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3 Tristia de Ovídio, por Pedro Yacubian

As Tristia de Ovídio, em cinco livros, são, ao que tudo indica, as primeiras elegias do ciclo de exílio do poeta, com início em 8 AD, depois de relegado por Augusto à antiga cidade de Tomi (hoje Constança, na Romênia), e fim em, provavelmente, 17 AD, com a morte do poeta.

O primeiro poema do livro I é um diálogo do poeta com seu próprio livro. De início, o livro não deve ter nenhum polimento e deve refletir o momento do poeta, cujo exílio de sua Roma, sua família e amigos equivale à morte. O ansiado perdão de Augusto, presente em quase todas as elegias das Tristia, é pedido ao livro, caso a oportunidade se apresente. Ao final, ao chegar ao escritório pessoal do poeta em Roma, o livro encontra-se com alguns dos seus irmãos: os três livros da Ars Amatoria, um dos motivos do exílio do poeta por Augusto, provavelmente em razão de seu conteúdo lascivo, e os quinze livros das Metamorfoses, ainda não publicados. A primeira elegia provavelmente foi escrita no caminho do poeta a Tomi.

No segundo poema do livro I, o poeta encontra-se em meio a uma tempestade, possivelmente após sua saída do porto de Brundisium, na Itália, a caminho de Corinto. As descrições, em diversos momentos, remetem ao Livro I da Eneida, sendo também Eneias um prófugo. A elegia termina com o poeta apelando aos deuses para que dissipem a tempestade. Assim o fazem, reconhecendo que o poeta, ainda que culpado por um crime nunca mencionado em seus versos, não teria agido com dolo

O décimo primeiro poema do livro I é dirigido ao leitor. O poeta descreve as dificuldades de sua viagem a Tomi: as duras tempestades no mar, a crueldade dos bárbaros que o aguardam em terra e seu próprio estado de ânimo. Ao mesmo tempo que, em parte, foi a poesia que o exilou (a Ars Amatoria), é a poesia que diminui sua inquietação em meio aos perigos da viagem. Termina o livro I ansiando a morte (“que a tempestade vença o homem”), desde que possa, antes, dar fim ao seu livro.

Pedro Yacubian (1983) é formado em Direito pela USP. Amante das letras clássicas, traduz textos como forma de estudo pessoal. As traduções, talvez, possam ser úteis para mais do que uma só pessoa.

