu escritório fores recebido
E as estantes tocares, tua casa,
Ali verás postos, em ordem, teus irmãos,
Por quais igual dedicação velou.
A turba ostentará seus títulos abertos
E às frontes, descobertas, os seus nomes;
Mas três verás ao longe, em parte escura ocultos –
Ensinam a amar, como todos sabem.
Destes fujas, ou, se tiveres mesmo audácia,
Dá-lhos os nomes de Édipo e Telégono.
Se zelas pelo teu pai, nenhum destes três,
Mesmo que eles te ensinem, amarás.
Há ainda, em quinze livros, as formas mudadas,
Arrebatados do meu funeral.
Diz-lhes que se pode incluir, entre as mudanças,
A triste feição da minha fortuna,
Pois súbito tornou-se diversa à de antes:
Agora em pranto, outrora era feliz.
Se perguntas, a ti tenho outras tantas ordens,
Mas temo ser causa de enorme atraso;
Se levasses contigo todos meus pesares,
Que enorme fardo ao que te portará!
Longo é o caminho, vai! Neste confim do mundo
Viverei, terra tão longe da minha.

§

Livro 1, Elegia 2

Di maris et caeli – quid enim nisi vota supersunt? –
solvere quassatae parcite membra ratis,
neve, precor, magni subscribite Caesaris irae!
saepe premente deo fert deus alter opem.
Mulciber in Troiam, pro Troia stabat Apollo;
aequa Venus Teucris, Pallas iniqua fuit.
oderat Aenean propior Saturnia Turno;
ille tamen Veneris numine tutus erat.
saepe ferox cautum petiit Neptunus Ulixen;
eripuit patruo saepe Minerva suo.
et nobis aliquod, quamvis distamus ab illis,
quis vetat irato numen adesse deo?
verba miser frustra non proficientia perdo.
ipsa graves spargunt ora loquentis aquae,
terribilisque Notus iactat mea dicta, precesque
ad quos mittuntur, non sinit ire deos.
ergo idem venti, ne causa laedar in una,
velaque nescio quo votaque nostra ferunt.
me miserum, quanti montes volvuntur aquarum!
iam iam tacturos sidera summa putes.
quantae diducto subsidunt aequore valles!
iam iam tacturas Tartara nigra putes.
quocumque aspicio, nihil est, nisi pontus et aër,
fluctibus hic tumidus, nubibus ille minax.
inter utrumque fremunt inmani murmure venti.
nescit, cui domino pareat, unda maris.
nam modo purpureo vires capit Eurus ab ortu,
nunc Zephyrus sero vespere missus adest,
nunc sicca gelidus Boreas bacchatur ab Arcto,
nunc Notus adversa proelia fronte gerit.
rector in incerto est nec quid fugiatve petatve
invenit: ambiguis ars stupet ipsa malis.
scilicet occidimus, nec spes est ulla salutis,
dumque loquor, vultus obruit unda meos.
opprimet hanc animam fluctus, frustraque precanti
ore necaturas accipiemus aquas.
at pia nil aliud quam me dolet exule coniunx:
hoc unum nostri scitque gemitque mali.
nescit in inmenso iactari corpora ponto,
nescit agi ventis, nescit adesse necem.
o bene, quod non sum mecum conscendere passus,
ne mihi mors misero bis patienda foret!
at nunc, ut peream, quoniam caret illa periclo,
dimidia certe parte superstes ero.
ei mihi, quam celeri micuerunt nubila flamma!
quantus ab aetherio personat axe fragor!
nec levius tabulae laterum feriuntur ab undis,
quam grave balistae moenia pulsat onus.
qui venit hic fluctus, fluctus supereminet omnes:
posterior nono est undecimoque prior.
nec letum timeo; genus est miserabile leti.
demite naufragium, mors mihi munus erit.
est aliquid fatove suo ferrove cadentem
in solida moriens ponere corpus humo,
et mandare suis aliqua et sperare sepulcrum
et non aequoreis piscibus esse cibum.
fingite me dignum tali nece, non ego solus
hic vehor. inmeritos cur mea poena trahit?
pro superi viridesque dei, quibus aequora curae,
utraque iam vestras sistite turba minas,
quamque dedit vitam mitissima Caesaris ira,
hanc sinite infelix in loca iussa feram.
si quantam merui, poena me perdere vultis,
culpa mea est ipso iudice morte minor.
mittere me Stygias si iam voluisset in undas
Caesar, in hoc vestra non eguisset ope.
est illi nostri non invidiosa cruoris
copia; quodque dedit, cum volet, ipse feret.
vos modo, quos certe nullo, puto, crimine laesi,
contenti nostris iam, precor, este malis!
nec tamen, ut cuncti miserum servare velitis,
quod periit, salvum iam caput esse potest.
ut mare considat ventisque ferentibus utar,
ut mihi parcatis, non minus exul ero.
non ego divitias avidus sine fine parandi
latum mutandis mercibus aequor aro,
nec peto, quas quondam petii studiosus, Athenas,
oppida non Asiae, non loca visa prius,
non ut Alexandri claram delatus ad urbem
delicias videam, Nile iocose, tuas.
quod faciles opto ventos, – quis credere posset? –
Sarmatis est tellus, quam mea vela petunt.
obligor, ut tangam laevi fera litora Ponti;
quodque sit a patria tam fuga tarda, queror.
nescio quo videam positos ut in orbe Tomitas,
exilem facio per mea vota viam.
seu me diligitis, tantos compescite fluctus,
pronaque sint nostrae numina vestra rati;
seu magis odistis, iussae me advertite terrae:
supplicii pars est in regione mei.
ferte – quid hic facio? – rapidi mea corpora venti!
Ausonios fines cur mea vela volunt?
noluit hoc Caesar. quid, quem fugat ille, tenetis?
aspiciat vultus Pontica terra meos.
et iubet et merui; nec, quae damnaverit ille,
crimina defendi fasque piumque puto.
si tamen acta deos nunquam mortalia fallunt,
a culpa facinus scitis abesse mea.
immo ita si scitis, si me meus abstulit error,
stultaque mens nobis, non scelerata fuit,
quod licet et minimis, domui si favimus illi,
si satis Augusti publica iussa mihi,
hoc duce si dixi felicia saecula, proque
Caesare tura piis Caesaribusque dedi, –
si fuit hic animus nobis, ita parcite divi!
si minus, alta cadens obruat unda caput!
fallor, an incipiunt gravidae vanescere nubes,
victaque mutati frangitur unda maris?
non casu, vos sed sub condicione vocati,
fallere quos non est, hanc mihi fertis opem.

Deuses do mar e céu – restam somente súplicas! –
Poupai da ruína este agitado barco
E não participeis da ira do grande César!
Um deus que calca traz outro em auxílio.
Vulcano contra Ílio, a favor ficava Apolo;
Aos Teucros Vênus justa, Atena iníqua.
Juno odiou Enéas e a Turno foi próxima;
Aquele, porém, Vênus resguardava.
Feroz Netuno atacou o prudente Ulisses;
Tirou-o das mãos do tio Minerva.
E a mim, embora eu tanto diste desses homens,
Quem me protege contra um deus irado?
Infeliz, em vão perco frustradas palavras.
Cobre-se minha boca em densas águas…
O feroz Noto arroja as sentenças e preces
Feitas proíbe de chegar aos deuses.
Se só o exílio não bastasse, agora ventos
Dispersam minha nau e minhas súplicas…
Ai, quão grandes montanhas de água se revolvem!
Logo tocarão as altas estrelas!
Quão grandes vales dobram-se em mar dividido!
Logo tocarão o Tártaro negro!
Para onde eu olhe nada há, a não ser mar e céu,
Mar de ondas túmido, céu de hostis nuvens.
Entre ambos fremem ventos com terríveis ruídos.
Não sabe a onda a quem obedecer:
Pois ora o Euro avigora-se da aurora púrpura,
Ora do tardo ocaso parte o Zéfiro,
Ora agita-se da Ursa seca o Bóreas gélido,
Ora o Noto, face ao Norte, batalha.
Incerto, o capitão vacila entre perigos:
Sua arte paralisa em meio a horrores.
Certa é a morte, salvar-nos nenhuma esperança,
E, enquanto falo, onda me cobre o rosto.
Oprime a vaga o ar, e aos lábios em vãs preces
Receberei as derradeiras águas.
A fida esposa, porém, só o exílio fere:
Sabe e sofre por este único mal.
Não sabe que me atiram pelo mar imenso,
Não sabe os ventos, nem, próximo, o fim.
Ah, bem!, pois não sofri que embarcasse comigo
E não hei de sofrer por duas mortes!
Mas agora, se morro e ela vive segura,
Sobreviverei na minha metade.
Ai, quão céleres fogos arderam as nuvens!
Com que fragor ressoa o céu mais alto!
Tão grave como o golpe da forte balista
Em muralha, fustiga a vaga o casco.
A onda que aqui vem, esta onda supera todas:
Após a nona vem, antes da undécima.
Não temo a morte, mas o miserável modo;
Sem naufrágio, será ela um presente…
Vale algo ao que morre, por ferro ou por destino,
Seu corpo descansar em terra firme,
Despedir-se dos seus e aguardar sepultura,
– E não servir de refeição aos peixes.
Julgai-me digno de tal morte; não vou só…
Por que insontes minha pena arrasta?
Deuses supernos e virentes, que o mar têm,
Cessai já ambos vossas ameaças,
E a vida, que a clemente ira do César deu,
Permiti eu levá-la onde ordenada.
Se mereci tal pena e quereis arruinar-me,
O juiz preteriu na culpa a morte;
Se já quisesse o César mandar-me ao Estige,
Careceria ele de vosso auxílio.
Não invejável poder tem sobre esta vida;
E o que ele deu, tirará se quiser.
Mas vós, que, penso, não feri por crime algum,
Contentai-vos, imploro, com meus males!
E mesmo que quereis salvar um miserável,
Não mais pode ser salvo pois se foi.
Se o mar acalme e me carreguem ventos brandos,
Se me poupais, não serei menos prófugo.
Não aro o lato mar ávido de riquezas
Sem fim por meio da troca de bens,
Nem busco Atenas, que busquei quando estudante,
Nem urbes da Ásia, nem sítios já vistos,
Nem a cidade ilustre de Alexandre para,
Feliz Nilo, que eu veja teus prazeres.
Desejo ventos favoráveis – quem me crê?! –
À terra Sármata, onde a vela leva.
Compelem-me ao oeste do selvagem Ponto;
E dói quão tarda é a via desde Roma…
Para ver não sei onde no mundo os Tomitas,
Imploro por uma viagem curta…
Se me quereis bem, refreai tamanhas ondas
E sede favoráveis a esta nau;
Se odiais, voltai a proa à terra ordenada:
O lugar é parte do meu suplício.
Que faço aqui?! Ventos velozes, carregai-me!
Por que minha nau busca a costa Ausônia?
César não quis. Por que sustais quem ele exila?
Que veja a minha face a terra Pôntica!
Ele impõe e eu mereci. Não creio ser certo
Ou justo defender-me desses crimes.
Se, porém, nunca a ação humana escapa aos deuses,
Sabeis faltar à minha culpa o dolo.
Não, se assim sabeis, se meu erro me perdeu,
Se eu fui estúpido, mas não maldoso,
Se apoiei sua Casa (mesmo humildes podem),
Se me bastaram suas ordens públicas,
Se celebrei, sob seu comando, a feliz época,
Se ofertei ao César e aos seus incensos, –
Se assim foi meu espírito, poupai-me, ó deuses!
Senão, que enorme vaga me destrua!
Iludo-me ou as negras nuvens esvaecem
E as ondas do agitado mar sucumbem?
Não por acaso sois vós, jamais iludidos,
Que ora invocados trazeis este auxílio.

