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Entrevista com Pádua Fernandes

 

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Dwayne “The Rock” Johnson no programa The Tonight Show Starring Jimmy Fallon. | Montagem de Ari Felipe Miaciro.

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SM – Quando do meu primeiro contato com a sua obra, através de Código negro, um professor-amigo me disse que sua obra era uma obra política. Em primeiro lugar, quero saber se você concorda com isso: você acha sua obra política? Se sim, o que há de político, para você, em escrever e ler poesia?

PF – É possível que sempre se possa ver uma obra literária a partir de um ponto de vista político; ademais, há tantos desses pontos de vista, e tantos referenciais teóricos diferentes sobre a política. Mas você perguntou algo diferente, se eu considero minha obra política; raramente penso em termos de “minha obra” (na verdade, até esqueço o que já fiz). Já que você perguntou a partir do Código negro, que foi um livro que consegui publicar há poucos anos, uma década depois de escrito, tento pensar a partir dele. Trata-se, evidentemente, de um livro de amor. Porém, há livros com essa temática em que se nota que o poeta não tem consciência do espaço público e das relações de poder nesse espaço e na família. Essas coisas estão nesse livro, e lembro que um daqueles poemas de amor tem como título “Reforma urbana”, um assunto que é importante para mim também no campo do direito urbano. Nesse sentido, creio que talvez mais do que nos outros livros, que tem temáticas mais comuns para o que se chama de poesia política, o Código negro demonstre que eu tendo a compreender politicamente o mundo e a literatura. A poesia pode trazer um projeto de reformar a cidade? Creio que sim, e a leitura que faço de outros poetas em geral passa pelas questões de criação, debate e decisão sobre o que é comum, ou seja, o político.

SM – Eu tenho feito essa pergunta a todos os entrevistados. Portanto, Pádua, o que é poesia pra você?

PF – Esta forma de conhecimento a que Murilo Mendes se referiu no Poliedro:

A Górgone apresentou-me a tripleface. “Conheço-a de vista e de ouvido”, respondi rangendo os dentes.

SM – O Ismar Tirelli Neto fez, recentemente, uma pergunta que me parece fundamental: O que você espera de um poema? Pensando nesses modos de leitura da poesia que você acabou de nomear, algo que poderia criar(-se) a partir do caos, a partir do horror, repito a pergunta aqui a você e ainda a faço, novamente, com uma leve modificação: O que você espera de um poema escrito agora?

PF – Talvez seja, de fato, uma questão fundamental, mas acho que nunca me pergunto sobre isso. Em geral, creio que vou bem desarmado para uma leitura, no sentido de que não espero que um poema adote um certo programa ético ou estético, tampouco exijo determinada forma, já que há tantos diferentes mundos dentro da poesia, e esperar algo determinado bem pode configurar uma recusa daquilo que não se espera e que talvez seja o mais interessante que a poesia possa fazer. Por isso, em respeito ao inesperado, posso responder que espero que um poema faça diferença. É o que espero de poemas de qualquer tempo. Dizendo isso, acabei por me lembrar do Pound, da referência à literatura como “news that stays news”.

SM – Eu tenho pedido aos poetas que tenho entrevistado para falarem um pouco sobre a produção da poesia que lhes é contemporânea, ou seja, para que eles digam como veem a produção de seus pares. Como você vê, portanto, a atual produção da poesia no Brasil?