* * *

Livro 1, Elegia 1

Parve – nec invideo – sine me, liber, ibis in urbem:
ei mihi, quod domino non licet ire tuo!
vade, sed incultus, qualem decet exulis esse;
infelix habitum temporis huius habe.
nec te purpureo velent vaccinia fuco –
non est conveniens luctibus ille color –
nec titulus minio, nec cedro charta notetur,
candida nec nigra cornua fronte geras.
felices ornent haec instrumenta libelos:
fortunae memorem te decet esse meae.
nec fragili geminae poliantur pumice frontes,
hirsutus sparsis ut videare comis.
neve liturarum pudeat; qui viderit illas,
de lacrimis factas sentiat esse meis.
vade, liber, verbisque meis loca grata saluta:
contingam certe quo licet illa pede.
siquis, ut in populo, nostri non inmemor illi,
siquis, qui, quid agam, forte requirat, erit:
vivere me dices, salvum tamen esse negabis;
id quoque quod vivam, munus habere dei.
atque ita tu tacitus – quarenti plura legendus –
ne, quae non opus est, forte loquare, cave!
protinus admonitus repetet mea crimina lector,
et peragar populi publicus ore reus.
tu cave defendas, quamvis mordebere dictis;
causa patrocinio non bona peior erit.
invenies aliquem, qui me suspiret ademptum,
carmina nec siccis perlegat ista genis,
et tacitus secum, ne quis malus audiat, optet,
sit mea lenito Caesare poena levis.
nos quoque, quisquis erit, ne sit miser ille, precamur,
placatos miseris qui volet esse deos;
quaeque volet, rata sint, ablataque principis ira
sedibus in patriis det mihi posse mori.
ut peragas mandata, liber, culpabere forsan
ingeniique minor laude ferere mei.
iudicis officium est ut res, ita tempora rerum
quaerere. quaesito tempore tutus eris.
carmina proveniunt animo deducta sereno;
nubila sunt subitis tempora nostra malis.
carmina secessum scribentis et otia quaerunt;
me mare, me venti, me fera iactat hiems.
carminibus metus omnis obest; ego perditus ensem
haesurum iugulo iam puto iamque meo.
haec quoque quod facio, iudex mirabitur aequus,
scriptaque cum venia qualicumque leget.
da mihi Maeoniden et tot circumice casus,
ingenium tantis excidet omne malis.
denique securus famae, liber, ire memento,
nec tibi sit lecto displicuisse pudor.
non ita se nobis praebet Fortuna secundam,
ut tibi sit ratio laudis habenda tuae.
donec eram sospes, tituli tangebar amore,
quaerendique mihi nominis ardor erat.
carmina nunc si non studiumque, quod obfuit, odi,
sit satis; ingenio sic fuga parta meo.
tu tamen i pro me, tu, cui licet, aspice Romam.
di facerent, possem nunc meus esse liber!
nec te, quod venias magnam peregrinus in urbem,
ignotum populo posse venire puta.
ut titulo careas, ipso noscere colore;
dissimulare velis, te liquet esse meum.
clam tamen intrato, ne te mea carmina laedant;
non sunt ut quondam plena favoris erant.