§

Livro 1, Elegia 11

Littera quaecumque est toto tibi lecta libello,
est mihi sollicito tempore facta viae.
aut haec me, gelido tremerem cum mense Decembri,
scribentem mediis Hadria vidit aquis;
aut, postquam bimarem cursu superavimus Isthmon,
alteraque est nostrae sumpta carina fugae,
quod facerem versus inter fera murmura ponti,
Cycladas Aegaeas obstipuisse puto.
ipse ego nunc miror tantis animique marisque
fluctibus ingenium non cecidisse meum.
seu stupor huic studio sive est insania nomen,
omnis ab hac cura cura levata mea est.
saepe ego nimbosis dubius iactabar ab Haedis,
saepe minax Steropes sidere pontus erat,
fuscabatque diem custos Atlantidos Ursae,
aut Hyadas seris hauserat Auster aquis,
saepe maris pars intus erat; tamen ipse trementi
carmina ducebam qualiacumque manu.
nunc quoque contenti stridunt Aquilone rudentes,
inque modum tumuli concava surgit aqua.
ipse gubernator tollens ad sidera palmas
exposcit votis, inmemor artis, opem.
quocumque aspexi, nihil est nisi mortis imago,
quam dubia timeo mente timensque precor.
attigero portum, portu terrebor ab ipso:
plus habet infesta terra timoris aqua.
nam simul insidiis hominum pelagique laboro,
et faciunt geminos ensis et unda metus.
ille meo vereor ne speret sanguine praedam,
haec titulum nostrae mortis habere velit.
barbara pars laeva est avidaeque adsueta rapinae,
quam cruor et caedes bellaque semper habent,
cumque sit hibernis agitatum fluctibus aequor,
pectora sunt ipso turbidiora mari.
quo magis his debes ignoscere, candide lector,
si spe sunt, ut sunt, inferiora tua.
non haec in nostris, ut quondam, scripsimus hortis,
nec, consuete, meum, lectule, corpus habes.
iactor in indomito brumali luce profundo
ipsaque caeruleis charta feritur aquis.
improba pugnat hiems indignaturque quod ausim
scribere se rigidas incutiente minas.
vincat hiems hominem! sed eodem tempore, quaeso,
ipse modum statuam carminis, illa sui.

Qualquer letra que leste em todo este livrinho,
Eu a fiz na inquietude da viagem.
Ou, enquanto eu tremia em gélido dezembro,
O Adriático viu-me as traçando;
Ou, depois de superar o Istmo de Corinto
E tomar a segunda nau do exílio,
Porque entre estrépitos do mar fazia versos
Assombraram-se as Cíclades do Egeu.
Eu próprio agora admiro-me que em tais voragens
Da alma e do mar não se esvaiu meu gênio.
Se “estupor” ou “insânia” dá-se o nome a isto,
Foi-se co’a inquietação toda inquietude.
Tanto as chuvosas Cabras lançaram-me, tanta
Era a ameaça do mar por Estérope,
Ou o guarda da Ursa Atlântida ofuscava o dia,
Ou bebia o Austro tarda água das Híades.
Tanto do mar entrava… Mas eu, com a mão
Tremente, ainda urdia quaisquer versos.
Agora as tensas cordas rangem co’o Aquilônio
E a onda côncava salta como um monte.
O capitão levanta as mãos aos céus e implora
Auxílio, já esquecido de sua arte.
Onde olho, nada há a não ser a imagem da morte,
Que aflito temo e temeroso imploro.
Toque eu o porto, o porto me horrorizará:
Mais temor há em terra que em mar hostil.
Pois igual sofro insídias de homens e do pélago,
E onda e espada produzem gêmeos medos.
Esta, temo me faça presa por meu sangue;
Aquela, busque fama em minha morte.
À esquerda os bárbaros, afeitos à pilhagem,
Sempre cheios de sangue, morte e guerra;
Se o mar se agita pelas ondas invernais,
Mais túrbido está o meu coração.
Deves por isso então perdoar, bom leitor,
Se os versos, assim, não são o que esperas.
Não os escrevi, como antes, em meu jardim,
Nem, sofá habitual, tens o meu corpo.
Lança-me mar indômito em dia invernal
E até o papel a água azul atinge.
Luta a dura borrasca e, porque ousei, em meio
A ameaças duras, escrever, indigna-se.
Que a tempestade vença o homem! Mas, enquanto
Eu dê fim aos versos, dê ela à fúria.

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poesia, tradução

Ilíada de Homero, por Leonardo Antunes

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Há muito tempo brinco com a ideia de traduzir a Ilíada. Foi por onde comecei meu trajeto nos Estudos Clássicos, numa longa e extremamente profícua Iniciação Científica sob a orientação do Prof. Christian Werner (de 2002 a 2004).

Àquela época, traduzi metade do Canto II usando um hexâmetro dactílico aos moldes de Carlos Alberto Nunes, cuja tradução sempre foi uma grande inspiração para mim.

Mais recentemente, há uns quatro anos, tentei um verso bárbaro de 14 sílabas, mas sem muito sucesso.

Em seguida, no final de 2017, fiz um experimento com o hexâmetro dactílico conforme Guilherme Gontijo Flores, Rodrigo Gonçalves e Marcelo Tápia o usam, permitindo a permuta de dáctilos por troqueus/espondeus. Apesar de o resultado ser excelente para a performance cantada, notei que a maioria das pessoas não consegue perceber o ritmo do texto ao lê-lo escrito. Com isso, perde-se muito da sonoridade do verso. Como é improvável a performance do texto inteiro, fiquei um pouco desmotivado de seguir por esse caminho (até porque já temos a tradução do Nunes, que serve para a performance).

Por conta disso, decidi que faria uma tradução em algum metro vernáculo canônico, mais propício à leitura. Escolhi o decassílabo por ser, por tradição, o metro mais solene em nossa língua. Para dar conta do conteúdo semântico e estético do hexâmetro grego, muito mais longo, decidi que faria dois decassílabos para cada hexâmetro. Com isso, mantém-se uma equivalência, que permite a fácil consulta entre o texto de partida e o texto de chegada (o que seria mais difícil se eu fosse traduzindo cada hexâmetro por quantos decassílabos julgasse necessários).

Usando essa solução, tenho buscado fazer uma tradução que seja fluente, clara e com boa estruturação formal e sonora dentro do verso. Ainda que já tenhamos excelentes traduções, considero que nenhuma possua sozinha esse conjunto de qualidades. (Penso que a de Haroldo de Campos é a mais bela e inventiva, ainda que à custa de um distanciamento do texto grego; a de Nunes é um pouco mais próxima, bastante sonora, mas cheia de hipérbatos, vocabulário antigo e formulações pouco fluentes para o leitor contemporâneo; a de Odorico Mendes tem as mesmas qualidades e problemas da de Nunes, mas em graus ainda superiores; a de Lourenço é muito fluente e clara, mas tem pouca preocupação formal; a de Werner é a mais atenta ao texto grego, mas tem pouca fluência e preocupação formal; etc.)

Enfim, a convite do gentilíssimo Sergio Maciel, apresento dois trechos de minha tradução.

Primeiro, o proêmio e os versos seguintes (vv. 1-52), até a cena em que Apolo lança suas flechas no exército aqueu, uma passagem que conto entre as mais poeticamente marcantes do poema. Depois, o trecho em que Odisseu chega em Crisa levando Criseida de volta a Crises (vv. 439-474). O churrasco após o sacrifício foi inesperadamente difícil de pôr em verso.

 

Leonardo Antunes

* * *

 

Ira de Aquiles, filho de Peleu,
deusa, concede que eu celebre em canto,
ira fatal que aos acaios impôs
uma miríade de sofrimentos;
muitas almas de força e valentia
fez descender para a casa de Hades;
almas de heróis cujos corpos sem vida
relegou como espólio para os cães
e de banquete às aves de rapina.
Assim cumpria-se o plano de Zeus
desde o primeiro momento em que os dois
por força da discórdia se apartaram,
o Atrida, soberano de varões,
e o filho de Peleu, divino Aquiles.
Quem dentre os deuses incitou os dois,
por meio da discórdia, a contenderem?
Foi o nascido de Leto e de Zeus,
que, movido por raiva contra o rei,
fez com que sobre o exército avançasse
terrível peste – o povo perecia –
por motivo de o sacerdote Crises
ter sido desonrado pelo Atrida.
Isso ocorreu no dia em que ele fora
até as rápidas naves aqueias
a fim de libertar a sua filha,
carregando um resgate imensurável
e tendo em suas mãos sinais divinos,
lauréis de Apolo, flecheiro infalível,
entrelaçados em seu cetro de ouro.
Pedia para todos os aqueus,
mas sobretudo para os dois Atridas,
comandantes de povos e varões:
“Filhos de Atreu e vós outros aquivos,
guerreiros de cnêmides bem-feitas,
que para vós concedam os divinos,
possuidores de olímpicas moradas,
saquear a priâmea cidadela
e ter um bom retorno para casa.
Mas libertai minha filha querida,
aceitando os resgates que vos trago.
Sede tementes ao filho de Zeus,
o arqueiro de infalível mira, Apolo.”
Nisso, os outros acaios aclamaram
com jubilosos gritos o discurso:
que o sacerdote fosse respeitado
e que se recebessem os resgates.
Somente ao filho de Atreu, Agamêmnon,
isso não alegrava o coração.
Terrivelmente rechaça o ancião
e o manda embora com grave discurso:
“Que eu não te encontre novamente, velho,
junto das côncavas naves aqueias,
nem agora tardando em retirar-te
nem mais tarde voltando para cá.
De nada poderão te auxiliar
esse teu cetro e as insígnias do deus,
pois eu não a libertarei jamais
antes de lhe sobrevir a velhice
dentro do meu palácio, lá em Argos,
muito longe da terra de seu pai,
frequentando o tear a cada dia
e me encontrando ao leito a cada noite.
Agora parte! Não me encolerizes,
que assim talvez tu salves tua vida.”
Assim falou. O velho, amedrontado,
obedeceu às ordens recebidas.
Partiu calado, caminhando só
junto das dunas do mar murmurante.
Depois que se afastou do acampamento,
o velho então rezou com grande empenho:
“Apolo, meu senhor, tu que nasceste
de Leto, de belíssimas madeixas,
escuta minha prece, do arco argênteo,
tu que zelas solícito por Crisa
e por Cila, terreno consagrado,
e que em Tênedo reges com poder.
Esminteão, se alguma vez outrora
ergui um belo templo para ti,
ou se acaso eu alguma vez outrora
queimei ossadas de coxas com banha,
ossos de coxas de touro ou de bode,
concede para mim o que desejo:
faz com que os dânaos me paguem todas
as minhas lágrimas com tuas flechas!”
Assim ele falou em sua prece
e Febo Apolo logo o escutou.
Ele baixa dos píncaros do Olimpo,
enraivecido desde o coração,
trazendo junto aos ombros o seu arco
e a aljava de feitura primorosa.
Junto às espáduas do deus furioso,
retiniam agudos os projéteis
à medida que se movimentava
avançando semelho à própria noite.
Logo senta distante dos navios
e então dispara a primeira das flechas.
Um terrível clangor ressoa ao longe
espraiando-se do arco prateado.
Acometeu primeiro contra os mulos
e logo após contra os fúlgidos cães.
Na sequência, contudo, pondo a mira
de seu dardo aguçado contra os homens,
ele atirou. Sem pausa, dia e noite,
as piras de cadáveres queimavam.

