poesia

1ns inéditos de Luís Gomes

luisgomes

Luís Gomes é poeta alagoano. Nasceu em maceió, no ano 2000, escreve desde os 15. Já apareceu na escamandro com outros poemas; escreve no: azuldesolado.wordpress.com

*

p/ Ismar Tirelli Neto

i

um escasso sorriso.
amargo fumo
hoje um pouco mais perdi
o mundo.
não tenho fogo
atropelei as pedras, perdi
as horas.
diminui-se o hábito do amanhecer
(houvera alguém que me visitasse,
curvaria a cabeça e engoliria palavra de consolo)
deus me perdoe
mas é impossível neste momento
amar o próximo

ii

eternidade nenhuma. foram-se
as obviedades, as conclusões empíricas
os versículos. antigas bíblias, instantes
de santos.
impossível pedir fogo nas ruas.
estou escuro.
estou no quarto entre diálogos e tempos.
estou silencioso e sequer tenho vontade
de chorar

§

p/ roy david frankel

i

do quarto

um faquir guarda silêncio
como posso me referir?

do quarto
um faquir guarda silêncio
e o estado reelegerá um calheiros novamente

com a ordem do dia entre os dentes
muros altos,
tradições nos domingos culturais
como posso me referir
a maceió?
a alagoas?

para morte, e
ainda que exite dizer seus nomes:
pátria
bairro, estado, país
digo:
todos morrem
sem saber

jorge de lima
marcos francisco

os mortos que picharam palavras maoistas no muro
à beira pista

seja em bairros, pátrias, estado, país

ii

promessa que nos legou progresso e caminhos
inalcançáveis,
pés rotos de poeira
mortes por fome,
mãos caliçadas entre as canas-de-açúcar
maceió que tapa o alagadiço

as calçadas, as esquinas,
a morte
engole-nos
fosse meu último dia no mundo eu picharia
minha mãe é maior que o maoismo

até quanto tempo mais se juntará a mais e mais outros corpos,
estes corpos?
e até quanto
tempo mais se fixará à nossa memória estes já
corpos?
do quarto um faquir guarda silêncio

nomes velhos nas praças
desfiles de nomes, rostos comuns
nas praças

do quarto eu moço triste silencio

iii

formulam-se frases, cumprimentos.
decoram-se nomes, poemas, santos
ainda não canonizados. muito distante,
na volta, rastejando-se
solitário
farta-se
de guerras e gerações, notas
merencórias de infância
farta-se sobretudo

§

p/ carla diacov

i

cortar o vento com os
cacos de vidro que as menininhas cortam os pulsos
colorir a água com papel machê
o mundo não é um livro de colorir mas se fosse
com que cor você pintaria
as sarjetas e os mercados e as praças sonolentas
com que cor

(mais fácil seria lançar pro alto e queimar os olhos
contemplando a sublime comunhão do desastre
comum)

ii

olharia os pulsos
a silhueta das veias
os objetos em queda
o passado e o passado
bastaria  para ver todo o sangue bastaria
rio abaixo
o torpor do sangue
a língua a morte como
desejo mastigando [os lábios]
seria estrela seria
lembrança a ser esquecida
vaidade a escorrer ralo abaixo
destino a modo líquido
com o sangue olharia os pulsos
e qualquer gesto me diria vida

iii

um corpo-fábrica reproduzido desde
a tintura da omoplata à silhueta da garganta
em seu modo líquido
(contemplando a sublime comunhão do desastre
comum)

§

i

esfumaça-se
no céu nublado, o pensamento
entre os olhos
taciturnos, abaixando-se ao
modo de bichos caçados.

gastando horas, frases mágicas, caranguejos de aço
diluindo-se nos meio-termos
do medo
(dos poros dilatados do medo)

ii

ainda agora
memória
diluindo-se pelas
coisas
pelas mãos
pelas mães mortas
por povos inteiros
agora e somente
agora

iii

o primeiro amor morreu

primeiro amor, você morreu
ainda tão bonito…

iv

a insônia
não muda noite em
dia

sobe aos olhos, vidra-se
em agora

a insônia
só muda os lençóis

v

estima-se oitenta, setenta
anos

vangloria-se da inteligência, dos
presentes de natal,
de não fumar,
de fumar pouco, de estar parando de
fumar.

estima-se oitenta, setenta
anos

vangloria-se dos domingos mornos
dos filhos bem formados, das viagens
aos finais de ano.

com os números, estimo
somente a quantidade de
confeitos no jarro

e basta.

§

faz falta um guerrilheiro

pais e filhos que rezam ave-maria em oratórios
e dividem
espaço com discussões
políticas.
padres
hóstias
coronéis
eventualmente uma morte (a mando)
eventualmente um sorriso generoso,
eventualmente um crisma e festejos.
tantas vezes e pra quê
filas de supermercado
cortinas vermelhas
histórias iguais e óculos escuros
moro num país
moro numa cidade de
praças escuras.

 

***

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