siquis erit, qui te, quia sis meus, esse legendum
non putet, e gremio reiciatque suo,
“inspice” dic “titulum. non sum praeceptor amoris;
quas meruit, poenas iam dedit illud opus.”
forsitan expectes, an in alta Palatia missum
scandere te iubeam Caesareamque domum.
ignoscant augusta mihi loca dique locorum!
venit in hoc illa fulmen ab arce caput.
esse quidem memini mitissima sedibus illis
numina, sed timeo qui nocuere deos.
terretur minimo pennae stridore columba,
unguibus, accipiter, saucia facta tuis.
nec procul a stabulis audet discedere, siqua
excussa est avidi dentibus agna lupi.
vitaret caeleum Phaëton, si viveret, et quos
optarat stulte, tangere nollet equos.
me quoque, quae sensi, fateor Iovis arma timere:
me reor infesto, cum tonat, igne peti.
quicumque Argolica de classe Capherea fugit,
semper ab Euboicis vela retorsit aquis;
et mea cumba semel vasta percussa procela
illum, quo laesa est, horret adire locum.
ergo cave, liber, et timida circumspice mente,
ut satis a media sit tibi plebe legi.
dum petit infirmis nimium sublimia pennis
Icarus, aequoreas nomine fecit aquas.
difficile est tamen hinc, remis utaris an aura,
dicere: consilium resque locusque dabunt.
si poteris vacuo tradi, si cuncta videbis
mitia, si vires fregerit ira suas,
siquis erit, qui te dubitantem et adire timentem
tradat, et ante tamen pauca loquatur, adi.
luce bona dominoque tuo felicior ipso
pervenias illuc et mala nostra leves.
namque ea vel nemo, vel qui mihi vulnera fecit
solus Achilleo tollere more potest.
tantum ne noceas, dum vis prodesse, videto –
nam spes est animi nostra timore minor –
quaeque quiescebat, ne mota resaeviat ira
et poenae tu sis altera causa, cave!
cum tamen in nostrum fueris penetrale receptus,
contigerisque tuam, scrinia curva, domum,
aspicies illic positos ex ordine fratres,
quos studium cunctos evigilavit idem.
cetera turba palam titulos ostendet apertos,
et sua detecta nomina fronte geret;
tres procul obscura latitantes parte videbis, –
sic quoque, quod nemo nescit, amare docent.
hos tu vel fugias, vel, si satis oris habebis,
Oedipodas facito Telegonosque voces.
deque tribos, moneo, si qua est tibi cura parentis,
ne quemquam, quamvis ipse docebit, ames.
sunt quoque mutatae, ter quinque volumina, formae,
nuper ab exequiis carmina rapta meis.
his mando dicas, inter mutata referri
fortunae vultum corpora posse meae.
namque ea dissimilis subito est effecta priori,
flendaque nunc, aliquo tempora laeta fuit.
plura quidem mandare tibi, si quaeris, habebam,
sed vereor tardae causa fuisse morae;
et si quae subeunt, tecum, liber, omnia ferres,
sarcina laturo magna futurus eras.
longa via est, propera! nobis habitabitur orbis
ultimus, a terra terra remota mea.

