poesia

Ericson Pires (1971-2012)

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Ericson Pires (1971-2012) era poeta, performer, ator, músico, produtor e agitador cultural, além de mestre e doutor em Literatura pela PUC-RJ e um dos fundadores do CEP 20.000, ao lado de Guilherme Zarvos e Ricardo Chacal. Foi também faixa preta e professor de jiu-jitsu, além de professor adjunto do Instituto de Arte da UERJ. Criou o coletivo musical HAPAX, o RRRadical et alii. Publicou, como poeta, os livros Cinema de garganta (Azougue, 2002) e Pele tecido (7Letras, 2010). Como ativista, publicou o livro Cidade ocupada (Aeroplano, 2007), um manifesto que defendia a ocupação urbana pela arte. Como acadêmico, publicou Zé Celso Oficina-Uzyna de corpos (Annablume, 2004), que é um desdobramento de sua dissertação de mestrado. Morreu em 2012 devido a problemas decorrentes de uma pancreatite aguda.

 

sergio maciel

* * *

 

CANTO III
(MISTÉRIO DA NECESSIDADE)

– aquele que escreve é
também aquele que
é escrito –
…………………………………………a potência
…………………………………………de nadar no tempo
…………………………………………a insistência
…………………………………………de sentir o fio
…………………………………………a querência
…………………………………………de brotar acaso

…………………………..continuo a inventar o instante
…………………………..contínuo
…………………………..mantenho meus sentidos alertas
…………………………..desperto
…………………………..imagino um mundo que não acaba
…………………………..destaco

e não acontecerá mais coisa alguma que não se possa inventar
e não esqueceremos absolutamente que se pode esquecer
e não poderemos ficar parados diante do imenso centro sol

as mudanças são encontros de mundos que se movem

– tudo pulsa –

é necessário fazer listas intermináveis
…………………….cruzar linhas infindáveis
…………………….tecer sonhos inimagináveis

é necessário cozer a roupa que parte o dia da noite
…………………….a luva que colhe o prato do sol
…………………….a calça que cobre o rubro do céu

é necessário criar no peito o grito que alinhava os fios

……………………………………………..o grito frio do calor que queima

o grito de todos os gritos de todas as paixões
…………..de todos os anseios de todas as medidas

o grito de todos os cantores de todas as desditas
…………..de todos os que mentem de todos os que gritam

…………..de todos
……………………………………….os que traem
……………………………………….os que sujam
……………………………………….os que mudam
……………………………………….os que lutam
……………………………………….os que sacam
……………………………………….os que escapam
……………………………………….os que traçam
……………………………………….os que podem
…………..de todos
……………………………………….os que partem
……………………………………….os que primam
……………………………………….os que saem
……………………………………….os que vibram
……………………………………….os que lascam
……………………………………….os que lambem
……………………………………….os que sentem
……………………………………….os que gozam

é necessário devorar leão ser leão ter a juba leão
…………………….correr na pata leão rugir leão quando ruge leão
…………………….cheirar como cheira leão
………………………………………………………………………….atacar leão

é necessário levar o dia a rodar o cu da boca
…………………….a boca a gemer gozo lua
…………………….a luz a beijar o útero sol

é necessário manter o corpo aberto
………………………………….o topo aberto
………………………………….o toque aberto
………………………………….o foco aberto

………………………………………………….manter aberto tudo que escoa
……………………………………………………………………………tudo que esvai
– pensar:
necessidade –

………………………………………………….trazer as linhas
………………………………………………….novo novilho
………………………………………………….fazer as linhas
………………………………………………….movo moinho
………………………………………………….perder as linhas

………………gritar uma super nova a cada minuto

……………………………….– o amor brilha –

§

 

CANTO I
(ROMANCE DE PERDER)

– a hora do que é
poderá ser a obra do que
SERÁ

neste momento

tudo pode

SERÁ
SOL

neste momento
(ser agora novamente)

noite perdida
pequena

noite perdida
tornada

de novo sol
de novo –

serei aquele que imaginou o não agora?
serei só o número ímpar no destacamento?
serei o instante instável reforçando o mínimo?
serei o que não poderá o que não retornará?

o que será aquilo que simplesmente é
o que simplesmente foge
o que simplesmente
simples escorre?

Lista lisa de tecido solto

– não ser no sou só:
encontrar fios –

serão os traços que esconderão?
as bordas que transportarão?
os acasos que multiplicarão?

(nenhuma verdade existirá ou restará)

imagens se sucedem:

anúncios estabelecendo possibilidades amargas do possível
taperas tentando esconder aquilo que é comum ao comum
serpentes escapando do jardim fechado pela madrugada

ser aquilo que será sendo
(o ser não existe
existe o é
é o é que será)

– sendo senderos –

será real não escapar do que pode ser?
será alguém escapando ao dito?
será você escutando o que não deveria?
será meu irmão cantando por não saber o que poderá ser?

Fios seguem
Rumos sedem
Trapos rompem

Você é o que não poderá ser sem poder
Você esqueceu que qualquer um que só quer poder
não será
Você pediu para dizer que qualquer um é um que poderá
não ser
você acha que é
simplesmente é

você brilhará no espelho que eu quebro

imagens tecem:

falhas moverão folhas de um álbum que jamais irá perdurar
fontes capturam bicas que secarão solitárias trabalhando secando
flâmulas estarão completamente ríspidas seguindo o refugo
faixas não sinalizarão o Sol surgindo desesperadamente só

solitude é uma canção
– chamarei o Sol para conversar –

remédio é sentar ao sol

SOB O SOL
SALVE SOL
SANGUE SOL

Às vezes dói

– chão se rasga céu sem nunca parar chão –

dói sem dor

quero curar da cura que cura

SOL

voltar ao resto que repete outro

o que retorna é aquilo que sempre esteve de novo
– teia circular: querer perder –

§

 

FALA TECIDA

Tecer-se
Catar em cada parte o fio que se perde
Tecer-se
Trair cada fim que se pretende
Tecer-se
Criar cada outro que cria outros

Não há equidistância possível entre o dito e o imaginado
Nenhuma palavra resume em si o sentido que lhe cabe
A fatalidade inesperada do som abrevia a fala novamente falada

Tecer-se
Em cada linha que cruza
Em cada ponto que surge
Em cada salto que escapa

Esquecer o silêncio.
Esquecer todos os silêncios que nos calam. Esquecer que os
silêncios nos calam.
Esquecer que somos calados. Esquecer que estamos calados.
Esquecer silêncio.
Todo o imenso som do silêncio. Todo o silêncio que brota
da fala. Todo o silêncio que fala alto na fala. Todo silêncio
estagnado em todo som,
em todo silêncio.
Esquecer que meu cio é silêncio, que morro no silêncio, que
só vivo em silêncio, que falo em silêncio.

……Esquecer silêncio.
……Tecer-se.

É preciso inventar aquilo que já existe sem nunca esperar
que aquilo termine um dia.
É preciso aventurar-se naquilo que é teu silêncio redivivo a
aventura de inventar o dia.
É preciso não descansar enquanto a fala não terminar. É
preciso não terminar a fala.

……Esquivar do silêncio é perceber-se como silêncio inventado
……Falar é inventar o silêncio novo

……Tecer-se na fala os silêncios
…………no silêncio as falas

……Tecer-se fio de fala som
…………silêncio de fala tecida

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