poesia, tradução

Eileen Myles (1949-), por Cesare Rodrigues e Camila Assad

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Eileen Myles é uma poeta e escritora americana, nascida em Cambridge, Massachusetts em 1949. Frequentou escolas católicas em Arlington, Massachusetts e se formou na Universidade de Massachusetts (Boston), em 1971. Foi para Nova York em 1974 com a intenção de se tornar poeta. Sua educação poética ocorreu principalmente no St. Mark’s Poetry Project, de 1975 a 1977, através de leituras e participação em workshops liderados por Alice Notley, Ted Berrigan, Bill Zavatsky e Paul Violi. Em 1977, Eileen co-editou a antologia feminista Ladies Museum, e em 1979 trabalhou como assistente do poeta James Schuyler. No mesmo ano, Eileen foi um dos membros fundadores do Los Texans Collective (junto com Elinor Nauen e Barbara McKay). De 1984 a 1986, Eileen foi diretora artística do St. Mark’s Poetry Project. Os outros livros de Myles incluem Snowflake / different streets (2012), Inferno: A Poet’s Novel (2010), The importance of being Iceland: Essays in Art (2009), Sorry, Tree (2007), Tow (2005, com Larry R Collins), Skies (2001), on my way (2001), Cool for You (2000), School of Fish (1997), Maxfield Parrish (1995), Not Me (1991) e Chelsea Girls (1994). Em 1995, editou, juntamente com Liz Kotz, The New Fuck You: Adventures of Lesbian Reading. Como poeta e jornalista de arte, Eileen contribuiu para um grande número de publicações, incluindo Art Forum, The New Yorker, Harpers, Parkett, The Believer, Vice, Cabinet, The Nation, TimeOut, The New York Times, Paris Review, AnOther Magazine e The Poetry Project Newsletter. É ativista radical e militante dos direitos das mulheres e LGBT+, tendo inclusive conduzido uma campanha “abertamente feminina” à presidência da República americana em 1991-1992. É professora emérita na UC San Diego, onde lecionou por cinco anos. Eileen Myles acumula uma grande variedade de premiações e nomeações, incluindo Guggenheim Fellowship (2012), The Clark Prize for Excellence in Arts Writing (2015) e o Creative Capital Award, (2016). Atualmente vive em Marfa, no Texas e em Nova York onde lançou, no dia 11 de setembro, seu vigésimo quarto livro, denominado evolution. Seu trabalho ainda é inédito no Brasil.

Cesare Rodrigues e Camila Assad

* * *

 

PROFECIA

Estou brincando com o pau do diabo
é como um giz de cera
é como um gordo giz de cera queimado
estou escrevendo um poema com ele
estou escrevendo isso sob
todo aquele calor barulhento neste quarto
estou usando isto
estou usando aquele chocalho formigante
aquela luz no meio do quarto
é minha anfitriã
eu sempre tive medo de você
apavorada de que você fosse deus ou algo do tipo
eu tenho medo quando você está amarelo
acastanhado
branco tudo bem. Transparente é legal,
você não me parece familiar
minha barriga está desabrigada
desabando sobre a cintura do meu jeans como uma omelete
é bom haver algo a respeito de se sentir gorda
o que existe mesmo é a falta de vazio
estou almejando aquela sensação de vazio
indo buscar um pouco dela
e depois eu volto

PROPHESY

I’m playing with the devil’s cock
it’s like a crayon
it’s like a fat burnt crayon
I’m writing a poem with it
I’m writing that down
all that rattling heat in this room
I’m using that
I’m using that tingling rattle
that light in the middle of the room
it’s my host
I’ve always been afraid of you
scared you’re god and something else
I’m afraid when you’re yellow
tawny
white it’s okay. Transparent cool
you don’t look like home
my belly is homeless
flopping over the waist of my jeans like an omelette
there better be something about feeling fat
what there really is is a lack of emptiness
I’m aiming for that empty feeling
going to get some of that
and then I’ll be back

[de Evolution, 2018]

§

 