Pequeno livro, irás sem mim – não ressinto! – à Urbe:
Ai, pois não é permitido ao teu dono!
Vai, mas como convém ao êxul, sem adornos;
Triste, veste as roupas do meu momento.
Não cubra a ti a murta com as tintas púrpuras –
Não convém essa cor aos anojados –
Sem cinabre teu título, sem óleo as páginas,
Sem brancas bossas tuas bordas negras.
Que essas coisas adornem livrinhos felizes:
A ti cabe lembrar o meu destino.
A frágil pedra-pomes não polirá a capa,
E, hirsuto, terás mechas desgrenhadas.
Não te envergonhes das nódoas; quem puder lê-las,
Saiba que foram pelas minhas lágrimas….
Livro, saúda os locais gratos com estas letras:
Ao menos com o metro os tocarei.
Se alguém, da multidão, ali de mim se lembre,
Se alguém queira saber como eu estou,
Dirás que vivo, mas que não me sinto bem,
E que este meu viver devo a um deus.
Cala além disso (o que busca mais deve ler-te)
Para que não digas o que não deves!
O leitor, já avisado, lembrará meus crimes
E serei réu público para o povo.
Evita defender-me, mesmo que te doa:
Piora com defesa uma má causa.
Alguém encontrarás que sinta a minha perda
E termine estes teus versos em lágrimas,
E deseje, em silêncio (que alguém mau não o ouça!),
Abrandar minha pena, calmo o César.
Este que queira, aos desgraçados, deuses brandos,
Peço também eu que não seja um mísero;
Faça-se o seu desejo e, finda a ira do Príncipe,
Conceda a mim morrer na minha Pátria!
Talvez te julguem, livro, ao cumprir estas ordens,
Como indigno da fama do meu gênio.
Cabe a um crítico ver fato e circunstâncias:
A salvo estarás se ele atenta a estas.
Poemas nascem urdidos por sereno ânimo;
Meus dias são nuvens com males súbitos…
Poemas procuram o ócio e a calma do escritor;
Mar, vento e duro inverno me fustigam…
Todo medo obsta à poesia; eu, em ruína, penso
Que espada me atravessará o pescoço…
Mesmo estes versos um juiz justo admirará
E os lerá, indulgente, como sejam.
Dá-me o Meônida e cinge-o com tantos desastres:
Perderá todo engenho por tais males!
Lembra, enfim, livro, de ir indiferente à fama,
Sem pejo caso, lido, desagrades;
O destino a mim não é assaz favorável
Para que julgues merecer encômios.
Quando a salvo, tangia-me o amor pelas louvas
E ardia em mim a busca pela fama.
Basta-me hoje não ter ódio pela poesia:
Este exílio nasceu da minha arte.
Mas tu, vai em meu lugar, tu, que podes, vê Roma!
Se os deuses me tornassem meu livro hoje!…
Não penses tu que, um estrangeiro em grande urbe,
Possas ir e vir sem ser percebido.
Mesmo sem nome, sabem de ti pelo estilo;
Se dissimulas, claramente és meu.
Mas sê furtivo, para o Poema não ferir;
Como antes ele não é mais querido.
Se alguém crê que não devas ser lido porque
Meu és e te arremessa do seu colo,
Diz “olha o título. Não mais ensino o amor;
A obra já recebeu pena condigna.”
Quiçá esperes, se enviado ao alto Palatino,
Que eu te ordene a ir à casa do César.
Que os augustos lugares e deuses perdoem-me!
Dali o raio veio em minha testa.
Sim, recordo, ali há clementíssimos deuses,
Mas temo aqueles que me golpearam.
O mínimo ruflar de asas assusta a pomba,
Águia, ferida pelas tuas unhas.
Não ousa o cordeirinho afastar-se do estábulo
Se ávido lobo o teve entre seus dentes.
Faetonte o céu evitaria se vivesse,
E a audácia co’os corcéis não ousaria.
Eu também, pois senti-as, temo as armas de Júpiter:
Troa e creio ser alvo de hostis raios.
Quem escapou o Cafareu da esquadra Argólica
Sempre do mar Eubeu desvia a vela;
Minha barca, uma vez batida por tormenta,
Teme ir ao lugar onde foi ferida.
Então cuidado, livro: observa com receio,
E baste-te ser lido pela plebe.
Quando Ícaro excedeu-se com as débeis asas,
Altivo deu às águas o seu nome.
Daqui não posso dizer se usas remo ou vento:
Momento e lugar te darão o plano.
Se a ele, ocioso, puderes ser entregue, se
Tudo vês brando, se a ira arrefece,
Se alguém te exibe, mesmo com medo e receoso,
E mesmo pouco te diz, aproxima-te!
Num bom dia e com mais sorte do que teu dono
Lá chegues e mitigues os meus males!
Pois estes ninguém, a não ser quem me feriu,
Pode curá-los, como com Aquiles.
Cuida, enquanto o bem fazes, não prejudicar, –
A esperança em mim é menor que o medo –
Ao reacender a ira que nele dormitava
E tornar-te outra causa de castigo!
Quando em meu escritório fores recebido
E as estantes tocares, tua casa,
Ali verás postos, em ordem, teus irmãos,
Por quais igual dedicação velou.
A turba ostentará seus títulos abertos
E às frontes, descobertas, os seus nomes;
Mas três verás ao longe, em parte escura ocultos –
Ensinam a amar, como todos sabem.
Destes fujas, ou, se tiveres mesmo audácia,
Dá-lhos os nomes de Édipo e Telégono.
Se zelas pelo teu pai, nenhum destes três,
Mesmo que eles te ensinem, amarás.
Há ainda, em quinze livros, as formas mudadas,
Arrebatados do meu funeral.
Diz-lhes que se pode incluir, entre as mudanças,
A triste feição da minha fortuna,
Pois súbito tornou-se diversa à de antes:
Agora em pranto, outrora era feliz.
Se perguntas, a ti tenho outras tantas ordens,
Mas temo ser causa de enorme atraso;
Se levasses contigo todos meus pesares,
Que enorme fardo ao que te portará!
Longo é o caminho, vai! Neste confim do mundo
Viverei, terra tão longe da minha.