μῆνιν ἄειδε θεὰ Πηληϊάδεω Ἀχιλῆος
οὐλομένην, ἣ μυρί᾽ Ἀχαιοῖς ἄλγε᾽ ἔθηκε,
πολλὰς δ᾽ ἰφθίμους ψυχὰς Ἄϊδι προΐαψεν
ἡρώων, αὐτοὺς δὲ ἑλώρια τεῦχε κύνεσσιν
οἰωνοῖσί τε πᾶσι, Διὸς δ᾽ ἐτελείετο βουλή,
ἐξ οὗ δὴ τὰ πρῶτα διαστήτην ἐρίσαντε
Ἀτρεΐδης τε ἄναξ ἀνδρῶν καὶ δῖος Ἀχιλλεύς.
τίς τ᾽ ἄρ σφωε θεῶν ἔριδι ξυνέηκε μάχεσθαι;
Λητοῦς καὶ Διὸς υἱός: ὃ γὰρ βασιλῆϊ χολωθεὶς
νοῦσον ἀνὰ στρατὸν ὄρσε κακήν, ὀλέκοντο δὲ λαοί,
οὕνεκα τὸν Χρύσην ἠτίμασεν ἀρητῆρα
Ἀτρεΐδης: ὃ γὰρ ἦλθε θοὰς ἐπὶ νῆας Ἀχαιῶν
λυσόμενός τε θύγατρα φέρων τ᾽ ἀπερείσι᾽ ἄποινα,
στέμματ᾽ ἔχων ἐν χερσὶν ἑκηβόλου Ἀπόλλωνος
χρυσέῳ ἀνὰ σκήπτρῳ, καὶ λίσσετο πάντας Ἀχαιούς,
Ἀτρεΐδα δὲ μάλιστα δύω, κοσμήτορε λαῶν:
Ἀτρεΐδαι τε καὶ ἄλλοι ἐϋκνήμιδες Ἀχαιοί,
ὑμῖν μὲν θεοὶ δοῖεν Ὀλύμπια δώματ᾽ ἔχοντες
ἐκπέρσαι Πριάμοιο πόλιν, εὖ δ᾽ οἴκαδ᾽ ἱκέσθαι:
παῖδα δ᾽ ἐμοὶ λύσαιτε φίλην, τὰ δ᾽ ἄποινα δέχεσθαι,
ἁζόμενοι Διὸς υἱὸν ἑκηβόλον Ἀπόλλωνα.
ἔνθ᾽ ἄλλοι μὲν πάντες ἐπευφήμησαν Ἀχαιοὶ
αἰδεῖσθαί θ᾽ ἱερῆα καὶ ἀγλαὰ δέχθαι ἄποινα:
ἀλλ᾽ οὐκ Ἀτρεΐδῃ Ἀγαμέμνονι ἥνδανε θυμῷ,
ἀλλὰ κακῶς ἀφίει, κρατερὸν δ᾽ ἐπὶ μῦθον ἔτελλε:
μή σε γέρον κοίλῃσιν ἐγὼ παρὰ νηυσὶ κιχείω
ἢ νῦν δηθύνοντ᾽ ἢ ὕστερον αὖτις ἰόντα,
μή νύ τοι οὐ χραίσμῃ σκῆπτρον καὶ στέμμα θεοῖο:
τὴν δ᾽ ἐγὼ οὐ λύσω: πρίν μιν καὶ γῆρας ἔπεισιν
ἡμετέρῳ ἐνὶ οἴκῳ ἐν Ἄργεϊ τηλόθι πάτρης
ἱστὸν ἐποιχομένην καὶ ἐμὸν λέχος ἀντιόωσαν:
ἀλλ᾽ ἴθι μή μ᾽ ἐρέθιζε σαώτερος ὥς κε νέηαι.
ὣς ἔφατ᾽, ἔδεισεν δ᾽ ὃ γέρων καὶ ἐπείθετο μύθῳ:
βῆ δ᾽ ἀκέων παρὰ θῖνα πολυφλοίσβοιο θαλάσσης:
πολλὰ δ᾽ ἔπειτ᾽ ἀπάνευθε κιὼν ἠρᾶθ᾽ ὃ γεραιὸς
Ἀπόλλωνι ἄνακτι, τὸν ἠΰκομος τέκε Λητώ:
κλῦθί μευ ἀργυρότοξ᾽, ὃς Χρύσην ἀμφιβέβηκας
Κίλλάν τε ζαθέην Τενέδοιό τε ἶφι ἀνάσσεις,
Σμινθεῦ εἴ ποτέ τοι χαρίεντ᾽ ἐπὶ νηὸν ἔρεψα,
40ἢ εἰ δή ποτέ τοι κατὰ πίονα μηρί᾽ ἔκηα
ταύρων ἠδ᾽ αἰγῶν, τὸ δέ μοι κρήηνον ἐέλδωρ:
τίσειαν Δαναοὶ ἐμὰ δάκρυα σοῖσι βέλεσσιν.
ὣς ἔφατ᾽ εὐχόμενος, τοῦ δ᾽ ἔκλυε Φοῖβος Ἀπόλλων,
βῆ δὲ κατ᾽ Οὐλύμποιο καρήνων χωόμενος κῆρ,
τόξ᾽ ὤμοισιν ἔχων ἀμφηρεφέα τε φαρέτρην:
ἔκλαγξαν δ᾽ ἄρ᾽ ὀϊστοὶ ἐπ᾽ ὤμων χωομένοιο,
αὐτοῦ κινηθέντος: ὃ δ᾽ ἤϊε νυκτὶ ἐοικώς.
ἕζετ᾽ ἔπειτ᾽ ἀπάνευθε νεῶν, μετὰ δ᾽ ἰὸν ἕηκε:
δεινὴ δὲ κλαγγὴ γένετ᾽ ἀργυρέοιο βιοῖο:
50οὐρῆας μὲν πρῶτον ἐπῴχετο καὶ κύνας ἀργούς,
αὐτὰρ ἔπειτ᾽ αὐτοῖσι βέλος ἐχεπευκὲς ἐφιεὶς
βάλλ᾽: αἰεὶ δὲ πυραὶ νεκύων καίοντο θαμειαί.

§

 

Por fim, da nau singradora de mares,
desce a garota nascida de Crises.
Ela é levada em seguida ao altar
por Odisseu de muitíssima astúcia,
que a põe nos braços do querido pai
e a ele se dirige desta forma:
“Crises, eu venho enviado até ti
por Agamêmnon, senhor de varões,
no intuito de trazer-te tua filha
e para Febo a hecatombe sagrada
que eu irei perfazer em prol dos dânaos
a fim de que alegremos o senhor
que agora sobre os guerreiros argivos
envia dardos muitíssimo amargos.”
Assim falou enquanto a colocava
nos braços dele, que recebe alegre
sua filha querida. De imediato
a sagrada hecatombe para o deus
eles dispõem de maneira ordenada
em todo o entorno do altar bem-lavrado.
Depois lavam as mãos com água limpa
e polvilham cevada sobre o altar.
No meio deles, com as mãos erguidas,
Crises então entoa grande prece:
“Escuta minha prece, do arco argênteo,
tu que zelas solícito por Crisa
e por Cila, terreno consagrado,
e que em Tênedo reges com poder.
Há poucos dias no passado ouviste
a prece que te fiz em súplica
e tu me honraste, causando uma enorme
destruição ao exército acaio.
Da mesma forma, novamente agora
concede para mim o que desejo:
afasta agora dos guerreiros dânaos
o fado impróprio da destruição.”
Assim ele falou em sua prece
e Febo Apolo logo o escutou.
Quando todos haviam feito preces
e polvilhado cevada no altar,
pondo as vítimas prontas para o abate
degolaram-nas e esfolaram todas.
Desmembraram depois as suas coxas,
que recobriram então com gordura
perfazendo uma dúplice camada,
e em cima delas puseram mais cortes.
O velho assou as carnes sobre espetos
e espargiu vinho rútilo por cima.
Os jovens se juntaram perto dele,
tendo em mãos garfos de quíntuplas pontas.
Quando as coxas estavam bem assadas
e as vísceras provadas já por todos,
eles cortaram o resto das carnes
e as espetaram então nos espetos.
Assaram tudo com calma e cuidado
e depois removeram dos espetos.
Quando findaram os preparativos
e terminaram de armar o banquete,
banquetearam-se. Não houve nada
que ficasse faltando ao coração.
Depois, quando já tinham saciado
a gana por bebida e por comida,
os mais jovens encheram as crateras
até que as coroassem com bebida.
Então distribuíram cálices
a todos com primeiras libações.
Diuturnos, o dia todo os jovens
apaziguam o deus com o seu canto.
Entoando belíssimos peãs,
os guerreiros mais jovens dos aqueus
louvam o deus que trabalha de longe.
Seu coração se alegra por ouvi-los.

ἐκ δὲ Χρυσηῒς νηὸς βῆ ποντοπόροιο.
τὴν μὲν ἔπειτ᾽ ἐπὶ βωμὸν ἄγων πολύμητις Ὀδυσσεὺς
πατρὶ φίλῳ ἐν χερσὶ τίθει καί μιν προσέειπεν:
ὦ Χρύση, πρό μ᾽ ἔπεμψεν ἄναξ ἀνδρῶν Ἀγαμέμνων
παῖδά τε σοὶ ἀγέμεν, Φοίβῳ θ᾽ ἱερὴν ἑκατόμβην
ῥέξαι ὑπὲρ Δαναῶν ὄφρ᾽ ἱλασόμεσθα ἄνακτα,
ὃς νῦν Ἀργείοισι πολύστονα κήδε᾽ ἐφῆκεν.
ὣς εἰπὼν ἐν χερσὶ τίθει, ὃ δὲ δέξατο χαίρων
παῖδα φίλην: τοὶ δ᾽ ὦκα θεῷ ἱερὴν ἑκατόμβην
ἑξείης ἔστησαν ἐΰδμητον περὶ βωμόν,
χερνίψαντο δ᾽ ἔπειτα καὶ οὐλοχύτας ἀνέλοντο.
τοῖσιν δὲ Χρύσης μεγάλ᾽ εὔχετο χεῖρας ἀνασχών:
κλῦθί μευ ἀργυρότοξ᾽, ὃς Χρύσην ἀμφιβέβηκας
Κίλλαν τε ζαθέην Τενέδοιό τε ἶφι ἀνάσσεις:
ἦ μὲν δή ποτ᾽ ἐμεῦ πάρος ἔκλυες εὐξαμένοιο,
τίμησας μὲν ἐμέ, μέγα δ᾽ ἴψαο λαὸν Ἀχαιῶν:
ἠδ᾽ ἔτι καὶ νῦν μοι τόδ᾽ ἐπικρήηνον ἐέλδωρ:
ἤδη νῦν Δαναοῖσιν ἀεικέα λοιγὸν ἄμυνον.
ὣς ἔφατ᾽ εὐχόμενος, τοῦ δ᾽ ἔκλυε Φοῖβος Ἀπόλλων.
‘‘ αὐτὰρ ἐπεί ῥ᾽ εὔξαντο καὶ οὐλοχύτας προβάλοντο,
αὐέρυσαν μὲν πρῶτα καὶ ἔσφαξαν καὶ ἔδειραν,
μηρούς τ᾽ ἐξέταμον κατά τε κνίσῃ ἐκάλυψαν
δίπτυχα ποιήσαντες, ἐπ᾽ αὐτῶν δ᾽ ὠμοθέτησαν:
καῖε δ᾽ ἐπὶ σχίζῃς ὁ γέρων, ἐπὶ δ᾽ αἴθοπα οἶνον
λεῖβε: νέοι δὲ παρ᾽ αὐτὸν ἔχον πεμπώβολα χερσίν.
αὐτὰρ ἐπεὶ κατὰ μῆρε κάη καὶ σπλάγχνα πάσαντο,
μίστυλλόν τ᾽ ἄρα τἆλλα καὶ ἀμφ᾽ ὀβελοῖσιν ἔπειραν,
ὤπτησάν τε περιφραδέως, ἐρύσαντό τε πάντα.
αὐτὰρ ἐπεὶ παύσαντο πόνου τετύκοντό τε δαῖτα
δαίνυντ᾽, οὐδέ τι θυμὸς ἐδεύετο δαιτὸς ἐΐσης.
αὐτὰρ ἐπεὶ πόσιος καὶ ἐδητύος ἐξ ἔρον ἕντο,
κοῦροι μὲν κρητῆρας ἐπεστέψαντο ποτοῖο,
νώμησαν δ᾽ ἄρα πᾶσιν ἐπαρξάμενοι δεπάεσσιν:
οἳ δὲ πανημέριοι μολπῇ θεὸν ἱλάσκοντο
καλὸν ἀείδοντες παιήονα κοῦροι Ἀχαιῶν
μέλποντες ἑκάεργον: ὃ δὲ φρένα τέρπετ᾽ ἀκούων.