UM POEMA AMERICANO

Nasci em Boston em
1949. Nunca quis que
soubessem, de
fato, passei a melhor
parte da minha vida adulta
tentando varrer a infância
pra debaixo do tapete
e ter uma vida que
fosse claramente só minha,
independente do
destino histórico da
minha família. Vocês podem
imaginar como é
ser um deles,
ter sido criada como um deles,
falar como um deles,
ter as vantagens
de ter nascido naquela
rica e poderosa
família americana. Estudei
nas melhores escolas,
tive todos os tipos de tutores
e treinadores, viajei
pra todo canto, conheci os famosos,
os controversos e
os não tão admiráveis
e sabia desde
muito nova que
se houvesse alguma
possibilidade de escapar
do destino coletivo dessa famosa
família de Boston, eu
tomaria esse caminho e
assim fiz. Peguei
o Amtrak para Nova
York no início dos
anos 70 e acho que
poderia dizer que
meus anos disfarçada
começaram. Pensei,
Bem, vou ser poeta.
O que poderia ser mais
tolo e obscuro.
Virei lésbica.
Todas as mulheres da minha
família parecem
sapatão, mas é realmente
atentar contra a pátria
quando você assume.
Carregando essa ignominiosa
pose eu vi e
aprendi e
estou começando a acreditar que
não há como escapar da
história. Uma mulher
com quem estou tendo
um caso ultimamente disse
sabe você parece
uma Kennedy. Senti
o sangue subir nas
bochechas. As pessoas
sempre riem do
meu sotaque de Boston
confundindo “large” com
“lodge”, “party”
com “potty”. Mas
quando essa mulher
desavisada invocou pela
primeira vez meu
sobrenome
eu percebi que a minha máscara
tinha caído. Sim, eu sou,
eu sou uma Kennedy.
Minhas tentativas de permanecer
disfarçada não funcionaram
tão bem. Começando como
uma humilde poeta
rapidamente cheguei ao
topo da profissão,
assumindo uma posição de
liderança e honra.
É certo que uma
mulher me chame
pra sair agora. Sim,
sou uma Kennedy.
E estou
às suas ordens.
Vocês são os Novos Americanos.
Os sem-teto estão vagando
pelas ruas das maiores cidades
da nossa nação. Homens
desabrigados com AIDS entre
eles. Isso está certo?
Que não haja casas
para os desabrigados, que
não haja assistência médica
gratuita para esses homens. E mulheres.
Que recebam
– enquanto morrem –
a mensagem de que este não é o lar deles?
E como estão seus
dentes hoje? Você
tem recursos para consertá-los?
Quanto custa o seu aluguel?
Se a arte é a mais alta
e honesta forma
de comunicação de
nossos tempos e a jovem
artista não está mais apta
a vir até aqui falar
para a sua época… Sim, eu poderia,
mas isso foi há 15 anos
e lembre-se — como designado,
sou uma Kennedy.
Não deveríamos todos ser Kennedys?
As maiores cidades desta nação
são o lar dos homens de
negócios e a casa dos
artistas ricos. Pessoas com
dentes bonitos, que não estão
nas ruas. O que faremos
quanto a este dilema?
Ouçam, eu fui educada.
Aprendi sobre a Civilização
Ocidental. Vocês sabem
qual é a mensagem da Civilização
Ocidental? Estou sozinha.
Estou sozinha esta noite?
Acho que não. Sou
a única com gengivas sangrando
esta noite. Sou a única
homossexual nesta sala
esta noite. Sou a única
cujos amigos morreram,
e estão morrendo agora.
E minha arte não pode
ser apoiada até que seja
gigantesca, maior do que a de
todos os outros, confirmando
o sentimento da audiência de que estão
sozinhos. De que sozinhos são
bons, aptos a
comprar os convites
para ver esta Arte.
Estão trabalhando,
são saudáveis, devem
sobreviver e são
normais. Vocês estão
normais esta noite? Todos
aqui, estamos todos normais.
Não é normal para
mim ser uma Kennedy.
Mas não tenho mais
vergonha, não estou mais
sozinha. Não estou
sozinha esta noite porque
somos todos Kennedys.
E eu sou sua Presidenta.