§

Livro 1, Elegia 2

Di maris et caeli – quid enim nisi vota supersunt? –
solvere quassatae parcite membra ratis,
neve, precor, magni subscribite Caesaris irae!
saepe premente deo fert deus alter opem.
Mulciber in Troiam, pro Troia stabat Apollo;
aequa Venus Teucris, Pallas iniqua fuit.
oderat Aenean propior Saturnia Turno;
ille tamen Veneris numine tutus erat.
saepe ferox cautum petiit Neptunus Ulixen;
eripuit patruo saepe Minerva suo.
et nobis aliquod, quamvis distamus ab illis,
quis vetat irato numen adesse deo?
verba miser frustra non proficientia perdo.
ipsa graves spargunt ora loquentis aquae,
terribilisque Notus iactat mea dicta, precesque
ad quos mittuntur, non sinit ire deos.
ergo idem venti, ne causa laedar in una,
velaque nescio quo votaque nostra ferunt.
me miserum, quanti montes volvuntur aquarum!
iam iam tacturos sidera summa putes.
quantae diducto subsidunt aequore valles!
iam iam tacturas Tartara nigra putes.
quocumque aspicio, nihil est, nisi pontus et aër,
fluctibus hic tumidus, nubibus ille minax.
inter utrumque fremunt inmani murmure venti.
nescit, cui domino pareat, unda maris.
nam modo purpureo vires capit Eurus ab ortu,
nunc Zephyrus sero vespere missus adest,
nunc sicca gelidus Boreas bacchatur ab Arcto,
nunc Notus adversa proelia fronte gerit.
rector in incerto est nec quid fugiatve petatve
invenit: ambiguis ars stupet ipsa malis.
scilicet occidimus, nec spes est ulla salutis,
dumque loquor, vultus obruit unda meos.
opprimet hanc animam fluctus, frustraque precanti
ore necaturas accipiemus aquas.
at pia nil aliud quam me dolet exule coniunx:
hoc unum nostri scitque gemitque mali.
nescit in inmenso iactari corpora ponto,
nescit agi ventis, nescit adesse necem.
o bene, quod non sum mecum conscendere passus,
ne mihi mors misero bis patienda foret!
at nunc, ut peream, quoniam caret illa periclo,
dimidia certe parte superstes ero.
ei mihi, quam celeri micuerunt nubila flamma!
quantus ab aetherio personat axe fragor!
nec levius tabulae laterum feriuntur ab undis,
quam grave balistae moenia pulsat onus.
qui venit hic fluctus, fluctus supereminet omnes:
posterior nono est undecimoque prior.
nec letum timeo; genus est miserabile leti.
demite naufragium, mors mihi munus erit.
est aliquid fatove suo ferrove cadentem
in solida moriens ponere corpus humo,
et mandare suis aliqua et sperare sepulcrum
et non aequoreis piscibus esse cibum.
fingite me dignum tali nece, non ego solus
hic vehor. inmeritos cur mea poena trahit?
pro superi viridesque dei, quibus aequora curae,
utraque iam vestras sistite turba minas,
quamque dedit vitam mitissima Caesaris ira,
hanc sinite infelix in loca iussa feram.
si quantam merui, poena me perdere vultis,
culpa mea est ipso iudice morte minor.
mittere me Stygias si iam voluisset in undas
Caesar, in hoc vestra non eguisset ope.
est illi nostri non invidiosa cruoris
copia; quodque dedit, cum volet, ipse feret.
vos modo, quos certe nullo, puto, crimine laesi,
contenti nostris iam, precor, este malis!
nec tamen, ut cuncti miserum servare velitis,
quod periit, salvum iam caput esse potest.
ut mare considat ventisque ferentibus utar,
ut mihi parcatis, non minus exul ero.
non ego divitias avidus sine fine parandi
latum mutandis mercibus aequor aro,
nec peto, quas quondam petii studiosus, Athenas,
oppida non Asiae, non loca visa prius,
non ut Alexandri claram delatus ad urbem
delicias videam, Nile iocose, tuas.
quod faciles opto ventos, – quis credere posset? –
Sarmatis est tellus, quam mea vela petunt.
obligor, ut tangam laevi fera litora Ponti;
quodque sit a patria tam fuga tarda, queror.
nescio quo videam positos ut in orbe Tomitas,
exilem facio per mea vota viam.
seu me diligitis, tantos compescite fluctus,
pronaque sint nostrae numina vestra rati;
seu magis odistis, iussae me advertite terrae:
supplicii pars est in regione mei.
ferte – quid hic facio? – rapidi mea corpora venti!
Ausonios fines cur mea vela volunt?
noluit hoc Caesar. quid, quem fugat ille, tenetis?
aspiciat vultus Pontica terra meos.
et iubet et merui; nec, quae damnaverit ille,
crimina defendi fasque piumque puto.
si tamen acta deos nunquam mortalia fallunt,
a culpa facinus scitis abesse mea.
immo ita si scitis, si me meus abstulit error,
stultaque mens nobis, non scelerata fuit,
quod licet et minimis, domui si favimus illi,
si satis Augusti publica iussa mihi,
hoc duce si dixi felicia saecula, proque
Caesare tura piis Caesaribusque dedi, –
si fuit hic animus nobis, ita parcite divi!
si minus, alta cadens obruat unda caput!
fallor, an incipiunt gravidae vanescere nubes,
victaque mutati frangitur unda maris?
non casu, vos sed sub condicione vocati,
fallere quos non est, hanc mihi fertis opem.

