poesia

3 poemas inéditos de Ismar Tirelli Neto

Ismar Tirelli Neto é poeta, ficcionista, tradutor, roteirista, biscateiro editorial, ator bissexto, curador, dramaturgo, cantor de bar de hotel frustrado, mau filho e marido exemplar. Vive atualmente em Curitiba e lançou os livros Os Ilhados, Ramerrão, synchronoscopio Duas ou Três Coisas Airadas, este último em parceria com Horácio Costa. Não foi lido em pelo menos quatro idiomas.

* * *

O caso em apreço

Falou-se muito de amor naqueles dias

Curioso

Só agora as palavras começam a constituir-se

Com que então

…………………….(Não eram palavras)

Muito se falou de amor

Por aquelas semanas

Falou-se muito – amor, amor –

Com ambas as mãos sobre a morte

Com ambas as mãos sobre a brisa

O movimento de amoldar, de amoldar

Amor

Inabilmente codificado

Urticante

Imprestável para adágios

Chuva de rãs, de chumbo, de areia

Amor com que então de desenredo

Nada fez a ninguém

Remetendo falou-se

Muito de amor

Muito de amor naqueles dias

Tem-se falado

As circunstâncias não foram ainda esclarecidas

§

Caso Postal

Compro um postal
E para deter-nos
…………………….(A mim, a ele)
……………(Ao postal)
Sento-me a uma mesa do lado de fora
Dobrando a rua figurada
Na frente
Em tempo de maré alta
Depara-se este mesmo casario de sólidas fachadas brancas
Perfeitamente ritmadas
As juntas, as juntas das janelas
Os limiares ásperos, cores inambíguas, a sombra colonial
Centenárias construções abrigando
Agências de contabilidade, escritórios de advocacia
(Era este o verso
………………………….de que fugíamos no início?)
Tudo aqui tem luz e pedra e preço
Tudo quanto é figurado à frente nos conduz
A empórios
Lojas de souvenir
Balcões onde se negociam – som, fúria – passeios de escuna
Contudo no verso
Onde escrevo (onde
Ao escrever
Assumo forçosamente que estamos distantes
Ou mesmo mortos)
Não existe senão grande extensão
De breu
Não existe senão encerrar-se
O escuro de orfanatos
(Eles existem, esquecemos)
Eu subscrevo
O escuro de orfanatos, o escuro que canta
De pé
Atrás de um estacionamento, num jângal,
No verso do postal mais soalheiro, quem sabe, talvez
Seja a mesma paisagem
As mesmas correntes amarelas
Que apartam aquilo que é propriamente histórico
De tudo
O mais o escuro
A tudo empalma o escuro
Forrado de passos, de mar
………………………………e morgues, maternidades
………………………………música insituável
Cigarras que berram o tempora o mores
Brenha onde me perde a sugestão
De branco areal
Ao longe
(Existe, não existe, não existe mais)

§

Hermes

I.

Este personagem diante dele
jamais
as ondas resolveram-se
………………………..num qualquer ritmo
E as ondas, sendo cada uma
Um contêiner o céu
Não se seguia
Rolamento ingrato
Descerrando nada nunca
Hermes pusera ferrolhos
Até mesmo
Às paisagens de férias
Era já àquela altura
um nome, nada
Conotava oco e ignorado
À boca
De quantos o cumprimentavam
nada                            nunca
Cumprimentavam
A este personagem para quem
Nada jamais se abrira
Em texto
Nada jamais regrara-se
Em gráceis
Continuidades emersas
as coisas
Sempre emersas
Um único ronco de motor
Enfeixando avenidas
Ao ventre a bulha tão oca
impenetrável
Como o nome
Como os nomes
Espraiando-se cidade
Homens inabitáveis mal
Amanhados em acenos
de cabeça
Àquela altura já não
diziam sequer
escuridão
Ninguém descerrando nada

II.

Este personagem diante de seus olhos
estupefatos
…………….tomavam-lhe a voz
Substituindo-a pouco e pouco
por um coro
………………………………de interditos
Hermes põe-se a falar, a evoluir
………………………………por interditos
Hermes tem a boca cheia
………………………………(cidades e homens)
Rueiro Hermes pôs-se ventre
………………………………cheio e conotando nada
Ante a vitrine
de uma chapelaria
que não ruíra
ainda nas cercanias
do escritório
Um homem
……….habitável?
Representando de nós para nós
as crateras abertas
de redor
Semblantes humanos
………….de grande fadiga
………….na crosta azulada
Vedada
a indagação
que se vai formando
Vedado
responder
com planetas

Eram isto mesmo
Os mistérios

Anúncios
Padrão

Um comentário sobre “3 poemas inéditos de Ismar Tirelli Neto

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s