AN AMERICAN POEM

I was born in Boston in
1949. I never wanted
this fact to be known, in
fact I’ve spent the better
half of my adult life
trying to sweep my early
years under the carpet
and have a life that
was clearly just mine
and independent of
the historic fate of
my family. Can you
imagine what it was
like to be one of them,
to be built like them,
to talk like them
to have the benefits
of being born into such
a wealthy and powerful
American family. I went
to the best schools,
had all kinds of tutors
and trainers, traveled
widely, met the famous,
the controversial, and
the not-so-admirable
and I knew from
a very early age that
if there were ever any
possibility of escaping
the collective fate of this famous
Boston family I would
take that route and
I have. I hopped
on an Amtrak to New
York in the early
‘70s and I guess
you could say
my hidden years
began. I thought
Well I’ll be a poet.
What could be more
foolish and obscure.
I became a lesbian.
Every woman in my
family looks like
a dyke but it’s really
stepping off the flag
when you become one.
While holding this ignominious
pose I have seen and
I have learned and
I am beginning to think
there is no escaping
history. A woman I
am currently having
an affair with said
you know you look
like a Kennedy. I felt
the blood rising in my
cheeks. People have
always laughed at
my Boston accent
confusing “large” for
“lodge,” “party”
for “potty.” But
when this unsuspecting
woman invoked for
the first time my
family name
I knew the jig
was up. Yes, I am,
I am a Kennedy.
My attempts to remain
obscure have not served
me well. Starting as
a humble poet I
quickly climbed to the
top of my profession
assuming a position of
leadership and honor.
It is right that a
woman should call
me out now. Yes,
I am a Kennedy.
And I await
your orders.
You are the New Americans.
The homeless are wandering
the streets of our nation’s
greatest city. Homeless
men with AIDS are among
them. Is that right?
That there are no homes
for the homeless, that
there is no free medical
help for these men. And women.
That they get the message
—as they are dying—
that this is not their home?
And how are your
teeth today? Can
you afford to fix them?
How high is your rent?
If art is the highest
and most honest form
of communication of
our times and the young
artist is no longer able
to move here to speak
to her time…Yes, I could,
but that was 15 years ago
and remember—as I must
I am a Kennedy.
Shouldn’t we all be Kennedys?
This nation’s greatest city
is home of the business-
man and home of the
rich artist. People with
beautiful teeth who are not
on the streets. What shall
we do about this dilemma?
Listen, I have been educated.
I have learned about Western
Civilization. Do you know
what the message of Western
Civilization is? I am alone.
Am I alone tonight?
I don’t think so. Am I
the only one with bleeding gums
tonight. Am I the only
homosexual in this room
tonight. Am I the only
one whose friends have
died, are dying now.
And my art can’t
be supported until it is
gigantic, bigger than
everyone else’s, confirming
the audience’s feeling that they are
alone. That they alone
are good, deserved
to buy the tickets
to see this Art.
Are working,
are healthy, should
survive, and are
normal. Are you
normal tonight? Everyone
here, are we all normal.
It is not normal for
me to be a Kennedy.
But I am no longer
ashamed, no longer
alone. I am not
alone tonight because
we are all Kennedys.
And I am your President.

[de Not Me, 1991]

§

 

CORAÇÕES SANGRANDO

Sabe do que
eu tenho ciúmes?
Da noite passada.
Ela segurou
nós duas
em seus
grandes braços
negros
& hoje
eu seguro
entre
minhas pernas
uma boceta
trêmula.
Sangrando &
tremendo
molhada com
memórias
de pesar e alívio.
Eu não sei
por que o universo
me escolheu
para ser fêmea
tanta beleza
& dor,
tanta coisa
acontecendo
por dentro
de toda essa
mudança
em todo lugar
moedas caindo
por toda
a cama
& a morte
é um sonho.
No meio
da noite
com milhares
de amantes,
o chupão
estalando
cambaleando
a carne
profundamente na
cavidade
da noite
infinita através de
montes
de corpos
eu observo
se isso é
amor ou
guerra. A oca
bochecha
rastejante
onde
eu
nasci.

BLEEDING HEARTS

Know what
I’m jealous of?
Last night.
It held
us both
in its
big black
arms
& today
I hold
between
my legs
a shivering
pussy.
Bleeding &
shaking
wet with
memory
grief & relief.
I don’t know
why the universe
chose me
to be female
so much beauty
& pain,
so much
going on
inside
all this
change
everywhere
coins falling
all over
the bed
& death
is a dream.
Deep in
the night
with thousands
of lovers
the sucking
snapping
reeling
flesh
deep in
the cavity
of endless
night across
mounds
of bodies
I peer over
is it
Love or
war. The hollow
creeping
cheek
where
I was
born.

[de Maxfield Parrish, 1995]

§

 

SEM NOME

não ensaie
faça
de primeira

de repente
uma nuvem
azul
está no
céu

e depois
ela é o
céu

NAMELESS

don’t be rehearsing
be doing it
the first time

suddenly
a blue
cloud is
in the
sky

and then
it’s the
sky

[de Skies, 2001]

§

 

CARO ADAM

Eu disse bolo
eu disse cartola
eu disse microfone
quatro cabecinhas douradas de bebê
espera eu disse pirata fantasma
espera espera eu disse gato de olhos fechados sorrindo
ele está respondendo ai meu deus
eu pensei foda-se consigo ler isso numa maratona
ele disse Eileen smiles
ahhh posso usar isso
o sino do meu computador tocou
mesma mensagem
espera o gato está chorando aliviado
o gato é um demônio agora
o gato não está doido
o gato fazendo um jazz racializado
uh ou não minhas mãos brancas
estou falando com todo mundo agora.
e estou usando um filtro. Não, eu não estou
Reconheço que há uma
imagem minha duplicada. Só recentemente

aprendi o termo mãos de jazz
se fodemos a Pensilvânia, qual a nossa
esperança em viver em um país roubado que sempre foi roubado
e construído em grande parte por pessoas roubadas. De uma diáspora
conservadora vim poeta mestiça de Massachusetts
para deixar minha marca

amor & essas coisas e oportunidades

de falar. Não podemos desistir, estamos cheios de novas oportunidades
de descobrir o significado de resistência

nosso tempo & explodindo o interior do meu computador
estudos de veados
o telefone diz entregue
o que é.
Adam diz você viu minha barba.
Falamos de dinheiro por algum tempo
Ando em minha bicicleta. Sai fora o telefone faz ding.
É a barba dele chamando. Eu digo ah.

você tem o que eu quero.
ele diz lol
então caveira
então foguete
então peru
pistola verde
e uma chama. Eu
não sei o que responder para isso
digo bicicleta e vou.

