poesia

Guilherme Rocha Braga de Araujo (1988-)

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Guilherme Rocha Braga de Araujo (Botucatu — São Paulo, 1988) é poeta, bacharel em Tradução e licenciado em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Publicou pela editora Chiado os seguintes livros de poesia: No Olho do Furacão (2015), Ordinária (2016), O Livro de Lázaro (2016), O Caminho de Volta (2017) e Aqui (2017). Tem também mais duas obras na gaveta, Caderno Comum e Notas Para Rasgar Pedras, maturando para publicação.

* * *

 

PESADELO COM A INOCÊNCIA DAS MÃOS

as mãos, surdas às trombetas do fim,
lavam a louça sob os estalos de tiros.
não há sinais de melhora e, entretanto,
laboriosas, prosseguem as mãos.

compram e vendem o pão,
quebram os ovos, entregam o jornal,
tiram e embalam o leite.

é bem possível acordar de madrugada
surpreendentemente vivo
num continente pouco a pouco devastado
enquanto os mortos são jogados no mar.

§

 

TREM FANTASMA

o presente, vala clandestina
cheia de cadáveres palpáveis,
de cheiros inconvenientes
e total falta de humor,

o presente, que não deve ser tocado
sob pena de terríveis aflições
nem passa de um delírio atroz
com uma ligeira construção de carne,

o presente, que cada dia insiste
em derramar-se num abrir de olhos,
perpetuar-se após o próprio fim,
comer e incorporar todos os filhos,

o presente, que quando a noite acaba,
detestando o despontar do sol,
acorrenta-o, feito um grão de areia,
à fenomenologia da carência,

o presente, vulto de tantas patas,
teia grávida de tantos rostos, funesta
malha estendida entre toda superfície
ao longo de cada exíguo espaço,

o presente, que é a persistência
do passado, a recusa do futuro,
a depressão, o punhal teleguiado,
a verdade adaptada ao clima,

o presente, perigo real
mas o realismo é uma miragem,
olhos para diante, essa gente sabe ler
e não boia morta nesse rio,

o presente, carcaça pérfida
carregada de vísceras vazias,
de sapatos de crianças mudas
e seios murchos de mulher.

§

 

ASAS PRETAS

todo santo dia
sou condenado
a comer fígado:
sentir o gosto
da mesma víscera,
ouvir os gemidos
da mesma boca.

sou o maestro
de uma canção
atávica pairando
religiosamente
ignoto num espaço
que não obstante
é obra minha.

entretanto levo eu
crédito algum?
não, o concerto
é de Prometeu,
o abutre é apenas
um elemento
desencadeador.

nunca hei de tirar
de donzela alguma
um único suspiro
de consternação
por minhas penas:
deixo isso a esse
oboé de carne.

deixo isso a essa
tuba de sangue.
compareço sempre
ao mesmo horário
na mesma pedra.
considero isso
a minha função.

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