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Carla Diacov, 4+1

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Carla Diacov, São Bernardo do Campo, 1975. Autora de Amanhã Alguém Morre no Samba (Douda Correria, 2015/Edições Macondo, 2018), A metáfora mais Gentil do Mundo Gentil, (Macondo Edições, Juiz de fora, 2016), Ninguém Vai Poder Dizer Que Eu Não Disse (Douda Correria, 2016), bater bater no yuri (livro online pela Enfermaria 6, 2017), A Menstruação de Valter Hugo Mãe (editado pelo escritor português, no projeto não comercial Casa Mãe, Portugal, 2017), A Munição Compro Depois (a sair pela Cozinha Experimental, 2018). Sua poesia já apareceu na escamandro outras vezes.

*

4 POEMAS DE AMANHÃ ALGUÉM MORRE NO SAMBA

significar o osso da coisa queridinha
os enfeites da casa gritam comigo
ombreiras esquadrias agulhas gatinhos da china
decoram as margens do meu amor
o ossome afundo na tua reminiscência
o osso e as antenas
gritam
como se tudo fosse o grande do tempo
as esquadrias dos óculos gatinhos da china
omoplatas de prata queridinha
o bafo da trilha
a carne da coisa
tão necessária insignificante
na estrutura superfície da aberração amor

§

eu tinha medo de morrer tímida mordia a ideia
tinha medo do suicídio sendo tão tímida
outras noites já batiam meu queixo
outras dicções
e eu ainda com medo de morrer tímida
mudei os móveis de lugar
encontrei uma agulha perdida tinha anos
e ainda o medo de morrer tímida
abocada numa quina da casa
a boca tão perto do segredo
tímida
lembrando a uma poltrona torta
lembrando a uma boca morta
um peixe sem boca
uma poltrona sem braços

§

o burro trota tão lentamente
perdido do nome gritado
carrega ovos nas mãos escondidas nas
mangas do casaco extralargo
coitado do burro com mãos
perdido da moldura antiga
pacífico de sua própria demência
bonito tão bonito pacífico tão lindo
lentamente ruma
já a casa de fé nos olhos de burro
parece um peixe coitado pacífico
tem esse jeitão de aquário trincado
gosta de cadeiras em geral
mas é boa gente
gosta de leite quente e de cadeiras
em geral
chega ao templo das irmãzinhas castanheiras do último dia
deixa os ovos no altar
faz carinho nos porcos
pega o microfone e repete
quase porque quase porque quase
tudo empilhado
quase porque quase porque quase porque

é mesmo um burro
queria ser pianista
tem muita fé quase porque tudo empilhado
mas é mesmo um lento burro de carregar ovos
pacífico todo pacífico demente e lindo
tão bonito tudo empilhado

§

passo por esse casal de amantes
é como meter as mãos num balde de sardinhas
são tantas as mordidelas
estou ferida
não é mortal
passei por aquele casal de amantes
foi como meter num balde de sal
estraçalhadas
as mãos
são tantas as sardinhas
como corta o sol
nem meio gato à vista
como corta a luz
como corta o navio
são tantas as escamas
é como meter as mãos
são tantos os braços
nem meio gato
nem meia língua
nem meio mal

§

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1 POEMA INÉDITO

sons – colo

deita o garfo mudo no meu colo
diz coisas incompreensíveis sobre o amor
diz coisas domesticáveis sobre a vida e o ódio
diz não saber separar a morte da morte momentânea
diz a aflição sobre a comunicação entre gatos
deita a faca nua no meu colo
diz coisas interditadas sobre uma ideia de flor
diz coisas debaixo das unhas dos mortos
entre seus cabelos
deita o prato sujo no meu colo
diz coisas e diz e dança os dedos
deita o copo trincado no meu colo
diz coisas diz coisas e tudo que escuto é o rasgo nesse nosso manso idioma

***

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poesia

Para Assionara Souza (1969—2018), In memoriam

Hoje faleceu em decorrência de um câncer a escritora Assionara Souza (1969, Caicó/RN—2018, Curitiba/PR), figura importante por sua escrita e presença em Curitiba, mas também em vários outros lugares do país. Assionara publicou Cecília não é um cachimbo(2005, também nome do seu blog), Amanhãs com Sorvete! (2010), Os hábitos e os monges (2011), Na rua: a caminho do circo (2014) e, no ano passado, Alquimista na chuva, além da peça de teatro Das mulheres de antes (2016). Foi também estudiosa da obra de Osman Lins, idealizadora do projeto Translações: literatura em trânsito e do livro que dele resultou, e participante do coletivo Escritoras Suicidas. Embora sua carreira tenha se desenvolvido na prosa, nos últimos tempos ela vinha publicando poesia, o que resultou na Alquimista na chuva, ao mesmo tempo seu último livro e primeiro de poesia.

Havíamos publicado três poemas seus aqui, há pouco mais de um mês, sem sabermos da luta contra a doença, impressionados com a criação poética que ali aparecia; e é com profunda tristeza que recebemos hoje a notícia de sua morte. As redes sociais têm se enchido de poemas em sua homenagem, como lembrança da pessoa e da obra. Aqui nos despedimos  com um lamento fúnebre ficcional escrito por Hans Arp, mas que sempre vem à mente quando perdemos uma vida dedicada à linguagem.

Segue o teu destino, Assionara.

escamandro

* * *

ah, nosso bom gaspar morreu.

ah, nosso bom gaspar morreu.

quem leva agora a bandeira incandescente escondida nas tranças das nuvens para o negro ardil diário.

quem mói o café no barril original.

quem agora seduz o cervo idílico pra fora do saco petrificado.

quem agora no mar confunde os barcos tratando de guarda-chuvas e o vento chamando de pai-das-abelhas fuso-de-ozônio sua alteza.

ah, ah, ah, nosso bom gaspar morreu. deus do céu, gaspar morreu.

os peixes de feno clamam penando de dor nos sinos-celeiros se alguém expressa o nome dele. por isso mais suspiro de novo por seu sobrenome gaspar gaspar gaspar.

por que você nos deixou. em que figura transformou-se a tua grande alma bela. será que virou estrela ou grilhão d’água em redemunho quente ou teta de luz negra ou tijolo transparente no gemente tambor do ser rochoso.

hoje secam nossos crânios e solas e as fadas jazem semicarbonizadas na pira.

hoje trovoa por trás do sol a pista negra de boliche e ninguém ergue mais a bússola e as rodas dos carrinhos de mão.

quem come agora com os ratos fosforescentes na descalça mesa solitária.

quem escorraça o diabo sirococo quando ele quer bolinar os cavalos.

quem nos explica o monograma nas estrelas.

seu busto vai adornar as lareiras de todos os verdadeiramente nobres mas isso não é conforto nem rapé pra uma caveira.

 

weggis, 1912

[trad. guilherme gontijo flores]

 

weh unser guter kaspar ist tot

weh unser guter kaspar ist tot

wer trägt nun die brennende fahne im wolkenzopf verborgen täglich zum

schwarzen schnippchen schlagen

wer dreht die kaffeemühle im urfass

wer lockt nun das idyllische reh aus der versteinerten tute

wer verwirrt nun auf dem meere die schiffe mit der anrede parapluie und die winde mit dem zuruf bienenvater ozonspindel euer hochwohlgeboren

weh weh weh unser guter kaspar ist tot. heiliger bimbam kaspar ist tot.

die heufische klappern herzzerreissend vor leid in den glockenscheunen wenn man seinen vornamen ausspricht, darum seufze ich weiter seinen familiennamen kaspar kaspar kaspar.

warum hast du uns verlassen. in welche gestalt ist nun deine schöne grosse seele gewandert. bist du ein stern geworden oder eine kette aus wasser an einem heissen wirbelwind oder ein euter aus schwarzem licht oder ein

durchsichtiger ziegel an der strömenden trommel des felsigen wesens.

jetzt vertrocknen unsere scheitel und sohlen und die feen liegen halbverkohlt auf dem scheiterhaufen.

jetzt donnert hinter der sonne die schwarze kegelbahn und keiner zieht mehr die kompasse und die räder der schiebkarren auf.

wer isst nun mit der phosphoriszierenden ratte am einsamen barfüssigen tisch.

wer verjagt nun den sirokkoko teufel wenn er die pferde verführen will.

wer erklärt uns nun die monogramme in den sternen.

seine büste wird die kamine aller wahrhaft edlen menschen zieren doch das ist kein trost und schnupftabak für einen totenkopf.

 

weggis, 1912

 

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poesia, tradução

UM ANO DEPOIS DE ISTAMBUL, por Francesca Cricelli

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Fotografia de Francesca Cricelli

Um texto meu permaneceu engavetado por um ano. Ontem, por acaso, assistindo a um filme de Ferzan Özpetek Rosso Istambul senti-me invadida pela saudade do Bósforo, seus azuis, as luzes do dia nele se refletindo e tudo sendo alterado a partir dela – a luz. Decidi reler a crônica que havia escrito quando voltei de lá sob a luz de hoje, maio de 2018 – há um ano de Istambul e 50 de ´68 – e propor a publicação à revista escamando, acrescida de alguns poemas que traduzi em razão e emoção da viagem. Agradeço aos editores pela acolhida. Onde escrevo “no ano passado” leia-se retrasado. Em maio de 2017 eu me preocupava com os destinos do conservadorismo turco e pensava em algum paralelo com o Brasil, mas ainda me parecia algo distante. Falava do bairro onde estava hospedada como uma “ilha progressista dentro de um mar cujas ondas encrespam rapidamente com a maré do conservadorismo político e religioso que abate, há tempo, a Turquia.” Este mar encrespado tem batido seus golpes sobre outros rochedos. Desde que escrevi este texto houve o golpe, houve o assassinato de Marielle, houve a prisão de Lula, houve o ataque norte-americano sobre a Síria. Houve também o descolamento dos vítreos dos meus olhos, mas houve muita poesia escrita e traduzida, houve minha volta à China, minha ida à Galícia, o lançamento de três livros, houve festival em Nova York, passagem por Miami, houve minha primeira ida à Islândia. Houve capítulos escritos da tese, paixões, desilusões e enamoramento. Doença e morte. Diante do porvir, diante do desconhecido, que estejamos prontos e dispostos a nos movermos, escrevermos, traduzirmos, viajarmos, denunciarmos. Que se mantenha um espaço com alguma graça, luz e esperança para ter forças de olhar para trás – um pouco – e seguir adiante.