DEAR ADAM

I said cake

I said top hat

I said microphone

four little golden baby heads

wait I said pirate ghost

wait wait I said closed eye smiling cat

he scrawled back oh my god

I thought fuck yeah I can read this at the marathon

he said Eileen smiles

ehhh I can use it

the bell of my computer rang

same message

wait the cat is crying with relief

the cat is a devil now

the cat is not mad

the cat making racialized jazz

uh or not my white hands

I’m talking to everyone now.

and I’m using a filter. No I’m not

I acknowledge that there is an
image of me twice. I only recently

learned the term jazz hands

if we fucked Pennsylvania up what is our

hope to live in a stolen country that was always stolen

and worked largely by stolen people. Out of a conservative

diaspora came I mongrel poet from Massachusetts

to make my mark

love & these things and opportunities

to speak. We can’t fall down we teem in the new opportunity
we discover what resistance means

our time & blowing up the inside of my computer

buck studies

the phone says delivered

what is.

Adam says did you see my beard.

We talk about money awhile

I ride my bike. Get off the phone goes
ding. It’s his beard calling. I go oh.

you have what I want.

he says lol

then skull

then rocket

then turkey

green pistol

and a flame. I

don’t know what to say back to that

I say bike and go.

[publicado na revista Poetry, está no livro Evolution, lançado em setembro de 2018]

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Padrão
poesia, tradução

Anne Carson, por Steffano Lucchini

Anne Carson (1950-), nascida em Ontario, Canada, é ensaísta, tradutora, professora e poeta. Entre suas publicações constam traduções de Safo e Eurípides e os livros Nox (2010), Red Doc> (2013) e Float (2016). Publicou também os romances em verso The Beauty of the Husband (2001), pelo qual ganha o prestigioso prêmio T. S. Eliot, e Autobiography in Red (1998). Michael Ondaatje, escritor de The English Patient (O paciente Inglês, no Brasil), livro que inspirou o longa-metragem de mesmo nome, declarou sobre sua obra: “Anne Carson é, para mim, a poeta mais excitante escrevendo em inglês nos dias de hoje.

Steffano Lucchini, nascido em Campinas, São Paulo, trabalha como ilustrador e quadrinista. Selecionado para participar do CLIPE Poesia 2018 (Curso livre anual criado pela Casa das Rosas/Centro de Apoio ao Escritor – CAE), escreve e traduz como pode e é autor dos websites de poesia Mal-criado e Ovocoxo. (Que podem ser acessados, por quem se interessar, através dos links: https://mal-criado.tumblr.com/ e https://ovocoxo.tumblr.com/)

* * *

Town of spring once again

“Spring is always like what it used to be.”
Said and old Chinese man.
Rain hissed down the windows.
Longings from a great distance.
Reached us.

Cidade da primavera mais uma vez

“A primavera é sempre o que costumava ser.”
Disse um velho homem chinês.
Chuva chiou abaixo das janelas.
Desejos de uma grande distância.
Chegaram até nós.

§

Apostle Town

After your death.
It was windy every day.
Every day.
Opposed us like a wall.
We went.
Shouting sideways at one another.
Along the road.
It was useless.
The spaces between us.
Got hard.
They are empty spaces.
And yet they are solid.
And black and grievous.
As gaps between the teeth.
Of an old woman.
You knew years ago.
When she was.
Beautiful the nerves pouring around in her like palace fire.

Cidade do apóstolo

Após sua morte.
Ventava todo dia.
Todo dia.
Opôs-se à nós como uma parede.
Nós fomos.
Gritando de lado um ao outro.
Ao longo da rua.
Era inútil.
Os espaços entre nós.
Endureceram.
São espaços vazios.
E apesar disso são sólidos.
E pretos e ominosos.
Como os vãos entre os dentes.
De uma velha mulher.
Que você conhecia anos antes.
Quando ela era.
Linda os nervos derramando em seu redor como fogo de um palácio.

§

Wolf town

Let tigers.
Kill them let bears.
Kill them let tapeworms and roundworms and heartworms.
Kill them let them.
Kill each other let porcupine quills.
Kill them let salmon poisoning.
Kill them let them cut their tongue on a bone and bleed.
To death let them.
Freeze let them.
Starve let them get.
Rickets let them get.
Arthritis let them have.
Epilepsy let them get.
Cataracts and go blind let them.
Run themselves to death let eagles.
Snatch them when young let a windblown seed.
Bury itself in their inner ear destroying equilibrium let them have.
Very good ears let them yes.
Hear a cloud pass.
Overhead.