Deuses do mar e céu – restam somente súplicas! –
Poupai da ruína este agitado barco
E não participeis da ira do grande César!
Um deus que calca traz outro em auxílio.
Vulcano contra Ílio, a favor ficava Apolo;
Aos Teucros Vênus justa, Atena iníqua.
Juno odiou Enéas e a Turno foi próxima;
Aquele, porém, Vênus resguardava.
Feroz Netuno atacou o prudente Ulisses;
Tirou-o das mãos do tio Minerva.
E a mim, embora eu tanto diste desses homens,
Quem me protege contra um deus irado?
Infeliz, em vão perco frustradas palavras.
Cobre-se minha boca em densas águas…
O feroz Noto arroja as sentenças e preces
Feitas proíbe de chegar aos deuses.
Se só o exílio não bastasse, agora ventos
Dispersam minha nau e minhas súplicas…
Ai, quão grandes montanhas de água se revolvem!
Logo tocarão as altas estrelas!
Quão grandes vales dobram-se em mar dividido!
Logo tocarão o Tártaro negro!
Para onde eu olhe nada há, a não ser mar e céu,
Mar de ondas túmido, céu de hostis nuvens.
Entre ambos fremem ventos com terríveis ruídos.
Não sabe a onda a quem obedecer:
Pois ora o Euro avigora-se da aurora púrpura,
Ora do tardo ocaso parte o Zéfiro,
Ora agita-se da Ursa seca o Bóreas gélido,
Ora o Noto, face ao Norte, batalha.
Incerto, o capitão vacila entre perigos:
Sua arte paralisa em meio a horrores.
Certa é a morte, salvar-nos nenhuma esperança,
E, enquanto falo, onda me cobre o rosto.
Oprime a vaga o ar, e aos lábios em vãs preces
Receberei as derradeiras águas.
A fida esposa, porém, só o exílio fere:
Sabe e sofre por este único mal.
Não sabe que me atiram pelo mar imenso,
Não sabe os ventos, nem, próximo, o fim.
Ah, bem!, pois não sofri que embarcasse comigo
E não hei de sofrer por duas mortes!
Mas agora, se morro e ela vive segura,
Sobreviverei na minha metade.
Ai, quão céleres fogos arderam as nuvens!
Com que fragor ressoa o céu mais alto!
Tão grave como o golpe da forte balista
Em muralha, fustiga a vaga o casco.
A onda que aqui vem, esta onda supera todas:
Após a nona vem, antes da undécima.
Não temo a morte, mas o miserável modo;
Sem naufrágio, será ela um presente…
Vale algo ao que morre, por ferro ou por destino,
Seu corpo descansar em terra firme,
Despedir-se dos seus e aguardar sepultura,
– E não servir de refeição aos peixes.
Julgai-me digno de tal morte; não vou só…
Por que insontes minha pena arrasta?
Deuses supernos e virentes, que o mar têm,
Cessai já ambos vossas ameaças,
E a vida, que a clemente ira do César deu,
Permiti eu levá-la onde ordenada.
Se mereci tal pena e quereis arruinar-me,
O juiz preteriu na culpa a morte;
Se já quisesse o César mandar-me ao Estige,
Careceria ele de vosso auxílio.
Não invejável poder tem sobre esta vida;
E o que ele deu, tirará se quiser.
Mas vós, que, penso, não feri por crime algum,
Contentai-vos, imploro, com meus males!
E mesmo que quereis salvar um miserável,
Não mais pode ser salvo pois se foi.
Se o mar acalme e me carreguem ventos brandos,
Se me poupais, não serei menos prófugo.
Não aro o lato mar ávido de riquezas
Sem fim por meio da troca de bens,
Nem busco Atenas, que busquei quando estudante,
Nem urbes da Ásia, nem sítios já vistos,
Nem a cidade ilustre de Alexandre para,
Feliz Nilo, que eu veja teus prazeres.
Desejo ventos favoráveis – quem me crê?! –
À terra Sármata, onde a vela leva.
Compelem-me ao oeste do selvagem Ponto;
E dói quão tarda é a via desde Roma…
Para ver não sei onde no mundo os Tomitas,
Imploro por uma viagem curta…
Se me quereis bem, refreai tamanhas ondas
E sede favoráveis a esta nau;
Se odiais, voltai a proa à terra ordenada:
O lugar é parte do meu suplício.
Que faço aqui?! Ventos velozes, carregai-me!
Por que minha nau busca a costa Ausônia?
César não quis. Por que sustais quem ele exila?
Que veja a minha face a terra Pôntica!
Ele impõe e eu mereci. Não creio ser certo
Ou justo defender-me desses crimes.
Se, porém, nunca a ação humana escapa aos deuses,
Sabeis faltar à minha culpa o dolo.
Não, se assim sabeis, se meu erro me perdeu,
Se eu fui estúpido, mas não maldoso,
Se apoiei sua Casa (mesmo humildes podem),
Se me bastaram suas ordens públicas,
Se celebrei, sob seu comando, a feliz época,
Se ofertei ao César e aos seus incensos, –
Se assim foi meu espírito, poupai-me, ó deuses!
Senão, que enorme vaga me destrua!
Iludo-me ou as negras nuvens esvaecem
E as ondas do agitado mar sucumbem?
Não por acaso sois vós, jamais iludidos,
Que ora invocados trazeis este auxílio.

