poesia

Yasmin Nigri, 1 + 1

yasmin

Yasmin Nigri (1990), nasceu no Rio de Janeiro, é poeta, artista visual e mestre em Filosofia (UFF). Integra o coletivo Disk Musa. Participou da antologia 50 Poemas de Revolta (Cia da Letras, 2017) e é colaboradora da Revista Caliban. Seu livro de estreia, Bigornas, saiu em julho pela Editora 34. Mantém o canal Alokadostutoriais, onde, além de tutoriais divertidos, encontramos os textos aqui apresentados [aqui e aqui]; já apareceu aqui na escamandro com outros poemas.

*

Qual aviso

Alguns textos nós achamos difíceis de falar. Por isso nos tocamos tanto. Antes, em todo abraço, me sentia semelhante à árvore. Nos seus não penso em nada. Fora a infância e seus braços – limiares – é que penso infinitamente. Como hoje pensei no prazer dos inícios e reinícios. Você me disse, no carro onde nos olhamos verdadeiramente pela primeira vez: você não me assusta. Perdi o ônibus. Na rodoviária, uma da manhã, enrodilhado em mim, você esteve feliz, pois constatou que não abro mão do desejo. Apesar de amarga. Apesar de ferida. Reclamei do gosto que tem os seus excessos. Aprendi que para você os excessos são a afirmação da vida. Eu não gosto quando você assopra meus seios. Eu gosto quando você me acende uma ideia. Você não gosta da maestria. Você pensa o prazer enquanto experiência festiva. Eu penso em você quando penso em reinícios. Eu finjo sono para escapar da sua festa. Você diz que o amor é o local onde a felicidade se realiza. Que prazer e dor são indissociáveis. Eu prefiro dormir. Enquanto você acolhe fossas, ressacas, paixões… eu tento não pensar exageradamente na morte. Quando penso em você penso em inícios. Porque entre nós, mesmo que de natureza inexprimível, se abriu um lugar vazio onde sentimentos e palavras podem acontecer. Os encontros casuais são a matéria da vida. O amor é fácil como sentir culpa. É difícil como sentir culpa. Em qualquer parte do globo.

§

paranoica

que palavras foram essas
que trocamos
na nossa caminhada
e não se ligaram a nós
e não as ligamos a nada
alma frouxa cobra alada
cheiro seu silêncio
vou pra cama antes do tempo
é muito penoso estar acompanhada
de mim de coisa alguma assim
nisso vejo mal yasmin yasmin
e acordo à noite
em miséria metafísica
quando deus me tira a poesia
olho a dor, sinto a dor mesma
e fico farta da beleza
e fico péssima poeta
e me contenho de um jeito horrível
vigio o celular
posto stories
vigio os meus vigias
paranoica e no cio
embaixo da tela o nome dele
bajulo meu clitoris
o sono me vence e desmaio
no edredon fofinho
durmo sem medo
faca dentro da fronha
acordo forçada por uma lembrança
penso penso penso enquanto basta
mato as ideias até o café
me arrasto até o almoço
me escavo até a jantar
por falta dele ou do acerto de contas
penso
que resina
penso
que resina se apoderou daquela cabeça
penso
dedos mudos
penso
mente criminosa
concluo
agora mesmo ele se esconde
num meio-sorriso atávico
enquanto me espera

*

 

 

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poesia

Leonel D. Jr.

Leonel D. Jr é formado em Letras e vive em São Paulo num fazimento constante do vir-a-ser. Estes poemas fazem parte do livro (inédito) “botânicos e genesíacos”. Para contato: ldelalana@yahoo.com.br.
* * *

botânica

raízes fincadas em passado recente, rente ao horizonte do tempo da seiva,
por debaixo das portas, pelo vão mínimo das portas, às escondidas
rugosos dedos entrelaçados em nós, da floresta que ainda respira
raízes alongadas onde lunetas vislumbram musculaturas rijas
tão rijas quanto gosto de mãe e a severidade do pai
o tronco e as pernas do pai atribuídos ao encantamento
embrião para a vida toda – ganhando a vida desejando a morte:
amputação do rabo da lagartixa, a fruta cortada ao meio num lance de faca
do alto da sua frondosa cabeleira, dos seus raios e trovões
a impotência em frutos mirrados
sua pele rude e seus intermináveis dedos penetram a terra
minha filha tem intermináveis dedos, meu neto tem intermináveis dedos
a força do pai, sua ausência:
raízes

§

descoberta

o subsolo desliza por rugosas raízes (de um riacho, ainda há pouco, raro)
de um mundo impermeável reprimindo a busca não exatamente do pai
nem da mãe de preto rezando – ralhando?
da janela, o canavial interminável de dedos longos e digitais apagadas, da nona
retirando a tinta calcinada do batente, o atrito da lâmina deformando as falanges
e desenhando ranhuras na madeira
no arrebol, a usina carcomida e demarcada pelo sexo peludo da descoberta do outro
pelo vão da janela os seios murchos da nona
fotografias velhas esquecidas no fundo da gaveta
algo corrói, mas tudo corrói – o que não?
o vermelho-alaranjado minando… minando… como uma fonte inesgotável
lendários heróis que nunca tive:
no canavial das terras vermelhas revolvidas, desembestados, passando por entre
minhas pernas com a clara intenção de me derrubar: um pastor e um vira-lata
meu canavial não é o de joão, não é engenho, é um horizonte
vila sob eucaliptos, caravana que some na poeira, romaria, cavalo que dispara,
entorpecimento
tudo cercava a casa da vila, eu mesmo era (sou) “o da vila” – desde o soco
no estômago, na cara, do abuso da força alheia
do cheiro, dos beijos, do milharal apinhado, dos dedos que lavram o dia a dia do
passado
a descoberta de que não precisa pedir desculpas sempre

§

labirinto

extirpo raízes com seus minérios e mucosas, revolvo todas as substâncias
de éteres a cascalhos, dos espelhos aos oxalatos
(as pernas bambas da mesa andam cheias de cupim, disse o pai)
de visibilidades duvidosas, rentes e verticais, ao dente
ritualizo, me apego e desapego,
exausto vago sem rumo, quase sólido – glóbulo, granizo, grãos, compacto
como se sob fosse abismo, sem raízes,
solto ao vento, uma rasteira de possibilidades que vai aparando toda a grama
o corte, a seiva na parede raiz: odores, fotossínteses não conclusas, e,
o contentamento do eterno retorno – insiste, resiste:
da semente dentro da macieira, da chuva dentro da gota d’água,
de têmporas e tempéries, de uma estrutura latente, incubada, vulcânica
asas de cera, telhados de vidro, atados dos pés ao chifre
o que querem de nós, pensamentos prontos, delivery of thoughts?
palavras codificadas, labirintos, simulacros, túmulos, tumores, lixos mediáticos
a todo volume
uma vida de inverossimilhanças reais sob nebulosas difusas e absorventes
espiraladas difrações sonoras e imaginamos um mundo, de pronto
feito imagem e semelhança das imagens
um novo homem, sempre velho e inacabado
a verdade da criança morta, anestesia geral e irrestrita
o regozijo em concreto gozo
se os arqueólogos não sabem dos seus labirintos como se livrarão dos seus
minotauros?