Cidade lobo

Deixe tigres.
Os matarem deixe ursos.
Os matarem deixe tênias e lombrigas e vermes.
Os matarem deixe-os.
Os matarem deixe espinhos.
Os matarem deixe os parasitas de salmão.
Os matarem deixe os cortarem suas línguas em um osso e sangrarem.
Até a morte deixe-os.
Congelar deixe-os.
Famintos deixe-os pegar.
Raquitismo deixe-os pegar.
Artrite deixe-os terem.
Epilepsia deixe-os pegar.
Catarata e ficarem cegos deixe-os.
Correrem até a morte deixe águias.
Os sequestrarem quando jovens deixe uma semente ao vento.
Se enterrar nos seus ouvidos destruindo o equilíbrio deixe-os ter.
Muito boa audição deixe-os sim.
Ouvir uma nuvem passar.
Aérea.

§

Town of the Sound of a Twig Breaking

Their faces I thought were knives.
The way they pointed them at me.
And waited.
A hunter is someone who listens.
So hard to his prey it pulls the weapon.
Out of his hand and impales.
Itself.

Cidade do Som de um Graveto Quebrando

Suas faces eu pensei serem facas.
O modo que as apontaram para mim.
E esperaram.
Um caçador é alguém que ouve.
Tão atento a sua presa que puxa a arma.
De sua mão e impala.
A si.

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8 poemas inéditos de Luís Pedroso

Luís Pedroso (Lisboa, 1977) é licenciado em arquitectura e vive em Lisboa. Publicou os livros Princesas Dianas & Anti-Heróis (ed. do autor, Lisboa, 2009), Romance ou Falência (Artefacto, Lisboa, 2014) e Importunar o Tempo à Fisga (Língua Morta, Lisboa, 2018). Os poemas abaixo são inéditos.

* * *

Edição especial

Ao retirar da caixa postal o auto de contra-ordenação
pergunto-me se estarei perante edição rara,
fac-similada e com exclusivo capítulo-extra
da morrinha oficiosa que paga imposto sobre o sal –
a misteriosa gabela

Neste desvalido zerocento,
serão outras as formas de se morrer insulso,
pois dá-se a bizarria de os negreiros agora se dizerem,
co’a breca!,
liberais

Do Sol – trezentos dias por ano, exultai,
só nos chega um (augusto, conceda-se)
sucedâneo

A fome é fortuna, dizem eles.
Também diziam que o trabalho liberta
houve um homem que se afogou
ao beber um copo de água

Ar, água, sal e poesia –
para tocar, ainda que ao de leve
estes algarismos fundamentais da vida,
um destes dias
o mal-nascido nem pagando

§

Uma terra que mana leite e mel

Esta promessa revelou-se o isco decisivo
capaz de convencer todo um povo
à literal travessia, gerações afora,
do deserto

Hoje, num súbito relampejo
o meu olhar descrente encontrou nas alturas
a recompensa divina – na prateleira de cima,
shower gel de leite & mel
(embalagem grande)

À mísera distância de uma moeda,
tudo o que foi prometido
a quem um dia partiu
para Canaã

§

Paragem de autocarro

Em qualquer aldeia,
há sempre alguém que morreu
num acidente de mota ou samba de seringa
e alguém que chora sempre que vê
meia dúzia de minutos do Easy rider

E há a noção de que se está num fundilho,
cercania condenada a ser visitada
pelos autocarros mais velhos
que se desfazem em corrosão e vandalismos,
aqui à laia de Martim Moniz
de biqueira metida nas portas
de uma lambisgóia Lisboa

O importante é ter a clareza e a lata
e num futuro distante
defronte da Ronda da Noite
meter conversa e dizer
— Senhor Hopper, é você?

§

Onde o país encontra o futuro

Para o descrente lúcido
avaliar esta espécie de Shangri-lá ou Atlântida
resume-se a uma questão de janelas

Se aqui observamos o saltarico,
uma trágica alegria de potros,
acolá registamos o consolo da destruição,
a beleza de ir tudo raso

O luxo de ajustar a tela a pedido
e uma itinerante gratidão pelas mazelas
que acontecem sempre aos outros

E assim há quem opte
pela clareza de um quarto interior,
há quem veja a luz do mundo
através de um colar cervical

§

A armada invencível

Não por minha culpa, mas de meu cavalo,
aqui me vedes estendido
Cervantes

Assim, por letra de lei alheia
a quem foi dado sem olhar o dente
está encontrado o culpado
de todo o crime, cárie que enegrece
da raiz à coroa o bom-costume
e o insólito de estar dormindo
nas valetas da triste figura,
numa dulce beira de estrada

