poesia

João do Vale (1934-1996)

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Posso começar aqui quase parafraseando Ruth Finnegan e dizer que possuímos uma tradição tanto escrita quanto não escrita de “literatura”, ou, melhor dizendo, de poesia, de poética; que apesar de sermos a cultura mais letrada do ocidente de toda a história, não surpreende a ninguém dizer que as formas não escritas são, certamente, muito mais conhecidas e apreciadas; e que a canção, portanto, figura como a nossa forma mais efetiva e popular forma daquilo que podemos chamar ‘poesia’. Somos uma ilha de escrita num mar de oralidade, afinal. Não à toa um poeta como Ricardo Domeneck, ao tratar da poesia dos trovadores portugueses (clique aqui), enxerga uma ligação, um continuum entre Martim Codax e Vinícius de Moraes, por exemplo. Nada absurdo: essa oralidade da poesia, ou, melhor, essa relação entre canção, entre a voz e aquilo que consideramos poesia se estabelece como tensão desde Homero, passando pela lírica romana, pelas cansó em provençal, pelos trovadores, pela ópera, pelo samba, enfim. Eu havia pensado em me justificar demais, mas vou apenas dizer: apreciem a poesia de João do Vale.

BIOGRAFIA:

João Batista do Vale (Pedreiras, MA, 1934 – São Luís, MA, 1996) foi um cantor e compositor brasileiro. Em 1947, vai com a família morar em São Luís e lá integra o Linda Noite, grupo de bumba meu boi, para o qual compõe versos. Por gostar de cantar e dançar recebe o apelido de Pé de Xote. Dois anos depois viaja para o Sudeste do país em um pau de arara (transporte irregular feito em caminhões adaptados para levar passageiros) e pedindo carona. No longo trajeto, para em diversas cidades e desempenha as mais variadas tarefas, como pedreiro, ajudante de caminhão, artista de circo e garimpeiro.

Chega ao Rio de Janeiro, em 1950, onde consegue emprego em uma obra no bairro de Copacabana, zona sul da cidade. Com algumas composições, a maioria baiões, começa a frequentar programas de rádio e mostrar suas músicas a outros artistas. O sanfoneiro Zé Gonzaga, irmão de Luiz Gonzaga, grava sua canção Madalena (1953). Com o cantor Luís Vieira compõe Estrela Miúda, gravada por Marlene em 1953. João do Vale ainda está trabalhando como pedreiro no Rio de Janeiro quando esta música começa a tocar no rádio. Por ser menor de idade, tem dificuldade para receber os primeiros direitos autorais. Os duzentos mil réis parecem uma fortuna para quem ganha cinco mil réis mensais na construção.

Na Asa do Vento (parceria com Luis Vieira), gravada em 1956 por Dolores Duran (1930-1959), torna João do Vale compositor em tempo integral. Astros do rádio, como Ivon Cury e Jackson do Pandeiro, gravam suas músicas. No Nordeste, Marinês registra discos inteiros somente com suas composições. Entre suas canções mais conhecidas estão Peba na Pimenta (com José Batista e Adelino Rivera), gravada por Ari Toledo, e O Canto da Ema (c/ Aires Viana e Alventino Cavalcante), gravada com sucesso por Jackson do Pandeiro. Luiz Gonzaga passa a gravar suas músicas. A associação com o rei do baião rende algumas parcerias mas, por problemas contratuais, Luiz Gonzaga nem sempre aparece nos créditos, substituído por sua mulher, Helena – o que não o impede de gravar as músicas.

João do Vale assume que vende várias de suas composições para ajudar no orçamento – só que nunca nomeia os compradores. Não é de se estranhar nomes desconhecidos entre seus parceiros, já que entre eles há de garçons a bicheiros.

Em 1954, participa como figurante do filme Mãos Sangrentas, dirigido por Carlos Hugo Christensen (1914-1999), e conhece o então assistente de direção Roberto Farias (1932), que mais tarde, como diretor, o chama para compor as trilhas sonoras de alguns de seus filmes, como No Mundo da Lua (1958). Na década de 1960, convidado pelo sambista Cartola (1908-1980), faz show no restaurante Zicartola, onde conhece Oduvaldo Viana Filho (1936-1964), Paulo Pontes (1940-1976), Ferreira Gullar (1930), Augusto Boal (1931-2009) e Armando Costa (1933-1984). Do encontro nasce a ideia do show Opinião (1964), primeiro espetáculo contestador da época do regime militar. O musical estreia no teatro de um shopping center de Copacabana, com direção de Oduvaldo Vianna Filho e com elenco composto de Nara Leão (1942-1989), Zé Kéti (1921-1999) e João do Vale, entre outros. É de sua autoria um dos maiores sucessos do repertório da peça, Carcará (parceria com José Cândido), composição que, mais tarde, é a música de lançamento da carreira de Maria Bethânia (1946), que substitui Nara Leão no espetáculo. A repercussão de Carcará é tão grande que, em 1965, é convidado a gravar seu primeiro disco, O Poeta do Povo.

Em 1969, compõe a trilha do filme Meu Nome É Lampião, de Mozael Silveira. Depois de quase alguns anos de ausência do meio artístico, participa, em 1975, da remontagem do show Opinião, no Rio de Janeiro. Somente em 1982 lança seu segundo disco, em parceria com Chico Buarque (1944), que pouco antes havia produzido o LP João do Vale Convida, com participações de Nara Leão, Fagner, Alceu Valença, Zé Ramalho, Tom Jobim, Amelinha, Clara Nunes, Hermeto Pascoal, Jackson do Pandeiro e Gonzaguinha, além do próprio Chico, que em 1994 volta a reverenciar o amigo reunindo artistas para gravar o disco João Batista do Vale, vencedor do Prêmio Sharp de Melhor Disco Regional.

João do Vale vive no Rio de Janeiro por mais de 30 anos, mas nunca abandona o universo do sertão, mesclando com maestria o samba carioca com o baião nordestino. Apesar de uma obra com mais de duzentas canções registradas em seu nome (fora as outras tantas que vende), morre quase tão pobre quanto na época em que foge de casa, em 1949.

Fonte: Enciclopédia Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras (clique aqui).

ps: ao final deste post está o documentário João do Vale, Muita Gente Desconhece, de Weriton Kermes, com argumento de Miriam Cris Carlos, sobre o poeta e compositor maranhense.

 

sergio maciel

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