§

visão

talvez, os dedos encurtem e fiquem as unhas no pulso
os pulsos sumam para dentro dos cotovelos e os cotovelos:
cata-ventos
no eixo dos ombros, girando em falso com um sorriso verdadeiro
que a garganta engoliu a seco,
o cérebro saudável de bondades
as bolas de ferro persas presas aos calcanhares protegendo as asas do sol
difícil pensar que somos personagens fora do comum
– anomalias, dádivas, dívidas já pagas
nas mesmas mãos, nos mesmos olhos:
no espelho da lâmina da faca, seu olhar, um céu sem nuvens e sol:
paraquedas despencam sem sobreviventes, um mundo sensível
e um clown em meus pés, quem sabe eu dance, cante, fique feliz
talvez um repouso, um pouso aos destroços dos meus voos
uma pausa que não seja tão assim,
aniquilamento

§

a doença das plantas

as raízes se afundam em pedregosos calcários, em ramificações de cores
extensões variáveis protegidas do vento
que insiste em todas as direções
adoecem impregnadas e submergidas em terras revoltas
uma árvore enraizada em todos os tempos e espaços – sem limites
tradições e contradições arquetípicas
as chagas estão abertas e não há mandrágoras que as curem:
envenenam as comidas, massacram a cultura e tudo
os estilhaços flutuam ao nosso redor e perfuram todo nosso corpo
e nossos mirrados filhos correm soltos por aí
repetindo… repetindo… o refrão da nossa existência
seus dedos rudes apertam gatilhos, assinam contratos, acariciam doentes
espelham a terra
caem de boca no abismo, se perdem no vácuo impreciso da materialidade
das coisas inúteis que deixam suas marcas, o saldo dilacerado de telúricas origens
das dores autóctones, das vozes adormecidas
ou nunca nascidas

§

dos argonautas e dos olhos azuis tristes do pai

as fronteiras demarcam os países, as cercas confinam os bois
mas o que demarca nossa existência?
terras ásperas de raízes expostas às cegueiras detestáveis de ostras cerradas
no fundo da escuridão das pérolas
o que são as pérolas em sua negridão de fundo de mar se
não-pérolas e nada mais?
o que sabemos do oco dos sonhos e das ovelhas que saltam de lá?
ah, terra incógnita, suas pérolas brilham em sua face e sabe o quão tristes são os
olhares opacos de seus filhos
o quão triste e cheio de medo eram os olhos azuis do pai
o quão triste foi o enfisema pulmonar do pai, o quão triste foi o pai
teus ombros fortes arquejam – o mundo está escasso de heróis, deuses e humanos
a fúria da descoberta do desespero de se descobrir em terras estrangeiras no meio da própria
casa,
às vezes, precisa-se pedir licença aos próprios pés
a adaga, a machadinha, a pedra e a vida lascada
os mitógrafos do primeiro decênio do século XXI expõem em seus facebooks
as mitologias da china comunista e da américa pós-apple
o mundo esférico ideal em um só clique, por onde argonautas e odisseus navegam
ocultos, impávidos, anônimos, implacáveis…

§

partículas de deus

cá estamos de sopro e supetão nesse vazio
primatas dentro do umbigo, solidificados, virtualizados, liquidificados
à virulência da vida (que vai ao ralo, ao rabo, ao rato,
liquidada, adiada, antecipada)
adâmico, busco o lado que me falta da costela
que sei desde sempre, balsâmica
em rota de peregrinação às histórias de cada um – a beleza salvará o mundo (?)
não sei não saberei
me responda você, que merda fizemos dele se tudo se contabiliza?
se não existe espaço para a arte como existe espaço às oito horas trabalhadas
e outras maldades mais
na vila izaura, acreditava, no azul do céu que a menina da rua de cima trazia,
acreditava
tudo começou ali, na expulsão do paraíso, a partícula maldita:
talvez isso explique nossa busca desenfreada do que nem sabemos, construindo
a felicidade eterna num graveto, afoito no prazer da dor do outro
– o sangue do capítulo IV do livro de gênesis –
queremos limpar nossas mãos do que nem cristo foi capaz
tateando o indizível quando a possibilidade do interruptor nos cega
estúpidos senhores e senhoras de dedos longos e raízes desesperadas observam
o nada o naufrágio o delírio,
um grito

§

raízes viris de sementes fecundas

onde se encontram duas coisas e o mundo acontece:
teatro de marionetes, epifanias, carrancas nas embarcações ou qualquer coisa
que detone movimento – difração
a cólera do não, a desmedida do quero garante o gozo
a beleza dos afetos pede razão: a eloquência dos corpos nus
pedras, ventos, riachos, insetos, cascas, mucosas se agitam, conta-gotas em
golfadas lancinantes, as rachas se abrem…
o movimento estabelece a continuidade do que não se estanca
o mundo se organizou de tal forma que não percebe sua extraordinária beleza
para a alegria da misoginia abundam seios e bundas siliconados a granel
não importa, onde se encontram as coisas o mundo acontece:
as soluções são numerosas e a preguiça tamanha
todo esse embaçamento ao alívio da dor
não ímpar, multíplice
talvez a gente queira demais dos nossos quereres
esquecendo da nossa condição quase anelídea

§

travessia dos mares

o canto das sereias televisivas edificando a visão
um mar de manto verde com suas folhas de digitais cortantes e reminiscências
lançados ao desconhecido de um inconsciente coletivo e bravio
onde imagens copulam e não há terra à vista
um engodo, uma isca para peixe, uma tira de pano vedando o desejo da busca
do outro, para tomar pose, não importa o fundo do mundo
merleau-ponty ou maurício de nassau ou mary poppins?
quem você levaria para sua ilha
– eu levaria minha mãe, pois ninguém deixa uma mãe judia assim… a ver navios
mefistófeles no meio do redemoinho, nonada:
viver é um troço impreciso e desnecessário nesse sertão de estrelas perdigueiras
raízes que se apequenam na imensidão de tudo
raiz do dente, do cabelo, quadrada ou da mandioca que é a própria mandioca
tudo envolta do umbigo e no umbigo não há descoberta, janelas fechadas, casas assépticas –
entristece
encantado pelo canto mágico se deixa na poltrona
não sabe da beleza da imensidão das águas

§

labirintos artificiais

geoffrey rush e fran lebowitz (separados no berço) ou fausto fawcett?
exausto, estático, em descarrego, caio em rito, em ritmo – calcário
vago compacto, quase gasoso, anidrido e dióxido de carbono na veia,
uma carreira de ácido acético testando minha plasticidade em alongar-me nos túneis da cidade
outra de ácido ftálico tingindo meus sonhos de azul-violeta
prumo em linha reta
com sebo na canela
vago em uma biblioteca onde os livros criam raízes e dão frutos, a bibliotecária
com a fúria e o som de uma serra elétrica vai colocando os livros prateleiras abaixo
para o deleite dos capitalistas das indústrias de papel – vou salvando o que é possível:
do meio do redemoinho
[de folhas, caules, frutos
cascas, seivas, formigas, flores, penas e maçãs]
um fausto cai em minha cabeça
zonzo já não sei se é outono europeu, inverno americano, primavera árabe ou verão abaixo da linha do equador
sob o sol que amolece os miolos e atiça o balacobaco-do-baixo-baco com suas belezas
excepcionais
espelhos e espinhos em abstrato gozo
[e os muros cinzas se erguem
e bonecas são queimada]
cinco disparos na garota afegã e o frenesi dos guardiões do alcorão
o gozo obsceno do ocidente no falo de suas prepotentes torres brochas
dão o tom da disfonia do terceiro milênio que está apenas começando