Os derribados e amadores
lembram-se de erguer o punho
e começar a cuspir a poeira
alojada numa vida de pulmões, amam
a derrota o desperdício enfim o coice
agarram-se como carraça
mas quando a montada desobedece
e estaca

são projectados campo afora
para o verso e rede-
moinho de uma morte certa,
são invencíveis

e por isso a aceitam sorrindo

§

Pouca-terra

Pouca terra ou muita muita,
quase toda transformada num enxugo,
agora só pó e pedra,
sobra de espiga ou erva seca
tudo tudo

Escrevo uma carta
endereçada a nomes vagos, os expulsos,
coloco-a em marco imaginário
e deixo o futuro cair
no restolho

Pouca terra: a memória de uma vida
colectiva atingindo velocidade máxima
em precipício

Que fazer, quando todas as solipas
estiverem feitas mesinha-do-café,
soalho rústico, bibelô?

§

Loja de ferragens

Os amputados sabem
descrever a dor fantasma
melhor que qualquer livro
e só eles podem confirmar
se sentiram frio
enquanto o membro repousava
em leito de escuro e gelo

Os despejados,
quinquilharia arremessada
para pastagens menos verdes,
sabem dizer
quando à casa chegou lume
e preferiam que não fosse metafórica
a sensação de orelha a arder

A fatal certeza
de nos faltar um bocado
assume muitas formas.
Talvez a melhor
seja a de uns tantos
parafusos

§

The misfits, 1961

Existe um tempo ausente, imensurável,
de quem está sentado de viés
ao seu posto de sempre na mesa,
olhando o silêncio, evocando o fugaz
e o tempo do que aguarda na culatra

Existe um tempo longo mas tão curto,
ocupado no arremesso de objectos
e apontamentos biográficos
para fora da vida e o tempo-instante
do esquecimento que é para sempre.

E um tempo ínfimo, esticado e repuxado –
descobriram, novinhos-a-estrear,
quarenta e cinco segundos de Marilyn nua,
provando que nunca se acaba
de despir um cadáver

Padrão
poesia, tradução

5 ilegibilidades: Paul Celan por Davi Araújo

Paul Celan vocês já conhecem na escamandro, podem rever aqui.

Davi Araújo (São Paulo, 1979) é poeta, ficcionista e tradutor radicado em Sorocaba. Autor do poemário Livro Ruído (Eucleia, 2011), publicado em Portugal, e das prosas em Ficções paralelas e Visões para lê-las (Substânsia, 2016; com desenhos de Yuli Yamagata). Traduziu Natureza, de R.W. Emerson, e Caminhada, de H.D. Thoreau (Dracaena, 2011), e busca editor para suas traduções de poesia reunidas em Do silêncio ao céu e para a dos
poemas completos de André Breton. Em 2018, a editora Urutau publicará seu próximo livro de poemas, O físsil.

* * *

UNLESBARKEIT dieser
Welt. Alles doppelt.
Die starken Uhren
geben der Spaltstunde recht,
heiser.
Du, in dein Tiefstes geklemmt,
entsteigst dir,
für immer.

§

ILEGIBILIDADE deste
Mundo. Tudo em dobro.

Os fortes Relógios
dão corda à hora-ao-meio,
roucos.

Tu, presa de tua Profundeza,
desces de ti,
para sempre.

§

ILEGIBILIDADE deste
Mundo. Dúbio todo.

Os duros Relógios
doam sentido a Físsil-hora,
aridamente.

Tu, encalacrado em teu Âmago
sais de ti,
sempiterno.

§

ILEGIBILIDADE deste
Mundo. Duplo total.

Ríspidos,
os poderosos Relógios
enchem de razão a fensahora.

Tu, em tuas Vísceras encaroçado,
germinas de ti,
sem cessar.

§

ILEGIBILIDADE deste
Mundo. Pandobrado.

Os grãos Horários
concedem ao meioperíodo rácio,
ásperos.

Tu, sujeitado ao teu Imo,
debulhas a ti,
eternamente.

§

ILEGIBILIDADE deste
Mundo. Onidual.

Os ríjidos Horológios
cedem, ao Físsilcurso, vazão,
raucíssonos.

Tu, preso a teu Fundo,
partes de ti,
ao infinito.

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poesia, tradução

Transviscerar Roberto Piva, por Francisco de Matteu

Roberto Piva, 1963, foto de Cláudio Willer

PIVA (1937 – 2010)

Para ele, estar apaixonado era praticamente uma condição necessária para escrever, “a poesia é uma consequência da vida, um epifenômeno dela. É o que sobrou da paixão, é o que sobrou da orgia.” (PIVA, 2009, p.60). Ele certamente teria muito o que conversar com Leminski, que comenta que “Os hindus acreditam que os deuses criam este mundo por um excesso de ser. O que é um bom modelo para nossa humana e terrestre criatividade. Só por excessos se cria. Por uma exuberância.”