§

Livro 1, Elegia 11

Littera quaecumque est toto tibi lecta libello,
est mihi sollicito tempore facta viae.
aut haec me, gelido tremerem cum mense Decembri,
scribentem mediis Hadria vidit aquis;
aut, postquam bimarem cursu superavimus Isthmon,
alteraque est nostrae sumpta carina fugae,
quod facerem versus inter fera murmura ponti,
Cycladas Aegaeas obstipuisse puto.
ipse ego nunc miror tantis animique marisque
fluctibus ingenium non cecidisse meum.
seu stupor huic studio sive est insania nomen,
omnis ab hac cura cura levata mea est.
saepe ego nimbosis dubius iactabar ab Haedis,
saepe minax Steropes sidere pontus erat,
fuscabatque diem custos Atlantidos Ursae,
aut Hyadas seris hauserat Auster aquis,
saepe maris pars intus erat; tamen ipse trementi
carmina ducebam qualiacumque manu.
nunc quoque contenti stridunt Aquilone rudentes,
inque modum tumuli concava surgit aqua.
ipse gubernator tollens ad sidera palmas
exposcit votis, inmemor artis, opem.
quocumque aspexi, nihil est nisi mortis imago,
quam dubia timeo mente timensque precor.
attigero portum, portu terrebor ab ipso:
plus habet infesta terra timoris aqua.
nam simul insidiis hominum pelagique laboro,
et faciunt geminos ensis et unda metus.
ille meo vereor ne speret sanguine praedam,
haec titulum nostrae mortis habere velit.
barbara pars laeva est avidaeque adsueta rapinae,
quam cruor et caedes bellaque semper habent,
cumque sit hibernis agitatum fluctibus aequor,
pectora sunt ipso turbidiora mari.
quo magis his debes ignoscere, candide lector,
si spe sunt, ut sunt, inferiora tua.
non haec in nostris, ut quondam, scripsimus hortis,
nec, consuete, meum, lectule, corpus habes.
iactor in indomito brumali luce profundo
ipsaque caeruleis charta feritur aquis.
improba pugnat hiems indignaturque quod ausim
scribere se rigidas incutiente minas.
vincat hiems hominem! sed eodem tempore, quaeso,
ipse modum statuam carminis, illa sui.

Qualquer letra que leste em todo este livrinho,
Eu a fiz na inquietude da viagem.
Ou, enquanto eu tremia em gélido dezembro,
O Adriático viu-me as traçando;
Ou, depois de superar o Istmo de Corinto
E tomar a segunda nau do exílio,
Porque entre estrépitos do mar fazia versos
Assombraram-se as Cíclades do Egeu.
Eu próprio agora admiro-me que em tais voragens
Da alma e do mar não se esvaiu meu gênio.
Se “estupor” ou “insânia” dá-se o nome a isto,
Foi-se co’a inquietação toda inquietude.
Tanto as chuvosas Cabras lançaram-me, tanta
Era a ameaça do mar por Estérope,
Ou o guarda da Ursa Atlântida ofuscava o dia,
Ou bebia o Austro tarda água das Híades.
Tanto do mar entrava… Mas eu, com a mão
Tremente, ainda urdia quaisquer versos.
Agora as tensas cordas rangem co’o Aquilônio
E a onda côncava salta como um monte.
O capitão levanta as mãos aos céus e implora
Auxílio, já esquecido de sua arte.
Onde olho, nada há a não ser a imagem da morte,
Que aflito temo e temeroso imploro.
Toque eu o porto, o porto me horrorizará:
Mais temor há em terra que em mar hostil.
Pois igual sofro insídias de homens e do pélago,
E onda e espada produzem gêmeos medos.
Esta, temo me faça presa por meu sangue;
Aquela, busque fama em minha morte.
À esquerda os bárbaros, afeitos à pilhagem,
Sempre cheios de sangue, morte e guerra;
Se o mar se agita pelas ondas invernais,
Mais túrbido está o meu coração.
Deves por isso então perdoar, bom leitor,
Se os versos, assim, não são o que esperas.
Não os escrevi, como antes, em meu jardim,
Nem, sofá habitual, tens o meu corpo.
Lança-me mar indômito em dia invernal
E até o papel a água azul atinge.
Luta a dura borrasca e, porque ousei, em meio
A ameaças duras, escrever, indigna-se.
Que a tempestade vença o homem! Mas, enquanto
Eu dê fim aos versos, dê ela à fúria.

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