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poesia, tradução

Jennifer Franklin, por Lucio Carvalho

Jennifer Franklin é uma poeta norte-americana nascida e residente em Nova York. Formada em Inglês e Escrita Criativa pela Brown University e pela Columbia University School of The Arts, leciona e ministra oficinas de poesia no Hudson Valley Writers’ Center. Também é co-editora da Slapering Hol Press, editora dedicada a pequenas tiragens de autores emergentes. Estreou na coleção Ten New Poets, da Paris Review #141, e a seguir publicou em revistas como Pequod, The Nation, Boston Review, Salmagundi e Guernica. Publicou em 2011 o chapbook Persephone’s Ransom e, em 2015, o livro Looming, que recebeu o 14th Annual Editor’s Prize da Elixir Press. Em 2013, através do livro Far from the Tree, de Andrew Solomon, trechos de sua poesia, marcada pela confluência da descoberta do autismo em sua filha de dois anos e seus estudos em mitologia greco-latina, apareceram pela primeira vez no Brasil. Os poemas aqui traduzidos estão publicados em Looming.

Lucio Carvalho nasceu em Bagé, Rio Grande do Sul, em 1971.  Tradutor bissexto, publicou a coletânea de contos A aposta, o livro de artigos e ensaios Inclusão em pauta e o livro de poemas Falso alarde. Há uma década, é redator e co-editor da revista Inclusive – Inclusão e Cidadania. Escreve ficção, poesia, crítica e artigos jornalísticos para diversas publicações.

* * *

Gostaria que o meu amor morresse
     a partir de Beckett

Gostaria que o meu amor morresse
Ou pelo menos que eu não te amasse

Tanto. Se eu pudesse levar meu coração
Até ao inverno, eu não poderia fazer isso

Por mais ninguém. Se você não sorrisse
Ao dormir, ou não tocasse meu rosto

Com ternura, eu poderia ter ido embora
Desde quando você partiu através

Das portas do meu coração camuflado
Sem olhar para trás. Eu gostaria de não amá-la

Tanto. Gostaria que o meu amor morresse
Então eu não teria que matar tudo o que há

Em torno de mim. Então eu não teria de ser
A caçadora que me tornei. Mas você

Não vai me liberar do seu abraço poderoso.
Você me faz permanecer a seu lado com o seu

Braço delicado em meu pescoço. Ele não parece
Forte nem para pegar um animal pequeno, mas ele é.

I would like my love to die
after Beckett

I would like my love to die
Or at least that I didn’t love you

So much. If I could turn my heart
To winter, I wouldn’t need to do this

To the earth. If you didn’t smile
In your sleep or touch my face

With tenderness, I could walk away
From you when you left through

The trap door of my hosta-lined heart
Without looking back. I wish I didn’t love

You so much. I would like my love to die
So I wouldn’t have to murder everything

Around me. So I wouldn’t have to be
The hunter I have become. But you’re

Not going to release me from your unnatural
Embrace. You pin me beside you with your

Thin arm around my neck. It doesn’t look
Strong enough to hold a small animal; but it is.

§

Amazona ferida

Com seu rosto sereno e inclinado que não
denunciará a dor, posso procurá-la outra vez.

Você sempre a amou – a primeira obra de arte
Que você conheceu pelo nome. Toda a semana

Você me trouxe até ela. Desatenta pelo
Vislumbre do mármore e de seu tamanho

Eu não sabia que você estava mostrando a quem
Eu precisava tornar-me para protegê-la

De tudo o que não você não entendia –
A mulher poderosa surgindo acima de tudo,

Tendo de aprender a sentir cada açoite, cada corte
E continuar em pé, com olhos vazios,

Registrando tudo. Você sabia que ela era
A mãe que você precisava, que desnudaria

Seu peito para você e sangraria sem demonstrar
Tristeza nem arrependimento. Eu só espero

Ter aprendido suas lições o quanto antes e você
Não tenha me visto derramar-me em lágrimas. Eu

Deveria pairar sobre você como uma rocha,
Apoiando-me em uma coluna, com o braço

Sobre a cabeça e a ferida estancada. Você
Me quer assim, o terror branco ocultando meus olhos

Vazios, o freio do animal amarrando meu traje rasgado –
Nua, para que visse o côncavo do meu vazio o bastante

Para suportar o peso de todo o seu temor. Eu finjo
Ser ela, em pé sobre as pernas fortes que se recusam

A sustentar-me. Ela não pode amá-la. Se eu tivesse
Toda essa força, você estaria perdida. Ela não iria

Permitir que você enterrasse a cabeça sob o braço amputado,
Em seu peito frio, e cantasse sua canção indistinguível.

Wounded Amazon

With her serene, slanted face that will
Not betray pain, I can look at her again.

You always loved her—the first work
Of art you knew by name. Each week

You brought me to her. Distracted
By joy at seeing her tall marble form,

I didn’t realize you were showing me
Whom I needed to become to protect

You from all you did not understand—
The strong woman looming above life,

Having learned to feel every lashing,
Every cut and remain poised, blank eyes

Taking everything. You knew she was
The mother you needed who could bare

Her breast for you and bleed without
Expression of grief or regret. I wish

I learned your lessons sooner and you
Had not seen me shed so many tears. I should

Have stood above you like a rock, leaning
On a pillar for strength, my arm above

My head and bloodless wound. You want me
This way, my white terror masking my empty

Eyes, horse’s bridle belting my ripped garb—
Naked for you to see—my back concave enough

To hold the weight of all your worries. I pretend
To be her, standing on strong legs that refuse

To hold me up. She cannot love you. If I were
That strong, you would be lost. She would not

Let you burrow your head below her cut, cold
Breast and sing your indistinguishable song.

§

O corpo de minha filha

Se você a visse, pensaria em como ela é linda.
Estranhos me param na rua para dizê-lo.

Se falasse com ela, veria que essa beleza
Não significa nada. Sua visão se desloca para os pombos

Na calçada. Seu contato com os olhos torna-se
tão precário quanto o dela e escapam lentamente

Com diferentes graus de graça. Eu nunca sei
O quanto dizer para explicar o desgosto.

Às vezes, lhes digo. Mais frequentemente fico
Em silêncio. Com o sorriso dela me cauterizando, firmo

Sua mão por todo o caminho até em casa, embalando-nos.
As mãos da florista entregam-lhe uma rosa já morta que ela guarda

Suavemente, sem rasgar as pétalas, como ela faz
Com as tulipas que olham para nós com sua expressão insípida,

Fingindo que podem aguentar o meu sofrimento
Em seus copos alongados, porque eu os conhecia

Antes de conhecer a dor. Eles não entendem que
Estão arruinados para mim agora. Eu plantei quinhentos

Bulbos que, como ela, germinaram dentro de mim, seu cérebro já
Formado por fios de nosso dna danificado

Ou qualquer outra coisa que os médicos não entendem.
Após o banho, ela se enrola em mim para ninar –

A única vez durante o dia que seu pequeno corpo permanece quieto.
Então eu canto, respiro nos cabelos lavados e penso

Nos esqueletos no Musée de Préhistoire
Em Les Eyzies. Os ossos da mãe e do bebê

Deitados em uma caixa de vidro na mesma posição em que estamos
Agora. Eles foram enterrados em uma posição incomum:

A criança enrolada na curva do braço da mãe.
Os arqueólogos estão intrigados com a posição.