Ribeirão Preto, maio de 2018

*

AS VOZES DE ISTAMBUL

No ano passado, narrando minha viagem à Qinghai, na China, [revista Cult n.° 2018, novembro de 2016] contei como havia escapado, por pouco, à tentativa de golpe militar na Turquia, dia 15 de julho de 2016, mudando instintiva e inconscientemente minha conexão de voo até Pequim, não passando por Istambul, mas por Roma. Desde então, ou talvez muito antes disto, venho fantasiando uma viagem à antiga capital oriental do império romano repartida pelo Bósforo. Mas é a poesia, Senhora das minhas andanças, que decide o momento e os percursos a serem traçados. Tive que esperar até maio para conhecer Istambul.

E como escrever sobre o encontro real com um lugar imaginado, aquele já sonhado e visitado em versos e prosas? Talvez só evocando Drummond de antemão, e não Nazim Hikmet, quase pedindo licença, para então enunciar as impressões dos dias fugazes, pois “lutar com palavras é a luta mais vã”; “entretanto lutamos/ mal rompe a manhã”. “São muitas/ eu pouco”. Tantas são as cidades e civilizações que habitam Istambul. Esta multiplicidade sincrônica evoca uma orquestração de sentidos. Percepção sensorial que cruza a história enquanto nos ouvidos ressoam os versos dos poetas em tantas línguas inteligíveis e o azan, a chamada à prece que desce dos minaretes e atravessa as leituras. São estas algumas das vozes de Istambul que evoco, como se quisesse citar Canetti em Marraquexe, ouço-as quando se juntam ao coro das manifestações do primeiro de maio, suas ruas ocupadas, centenas de pessoas presas, ou quando harmonizam com a canção bella ciao, hino antifascista da resistência italiana, cantada a plenos pulmões pelos poetas turcos durante o cruzeiro noturno no braço de mar que divide a cidade.

Tudo é pouco diante da antiga metrópole alçada entre continentes, duas faces voltadas para um estreito de mar que divide o Ocidente do Oriente e liga ao Mar Negro o Mar de Mármara, antecâmara do Mediterrâneo. Tantos impérios erguidos e desfeitos entre o céu e o Bósforo. Os percursos narrativos possíveis são infinitos, um para cada paleta de azul que reflete sobre os palácios, casas e mesquitas. Ampla variação que percorre as cores do céu do alvorecer até as últimas luzes do pôr-do-sol visto da Torre de Gálata, tantos tons quanto os vitrais da Mesquita Azul em sua ação caleidoscópica sobre seus azulejos que revestem suas paredes.

Entre o final de abril e os primeiros dias de maio participei do Bahar ve Şiir Festivali, festival da Primavera e da Poesia do bairro de Beşiktaş. Fizemos várias leituras pelos parques da cidade. Em Istambul, os bairros são “municipalidades”, como nossas subprefeituras, mas com maior autonomia, podendo, assim, gerir seus recursos com maior liberdade. Talvez seja esta separação de poderes o que faz coexistir uma ilha tão progressista dentro de um mar cujas ondas encrespam rapidamente com a maré do conservadorismo político e religioso que abate, há tempo, a Turquia. Enfim, Beşiktaş, situada na costa europeia da cidade, não é distante de Beyoğlu, bairro que abriga a praça de Taksim, palco das principais manifestações e ferozes retaliações policiais de 2013. Com todas as devidas diferenças, há algo em comum nos destinos que tomaram Istambul e São Paulo, a Turquia e o Brasil, desde 2013.

A alma do festival é seu diretor artístico, o poeta, tradutor de literatura russa e acadêmico Ataol Behramoğlu. Seu braço direito na organização é seu sobrinho, também poeta, Onur Behramoğlu. Ataol viveu por anos em exílio após o golpe de estado de 1980. Seu livro Nem chuva … nem poemas foi então confiscado, e o poeta, tendo vivido na Grécia, na França e na Rússia traduziu autores como Louis Aragon, Bertold Brecht, Atila József, García Lorca, José Martí, Maiakovski, Neruda, Pushkin, Yiannis Sitsos reunindo-os no volume Balada da irmandade e levando estas vozes à Turquia. Por sua própria história de vida, Ataol tem a inclinação de carregar as vozes da poesia de um lado ao outro do mundo, de uma língua a outra. Talvez por isso o festival mostrou uma abertura especial às vozes dos refugiados e exilados. Contou-se com a presença de diversos poetas em exílio, sobretudo sírios que hoje vivem na Turquia, e da poeta e militante iraquiana Amal Al Jubouri, hoje residente em Londres. Não podemos esquecer que aproximadamente três milhões de sírios vivem exilados na Turquia, que de alguma forma, age como uma membrana de contenção para a Europa. Questões nebulosas e delicadas que talvez indiquem algo sobre a falta de um posicionamento claro quando se fala de Erdoğan. Beşiktaş significa, literalmente, “berço de pedras”. O nome é uma herança da igreja bizantina Kounopetra, construída nesta parte da cidade, com o intuito de abrigar uma pedra supostamente vinda da manjedoura em que nasceu Jesus. A mesma relíquia foi posteriormente levada para Hagia Sophia – Santa Sabedoria, mas desapareceu durante a Quarta Cruzada, foi provavelmente vendida no mercado europeu de relíquias religiosas. Outra narrativa diz que a pedra era, na verdade, a pia batismal de Cristo e teria sido trazida para Istambul após uma peregrinação originada em Jerusalém. Há ainda uma terceira e mais interessante narrativa que tem como fundo a distorção linguística da expressão beş taş, ou seja “cinco pedras”, que se refere às cinco pedras utilizadas para amarrar os barcos na época do Khayr al-Din Barba Ruiva. Quantas vozes e versões há por trás do nome de um bairro de Istambul? A presença de muitas camadas narrativas soa como uma música de Jun Miyake, “Integral Silence”, cujo poema inicial diz “how do we begin to know the unknown?” Como começamos a conhecer o desconhecido? Como a pergunta à sentinela nos versos de Isaías “em que pé está a noite?” Vem a manhã e vem a noite. O poema-música de Miyake continua dizendo que há ainda tantas perguntas, “movo-me dentro delas” diz, as indagações são “minhas mãos e meus pés”, “são o que lhe devolvo”. É difícil falar com leveza sobre Istambul após tão poucos dias, e seria esta a saída mais fácil, pois sua beleza é tão ensurdecedora que ofusca o que vai além da percepção imediata. Não é um acaso misturar visão e audição ao falar de Istambul. Não passa batido à memória, nem com a deslumbrante beleza e sedutora culinária, que o mesmo país que acolhe tantos refugiados sírios é também responsável por um dos maiores genocídios da história, pela diáspora armênia, pelos conflitos irresolutos com o povo curdo. Temos alguns poderosos registros artísticos sobre este drama em nosso próprio país, pela arte de Norair Chahinian, seus registros fotográficos em O poder do vazio: conversando com as pedras na Armênia histórica [livro impresso em Istambul pela editora Aras em abril de 2015] ou nos versos do jovem poeta brasileiro William Zeytounlian [Diáspora, Selo Demônio Negro, 2015], ambos de ascendência armênia.

Uma noite, após uma longa leitura e jantar num pequeno restaurante nos becos da cidade, passei algumas horas no terraço do hotel cuja vista era a Ponte do Bósforo conversando com o poeta Onur Behramoğlu. Falamos principalmente sobre questões políticas que parecem afligir uma camada da população turca assim como, aqui, a brasileira: vários amigos de Onur estão presos ou já foram presos, muitos jornalistas, professores e intelectuais. Inevitavelmente, tocamos na questão armênia e relatei algumas histórias que conheço pessoalmente. Foi então que o jovem poeta me disse ter marchado em solidariedade à memória do jornalista armênio, Hrant Dink, assassinado em Istambul em 2007. Foi então que também me disse que seu avô – otomano -, como o pai de uma amiga armênia, ficou órfão durante o mesmo conflito. Aos cinco anos estava sozinho na vida. O filho deste órfão, pai de Onur, irmão do poeta Ataol, é um advogado trabalhista e ganhou a primeira ação em defesa de operário morto na construção da mesma ponte que víamos do terraço do hotel. Sentia então uma estranha sensação, invertendo o título do último romance do prêmio Nobel Orhan Pamuk, quão real era aquele conflito que havia ditado o mesmo destino às duas crianças de diversas etnias? Lembrei-me então de um trecho do romance de Luigi Pirandello, Um, nenhum, cem mil, no qual diz que nossa capacidade de nos iludir que a realidade de hoje seja a única verdadeira é algo que “por um lado nos sustenta, por outro atira-nos num vazio sem fim”, diz, “porque a realidade de hoje tem como destino descobrir-se a ilusão de amanhã”. Sim, “a vida não conclui. Não pode concluir. Se amanhã conclui, acabou.” Ainda bem que diante deste vazio sem fim me vem à mente outro texto, um poema chamado O grilo, de um amigo poeta cubano, o poema diz: “sob a noite cósmica/ na vasta solidão do descampado,/ o grilo canta./ O peregrino escuta/ e já não teme.”

Francesca Cricelli
São Paulo, maio de 2017

 *

Na vida e na morte nos dividimos
nossos corpos estão divididos
nossas almas divididas
nossas vozes divididas, uma da outra

nossas mãos separadas
nossos cheiros
acordar junto na mesma cama
nossos sorrisos
nossas lagrimas
divididos nossos sonhos uns dos outros

no breu da noite
improvisamente, tudo se faz um.

[Ataol Behramoğlu, Turquia]

 

 

We parted in life and death
Two bodies separated
Our hearts separated
Our voices separated, one from the other

Our hands separated
Our smells
Our waking up together in bed
Our laughing together
Our tears
Our dreams separated, one from the other
The dark night of the soul
Suddenly occluded everything

§

TODA MULHER QUE TRANSA

a uma mulher que ama Sopor Aeternus

toda mulher que transa, transa porque sofre
cai num dilema de busca do amor pelas camas
seus punhos, seu pulso, sua sobrancelha
o que lhe treme, onde sente frio
lá quer ser beijada
beijada por quem ela dá valor
deixa o vapor no espelho ser o seu nome
sabendo que logo será apagado
deixa a navalha, uma vez por todas, cortar o rosto dele enquanto pensa nela
deixa que recolha o cabelo dela do chão e redima sua prece
toda mulher que transa, é pelo afeto
como um rio abre-se à curva de caverna
num esforço para que não murche
o manjericão à espera frente à janela
comprando flores para sua solidão no caminho
escondo-a em segredo numa caixa de sapato

toda mulher que transa
gostaria de reprimir o seu pesar
move sua carne como uma garra
finge um xeque-mate
seu entorpecimento não se diferencia
do entorpecimento dos que fazem rindo
— comporta-se como uma garota má —
como as tranças, os rabos-de-cavalo, dois rabos-de-cavalo
rasgavam-se como uma corda nas palmas —
como as fibras entretecidas e a terra remexida
do seu jardim, carregada em sua testa
toda mulher que transa, o faz por amor
em algum momento a hora arbitrária estanca
ela apresenta seu pertencimento à estátua vertical que admira
ela prega com fotos emolduradas
no ventre ofendido que gostaria de dar à luz
enquanto tenta apagar o cansaço da nuca dele
ela quebra os berços das crianças fantasmas que chorou

toda mulher que transa, é para não enlouquecer
e está exposta às ameaças do seu companheiro
ela teme que a loucura se agarre
à luta que ela já não tem forças para aturar

toda mulher que transa, transa por não morrer
ela pode se enganar tanto quanto um homem

[Neslihan Yalman, Turquia]

 

