poesia

Silvana Guimarães

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Silvana Guimarães (Belo Horizonte/MG). Socióloga e escritora brasileira. Participou de algumas coletâneas, entre elas, duas que organizou: 29 de abril: o verso da violência (Patuá, 2015), Dedo de Moça — Uma Antologia das Escritoras Suicidas (Terracota, 2009), Hiperconexões — Realidade Expandida Vol. 2 (Org. Luiz Bras, Patuá, 2014) e 1917-2017 — O Século sem Fim (Org. Marco Aqueiva, Patuá, 2017). Editora da Germina — Revista de Literatura & Arte e do site Escritoras Suicidas. Lança seu primeiro livro, de poesia, em 2018.

*

depois do vendaval

começar a estudar geografia humana
para entender as distâncias

fazer cálculos de estatística
para banalizar os prazos de validade

recolher os quatro elementos
para asfixiar a revoada de pássaros no meu peito

comer um saco de sal
para juntar os cacos de cristal dentro de mim

esperar o galo cantar
para te negar três vezes

repara: quanta crueldade existe na palavra corpo

§

supermercado

devo-lhe um poema de amor mas
preciso fazer a lista das compras
andar sobre as águas quebrar pedras
romper a fortaleza das palavras
convencer estrelas e cotovias
buscar um farrapo de eternidade
limpar a angústia dos móveis
tirar o encantamento do armário
desvendar seu abismo meus ismos
ferir o pudor raspar o desejo
pera uva maçã ou algodão doce
como se como sempre como sou
adivinhar seu cheiro de magnólia
a febre a dor o desalento implícitos
amar e desamar o seu avesso

: apalpo a palavra pêssego e ela
se diz entrega em suas mãos

§ 

dois bem-te-vis

— como foi?
— o poste explodiu, pegou fogo, o
ninho foi parar longe e o corpo do
homem ficou grudado ao fio, estrebuchando,
os olhos mutilados, a alma presa nos
mistérios da insignificância.
— nossa, horripilante.
— assim.
— e aí?
— a mãe apavorou-se e abandonou os
dois, ali, no chão, com as penas queimadas.
hoje, abri a porta da gaiola e eles voaram,
encabulados com a liberdade: mudos.

§

o óbvio lancinante

a morte é um milagre: ela vem leva um
e outros morrem ao redor de quem foi:
todo morto nunca é um só na sua dor

não existe rota de fuga não há esconderijo
ela chega e acaba com as flores pássaros
espaço consciência memória tempo beleza

descobre códigos senhas mapas da cidade
nada está a salvo: nada segura a sua gula
nenhuma valentia lhe dobra a arrogância

nunca mais eu te amo, te ligo amanhã
nunca mais essa música: olha que triste
nunca mais aquela viagem aquela droga

fica faltando um verso no poema impossível
tudo o que podia ter acontecido e não vai ser
o morto carregando seus mortos que respiram

bendita seja a morte: essa rainha da liberdade
que me faz rastejar nesse escuro dia das mães

***

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2 comentários sobre “Silvana Guimarães

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