Isso não me surpreende de todo. Seria fácil
Morrer dessa maneira, cada uma de nós em seu último suspiro

Com rimas infantis em nossos lábios abertos
E a promessa de um sono tranquilo.

My Daughter’s Body

If you saw her, you would think she was beautiful.
Strangers stop me on the street to say it.

If they talk to her they see that this beauty
Means nothing. Their sight shifts to pigeons

On the sidewalk. Their eye contact becomes
As poor as hers. They slip away slowly,

With varying degrees of grace. I never know
How much to say to explain the heartbreak.

Sometimes, I tell them. More often,
I remain silent. As her smile sears me, I hold

Her hand all the way home from the swings.
The florist hands her a dying rose and she holds it

Gently without ripping the petals like she does
To the tulips that stare at us with their insipid faces,

Pretending that they can hold my sorrow
In their outstretched cups because I knew them

Before I knew grief. They do not understand that
They are ruined for me now. I planted five hundred

Bulbs as she grew inside of me, her brain already
Formed by strands of our damaged DNA

Or something else the doctors don’t understand.
After her bath, she curls up on me for lullabies—

The only time during the day that her small body is still.
As I sing, I breathe in her shampooed hair and think

Of the skeletons in the Musée de Préhistoire
In Les Eyzies. The bones of the mother and baby

Lie in a glass case in the same position we are
In now. They were buried in that unusual pose,

Child curled up in the crook of the mother’s arm.
The archaeologists are puzzled by the position.

It doesn’t surprise me at all. It would be so easy
To die this way—both of us taking our last breaths

With nursery rhymes on our open lips
And the promise of peaceful sleep.

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poesia

4 poemas inéditos de Marcel Fernandes

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Marcel Fernandes, nasceu em Antonina-PR, na primavera de 86. Além de poeta, é artista visual e apaixonado pelo universo e seus mistérios. Seus poemas já aterrissaram em diversas revistas literárias, como a Escamandro, Germina, Garupa, Parênteses, a americana Gramma Poetry e as portuguesas Enfermaria 6 e Piolho. Pela Kotter Editorial, publicou seu primeiro livro de poemas, O Cochilo do Céu (2018).

* * *

QUALIA

coagulo-me nas frutíferas entranhas da voz
dilacerando o espírito
dissolvendo a paisagem das eras
sou a espuma da palavra
o adorno etéreo do sino
as pernas cansadas do sol
com o útero do silêncio ergo oceanos
tudo transborda sob o cadáver inviolado do belo
visto-me do êxtase da alma, da lama pura da vida
frenético
procuro o equilíbrio no horizonte cardíaco das plantas

§

 

PARADOXO DA NOITE ESCURA

tudo que é eterno desprende-se
feito nuvens antes de nascer o mar
hesitando entre os meandros do tempo
nas copas espiraladas da luz

tudo que é eterno anuncia-se
relâmpagos nos dedos do espaço
flores sopradas no campo de higgs

§

 

PARAÍSO

quando encontrar meu lugar
os rios que hoje me cobrem
serão estradas para o paraíso
verei o sol engolir o horizonte
serei dama e rei no tabuleiro
a bailarina no gume da adaga
serei codorniz para os famintos
a águia que habita meus olhos
me levará ao cume do mundo
e serei enfim serpente livre

§

 

PRELÚDIO

como se bastasse ser pedaço algo
vago, inominável
lustroso por excelência
todas as noites ter a carne consumida pelas plantas
o rosto liso
barbeado pela espada daninha
esquecer o reflexo na lâmina
na primeira hora da história
romper a arca e soltar os animais
ver-se exposto no brilho do sol
e as feridas vertendo no casco
a tarefa é árdua
salvar-se em tempos sombrios é sagrado
a alma remendada pela ignorância
transporta o oceano escondido sob a língua
ando entre as finas camadas de lodo
um crustáceo alado costurando a espuma de sal
nas onze dimensões construo infinitos
os segundos só servem à partida
a coragem se espalha como alimento recém posto
como se bastasse ser
como se bastasse ressonar o caos
e permitir que mais um sol
se erga
sobre o que chamamos humanidade

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poesia, tradução

Rubén Vela, por Nina Rizzi

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Rubén Vela

Rubén Vela nasceu em Santa Fé, em 1928. Começou a escrever seus poemas em 1949 e participou do movimento literário que se formou em torno da revista Poesía Buenos Aires, dirigida por Raúl Gustavo Aguirre.  Em 1973 se radicou em Brasília, onde recebeu o Prêmio Internacional do Pen Club do Brasil por seu livro Poemas (Editora Vozes, 1972); em 1980 o Pen Club argentino o premiou com a “Pluma de Plata” por seu livro El espejo (Fundación Argentina para la poesía, 1979); em 1982 recebeu o Primeiro Prêmio Internacional de Poesia de Palermo por seu livro Maneras de luchar (antologia personal, Fundación Argentina para la poesía, 1981). Nos anos 1987-89 foi eleito Presidente da Sociedade Argentina de Escritores e integrou o Corpo Diplomático Argentino. Faleceu em 29 de abril de 2018, em Buenos Aires.

Quanto a mim não foram prêmios literários meu lume, mas o puro gosto e deleite, quase sem-mais-nem-porquê. Conheci a poesia de Rubén Vela, como a de muitos outros poetas argentinos, durante a leitura da obra de Alejandra Pizarnik, que lhe dedica um poema de seu primeiro livro, e também o livro Las Aventuras Perdidas.

Inicialmente alçada à sua metapoesia, suas “Artes Poéticas” e a sedução – mais que imposição -, do silêncio poético como lugar de enigma – o que o poeta não diz, o que não sabe, diz e sabe o poema, esse Sombrero Loco. Contudo, foram suas “Américas” que me tiraram da sala de estar. Como não me encontrar ali, eu, tão genuinamente brasileira e doida pra rebentar fronteiras e com essa paixão por uma utopia (salve URSAL!), que nos pudesse fazer unos e, no entanto, como brasileira, coletivamente apartada  de uma ideia mais pungente de latinoamérica (salvo exceções, é claro), tão presente em nossos vizinhos hispânicos. E é pelo sonho, pela utopia e pelo coletivo que escolhi trazer hoje estes poemas americanos, presentes em sua antologia Poemas como piedras (Fundación Victoria Ocampo, 2000), com exceção do último – “Esto es América” –, publicado em Poemas Americanos (Editorial Losada, 1963); outros poemas com a mesma temática, e outras, podem ser encontrados na página Poetas Siglo XXI – Antología Mundial, de Fernando Sabido Sanchéz.

Não posso, entretanto, deixar de fora desta pequena seleção seus poemas dedicados postumamente a Alejandra Pizarnik; mais que pedras de toque, amor em versos pelas poemas da minha piknik poeta, porque o diálogo, tal como o silêncio, é interminável.