WHICHEVER WOMAN MAKES LOVE

                   — to a woman who loves Sopor Aeternus… —

 whichever woman makes love, it is because of suffering
she falls in a dilemma of searching love in beds
her wrists, pulse, eyebrows
whatever she trembles, feels cold
she would like him to kiss
someone on whom she values
let the steam on the mirror be her name
by knowing that it will be erased at that second
let the razor blade, at once, cut his face while he is thinking of her
let he take her hair off ground and redeem it blessing
whichever woman makes love, it is because of affection
like a river opens to bend of cave
in an effort not to make wither
the basil of waiting in front of window
buying flower to her loneliness on the way
and drying it secretly in shoebox

whichever woman makes love
she would like to repress her sorrow
she moves her flesh like a pawn
as she pretends to check-mate
her getting numb does not make any difference
from the people who gets numb by laughter
-she behaves like a naughty girl-
as braids, pony tails, two ponytails
were getting torn like a rope in palms-
as the grasses were weeded and its earth was raked
of her garden she cared on her forehead

 whichever woman makes love, it is because of love
at some point the hour of arbitrariness stops
she presents her belonging to the vertical statue that she admires
she nails photo frames
to the offended womb that she would like to give birth
while she tries to erase the tiredness off his back of neck
she breaks the cradles of the baby ghosts on which she cried

whichever woman makes love, it is for the sake of not getting mad
and she is exposed to her fellow’s threats
she fears that madness claws
to the struggle that she does not have any strength to endure

whichever woman makes love, it is in order not to die
she can deceive herself as much as a man

[traduzido do turco ao inglês por Müesser Yeniay]

§

ESSÊNCIA

das águas mortas só se espera o veneno
            [W. Blake]

estagnado, diria sem razão,
mas no fundo há uma tristeza escondida
há a nudez do outono
os arrepios que a visão provoca

dentro, aquele dia, o que sobrou
tão diferente em mim do que há em você?
e qual passado usamos para chamá-lo
detido assim há tanto tempo?

seu espírito envelhece feito vinho
todo embrulhado em suas feridas
a neblina espalhada dispersa
com seu próprio ímpeto

certos estão os poetas sábios
que encontram nas penas o segredo
veneno é tudo o que colhemos
na seca desta abundância

caminhar rebelde de si,
o mau humor, impertinente e curioso
é passageiro, roçamos no calor
o amor de todos os lugares

[Onur Behramoğlu, Turquia]

 

NELL’ESSENZA

        dalle acque morte solo veleno aspetta
[William Blake]

fermo, diresti senza una ragione
eppure in fondo una tristezza sta nascosta
in quella nudità d’autunno spoglio
che i brividi ci dà solo a guardarla

dentro quel giorno, che cosa è mai rimasto
diverso in me da quello in te
e che passato usiamo noi chiamarlo
tenuto prigioniero dentro al tempo

lo spirito a te invecchia come il vino
ed è fasciato tutto di ferite
si è sparsa ed è dispersa quella nebbia
nell’irruenza sua propria

nel giusto sono i poeti saggi
che nella pena trovano il segreto
veleno è tutto quanto raccogliamo
in siccità di benessere e di agio

è un camminare in sé ribelle
un malumore, scontroso eppur curioso
e di passaggio ciascun posto noi?
nel caldo lo sfioriamo dell’amore.

[traduzido do turco ao italiano por Giampiero Bellingeri]

§

VÉU DAS RELIGIÕES

Se és um
e se seus ensinamentos são um
por que inscrever nossa infância no Torah?
Por que adornar nossa juventude no Evangelho?
Só para apagar, tudo isso, em seu último livro?
Por que levar à discórdia, nós, que o reconhecemos como Um?
Por que multiplicar-se dentro de nós se és Um e Único?

[Amal Al Jabouri, Iraque]

 

VEILS OF RELIGION

 If You are One
And Your teachings are one,
Why did You engrave our infancy in the tablets of the Torah,
And ornament our youth with the Gospels
Only to erase all that in Your Final Book?
Why did You draw us, the ones who acknowledge Your Oneness,
Into disagreement?
Why did You multiply in us
When You are the One and Only?

[traduzido do árabe ao inglês por Seema Atalla]

§

DIZ-ME, AMAS OS DAMASQUEIROS?

Abraça-me e
conta
assemelha-se às tuas costas
a terra?

Não tenho vontade
de sair
basta-me
o que me contas

Diz-me,
amas os damasqueiros
e a chuva que banha os
teus cabelos?

Tu digas que os ama
e eu te escreverei
longamente, como um rio
ou chuva que faz os cavalos
esquecerem
seus próprios deuses.

Abraça-me
e conta-me,
assemelha às tuas costas
a terra?

[Gökçenur Çelebioğlu, Turquia]

 

DIMMI, AMI GLI ALBICOCCHI?

 Abbracciami e
racconta
somiglia alle tue spalle
la terra?

Non ho voglia
di uscire
il tuo racconto
mi basta

Dimmi, ami gli albicocchi
e la pioggia che bagna i
tuoi capelli?

Tu dì che li ami
e io ti scriverò
a lungo, come un fiume
o una pioggia che fa
dimenticare ai cavalli
I propri dei.

Tu abbracciami
e raccontami,
somiglia alle tue spalle
la terra?

 [traduzido do turco ao italiano por Nicola Verderame]

*

Francesca Cricelli (1982-) é poeta, pesquisadora e tradutora. Publicou Repátria no Brasil (Selo Demônio Negro, 2015) e na Itália (Carta Canta, 2017) e 16 poemas + 1 em Nova Iorque (edição de autora, 2017) e em Reykjavík (Sagarana forlag, 2017), livro mais vendido em todas as categorias na primeira quinzena de outubro da Mál og menning. Seus poemas foram recentemente publicados numa coletânea do Museu Minsheng em Xangai, na China. Organizou as cartas de Ungaretti a Bruna Bianco (Mondadori, 2017) e traduziu, entre outros, Elena Ferrante (Biblioteca Azul, 2016). Doutoranda em Estudos da tradução na USP. Lecionou intecção literária na Casa Guilherme de Almeida e é professora do CLIPE Poesia 2017 na Casa das Rosas. Já apareceu aqui na escamandro com diversas traduções e poemas próprios.

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Padrão
crítica, xanto

XANTO | Deslocamento e estranheza em ‘Ao jeito dos bichos caçados’, de Otávio Campos, por Sergio Maciel

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O livro Ao jeito dos bichos caçados, de Otávio Campos, é um livro muito particular. Comecemos pelo título. Comecemos por aquilo que o poeta Ismar Tirelli Neto diz na introdução à coletânea:

O título do presente apanhado nos remete a um aparte do autor americano Robert Glück constante da narrativa “Sanchez and Day”, que abre seu Elements of a Coffee Service, publicado em 1981, a saber, a pergunta: “when aren’t we being chased?”.

Ora, é precisamente como animalidade perseguida – animalidade que a dogmática judaico-cristã recomenda subjugar sem nenhuma ambiguidade – que o poeta textualmente homossexual se coloca no cerne da especificidade brasileira. Ele opera atualmente diante de uma dupla ameaça: a “boa e velha” violência patriarcal e também o perigoso descanso prometido por vertentes mais assimilacionistas do pensamento queer.

Esse título, então, retirado do poema Tarde de Maio, de Carlos Drummond de Andrade, e que se referia lá ao amor, assim amplo, vago e abstrato, pois ele dizia que “o próprio amor se desconhece e maltrata / o próprio amor se esconde ao jeito dos bichos caçados”, vem denotar aqui um amor e transfere o papel de caça para o sujeito que ama. Afinal, agora, quem nunca deixou de ser caçado, quem está na mira do jugo, é o homem amando outro homem, semelhante a um bicho caçado em sua “dissidência afetiva-sexual”, para ainda citar Ismar.

Talvez para tratarmos dessa animalidade perseguida, portanto, seja necessário remetermos àquilo que Rafael Zacca fala sobre o livro de Marília Floôr Kosby (clique aqui), i.e., da apresentação poética de um movimento de deslocamento (lá ele chama ‘êxodo’, mas aqui vou dizer só de ‘movimento de deslocamento’ mesmo). Essa condição de deslocamento, que pode ser considerada sine qua non para toda produção artística, ainda que seja um clichê, no livro de Campos vai se moldando através de uma melancolia que perpassa seus textos. Melancolia porque esse deslocamento concede ao sujeito a condição (e a consciência dessa condição) de estrangeiro, de estranho, e, com isso, obriga-o a lidar com as diferenças de direitos, de acesso aos prazeres. Exemplo dessa relação com o jugo se faz claro no poema “A última experiência dos nossos tempos” (p. 67), em que lemos o seguinte:

é próprio da violência
que sigamos calados
o corpo limite
o que te atravessa

Silêncio, aliás, ou espécie de silêncio cúmplice, que a poesia por si só não cumpre e nem cabe cumprir. Torno a dizer: chega dessa balela de poesia = silêncio. Todo poema pra mim é um discurso em chamas, incendiário e nada tem que ver com silêncio nenhum. Para conferir mais sobre essa relação poesia versus silêncio, favor ler a página 69 do livro L’azur blasé, de Guilherme Gontijo Flores.

Agora, se partirmos para uma análise mais formal do livro, o negócio fica mais interessante. Pelo título, temos que o eu-lírico se apresentava semelhante/”ao jeito dos bichos caçados”. A epígrafe de abertura, retirada de um poema de Edimilson de Almeida Pereira, adverte: “Chamem o amador de blues/ vou bater nele como um boxeur”, anunciado que dali pra frente um embate (alguma espécie de embate) será travado. O primeiro poema do livro, inserido na seção “O bicho que come dentro da gente”, tem por título “Os corpos fraturados”. i.e., se antes mesmo da proposição poética temos um duelo anunciado, o livro logo se abre com uma espécie de apresentação dos espólios desse embate, num poema que remete ao poema “Graveyard”, de Marianne Moore (que Adriano Scandolara traduziu e pode ser lido aqui) e subverte, ironicamente, os versos iniciais do poema inglês. Aparte disso e do belíssimo poema intitulado “Mommy” (que o poeta André Capilé leu e pode ser visto aqui), não vejo grande importância nessa primeira seção.

Me interessa mais as duas seções finais, i.e., “O desejo e outras armas de corte” & “A última experiência dos nossos tempos”. Ora, se no prefácio Ismar nos aponta a importância de uma poética queer brasileira e, no final do livro, Campos nos traz um verso de Allen Ginsberg que diz “i’m putting my queer shoulder to the wheel”, não há como deixar passar a apresentação desse desejo como uma arma de corte, desse “duro tão duro” (p. 44) que vem vindo como uma pororoca desde Piva. Trata-se, creio, de ansiar ver “o desejo imenso do rito” (p.45), que aqui se dá poeticamente, ocorrer “no mundo real agora” (p. 48). Esse terceiro capítulo, intitulado “O desejo e outras armas de corte”, encerra-se com o poema “Como utilizar uma arma de corte” (p. 64), que reproduzo abaixo:

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O último capítulo vai colocar muito em evidência a condição do corpo enquanto agente mediador das “últimas experiências dos nossos tempos” e também daquela “animalidade perseguida” a que se referiu Ismar logo no prefácio. Vide:

Cálculo 4:

Quando sobrevivermos ao século e ao massacre
da fera sobre o corpo, da fera em rompante sobre
as instituições e por fim restar apenas o rastro
da língua do animal da fera e suas instituições

Mãmãmã-mãmãmãmã Mãmãmã-mãmãmãmã
mãmãmãmã Mã-mã-mã-mãmãmãmã Uhmmm
Mãmãmã-mãmãmãmã Mãmãmã-mãmã-mamá
Uhm-uhm-uhm Mãmãmã-mãmãmãmã –Mahm!
Uhm… Uhm.. UGH! Mamãmã mamãmã fera.