Uma experiência muito marcante na vida do escritor, que inclusive permeia toda sua obra e  vai ganhando mais espaço nos livros posteriores, foi o primeiro contato que teve com uma prática de cunho xamanista, a piromancia. Conta ele que, aos 12 anos de idade, por meio de Irineu, um mestiço de índio com negro, experimentou pela primeira vez uma das formas do êxtase ao contemplar fixamente uma fogueira na fazendo do pai em Analândia, perto de Rio Claro, no interior de São Paulo. Estimulado por Irineu, Piva encarava o fogo até enxergar imagens e espectros fugazes. Já aos 24, em 1961, dois anos antes da publicação de Paranoia, Piva adquire o livro O xamanismo e as técnicas arcaicas do êxtase (1951), escrito por Mircea Eliade, e com a sua leitura é “beneficiado pelo inconsciente coletivo que permeia a humanidade. Isso é a origem da poesia xamânica. É a origem da própria poesia na visão de Cortázar, Artaud, Octavio Paz, Mircea Eliade” (Ibid., p.149).

PARANOIA

Paranoia é um livro instilado de paixão transgressora, uma carta de amor virulento cujo destinatário é a cidade de São Paulo, ou seja, um poema do urbano contra o urbano. Falar sobre Paranoia é equacionar amor, êxtase, analogia, ritmo, correspondência. O ritmo da poesia de Piva é, eu acredito, da mesma ordem do movimento conforme descrito em  “O Anus Solar” (1931), ensaio de Bataille, ou seja, existe em função de uma atração implacável, de uma paixão amorosa. Trata-se do ritmo amoroso.Os dois movimentos principais são o rotativo e o sexual, de combinação expressa
numa locomotiva de pistões e rodas.

Dois movimentos que se transformam um no outro, reciprocamente.
Assim notamos que a terra a dar voltas faz coitar animais e homens (e, como
aquilo que resulta também é a causa que o provoca), animais e homens quando
coitam fazem dar voltas à terra.

(…)
Um guarda-chuva, uma sexagenária, um seminarista, o cheiro de ovos podres, os
olhos cegos de um juiz, são raízes por onde o amor se alimenta.
Um cão que devora um estômago de pato, uma mulher bêbeda que vomita, um
guarda-livros que soluça, um frasco de mostarda, representa a confusão que veicula
o amor.
(1985, p. 12-13)

Tendo isso em vista, seguiremos com Bachelard “um método que nos parece decisivo na fenomenologia das imagens, e que consiste em designar a imagem como um excesso da imaginação”, onde “acentuamos as dialéticas do grande e do pequeno, do oculto e do manifesto, do plácido e do ofensivo, do fraco e do vigoroso” (1993, p.123). Ou seja, Paranoia, enquanto resíduo e “excesso da imaginação”, está menos para uma sequência de peripécias mirabolantes vividas e testemunhadas poeticamente sob a égide da noite, e mais para um desregramento da própria linguagem em associações inusitadas que explodem vigorosamente a partir do detalhe. Tal abordagem está no centro do programa do livro, a versificação enquanto forma de organização sistematicamente caótica não é nada menos do que o emprego pessoal de Piva da atividade crítico-paranoica de Dali.

Em 1929 Dali pesquisa os mecanismos internos dos fenômenos paranóicos, encarando a possibilidade de um método experimental baseado no poder imediato das associações sistemáticas próprias à paranóia; esse método iria tornar-se, em seguida, a sintese delirante crítica que tem o nome de “atividade crítico-paranóica”. Paranóica: delírio da associação interpretativa, comportando uma estrutura sistemática – Atividade crítico-paranóica: método espontâneo de conhecimento irracional baseado na associação crítico-interpretativa dos fenômenos delirantes. (1974, p.18-19)

Assim, o efeito que se pretende criar na versificação de Paranoia é do desocultamento infinito daquilo que transborda. Por meio do exercício da espontaneidade e das associações desregradas, a ideia obcecante entra em cena sem recorrer à linguagem linear e ao significado racional, fazendo o mundo do delírio passar para o plano da realidade através do processo de ressignificação do mundo e seus objetos.