PF – Em uma enquete como esta sobre poesia contemporânea brasileira, creio que a pergunta deveria realmente aparecer. Prefiro imaginar que leio uma produção de ímpares. Talvez a forma como eu veja (creio que sua pergunta inflaciona o que fiz, pois penso que nunca cheguei a configurar uma forma própria) a produção daquela poesia apareça nos textos que escrevi sobre, entre outros (tento listar os últimos sobre que escrevi), Adriano Scandolara, Alberto Pucheu, Alexandre Rodrigues da Costa, André Dahmer, Angélica Freitas, Annita Costa Malufe, Dennis Radünz, Dimitri BR, Donizete Galvão (prematura e recentemente falecido), Eduardo Jorge, Eduardo Sterzi, Fabio Weintraub, Francisco Maciel, Guilherme Gontijo Flores, Josoaldo Lima Rêgo, Leandro Rafael Perez, Leonardo Gandolfi, Marcelo Ariel, Marília Garcia, Nuno Ramos, Paloma Vidal, Paulo Ferraz, Renan Nuernberger, Reuben da Rocha, Ricardo Domeneck, Ricardo Rizzo, Zeh Gustavo, Zulmira Ribeiro Tavares e até de Sergio Maciel, bem como os poetastros Garotinho e José Sarney. Também entrevistei Sérgio Alcides. Escrevi uma nota sobre poesia e golpe para a Cão celeste em que aparecerão mais dois autores, além de mais uma mirada sobre a poesia de Alberto Pucheu, que acho muito marcante com seus desguarnecimentos de fronteira entre verso e prosa, poesia e ensaio, palavra e inarticulado, o individual e o comunitário. No entanto, o poeta contemporâneo do continente que acho mais interessante é um argentino, Julián Axat, e, quanto aos da língua portuguesa, creio que o mais notável é o português Alberto Pimenta. Creio realmente que se trata de ímpares entre si. No entanto, nesse recorte tão parcial (ainda não consegui sentar para escrever, por exemplo, algumas ideias sobre Sérgio Medeiros, Bruna Beber e Ricardo Aleixo), é possível ver algumas linhas de força que perpassam alguns deles. Em 2016, escrevi um artigo sobre a poesia contemporânea brasileira e a perda da terra, e que saiu na Cão celeste número 10, sobre nove dos poetas que mencionei, e, depois, ampliado, com onze deles, para uma coletânea de ensaios ainda inédita a que Gustavo Silveira Ribeiro me convidou. Quis ver como o tópos da perda da terra aparece naqueles autores, seja na figura dos sem-teto, dos sem-cidade, sem-aldeia, sem-floresta e sem-planeta, o que acho muito importante neste momento em que estamos cada vez mais sem-país. No entanto, há também autores, muitos deles jovens, que estão jogando do outro lado, isto é, o dos saqueadores, que roubam teto, cidade, aldeia, floresta e planeta, e se comportam como subjetividades de rede social, isto é, como mercadorias que anunciam a si mesmas incessantemente, seguindo fielmente o modo de produção da devastação. Ouvi, recentemente, alguém naquela cidade onde foi plenamente exitoso o projeto de país gestado pelo neoescravismoteologicoliberal, o Rio de Janeiro, perguntar sobre poesia: “mas o que não é marketing?” Eu respondo que, se é marketing, não é poesia. Daí surge uma produção poetizante sem nenhum interesse formal, em geral informe, em que uma subjetividade plena apenas de seu valor de troca expõe-se para ganhar likes, gerando textos que chamam emojis para si, mais nada. Nada disso resistirá como literatura, pois esse pessoal não critica o modo de produção dessas subjetividades, mas é interessante registrar essa moda que aconteceu neste momento histórico.

SM – Curioso que você, não sei se sem querer, acabou fornecendo múltiplas respostas para a segunda pergunta que lhe fiz, aquela sobre o que é poesia. Assinalou, retomando Pound, que ela mantém o novo sempre novo e que é também uma forma de crítica da subjetividade. Quero focar, entretanto, num trecho da sua resposta, quando você diz que “daí surge uma produção poetizante sem nenhum interesse formal, em geral informe”. Num ensaio publicado na revista Germina (clique aqui), o Adriano Scandolara repensa toda uma relação entre “poesia”, “mito”, “modernidade”, “poetas” &c. Ele fecha o ensaio, aliás, dizendo o seguinte: “E refletir sobre isso, mais do que repetir automaticamente os velhos clichês sobre a herança xamânica da poesia – do poeta como o legislador não-reconhecido do mundo, antena da raça, aquele que purifica as palavras da tribo, etc., etc. – é a tarefa que, mais do que nunca, recai sobre o poeta escrevendo hoje”. Dito isto, e pensando nessa produção que você menciona, me interessa saber como você vê a posição e o espaço do poeta (e da poesia) hoje; se você acha que há alguma “tarefa/função” a ser cumprida por quem se arrisca a escrever nestes tempos. Trocando em miúdos, qual é, pra você, “a tarefa que, mais do que nunca, recai sobre o poeta escrevendo hoje”?

