poesia

Para Assionara Souza (1969—2018), In memoriam

Hoje faleceu em decorrência de um câncer a escritora Assionara Souza (1969, Caicó/RN—2018, Curitiba/PR), figura importante por sua escrita e presença em Curitiba, mas também em vários outros lugares do país. Assionara publicou Cecília não é um cachimbo(2005, também nome do seu blog), Amanhãs com Sorvete! (2010), Os hábitos e os monges (2011), Na rua: a caminho do circo (2014) e, no ano passado, Alquimista na chuva, além da peça de teatro Das mulheres de antes (2016). Foi também estudiosa da obra de Osman Lins, idealizadora do projeto Translações: literatura em trânsito e do livro que dele resultou, e participante do coletivo Escritoras Suicidas. Embora sua carreira tenha se desenvolvido na prosa, nos últimos tempos ela vinha publicando poesia, o que resultou na Alquimista na chuva, ao mesmo tempo seu último livro e primeiro de poesia.

Havíamos publicado três poemas seus aqui, há pouco mais de um mês, sem sabermos da luta contra a doença, impressionados com a criação poética que ali aparecia; e é com profunda tristeza que recebemos hoje a notícia de sua morte. As redes sociais têm se enchido de poemas em sua homenagem, como lembrança da pessoa e da obra. Aqui nos despedimos  com um lamento fúnebre ficcional escrito por Hans Arp, mas que sempre vem à mente quando perdemos uma vida dedicada à linguagem.

Segue o teu destino, Assionara.

escamandro

* * *

ah, nosso bom gaspar morreu.

ah, nosso bom gaspar morreu.

quem leva agora a bandeira incandescente escondida nas tranças das nuvens para o negro ardil diário.

quem mói o café no barril original.

quem agora seduz o cervo idílico pra fora do saco petrificado.

quem agora no mar confunde os barcos tratando de guarda-chuvas e o vento chamando de pai-das-abelhas fuso-de-ozônio sua alteza.

ah, ah, ah, nosso bom gaspar morreu. deus do céu, gaspar morreu.

os peixes de feno clamam penando de dor nos sinos-celeiros se alguém expressa o nome dele. por isso mais suspiro de novo por seu sobrenome gaspar gaspar gaspar.

por que você nos deixou. em que figura transformou-se a tua grande alma bela. será que virou estrela ou grilhão d’água em redemunho quente ou teta de luz negra ou tijolo transparente no gemente tambor do ser rochoso.

hoje secam nossos crânios e solas e as fadas jazem semicarbonizadas na pira.

hoje trovoa por trás do sol a pista negra de boliche e ninguém ergue mais a bússola e as rodas dos carrinhos de mão.

quem come agora com os ratos fosforescentes na descalça mesa solitária.

quem escorraça o diabo sirococo quando ele quer bolinar os cavalos.

quem nos explica o monograma nas estrelas.

seu busto vai adornar as lareiras de todos os verdadeiramente nobres mas isso não é conforto nem rapé pra uma caveira.

 

weggis, 1912

[trad. guilherme gontijo flores]

 

weh unser guter kaspar ist tot

weh unser guter kaspar ist tot

wer trägt nun die brennende fahne im wolkenzopf verborgen täglich zum

schwarzen schnippchen schlagen

wer dreht die kaffeemühle im urfass

wer lockt nun das idyllische reh aus der versteinerten tute

wer verwirrt nun auf dem meere die schiffe mit der anrede parapluie und die winde mit dem zuruf bienenvater ozonspindel euer hochwohlgeboren

weh weh weh unser guter kaspar ist tot. heiliger bimbam kaspar ist tot.

die heufische klappern herzzerreissend vor leid in den glockenscheunen wenn man seinen vornamen ausspricht, darum seufze ich weiter seinen familiennamen kaspar kaspar kaspar.

warum hast du uns verlassen. in welche gestalt ist nun deine schöne grosse seele gewandert. bist du ein stern geworden oder eine kette aus wasser an einem heissen wirbelwind oder ein euter aus schwarzem licht oder ein

durchsichtiger ziegel an der strömenden trommel des felsigen wesens.

jetzt vertrocknen unsere scheitel und sohlen und die feen liegen halbverkohlt auf dem scheiterhaufen.

jetzt donnert hinter der sonne die schwarze kegelbahn und keiner zieht mehr die kompasse und die räder der schiebkarren auf.

wer isst nun mit der phosphoriszierenden ratte am einsamen barfüssigen tisch.

wer verjagt nun den sirokkoko teufel wenn er die pferde verführen will.

wer erklärt uns nun die monogramme in den sternen.

seine büste wird die kamine aller wahrhaft edlen menschen zieren doch das ist kein trost und schnupftabak für einen totenkopf.

 

weggis, 1912

 

Anúncios
Padrão

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s