Embora faça exercícios criativos com regionalismos aqui e ali, como na tradução de Pink Dog de Elizabeth Bishop aqui na escamandro, nem sempre o textos que nos permitem grandes liberdades e modificações de termos culturais, por uma ou oura razão, como o desejo do autor, da editora ou da própria tradução [penso nuns rasgos daquela historiadora pretensiosa sim, mas um inferno de boas intenções que quer levar ao não-hablante não só o poema, mas todos os traços da cultura de partida como numa aula em que subia em cima da carteira dos alunos para recitar cheia de ódio aos que dormiam diante da barbárie discursos de Mussolini], porém, ao traduzir estes poemas para esta publicação, depois de ter pensado tristemente que o Brasil não compartilha muito exatamente uma unidade latinoamericana, não contive o desejo de traduzir alguns termos muy caros para a latinoamérica para algo brasiamericano, latinobrasilero, forjando assim (desejando assim) uma unidade latinoamericana a partir de termos mais significativos no Brasil, ainda que, sem querer, pareçamos mais uma vez, os EUA da América Latina. Mas não nos percamos nas aparências, simulacros que se esfumaçam; sejamos muito exatamente latinoamericanos, ursalinos (ou seja lá como se conjugue um estado de desejo e utopia).

Por essa razão incluí um poema que foge ligeiramente à temática, “Macchu Picchu”, traduzido como “Serra da Capivara”, onde a pedra é furada e o “castelo” um “boqueirão” de silêncios (ó música celeste!). Já “Viracocha” – o grande deus criador pré-Inca, se torna aqui “Ñanderu” – o grande deus criador tupi. Outras in-transposições mais simples ficaram por conta de “pampa” como “planície”; “milho” como “mandioca” (e aquele desejo-dúvida gritando: “macaxeira”! “aipim”!), entre outras.

Escolhi verter cholo para caboco. “Cholo”, refere-se a miscigenação americana branca e indígena em que geralmente prevalecem os traços étnicos indígenas. Já o “caboco”, segundo Câmara Cascudo, deriva do tupi caa-boc, “o que vem da floresta”, ou de kari’boca, “filho do homem branco”. Eis nosso Vallejo via Vela: mais que abrasileirado, latinoamericano, índio, branco, negro, poeta!

Uma versão mais caudalosa foi de “feitiçaria” para “macumba”, no poema definición/ definição. Sabemos que “macumba” é um instrumento de percussão de origem africana e que aqui na terrinha, num processo de ampliação de sentido, o termo e seu derivado “macumbeiro” – o “tocador de macumba” -, passou a se referir também às religiões de origem africana, muitas vezes num contexto pejorativo e, por isso, seu uso é evitado. Exitei junto e pensei nas pessoas que ao serem insultadas com termos como “gorda”, “viado”, “sapatão”, entre outros, os desconstroem e se proclamam “gorda sim”, “viado sim”, “sapatão sim”. Ademais, nada nesse derradeiro verso me pareceu mais musical que macumba, macumba! Música sim e, porquê não, aquela mandingazinha que todo mundo (ou todes brasileires) faz quando vira o ano pulando sete ondas, guardando sementinhas de romã ou uvas na carteira e etc, etc., e sigo no ritmo do poema: “macumbeira sim!”.

Já em Al pintor Gambartes/ Ao pintor Gambartes, optei por manter hechicería/ feitiçaria, já que se trata de uma série temática que o pintor realizou em seus últimos 20 anos. Aliás, não deixem de visitar o sítio maravilloso de Leónidas Gambartes!

No mais, a regra na tradução, como sempre, é ainda outra paixão: a escuta; ouvir o poema, ouvir sua poesia um sem-fim de vezes, então re-criá-lo como ele quer, como o ouço e como quero dizê-lo, intimamente, ao mundo.

nina rizzi

 ***

AMÉRICA

I

Tontos, estúpidos, ganhem sua ira, torçam seus braços!
Então, então, homens de boa sede! ela os quer
assim, ela é a espera.

II

Pequena de tanta morte, uma árvore de pão nascia de teus
lábios!

AMÉRICA

I
¡Tontos, estúpidos, ganad su ira, torced sus brazos!
¡Entonces, entonces, hombres de buena sed! ella os quiere
así, ella es la esperada.

II
¡Pequeña de tanta muerte, un árbol de pan nacía de tus
labios!

§
DEFINIÇÃO

América sem arco do triunfo
América sem o Davi de Michelangelo.
América sem a Vênus de Ampurias.
Nova e intacta américa
que ignorava a loucura de Paolo Uccello.

Porque quando digo américa,
digo a américa que cantou Pablo Neruda,
que cantou o Caboco Vallejo,
que cantou Huidobro como um novo maldito.

Que cantaram os homens
do tabaco e da macumba.

 

DEFINICIÓN

América sin el arco del triunfo.
América sin el David de Miguel Ángel.
América sin la Venus de Ampurias.
Nueva e intacta américa
que ignoraba la locura de Paolo Ucello.

Porque cuando digo américa,
digo la américa que cantó Pablo Neruda,
que cantó el Cholo Vallejo,
que cantó Huidobro como un nuevo maldito.

Que cantaron los hombres
del tabaco y de la hechicería.

§

AMÉRICA

A velha voz
cantando
em seus ídolos
de pedra.
“Esses senhores
eram iguais
em voz
aos deuses”.

 

AMÉRICA

La vieja voz
cantando
en sus ídolos
de piedra.
“Esos señores
eran iguales
en voz
a los dioses”.

§

AMÉRICA

Serei uma pedra.
serei o rosto dessa pedra.
serei a memória desse pedra.
Serei a inicial de um deus.
Serei o relâmpago de um deus.
Serei o sorriso de uma pampa aberta.
Serei a folha de uma mandioca, serei sua flor e seu fruto.
Serei o cansaço de um homem americano.
Serei sua sede e sua alegria.
Serei um dia eterno e memorável.

Serei também América.

 

AMÉRICA

Seré una piedra.
Seré el rostro de esa piedra.
Seré la memoria de esa piedra.
Seré la esperanza de esa piedra.
Seré la inicial de un dios.
Seré el relámpago de un dios.
Seré la sonrisa de una pampa abierta.
Seré la hoja de un maíz, seré su flor y su fruto.
Seré el cansancio de un hombre americano.
Seré su sed y su alegría.
Seré un día eterno y memorable.

Seré también América.

§

DA MINHA RAÇA

Com a pedra fixei o nome da minha raça.

Salvei-o da segunda morte, do esquecimento.

Com a pedra fiz o falo funerário, sua arrogância
e seu orgulho.

Esta é a pedra viva que fecunda os campos e
as mulheres.

Esta é a pedra fêmea, esta é pedra macho,
onde esfregam seu ventre os recém-casados.

É a pedra de chuvas.

A alma dos meus mortos.

 

DE MI RAZA

Con la piedra fijé el nombre de mi raza.

Lo salvé de la segunda muerte, del olvido.

Con la piedra hice el falo funerario, su arrogancia
y su orgullo.

Ésta es la piedra viva que fecunda los campos y
las mujeres.

Ésta es la piedra hembra, ésta es la piedra macho,
donde frotan su vientre los reciéncasados.

Es la piedra de lluvias.

El alma de mis muertos.

§

PARA CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

Diante de mim
Atrás de mim
Debaixo de mim
Em cima de mim
Em torno de mim

América

Seu longo nome
sua voz adentro.

 

A CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

Delante de mí
Detrás de mí
Debajo de mí
Encima de mí
Alrededor de mí

América

Su largo nombre
Su voz adentro.