PF – Não vou ocupar o lugar mítico do profeta que aponta aos outros o que devem fazer, que é o que certos críticos fazem, irrefletidamente, a partir de uma reprodução automática dos clichês do seu papel no sistema literário, ou, simplesmente, de uma vontade de prestígio. Cada poeta deve dar sua resposta, até porque uma resposta única seria fatalmente etnocêntrica, tendo em vista os papéis diferentes que as várias categorias de poetas exercem em sociedades diversas, e em algumas ele terá um papel social muito importante de animar os símbolos da comunidade.Talvez sua pergunta parta de uma certa mistificação do risco de escrever poesia, pois ele não é geral: nem todo mundo está na posição de Mandelstam. Eu não estou nessa posição, mas sei que muitos escritores no mundo estejam sob o risco da censura, processos judiciais, tortura e execuções sumárias. Desde sempre, aliás, veja-se Ovídio. O número de poetas exilados na atualidade ainda não foi calculado, creio, seja dos que continuam banidos, seja dos que conseguiram voltar após uma revolução, como Alberto Pimenta. E há também o chamado exílio interno. Ademais, relativizando o “risco de escrever poesia”, tanta coisa é arriscada; para certos grupos sociais, até dormir é perigoso: para os sem-teto em cidades como São Paulo, é mais seguro dormir de dia, a noite é mais propícia aos ataques. Outros diriam: a noite é propícia para a poesia… Em relação à minha resposta sobre a “tarefa”, cabe aos críticos tentar descobri-la; eu apenas procuro. E leio o que outros tentaram responder. Lispector aconselhou o silêncio, bem sei, mas a poesia toda hora envolve como dizê-lo, assim como a música. Eu gosto da resposta de Nâzim Hikmet em “Meus irmãos”: “É preciso atrelar nossos poemas/ à charrua do boi magro/ É preciso que este se enterre até aos joelhos/ Na vasa dos arrozais/ […]/ É preciso que os nossos poemas como marcos quilométricos/ Balizem as estradas/ É preciso que sejam o sinal a anunciar a aproximação do adversário/ É preciso que batam tambor na selva” (tradução de Rui Caeiro, na edição da &etc de Poemas da prisão e do exílio). Não considero, porém, que todo poeta tenha que adotar esse tipo de compromisso, explicitamente político. Respeito a grande poesia lírica, o que não é o caso das anotações poetizantes a que me referi na outra questão da enquete.

SM – Quero pedir licença aqui-agora e usar as “perguntas clássicas” que Clarice Lispector costumava fazer sempre a cada entrevista. Qual é a coisa mais importante do mundo? Qual é a coisa mais importante para a pessoa como indivíduo? E o que é amor?

PF – Qual é a coisa mais importante do mundo? Terminar bem. Como o fim do Moses und Aron, de Schönberg. O compositor tinha escrito o libreto do terceiro ato, mas nunca logrou escrever-lhe a música. A obra forçou-o a terminar após a frase “Tu, palavra, que me falta”. Sempre faltará, mas devemos terminar mesmo assim. Em uma transmissão ao vivo em cinemas de uma apresentação da Lucia di Lammermoor, de Donizetti, Renée Fleming, que era a entrevistadora naquele dia, perguntou à protagonista, Natalie Dessay, por que ela tinha mudado a cadência na cena de loucura, em relação a uma outra apresentação. Dessay respondeu que nem queria se lembrar do que havia feito em outra récita, o que é uma ética artística, e disse que cantava sempre como se estivesse interpretando o papel pela última vez, “porque nunca se sabe realmente”. Também concordo com isso. Mas, para terminar bem, é necessário saber começar. Meu fim está em meu começo. E vice-versa.

Qual é a coisa mais importante para a pessoa como indivíduo? Depende da pessoa. Mas desconfiar do indivíduo é uma boa sugestão. Afinal, somos feitos por tantos e de tantos.

E o que é amor? Permito-me citar um poema de O palco e o mundo, que aborda o assunto:

– explique-me as duas overdoses, os três assaltos, as chantagens dos policiais, os setenta garotos de programa por mês, a cicatriz no umbigo; as seringas descartáveis reutilizadas e o sêmen idem; todo o pandemônio de metais através da língua, do nariz, dos mamilos e genitais (são armas em que guerra?); as inscrições e imagens no peito, na bunda, no dorso e nos membros (imagens de que deus?); os vinte quilos de calda de chocolate e as pernas de sapo; por que as luvas cirúrgicas e os anéis denteados (que corpo deseja extirpar-se de si mesmo?)
– porque tenho direito ao amor
– solte-me das correntes, qual o porquê
– porque o amor liberta

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