Áli áli alá! Uhm… [Alá! Alá!] Uhm… Uhm…
desejo da representação: Uma cartografia absurda

O curioso é que boa parte de toda a estranheza que o livro de Campos proporciona decorre ou sintaxe ou do uso inusitado dos enjambements, numa espécie de recusa do verso lapidar (em linguagem popular: àquele verso de tatuagem), numa quase construção do antiverso, que vai de encontro às poéticas, também queer, de Ricardo Domeneck e Ismar Tirelli Neto. Claro que qualquer um que leia o livro verá que há outros direcionamentos, no sentido de dicções que se aproximem daquela de Frank O’Hara ou até mesmo a de Roverto Piva; mas me interessam menos que essa dicção deslocada, estranhada, quase portuguesa, quase brasileira, quase qualquer coisa que Otávio Campos reclama pra si. Dentre os poemas constantes nessa coletânea, são esses, ao estilo de “Mommy” que me interessam, que me pegam, que me prendem. Que moldam esse sujeito caçado por todos os lados.

* * *

post-scriptum: A primeira edição deste livro foi lançada em Portugal, pela editora da Enfermaria6 (clique aqui). Agora, uma edição brasileira será lançada através da parceria entre as Edições Macondo e a Editora Moinhos, a sair dia 15/05, no ciclo de conferências Poesia e Experiência – a delicadeza e a fúria,  evento organizado pelos professores Gustavo Silveira Ribeiro e Prisca Agustoni, na UFMG.

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Padrão
tradução

De Rerum Natura (vv. 824-1023, III), de Lucrécio, por Rodrigo Gonçalves

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há quase um ano eu trouxe aqui um trecho do canto terceiro do poema épico “de rerum natura” (da natureza das coisas), do poeta romano lucrécio, na tradução de rodrigo tadeu gonçalves (clique aqui). hoje, vem à luz o trecho final deste canto e o desejo de ver logo a tradução publicada na íntegra.

sergio maciel

* * *

 

Pois, além de adoecer com doenças do corpo,
acontece de a atormentarem as coisas futuras,
e que sofra com preocupações, com o medo, ansiedade;
e, já passados os feitos e os males, os erros remordem.
Some-se a isso o furor, a loucura, o esquecer-se das coisas,
some-se a letargia que a imerge nas ondas escuras.
Nada, portanto, é a morte pra nós, nem a nós diz respeito……….830
uma vez que é mortal o ânimo por natureza.
Como nos tempos pregressos nada sofremos dos males
dos avanços guerreiros púnicos de todo lado,
todos sofrendo com trépido estrondo causado da guerra,
horrificados, tremendo sob o éter sublime,
sem saber a qual lado viria a vitória e o império
sobre todos humanos e sobre os mares e terras,
dessa maneira, quando não existirmos e quando
o discídio de ânimo e corpo nos obliterarem,
nós, que então não mais seremos, não mais sofreremos,……….840
nada, também, poderá comover sensações em nós mesmos,
mesmo se terra e mar, ou mar e céu se fundirem.
Mas, se, acaso, depois de afastada do nosso corpo
a natureza do ânimo e a ânima ainda tiverem
sensação, isso não nos importa, pois nós consistimos
da conjunção da ânima e corpo que o ser unifica.
Nem se as eras trouxessem de volta a nossa matéria
muito tempo depois de morrermos, criando de novo
como é agora e a nós novamente as luzes da vida
se restaurassem, a nós nada disso faria sentido……….850
já que as lembranças passadas a nós estariam perdidas.
E agora nada daquilo que fomos importa
nem nos afeta a angústia sofrida de outrora.
Quando contemplas o imenso espaço de tempo passado
e os inúmeros modos e conformações da matéria
fácil será acreditar que as sementes das coisas, outrora,
estas que formam agora aquilo que somos, já foram
colocadas em ordem idêntica à forma que temos.…………….[865]
Nem isso tudo podemos, porém, trazer à memória:………….[858]
entre se rompe uma pausa de vida e erraram vagando……[859] 860
os movimentos dos sentidos por toda parte.………………………[860]
E se acaso houver no futuro dor ou tristeza……………………….[861]
deve também haver alguém nesse mesmo período…………..[862]
para sofrê-los. Como a morte o proíbe, eximindo………………[863]
da existência o que concentraria os incômodos, dores,…….[864]
nós já podemos saber que nada é temível na morte
e que não pode ser mísero quem já não é, e até mesmo
nada difere se ainda não tivesse nascido
pois a vida mortal pela morte imortal foi tolhida.
Por conseguinte se vires um homem sofrer indignado……….870
por no pós morte apodrecer-lhe o cadáver deixado
ou consumir-se nas chamas, ou pelos dentes das feras,
podes saber que ele não é sincero e que estímulo cego
pende por sobre seu peito, ainda que negue que creia
que haverá qualquer sensação para si no pós morte.
Pois, como eu penso, não garante o que foi prometido
nem as razões: não se arranca da vida pelas raízes
mas, sem saber, supõe que algo de si ainda sobra.
Quando, contudo, cada ser vivo antepõe sua morte
já prevendo que as aves e feras laceram seu corpo,………880
ele de si se apieda; mas sem separar-se do morto
nem afastar-se o bastante do cadáver prostrado,
como se estivesse a seu lado e ainda sentisse.
O ter sido criado mortal o faz indignado
e ele não vê que na morte real não terá outro ele
que poderá, ainda vivo, de pé, ao seu lado, de luto,
condoer-se de si a queimar ou ser dilacerado.
Pois se é um mal que na morte a mordida ou molares das feras
nos estraçalhe, não sei como pode não ser-nos terrível
sermos cremados com o corpo lançado em tórridas chamas,……..890
ou sufocados imersos em mel ou no frio congelados
quando nos deitam no plano topo da gélida rocha,
ou esmagados pelo grave peso da terra.
“Já não mais casa alegre te acolherá, nem esposa
ótima, nem verás os teus filhos correndo a roubar-te
beijos, ternura tácita, doce, que toca teu peito.
Não verás mais florescerem com prósperos feitos
os cuidados com os teus. Ó, pobre,” dirão, “um nefasto e
único dia arrancou-te os frutos todos da vida.”
Isto, contudo, não acrescentam: “nem dessas coisas………….900
tu sentirás jamais nenhuma saudade ou desejo.”
Se isso bem entendessem e a cabeça seguisse as palavras,
afastariam do ânimo todo medo e angústia.
“Tu, de fato, assim como dormes o sono da morte,
sempre estarás, privado de toda dor e doença.
Nós, ao redor do terrífico busto pulverizado
te velamos insaciáveis, e nosso eterno
sofrimento dia algum tirará destes peitos.”
Deve-se lhe perguntar para que tanto amargor se
toda a questão se reduz ao sono e à quietude perene:………..910
quem poderia, assim, em luto eterno agastar-se?
Isto dizem também alguns, quando, deitados,
segurando copos, coroas umbrando suas faces,
ditos do ânimo: “breve é tal fruição para os pobres
homens: logo se vai, jamais a teremos de novo”.
Como se na morte tal fosse o pior de seus males:
sede queimando-os, e árida carestia os secando,
ou que os assaltaria o desejo de alguma outra coisa.
Nem a si nem à vida ninguém reclama, de fato,
quando igualmente o corpo e a mente repousam no sono.……….920
Quanto a nós, poderá o sono, assim, ser eterno
pois nenhum desejo a nós nos afeta na morte.
Mas, durante o sono, os primórdios de forma nenhuma
vagam pra longe demais dos sensíferos motos nos membros,
pois, arrancado do sono, o homem recobra a si mesmo.
Deve-se considerar que, pra nós, a morte é ainda menos
se é que pode existir algo a menos daquilo que é nada,
pois maior dispersão de matéria se segue na morte
do que no sono e ninguém desperta e levanta
uma vez que o tocou a gélida pausa da vida.…………….930
Se, de repente, a natureza das coisas lançasse
sua voz e ela mesma a qualquer um de nós censurasse:
“Ó, mortal, por que sofres tanto com a morte e indulges
tanto em lamentos e lutos, por que tanta lágrima e grito?
Pois, se a vida que levaste te foi agradável
se as alegrias não se te escaparam tal como num vaso
cheio de furos e pereceram não aproveitadas,
como um conviva feliz, satisfeito, por que não te vais da
vida e, tranquilo, abraças a calma segura, idiota?
Mas, se as coisas de que desfrutaste se desperdiçaram,…………940
se a vida é uma ofensa, pra que querer mais um pouco,
já que tudo acaba mal e se vai, e perece,
não é melhor pores fim aos labores, às penas, à vida?
Pois o que mais eu possa inventar, maquinar, que te agrade
não existe: tudo é agora tal como foi sempre.
Se teu corpo ainda não pesa dos anos, se os membros
inda não minguam exaustos, tudo está como era antes,
mesmo se vivesses mais tempo que todas as vidas,
tudo daria no mesmo, até mesmo se nunca morresses.”
Que responder, senão que o processo é justo e a causa…………….950
da natureza é exposta com veras e fortes palavras?
Se, por acaso, alguém já muito mais velho deplora……………..[955]
e, miserável, lamenta sua morte bem mais que devia……………..[952]
não terá mais direito de censurar com voz acre?”……………………[953]
Leva daqui as tuas lágrimas, frouxo, e deixa de queixas,………..[954]
tendo fruído de todos prazeres da vida definhas,
mas como sempre desejas o ausente, e o presente desprezas,
imperfeita gastou-se pra ti, e ingrata, tua vida,
e sem que queiras, a morte se põe a teu lado e te afaga
antes que saias da vida feliz, satisfeito com as coisas.…………….960
Vai, abandona todas as coisas alheias à idade
tua, e concede, com ânimo calmo, o lugar aos que ficam.”
Com justiça, penso, agiria, justas censuras.
Pois a velhice sempre cede, assolada do novo,
sempre, e uma coisa se reconstrói a partir de uma outra.
Não se desce ao profundo do tártaro atroz, aos infernos.
Pois é preciso matéria para que os pósteros cresçam;
estes, também, a ti seguirão, ao fim de suas vidas,
Logo cairão, não menos que os de antes de ti já caíram:
algo nunca deixará de nascer de outra coisa…………….970
Nunca ninguém tem posse da vida, somente usufruto.
Veja, também, como as eras passadas do tempo infindável
de antes de nós foram nada – de antes de termos nascido,
essas também a natura nos mostra tal como um espelho
que nos revela o tempo vindouro depois de morrermos.
Mas o que tem de horrível nisso, o que de tão triste,
não é mais calmo morrer do que todo tipo de sono?
Não nos admiremos: tudo que é dito que habita
o Aqueronte profundo estão todos, de fato, conosco.
Nem a enorme pedra teme pendente nos ares…………….980
mísero Tântalo, paralisado de medo, tal dizem:
mas é na vida que o medo dos deuses aos homens fulmina,
esses que temem da fortuna sua queda, seus golpes.
Nem no Aqueronte os abutres achegam-se a Títio jazendo
nem o que encontrar por sobre o peito tão vasto
podem achar por todos os tempos com que se alimentem;
não importa qual seja a extensão enorme do corpo
mesmo que com os membros cubra não só nove jeiras
mas até mesmo cubrisse o orbe inteiro da terra,
nem assim dor eterna ele poderia sofrer, nem…………….990
oferecer para sempre alimento de seu próprio corpo.
Títio, porém, para nós é aquele jazente de amores
que dilaceram abutres, ou seja, a angústia ansiosa,
ou qualquer coisa que rasgue com dores, desejos perenes.
Sísifo, em vida, diante dos olhos também é aquele
que do povo procura beber os cetros selvagens
mas amiúde retira-se sempre triste e vencido.
Pois a busca do império inane que nunca se mostra
a nenhuma pessoa e por isso sofrer os labores
incessantes é o mesmo que o monte escalar com a rocha……….1000
que, quando quase chegando no vértice, mais uma vez se
precipita rolando de volta até o plano terreno.
E nutrir a ingrata natura do ânimo sempre,
para preenchê-la com bens mas sem nunca alcançar saciedade
tal como as estações do ano fazem conosco
quando sempre retornam e trazem os frutos e agrados,
sem que jamais satisfaçam-nos com as benesses da vida,
isto, tal penso, é o que fazem as moças de idade florente
que, dizem, tentam encher um vaso furado com água
o que, contudo, de modo nenhum jamais realizam.…………….1010
Cérbero e Fúrias, bem como a carência completa das luzes,
Tártaro em erupção, com suas fauces horríveis, de chamas,
estes não há, nem jamais, de modo nenhum, são possíveis.
Mas na vida os medos imensos de imensos castigos
por nossas faltas, para expiar nossos crimes e males:
cárcere, horrível queda forçada do alto da rocha,
vergas, algozes, tronco, piche, tochas, fogueira;
mesmo se ausentes, a mente, contudo, ciente dos feitos,
terrificada se exibe os estímulos: fogo, flagelos,
sem perceber qual seria o possível termo pros males…………….1020
nem qual seria por fim o limite das penas, e ainda
mais angustia-se achando que agravam depois de sua morte.
Tal é a vida infernal que se plasmam pra si os idiotas.