§

 

AO PINTOR GAMBARTES

Não falar de américa
não falar de nada
não mencionar a morte que te guarda
como um anjo sinistro
não dizer coisas
ou dizer tudo de uma vez
te descobrir te penetrar te desnudar
o sol te cai en cima
te arde em tua cova como uma lepra
te cai a sede a fome
se esqueceram as oferendas
o pagamento à terra o tabaco a coca
te cai a dor
de tant espaço ferido inutilmente
pelas gigantes aves de rapina
que chegam do norte
do centro do gelo
da região da morte
para cavar com suas garras
teu coração de américagambartes
que ainda bate.

E ainda segue vendo o mundo através de tuas mãos
grande menino cego deslumbrado pelo arco de todas as
cores

segue vendo criaturas que nascem como pólipos ou
aderências
sobre a terraíndiaferida
aferradas suspensas presas
como conglomerados de seres estranhos que olhamos com
desconfiança
de um planeta desconhecido antigoamérica
de uma terra de cobre onde todos lhe pertencemos
e onde tudonada é deles
a pedra habitada pelo relâmpago
a pedra da cor de calor
de ferro fundido de raiva de fúria
vindo tudo por tuas mãos gritndo sobre muros de
pedra
gritando o que vem do umbigo do mundo
mãopedra cobra mãopedra serpente
mãopedra do pranto
mãopedra cansaço
mãopedrafome do homem americano
mãopedra gambartes.

E nasce em mim esta alegria entre tanta ausência
ter te conhecido
ter conversado contigo
ter te olhado com teus olhos
o que você quis que meus olhos vissem
tua sabedoria tua humildade
mãepai gambartes
que construía com tuas mãos tão pequenas
os radiantes monstros do passado até o porvir
que inventava a música partida desta terra
com teu coração de poderoso mago da aurora
tuas mãos que inventavam o verdadeiro nome da
América
américagambartes
que sonhavam américa
que choravam américa
que gozavam américa.

por que é preciso dizer
voltar a repetir
quem ainda não entendeu nada disso tudo
que destroce seu corpo sobre o asfalto esburacado
desta cidade cidade disforme e tão ruim
que se suicide sem assombro
do último andar de seus anos vazios e sem esperanças
que se corte seu sexo para não perpetuar sobre o mundo
sua sombra miserável
e se depois disso tudo ainda sobrevive
que olhe pela última vez um quadro de gambartes
uma feitiçaria de gambartes
a luz cega pelo resplendor do relâmpagogambartes
e ressuscitando finalmente sobre a aurora de um distinto
novodia
se refugiar para sempre em seu ventreglória-paimãe-
gambartes.

A grande cadela por quê morreu tão cedo embora
siga tão vivo para sempre
américagambartes!


AL PINTOR GAMBARTES

No hablar de américa
no hablar de nada
no mencionar la muerte que te guarda
como un ángel siniestro
no decir cosas
o decir todo de golpe
descubrirte penetrarte desnudarte
te cae el sol encima
te arde en tu fosa como una lepra
te cae la sed el hambre
se han olvidado las ofrendas
el pago a la tierra el tabaco la coca
te cae el dolor
de tanto espacio herido inútilmente
por los pájaros gigantes de rapiña
que llegan desde el norte
desde el centro del hielo
de la región de la muerte
para escarbar con sus garras
tu corazón de américagambartes
que late todavía.

Y aún sigues viendo el mundo a través de tus manos
gran niño ciego deslumbrado por el arco de todos los
colores
sigues viendo criaturas que nacen como pólipos o
adherencias
sobre la tierraindiaherida
aferradas encimadas atrapadas
como racimos de seres extraños que miramos con
desconfianza
de un planeta desconocido antigu
de una tierra de cobre donde todos les pertenecemos
y en donde todonada es de ellos
la piedra habitada por el rayo
la piedra de color de calor
de arrabio de rabia de furia
viendo todo por tus manos gritando sobre muros de
piedra
gritando lo que viene desde el ombligo del mundo
manopiedra culebra manopiedra serpiente
manopiedra del llanto
manopiedra cansancio
manopiedrahambre del hombre americano
manopiedra gambartes.

Y me nace esta alegría entre tanta ausencia
haberte conocido
haberte hablado
haberte visto con tus ojos
lo que tú quisiste que vieran mis ojos
tu sabiduría tu humildad
madrepadre gambartes
que construías con tus manos tan pequeñas
los radiantes monstruos del pasado hacia el porvenir
que inventabas la música de las raíces profundas
en la historia partida de esta tierra
con tu corazón de poderoso mago de la aurora
tus manos que inventaban el verdadero nombre de
América
américagambartes
que soñaban américa
que lloraban américa
que gozaban américa.

por que hay que decirlo
volver a repetirlo
quien no ha entendido nada aún de todo esto
que destroce su cuerpo sobre el gastado asfalto
de esta ciudad deforme y malqueriente
que se suicide sin asombros
desde el último piso de sus años vacíos y sin esperanzas
que se corte su sexo para no perpetuar sobre el mundo
su sombra miserable
y si aún después de todo esto sobrevive
que mire por última vez un cuadro de gambartes
una hechicería de gambartes
la luz cegada por el resplandor del relámpagogambartes
y resucitando al fin sobre la aurora de un distinto
nuevodía
cobijarse para siempre en su vientregloria-padremadre
gambartes.

¡La gran perra por qué te has muerto de temprano aunque
sigas tan vivo para siempre
américagambartes!

§

 

SERRA DA CAPIVARA

É sua casa de pedra furada,
seu boqueirão de silêncios,
ali onde o tempo tece
a sede dos equinócios.

Olha bem pra ela!
uma raíz, um sonho.

 

MACCHU PICCHU

Es su casa de piedra,
su mansión de silencios,
allí donde el tiempo teje
la sed de los equinoccios.

¡Miradla bien!
una raíz, un sueño.

§

ÑAMANDU

Esse rosto quebrado,
essa pedra cansada,
esse galho caído
da árvore mais antiga
da natureza,
esses olhos que um dia
viram a primeira
gestação do mundo,
essa boca que disse
– com violento tremor de apaixonado
o nome mais íntimo
de américa!

 

VIRACOCHA

Ese rostro quebrado,
esa piedra cansada,
esa rama caída
del árbol más antiguo
de la naturaleza,
esos ojos que un día
vieron la primera
gestación del mundo,
esa boca que dijo
-con violento temblor
de enamorado-
¡el nombre más íntimo
                                           de américa!

§

AMÉRICA
PARA NINA

I
Viveremos pelados sob o sol, sempre jovens
e não haverá outra memória além da pedra

II
Só a pedra conhece o por vir.

AMÉRICA
A NINA

I
Viviremos desnudos bajo el sol, seremos siempre jóvenes
y no habrá otra memoria que la piedra.

II
Sólo la piedra conoce el porvenir.

§

AMÉRICA

“Isto é América”, diziam,
me mostrando as altas cordilheiras,
o suicídio do sol sobre os trópicos,
os grandes rios furiosos.
Só vi pés descalços,
criaturas americanas
sobre a fome e o frio
como frutos nus.
“Isto é América”. Sobre as terras
índias do centro e do sul
vi desolação. E à margem,
as grandes cidades opulentas, somente
à margem…

 

AMÉRICA

“Esto es América”, me decían,
mostrándome las altas cordilleras,
el suicidio del sol sobre los trópicos,
los grandes ríos furiosos.
Sólo vi pies descalzos,
criaturas americanas
sobre el hambre y el frío
como frutos desnudos.
“Esto es América”. Sobre las tierras
indias del centro y del sur
vi desolación. Y, al borde,
las grandes ciudades opulentas, sólo
al borde…

 

caruso

Aquarela de Santiago Caruso no livro em homenagem a Alejandra Pizarnik “El eco de mis muertes”

 

Teu esqueleto de espumas.
Tua infância até o fim dos dias.

