poesia

Um poema inédito de Luciano Ramos Mendes (1986-)

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Foto de Natália Faustino Marques.

Luciano Ramos Mendes é um idichista, poeta, tradutor e editor que nasceu em Curitiba, em 1986. É a mente por trás da Editora Dybbuk – pela qual publicou seu primeiro livro de poemas, O Livro do Yom Kippur. Nasceu em Curitiba mas hoje vive debaixo do Sol, em Fortaleza. No momento pesquisa e traduz a obra do poeta iídiche Abraham Sutskever.

O poema aqui-agora publicado integra seu segundo volume de poesia, intitulado autotanatografia, e me parece que segue um pouco da tradição de “poema para vozes”, algo ao modo de Os três mal-amados, de João Cabral de Melo Neto, algo ao modo de antigonick, de Anne Carson. Um tipo de poética que se concentra no limiar entre o gênero dramático e o literário-poético, criando um irresolução que funda um novo sentido, talvez, na performance.

 

sergio maciel

* * *

 

DISSOLUÇÃO

Personagens:
Shaul: um homem envelhecido, magro, cabeça raspada – com várias falhas. Costelas salientes, olheiras profundas. Chagas lhe cobrem as mãos e o tórax.
Shulamite: um mulher que já foi bela. Está devastada. Cabelos cor de cinza.
Itstok: um jovem forte, vigoroso, porém extremamente pálido. Está nú.

 

Um não-lugar, de cor vermelho-escuro, que lembre sangue. Uma espécie de fundo infinito. No início não há ninguém em cena. Das trevas, faz-se Shaul.

 

Shaul

sem direção nem
foco
como a fumaça
do cigarro que
se espalha
eu me
perco
e não sei
mais quem sou
eu sinto meu coração
batendo forte
batendo fora de compasso
prestes a explodir
não vai explodir
pois
é como a fumaça
e se espalha
sem ruído algum
apenas
desaparece
o desejo murcho
o desejo morto
o desejo nulo
que me resta
é incapaz de
manter as forças de atração
entre os átomos
que me formam
carbono
hidrogênio
enxofre e nem sei
mais o quê
me desagrego
sem forças
o começo do
fim
encarcerado
em mim
não sei mais onde ir
acendo esse
cigarro – e nem quero
fumar
sem direção nem
foco não sei mais
aonde ir a
fumaça que se espalha e se dissolve e se perde
se torna
invisível como parte do ar
me espalho e me dissolvo e
me perco
me torno
invisível
como parte da morte
como parte dos
dias

Shulamite (surge, gritando)

o que você pensa
que vai conseguir?
que eu tenha pena
que eu te despreze
que eu te ame
não
se sente não se faz
nada
a respeito dos dias
ou da morte ou do ar ou da fumaça
eu não me importo
com sua tristeza
não
me importo com
seus sentimentos confusos
suas desesperanças
ou os poemas idiotas
que você
escreve com sangue

Shaul

não esqueça
que todas
e cada uma
das vezes
fui eu quem
te desprezei
não quero
que se
importe
eu
simplesmente
não quero
coisa
alguma

Me’ahevet

por que
por que
por que então você não
morre e me deixa
em paz
sem que
essa sua dor
estrague a lembrança
da felicidade

Shaul

sem rumo
sem direção
como
a fumaça de
um cigarro
que
eu acendo sem
ao menos querer
fumar
desapareço
me dissolvo
no ar
como se fosse parte
dos dias como se
fosse
parte da morte

Me’ahevet

eu segui
com a vida
eu até esqueci
que você
existia
você
e sua falta
de desejo
seu desejo morto seu desejo murcho
seus cigarros sem vontade e seu uísque anestésico
os comprimidos de felicidade
que sempre acabavam no ralo
porque com eles
dizia você
não se pode escrever porque
com eles não
sou eu
dizia você
mas eu esqueci tudo
isso como
se fosse parte
dos dias
como se fosse parte
da morte
e continuei
com a vida
só que a mancha da
sua miséria
me maculou para sempre

Shaul

por outro lado
nunca esqueci
e nunca vou esquecer
de nada
que disse
de nada que fiz
cada palavra
cada lágrima ou gota
de sangue
cada fio de baba
de tudo me recordo
menos
de mim
me recordo de tudo e não esqueço de nada
mesmo daquilo
que fingi
nunca saber
e de tudo
que nunca acreditei

Shulamite

por acaso algum
dia acreditou
em algo
não no amor nem
na liberdade até mesmo
seus esforços
para crer em
algo maior que
tudo foi em vão
nem mesmo em si
acreditou
por acaso algum
dia

Shaul

minha única verdade
sempre foi a
descrença
meu único sentimento
sempre foi a dor
ensimesmado
preso acorrentado
mesmerizado
dentro
da caixa de pandora
da minha alma
se é que
um dia tive uma
por acaso
algum dia

