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Ana Paula Simonaci (1990—)

Ana Paula Simonaci nasceu em 1990. É curadora, pesquisadora e poeta. Formada como bibliotecária, é mestre e doutoranda em Memória Social pelo PPGMS – UNIRIO. Como coordenadora de literatura e biblioteca do SESC-Rio, é curadora de projetos culturais, como festivais, mostras, exposições literárias, seminários, entre outros.
* * *
todos os dias os pássaros. todos os dias voam.

da janela vejo os que voam em bando. planando.

os que voam sozinhos batem suas asas muito mais vezes.
da alvorada ao crepúsculo.

onde os pássaros pousam é onde eu queria estar.

para o rio del prata eles voam e se misturam com o cinza do rio azul.

[quando fui para o uruguai, deixei seu nome em todas as ruas. pouco a pouco me desfiz
das suas letras. está tudo lá. nada mais em mim.]

……………..só entende de jornadas quem acredita.
……………tudo ia mudar, tudo. tudo vai mudar.

em colônia, as ruínas e o mar.

……..os que voam sozinhos batem suas asas muito mais vezes.

todas as cidades desabam, a grama cresce por sobre as
pedras, os pássaros se alimentam de passado e depois voam
em direção a outros passados.

eu encontrei você e todo o seu passado.
você encontrou em mim ruínas e mar.

na cafeteria da livraria pedi uma xícara de prata. vi nela meu rosto e pelo vidro das janelas
vi os pássaros e os seus peixes no fundo do rio.

tudo ia mudar, tudo. os bandos em revoada. os peixes no cardume.

e os que voam, nadam, e andam sozinhos
em busca de liberdade.

§

a cobra come o próprio rabo

mergulhar dentro de si. ali estava de novo a imagem que vi em transe: um templo,
quartzos verdes, a gota de orvalho.

foi nesse dia que entendi que a busca era no labirinto dentro de mim mesma.

o avesso da vida seria virar-me de dentro pra fora?

e eu achava que todos os caminhos levavam aos outros.

o caminho em direção a si mesmo, uma tentativa, rastro, sopro que leva ao outro em si.

o telefone toca. minha mãe me diz que fez uma bolsa de crochê. achou um nó no meio da tecelagem. desfez toda a bolsa. desfez o nó. refez todo o caminho.

§

precisamos ir à índia caçar os tigres azuis.

[a distância e o tempo são uma coisa só]

eu andei três desertos até ver um oasis. eu andei três casas no xadrez. eu perdi minha rainha para um cavalo feroz que veio de dentro do mar. o bispo se ergueu para ouvir as orações que eu fazia quando menina dentro da igreja onde morei nos dias da minha puberdade. o tabuleiro não é apenas um quadrado, ali existe uma montanha. todas as casas da cidade com seus bispos, reis, rainhas e torres um dia caem no chão. minha casa de infância foi demolida. a casa dentro da igreja. isso foi quando comecei a buscar os tigres azuis. chorei quando demoliram deus. me deu esperança e me deu loucura. temi ao olhar diante da cara desse tigre que não é azul, pois está por todos os lados. e não são poucos os relatos selvagens. busquei os tigres azuis. andei quarenta quilômetros até o rio, em nome do amor. e me ergui com asas para caçar a paz, mas a porra da paz não habita no meu coração feroz. são poucos os relatos sobre liberdade. os tigres azuis estão extintos.

mas alguns caçadores ainda os vêem, mesmo que em sonho.

mel e perdição.

§

todo dia me sinto um pouco menos eu mesma.

as horas deveriam ser curadoras, mas são grandes assassinas.
cada minuto mata o minuto anterior.
a pressa, a ansiedade de viver, de acertar os erros do passado,
já não tenho mais.
a necessidade de ser outra que não eu,
já não tenho mais.

a arte de perder não é nenhum mistério, sabemos.

a grande lição da vida se desfaz no desenrolar do tempo.
não há o que aprender, pois a vida não é um aprendizado.
a vida é latente. a vida é um coração vivo que bate para circular
todos os sangues.

………..eu sou o meu reinado. coroada por mim mesma,
………..decreto todos os dias
………..o fim de quem eu fui.

o que tanto há para se fazer nesse mundo?

eu busco nas palavras um caminho, como um lasco de sobrevivência,
como uma lamparina para saber onde pôr os pés no mundo.

o mistério de perder não é algum senão tudo o que parece ser.

hoje montei um quebra-cabeça e sobrou uma peça. dei a ela meu nome.

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