1970

Tu esqueleto de espumas.
Tu infancia hasta el fin de los días.

1970

§

A Inocente 

Nua e vitoriosa, dá de comer
aos animais selvagens.
Eles lambem suas coxas, usam
o sexo docemente, se alimentam
dessas águas mais profundas.

Ao amanhecer, ela fecha suas
pernas. Os animais gemem
a princípio, rugem depois,
a despedaçam com suas garras.

A bela indiferente diz: até
amanhã! e dorme.

Os animais protegem seus
despojos.

La inocente

Desnuda y victoriosa, da de comer
a los animales salvajes.
Ellos lamen sus muslos, le gastan
el sexo dulcemente, se alimentan
de esas aguas más profundas.

Al amanecer, ella cierra sus
piernas. Los animales gimen
al principio, rugen luego,
la despedazan con sus garras.

La bella indiferente dice: ¡hasta
mañana! y duerme.

Los animales protegen sus
despojos.

§


ALEJANDRA PIZARNIK

1
Lembra, Alejandra, quando
o Adágio de Albinoni envolvia
teu corpo solitário, e arcanjos
surpreendidos
voavam entre vitrais coloridos
lançando buquês de luz?

2
Tão sozinha, tão frágil, tão
dolorosamente abandonada
entre jogos infantis
que repetem e repetem
uma mesma canção.
A que vai morrer tem
rachaduras nos lábios e flores
murchas arrancadas de sua pele.
A que vai morrer inventa
um sorriso que pendura
de seu rosto como dizendo
adeus.

3
faz frio e tuas mãos desenham
uma porta que se abre até
um jardim vazio. Eu irei,
dizia, sem saber, sem querer.
Abraçada a meu nome, eu
irei sem saber.

4
Rolam os dados sobre um tapete
verde. Rolam as palavras sobre
a página em branco. Rolam,
rolam até um destino incerto.
Eis aqui a escolha: escrever ou morrer.
Nada tão fácil, nada tão difícil.
E o espelho se rompe e a luz
se desvanece. Alejandra, Alejandra,
pra onde vai?

E deste silêncio
outra música nasce.

 

ALEJANDRA PIZARNIK

1

¿Te acordás, Alejandra, cuando
el Adagio de Albinoni envolvía
tu cuerpo solitario, y arcángeles
sorprendidos
volaban entre vidrios de colores
arrojando ramos de luz?

2

Tan sola, tan frágil, tan
dolorosamente abandonada
entre juegos de infancia
que repiten y repiten
una misma canción.
La que va a morir tiene
grietas en los labios y flores
desteñidas arrancadas de su piel.
La que va a morir inventa
una sonrisa que cuelga
de su rostro como diciendo
adiós.

3

Hace frío y tus manos dibujan
una puerta que se abre hacia
un jardín vacío. Yo me iré,
decías, sin saber, sin querer.
Abrazada a mi nombre, yo
me iré sin saber.

4
Ruedan los dados sobre un tapete
verde. Ruedan las palabras sobre
la página en blanco. Ruedan,
ruedan hacia un destino incierto.
He aquí la elección: escribir o morir.
Nada tan fácil, nada tan difícil.
Y el espejo se rompe y la luz
se desvanece. ¿Alejandra, Alejandra,
adonde vas?

Y desde ese silencio
otra música nace.

***

 

Padrão
poesia

Pedro Tostes: 2 poemas e 1 movimento de 4 haicais

sem título (4 de 4)

Pedro Tostes é poeta reincidente e insistente. Graduado Nos Rolês com PhD em Pilantropia Cultural. Seus crimes foram mais conhecidos como “o mínimo” (2003), “Descaminhar” (2008), “Jardim Minado” (2014) e esta mais recente contravenção. Foi detido, averiguado e apreendido pelas autoridades por porte e comercialização de livros em prestigiosa Fresta Literária. Com a organização delituosa “Poesia Maloqueirista”, entre outros crimes, editou a infame revista “Não Funciona”, que realizou 20 golpes bem sucedidos com mais de 20 mil incidências literárias na primeira década do século. Apesar da aparência dócil e gentil, o indivíduo citado apresenta alta periculosidade. Já foi visto aqui na escamandro, mas ninguém sabe seu paradeiro. Sua cabeça está a prêmio. Caso o encontre, favor informar às autoridades.

*

A ARTE DA GUERRA SEGUNDO OVÍDIO

Amar é briga de foice –
açoite que o peito clama
enquanto a bomba ainda pulsa;

trincheira cavada no corpo
por onde percorrem os cheiros
de cuspe, de sangue, de gozo;

napalm inflamando sentidos,
o toque suave na pele
que explode o fogo do ser;

espada que fere sem fio
e encrava no meio de si
todo aço que vem no osso;

exército de terracota
enfrentando a força da chuva
pra semear as flores;

é conquistar o território
apenas pra se entregar ao
inimigo – bandeira branca,
eu quero mais é te querer

§

 

CANÇÃO DA GUERRA

Sei que de certo está
na fúria dos dentes
a arte de amar

tão bela quanto
assaltantes de banco
recitando Rimbaud.

As janelas que
nos olham não
vertem lágrimas

enquanto o néctar
dos inocentes
derrama nas noites

Das coisas que
não estão em
nossas telas,

sendo elas o abismo
encravado em
teus olhos

ou o riso das flores
na lapela do
findo transeunte.

Pois entre estrelas
que cantam pra
musa distante

eu, planeta, vagueio
orbito a pele elástica
da ampulheta.

E é tanta treta,
punheta intelecta
furtando o senso

sem sangue nem medo
nem peso nem nada
– encarando essa parada

dura e aguda como
a força da letra &
a briga de foice

testemunho na vista:
é depois do chorume
que soergue a vida.

§

 

VARANDA

1 – TREPADEIRA

Num sol de 40
escala aquilo que abala
feito o tempo tenta

2 – COLEÓPTERO

Lento pousa o tanque
no vaso seco no raso
– forte, belo e estanque.

3 – MANDACARU

A torre do cacto
com frio não perde seu fio:
permanece impacto.

4 – ESPADA DE SÃO JORGE

Vem rasgando a terra
na chuva o broto que luta,
armeiro de guerra

*

Padrão
poesia, tradução

Sarah Maguire, por Rob Packer

Sarah Maguire (1957–2017) foi uma poeta inglesa que morreu no ano passado em Londres, deixando uma obra enxuta e expansiva ao mesmo tempo. Em três coletânea (Spilt Milk, 1991; The Invisible Mender, 1997; The Pomegranates of Kandahar, 2007), ela explorou questões do corpo e da natureza, com um olhar que sempre considerava a geografia e história. Um dos poemas traduzidos aqui, por exemplo, trata da expulsão de todos os animais fêmeos do Monte Atos na Grécia; outro prevê o fluxo de migração através do Mediterrâneo que parece influenciar cada vez mais as políticas europeias mais assombrosas. Em outras ocasiões, ela escrevia sobre plantas ou juntou uma antologia sobre poemas sobre flores – uma influência clara da horticultura que ela aprendeu como jardineira depois de deixar a escola cedo.