Shulamite

você não faz ideia
depois que
se foi
o que passei
sofri chorei tentei
esquecer
porque amei você
porque aceitei
você dentro de mim
e quis ser parte
do seu mundo
podre
onde tudo é
parte dos dias
parte da morte
por acaso
seu egoísmo
sem filhos sem liberdade
sem amor sem vida
apenas acreditava em
não acreditar
apenas vivia para
um gesto derradeiro
que nunca cometeu
não era fácil
a corda ou a lâmina do bisturi
os pulsos ou mesmo a jugular
quem sabe um tiro
e você prometeu
que não me amava
porque só sabia
disso
porque era parte dos dias
parte
da morte

Shaul

seria fácil
seria muito fácil
eu poderia
fingir amar
eu poderia fingir acreditar
e mentir sobre
ser feliz
e um dia
por acaso
não mais acordar
mas o que
então
aconteceria
sofri
depois que você se foi
como se fosse parte dos
dias parte da morte
sem filhos sem vida
sem amor sem
nada
sem um único
sentimento sequer
apenas o desejo
murcho
morto
vazio
um dia por
acaso

Shulamite

e agora
que nos reencontramos
não existe mais
nós
pois esqueci
de você de mim
amei e amei e amei
várias vezes
vários dias
e nunca foi por acaso
tive filhos
fui livre
e esqueci
de você
mas nunca
da sua dor
como se fosse parte
dos dias
como se fosse parte
da morte

Shaul

eu nunca esqueci
de nada
mesmo que por acaso
algum dia
tenha fingido esquecer
como se fosse parte dos dias
como se fosse
parte da morte
eu nunca esqueci
e eu nunca acreditei

Shulamite

você quem
nunca
esqueceu eu
que nunca lembrei
apesar
de tudo apesar
do tempo
apesar dos dias e da morte eu
penso em algo que não
foi
algo que nunca lembrei

Shaul

um dia
uma semana
nós dois quase um
ano depois
você ainda sangrava
você ainda
tinha dores mas ninguém
se dava conta
apesar
de tudo eu
vi

Shulamite (coloca uma das mãos na vagina, a tira suja de sangue)

um dia
uma semana
nós dois quase um
ano depois
eu ainda sangrava
eu ainda
tenho dores mas ninguém
se dá conta
apesar de tudo
você
viu
apenas você

Itstok (surgindo do escuro)

e eu
estive lá
o tempo todo
em que nunca
existi
eu estive lá
o tempo todo
em que deveria
ter sido algo

Shaul

e ele
que nunca
existiu nós não
permitimos
e assim
entre nós
mais um
fantasma
mais uma
dor

Shulamite

foi você
que não existiu
foi você
que se negou
eu sempre quis
a vida mas
desisti
em seu nome
eu sempre quis
um filho
mas desisti
em seu
nome
o nome do pai

Itstok

vocês dizem cor
mas eu digo sangue vocês dizem
fantasma mas eu digo
eu
vocês dizem desistir
e eu não
quebro o silêncio

Shaul

como se fosse parte
dos dias como se
fosse parte
da morte
nunca escapei
nunca desejei
pois tudo era
morto tudo era nada
como a fumaça do cigarro eu
me espalho eu me separo eu me
dissolvo
como os mortos
que eu enterrei eu
lamento mais
de uma vez
por todas
eu ainda vejo seu sangue

Shulamite

meu sangue não
meu sangue não é meu sangue
meu sangue não é
minha cor
minha voz
tudo isso foi você
quem fez foi
você quem
tirou foi
você
sempre

Itstok

meu sangue não
é meu
sangue é
minha cor
de vocês
tudo isso é
nada
vocês dizem cor
eu digo sangue
vocês dizem o mundo
eu digo um altar
vocês dizem nada eu
digo morte
eu digo tudo
e os vejo
separados por uma distância
infinita
de meu tamanho

Shaul

de todos os vazios entre
os tempos de todas as distâncias entre as
filas de
soldados das brechas
de tapume das portas
que fechamos mal
das mãos
que separamos do vazio
entre os corpos
nasce uma planície um
deserto
para onde
eu vou sempre
onde eu sempre
estive

Itstok

nesse vazio nessa
solidão
um deserto a fumaça
onde você diz que
está eu
sou

Shulamite

de todos os vazios o
que mais me dói
é o que vocês
deixaram dois
fantasmas
sempre como seres dormentes
e palpitantes
que saltam de
meu corpo
sempre

Itstok

ouço meu sangue e tua
voz numa única
pulsação
vejo teus olhos e minha
miséria num único
clarão
sempre

Shaul

acendo um cigarro e
nem ao menos quero
aceno um adeus e nem
ao menos
sei
porque
mas é o que faço
como se fosse parte
dos dias como se
fosse
parte da morte
nem ao menos
quero

Shulamite

dois fantasmas
como seres dormentes e palpitantes
que saltam
de meu corpo

(Lentamente, todos desaparecem.)

FIM.

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