praeter enim quam quod morbis cum corporis aegret,
advenit id quod eam de rebus saepe futuris
macerat inque metu male habet curisque fatigat,
praeteritisque male admissis peccata remordent.
adde furorem animi proprium atque oblivia rerum,
adde quod in nigras lethargi mergitur undas.
Nil igitur mors est ad nos neque pertinet hilum,
quandoquidem natura animi mortalis habetur.
et vel ut ante acto nihil tempore sensimus aegri,
ad confligendum venientibus undique Poenis,
omnia cum belli trepido concussa tumultu
horrida contremuere sub altis aetheris auris,
in dubioque fuere utrorum ad regna cadendum
omnibus humanis esset terraque marique,
sic, ubi non erimus, cum corporis atque animai
discidium fuerit, quibus e sumus uniter apti,
scilicet haud nobis quicquam, qui non erimus tum,
accidere omnino poterit sensumque movere,
non si terra mari miscebitur et mare caelo.
et si iam nostro sentit de corpore postquam
distractast animi natura animaeque potestas,
nil tamen est ad nos, qui comptu coniugioque
corporis atque animae consistimus uniter apti.
nec, si materiem nostram collegerit aetas
post obitum rursumque redegerit ut sita nunc est,
atque iterum nobis fuerint data lumina vitae,
pertineat quicquam tamen ad nos id quoque factum,
interrupta semel cum sit repetentia nostri.
et nunc nil ad nos de nobis attinet, ante
qui fuimus, [neque] iam de illis nos adficit angor.
nam cum respicias inmensi temporis omne
praeteritum spatium, tum motus materiai
multimodi quam sint, facile hoc adcredere possis,
semina saepe in eodem, ut nunc sunt, ordine posta
haec eadem, quibus e nunc nos sumus, ante fuisse.
nec memori tamen id quimus reprehendere mente;
inter enim iectast vitai pausa vageque
deerrarunt passim motus ab sensibus omnes.
debet enim, misere si forte aegreque futurumst;
ipse quoque esse in eo tum tempore, cui male possit
accidere. id quoniam mors eximit, esseque prohibet
illum cui possint incommoda conciliari,
scire licet nobis nihil esse in morte timendum
nec miserum fieri qui non est posse, neque hilum
differre an nullo fuerit iam tempore natus,
mortalem vitam mors cum inmortalis ademit.
Proinde ubi se videas hominem indignarier ipsum,
post mortem fore ut aut putescat corpore posto
aut flammis interfiat malisve ferarum,
scire licet non sincerum sonere atque subesse
caecum aliquem cordi stimulum, quamvis neget ipse
credere se quemquam sibi sensum in morte futurum;
non, ut opinor, enim dat quod promittit et unde
nec radicitus e vita se tollit et eicit,
sed facit esse sui quiddam super inscius ipse.
vivus enim sibi cum proponit quisque futurum,
corpus uti volucres lacerent in morte feraeque,
ipse sui miseret; neque enim se dividit illim
nec removet satis a proiecto corpore et illum
se fingit sensuque suo contaminat astans.
hinc indignatur se mortalem esse creatum
nec videt in vera nullum fore morte alium se,
qui possit vivus sibi se lugere peremptum
stansque iacentem [se] lacerari urive dolere.
nam si in morte malumst malis morsuque ferarum
tractari, non invenio qui non sit acerbum
ignibus inpositum calidis torrescere flammis
aut in melle situm suffocari atque rigere
frigore, cum summo gelidi cubat aequore saxi,
urgerive superne obrutum pondere terrae.
‘Iam iam non domus accipiet te laeta neque uxor
optima, nec dulces occurrent oscula nati
praeripere et tacita pectus dulcedine tangent.
non poteris factis florentibus esse tuisque
praesidium. misero misere’ aiunt ‘omnia ademit
una dies infesta tibi tot praemia vitae.’
illud in his rebus non addunt ‘nec tibi earum
iam desiderium rerum super insidet una.’
quod bene si videant animo dictisque sequantur,
dissoluant animi magno se angore metuque.
‘tu quidem ut es leto sopitus, sic eris aevi
quod super est cunctis privatus doloribus aegris;
at nos horrifico cinefactum te prope busto
insatiabiliter deflevimus, aeternumque
nulla dies nobis maerorem e pectore demet.’
illud ab hoc igitur quaerendum est, quid sit amari
tanto opere, ad somnum si res redit atque quietem,
cur quisquam aeterno possit tabescere luctu.
Hoc etiam faciunt ubi discubuere tenentque
pocula saepe homines et inumbrant ora coronis,
ex animo ut dicant: ‘brevis hic est fructus homullis;
iam fuerit neque post umquam revocare licebit.’
tam quam in morte mali cum primis hoc sit eorum,
quod sitis exurat miseros atque arida torrat,
aut aliae cuius desiderium insideat rei.
nec sibi enim quisquam tum se vitamque requiret,
cum pariter mens et corpus sopita quiescunt;
nam licet aeternum per nos sic esse soporem,
nec desiderium nostri nos adficit ullum,
et tamen haud quaquam nostros tunc illa per artus
longe ab sensiferis primordia motibus errant,
cum correptus homo ex somno se colligit ipse.
multo igitur mortem minus ad nos esse putandumst,
si minus esse potest quam quod nihil esse videmus;
maior enim turbae disiectus materiai
consequitur leto nec quisquam expergitus extat,
frigida quem semel est vitai pausa secuta.
Denique si vocem rerum natura repente.
mittat et hoc alicui nostrum sic increpet ipsa:
‘quid tibi tanto operest, mortalis, quod nimis aegris
luctibus indulges? quid mortem congemis ac fles?
nam [si] grata fuit tibi vita ante acta priorque
et non omnia pertusum congesta quasi in vas
commoda perfluxere atque ingrata interiere;
cur non ut plenus vitae conviva recedis
aequo animoque capis securam, stulte, quietem?
sin ea quae fructus cumque es periere profusa
vitaque in offensost, cur amplius addere quaeris,
rursum quod pereat male et ingratum occidat omne,
non potius vitae finem facis atque laboris?
nam tibi praeterea quod machiner inveniamque,
quod placeat, nihil est; eadem sunt omnia semper.
si tibi non annis corpus iam marcet et artus
confecti languent, eadem tamen omnia restant,
omnia si perges vivendo vincere saecla,
atque etiam potius, si numquam sis moriturus’,
quid respondemus, nisi iustam intendere litem
naturam et veram verbis exponere causam?
grandior hic vero si iam seniorque queratur
atque obitum lamentetur miser amplius aequo,
non merito inclamet magis et voce increpet acri:
‘aufer abhinc lacrimas, baratre, et compesce querellas.
omnia perfunctus vitai praemia marces;
sed quia semper aves quod abest, praesentia temnis,
inperfecta tibi elapsast ingrataque vita,
et nec opinanti mors ad caput adstitit ante
quam satur ac plenus possis discedere rerum.
nunc aliena tua tamen aetate omnia mitte
aequo animoque, age dum, magnis concede necessis?’
iure, ut opinor, agat, iure increpet inciletque;
cedit enim rerum novitate extrusa vetustas
semper, et ex aliis aliud reparare necessest.
Nec quisquam in baratrum nec Tartara deditur atra;
materies opus est, ut crescant postera saecla;
quae tamen omnia te vita perfuncta sequentur;
nec minus ergo ante haec quam tu cecidere cadentque.
sic alid ex alio numquam desistet oriri
vitaque mancipio nulli datur, omnibus usu.
respice item quam nil ad nos ante acta vetustas
temporis aeterni fuerit, quam nascimur ante.
hoc igitur speculum nobis natura futuri
temporis exponit post mortem denique nostram.
numquid ibi horribile apparet, num triste videtur
quicquam, non omni somno securius exstat?
Atque ea ni mirum quae cumque Acherunte profundo
prodita sunt esse, in vita sunt omnia nobis.
nec miser inpendens magnum timet aëre saxum
Tantalus, ut famast, cassa formidine torpens;
sed magis in vita divom metus urget inanis
mortalis casumque timent quem cuique ferat fors.
nec Tityon volucres ineunt Acherunte iacentem
nec quod sub magno scrutentur pectore quicquam
perpetuam aetatem possunt reperire profecto.
quam libet immani proiectu corporis exstet,
qui non sola novem dispessis iugera membris
optineat, sed qui terrai totius orbem,
non tamen aeternum poterit perferre dolorem
nec praebere cibum proprio de corpore semper.
sed Tityos nobis hic est, in amore iacentem
quem volucres lacerant atque exest anxius angor
aut alia quavis scindunt cuppedine curae.
Sisyphus in vita quoque nobis ante oculos est,
qui petere a populo fasces saevasque secures
imbibit et semper victus tristisque recedit.
nam petere imperium, quod inanest nec datur umquam,
atque in eo semper durum sufferre laborem,
hoc est adverso nixantem trudere monte
saxum, quod tamen [e] summo iam vertice rusum
volvitur et plani raptim petit aequora campi.
deinde animi ingratam naturam pascere semper
atque explere bonis rebus satiareque numquam,
quod faciunt nobis annorum tempora, circum
cum redeunt fetusque ferunt variosque lepores,
nec tamen explemur vitai fructibus umquam,
hoc, ut opinor, id est, aevo florente puellas
quod memorant laticem pertusum congerere in vas,
quod tamen expleri nulla ratione potestur.
Cerberus et Furiae iam vero et lucis egestas,
Tartarus horriferos eructans faucibus aestus!
qui neque sunt usquam nec possunt esse profecto;
sed metus in vita poenarum pro male factis
est insignibus insignis scelerisque luela,
carcer et horribilis de saxo iactus deorsum,
verbera carnifices robur pix lammina taedae;
quae tamen etsi absunt, at mens sibi conscia factis
praemetuens adhibet stimulos torretque flagellis,
nec videt interea qui terminus esse malorum
possit nec quae sit poenarum denique finis,
atque eadem metuit magis haec ne in morte gravescant.
hic Acherusia fit stultorum denique vita.

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