Além de poeta, ela foi (talvez) ainda mais importante na esfera da tradução. Em 2004, ela fundou o Poetry Translation Centre (PTC) o qual ainda se dedica a traduzir poetas africanos, asiáticos e latino-americanos ao inglês, convidando poetas consagrados como tradutores ou convocando oficinas de tradução, para trabalhar com poemas escritos em zapoteca, dari, georgiano e, sobretudo, o árabe. Ela traduziu poemas dos palestinos, Mahmoud Darwish e Ghassan Zaqtan, e do sudanês, Al-Saddiq Al-Raddi. Além disso, nenhum outro poeta de expressão inglesa em vida teve um livro de poesia traduzido ao árabe.

Rob Packer

* * *

Split Milk

Two soluble aspirins spore in this glass, their mycelia
fruiting the water, which I twist into milkiness.
The whole world seems to slide into my drain by my window.

It has rained and rained since you left, the streets black
and muscled with water. Out of pain and exhaustion you came
into my mouth, covering my tongue with your good and bitter milk.

Now I find you have cashed that cheque. I imagine you
slipping the paper under steel and glass. I sit here in a circle
of lamplight, studying women of nine hundred years past.

My hand moves into darkness as I write, The adulterous woman
lost her nose and ears; the man was fined. I drain the glass.
I still want to return to that hotel room by the station

to hear all night the goods trains coming and leaving.

Leite derramado

Os esporos de duas aspirinas dissolvem no copo,
os micélios frutificam a água que eu viro láctea.
O mundo inteiro escorrega pelo ralo à minha janela.

Não para de chover desde que você partiu, as ruas escuras
e musculosas com a água. Dolorido e exausto você gozou
na minha boca, cobrindo a língua com seu leite bom e amargo.

Agora descubro que você descontou aquele cheque. Imagino
você deslizando o papel sob o aço e o vidro. Estou sentada aqui
no círculo de luz, estudando mulheres de novecentos anos atrás.

Minha mão entra na escuridão enquanto escrevo, A adúltera
perdeu o nariz e as orelhas; o homem foi multado. Viro o copo.
Ainda quero voltar ao quarto de hotel perto da estação

para ouvir a noite toda os trens de carga entrando e partindo.

§

The Garden of the Virgin

‘In the Gospel of the Egyptians … the Saviour himself said,
I am come to destroy the works of the female.’
– CLEMENT OF ALEXANDRIA, Stromateis, Book III

IV

The monks who came to cultivate
the Virgin’s garden
obeyed her law.

St Theodosius the Studite wrote:
Keep no female animal
for use in house or field:

the holy fathers
never used such –
nor does nature need them.

Ewelambs and their ewes
were slaughtered. Cows
butchered. Heifers slain.

The sow, the gilt
and the nanny goat:
all dead and banned.

Bitches murdered one
by one. Each hen
felt the press of thumbs

about her throat, the neck
snapped taut – and then
the slump. Each egg

was gathered up, each eggshell
crumpled in a viscid mess of yolk,
thrown oozing down the cliffs,

where, boiling in the waves,
it made a salty broth
the gulls sucked up.

Only the cats stayed on:
the cats to catch the rats
that dropped their young

despite the monks,
despite the Virgin’s stern
injunction. At night

it was the cats
who ran the place:
softening the hands and throats

of anchorites and cenobites,
their lithe fur
soothing the flesh made stiff

through deprivation.
And at night the wolves
roamed yowling

through the Virgin’s garden:
the sole beast
with cunning enough

to breach the fine neck
of isthmus.
Miles up, alone

in his stone cottage,
reaching only by chains
hung over cliffs,

a hermit wakes up, sodden
from a lycanthropic nightmare,
with his hair

on end. He had sensed
the slow breath
of the wolf, had stared

deep into her lemon eyes,
as still as oil
or candlelight, then

felt himself run off with her –
feral, hirsute, opening out his lungs
to greet the moon.

O jardim da Virgem

‘No Evangelho dos Egípcios … o Salvador mesmo disse,
Vim a destruir a obra da fêmea.’
– CLEMENTE DE ALEXANDRIA, Stromateis, Book III

IV

Os monges que vieram a cultivar
o jardim da Virgem
obedeceram a sua lei.

São Teodósio o Estudita escreveu:
Não mantenha nenhuma fêmea animal
para uso em casa ou campo:

os pais santos
nunca usaram dessas –
nem a natureza precisa delas.

As ovelhas e recém-nascidas
foram abatidas. Vacas
mortas. Novilhas arrasadas.

A porca, a leitoa
e a cabra fêmea:
todas mortas e banidas.

Cadelas assassinadas uma
atrás da outra. Cada galinha
sentiu o aperto de dedões

na garganta, o pescoço
estalou tesamente – e depois
despencou. Cada ovo

foi coletado, cada casca amassada
em uma imundície víscida de gemas,
jogada esvaindo nos rochedos,

onde, borbulhando nas ondas,
virou um caldo salgado
que as gaivotas sugavam.

Apenas as gatas ficaram:
foi para caçar as ratazanas
cuja prole seguia caindo

apesar dos monges,
apesar da injunção severa
da Virgem. À noite

foram as gatas
que regiam o monte:
amolecendo as mãos e gargantas

dos ancoretas e cenobitas,
os seus pelos macios
confortavam a carne

endurecida pela privação.
E à noite as lobas
erravam e uivavam

pelo jardim da Virgem:
o único bicho
suficientemente astuto

para violar a garganta fina
do ismo.
Sozinho numa cabana de pedra,

em um lugar altíssimo
aonde só se chega através de correntes
penduradas nos rochedos,

um eremita acorda, encharcado
de um pesadelo licantropo,
com os cabelos

arrepiados. Tinha sentido
a respiração lenta
da loba, olhado

nos olhos amarelos profundos,
calmos como o óleo
ou a luz de vela, logo

sentiu como escapava com ela –
feral, hirsuto, abrindo os seus pulmões
para saudar a lua.

§

Europe

Merely an idea bruising
the far horizon, as a cold mist tightens into rain –

but at dusk we still wait
by the Bay of Tangiers, on the old city walls, gazing northwards

till the night comes on,
and a necklace of lights gathers the throat of the sea.

The young men burn –
lonely, intent on resolving that elusive littoral

into a continent of promises
kept, clean water, work. If they stare hard enough, perhaps

it will come to them.
Each night, they climb these crumbling ramparts

and face north
like true believers, while the lighthouse of Tarifa blinks

and beckons,
unrolling its brilliant pavement across the pitiless Straits.

Europa

Apenas uma ideia machucando
o horizonte distante, enquanto a névoa fria se adensa em chuva –

mas ao pôr-do-sol ainda esperamos
na Baía de Tanger, na muralha da cidade velha, fitando o norte

até que a noite avança,
e um colar de luzes enlaça a garganta do mar.

Os rapazes ardem –
solitários, determinados a resolver aquele litoral esquivo

em um continente de promessas
cumpridas, água limpa, trabalho. Se olharem fixamente demais, talvez

venha até eles.
Toda noite, eles sobem nestas muralhas decadentes

e encaram o norte
como fieis convictos, enquanto o farol de Tarifa pisca

e acena,
desenrolando sua calçada brilhante sobre o desapiedado Estreito.

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