A TRANSVISCERAÇÃO

A transvisceração é mais um processo do que um método, trata-se de cultivar gradualmente no próprio corpo a poesia, o corpo se torna poético ao se deixar atravessar por um corpo de poemas, neste caso, o livro de Roberto Piva e Wesley Duke Lee, Paranoia (1963). Assim, mergulhei profundamente no devaneio de cada imagem, poema a poema, deixando o punctum barthesiano das fotografias alucinadas de Lee me assombrar também, palavras animadas com meu próprio sangue, reverberando nas minhas entranhas e pulsando no ritmo de minhas vísceras comovidas, imprimindo cada poema no meu inconsciente e povoando meu imaginário com sonhos de andanças desvairadas pela noite; só então, pude recriar os poemas no idioma do meu próprio corpo. A transvisceração trata-se, portanto, de uma abordagem tradutória que privilegia antes de mais nada, o sensorial e o intuitivo em detrimento do racional, que privilegia a continuidade da palavra em relação ao corpo, pensando no poema como uma extensão da vida, uma secreção do corpo produzida por um excesso de vivência, mais especificamente, no caso de Piva, por um êxtase amoroso. Colocando a linguagem como evidência também, enquanto máquina desejante, máquina de estabelecer correspondências e analogias novas, de potencialidade tradutória, de ressignificação de símbolos e da realidade, de transformação da própria vida através do exercício imaginativo da visualização e performance. O poema de que falo é uma meditação que altera e expande a sensibilidade do eu, que faz esse eu sonhar e que faz a própria linguagem sonhar.

Por isso mesmo, a tradução de um poema como esse, também precisa passar invariavelmente por um movimento de êxtase antes de se fazer existente, brotando diretamente das vísceras, do âmago desse eu e tomando forma na medida em que se faz transbordar. A criação dos poemas de Paranoia foi esse transbordamento mental e é assim que deveria ser a sua tradução poética ao meu ver: linguagem viva que brota do corpo e mancha o papel revelando um abismo que se condensa em palavra, em canto, em visão, imagem e analogia. O poema é a ritualização da vida, é a imaginação agindo sobre a realidade, é o ato mágico que tem por finalidade orientar uma força oculta no sentido de uma ação determinada. A força oculta é o poder intuitivo e criativo; e a ação determinada, nesse caso, é o estímulo, a provocação e a comoção das vísceras a partir da própria palavra. É como se o poema tentasse devolver para a vida o que tirou dela para se fazer e se criar,  a partir de sua própria substância: o desejo, o impulso violento, o movimento e o ritmo. Faço das seguintes palavras de Bachelard, as minhas próprias: “Quanto a mim, acolho a imagem do poeta como uma pequena loucura experimental, como um grão de haxixe virtual, sem cuja ajuda não podemos entrar no reino da imaginação” (2001, p.222).

PARA REPARO DE VÍSCERAS

A tradução de Paranoia deve engendrar, na minha opinião, uma espécie de inciação, a busca delirante por “aquilo que de fato sou”, busca que o livro de Piva representa de maneira tão singular. Nas palavras de Davi Arrigucci:

O delírio que acompanha o êxtase é a tentativa de ver mais claro, no cerne da noite, aquilo que de fato sou e quem sabe possa vir à luz. No fundo da sua própria obscuridade, o poeta, “incorrigível demônio”, caminha sem rumo pela cidade imaginária em busca de revelar o segredo que traz consigo mesmo. (2009, p.29)

Cabe aqui justificar e apontar a origem da minha proposta de tradução como reparo de vísceras: na minha analogia, a ossada, sendo o símbolo da fonte última da vida, a porção mais resiliente tanto do homem quanto do animal, seria a matéria a partir da qual a vida, ou seja, as vísceras, poderiam se reconstituir. A poesia é palavra encantatória que excita a carne pois roça o cerne do ser e é na medula óssea que são produzidas e renovadas as células do sangue, ou seja, o DNA, que contém nossa assinatura genética. O sangue, líquido quintessencial da vida que circula pelas vísceras, se produz e renova graças a medula óssea. Assim como os poemas se renovam com as traduções, e as línguas em estado elevado nos deixam vislumbrar a “língua pura”. Haroldo de Campos resgata o que Walter Benjamin havia dito sobre a tarefa do tradutor, ela consiste em “libertar na sua própria aquela língua pura, que está desterrada na língua estranha; libertar através da transpoetização, aquela língua que está cativa na obra” (2013, p.98). Em outras palavras, enquanto tradutor, devo libertar da língua que está contida no poema de partida, o esqueleto, a armação do ser do poema que delimita sua existência e justifica sua razão de ser.

Ora, a tarefa iniciatória do xamã é justamente se despir das vísceras, órgãos e toda carne, é preciso desnudar o esqueleto para que a partir da visualização extática da estrutura óssea seja possível, graças ao conhecimento adquirido pela sua contemplação, a reconstrução de um corpo novo e revigorado. Por trás de todo poema há um modo de intencionar, uma forma significante (Ibid., p.99) que suporta a informação estética: essa forma significante funciona exatamente como o esqueleto no ritual xamânico, a partir da nomeação mágica de cada osso na linguagem ritual (língua pura), é possível obter a visão  plena do esqueleto, que é a chave para a manutenção da vida e da cura. As vísceras e os demais materiais orgânicos (palavras) se cristalizam ao redor dessa estrutura óssea (modo de intencionar) praticamente invisível para o não iniciado, porém ainda assim detectável.

A tradução nessa analogia é um reparo de vísceras nos dois sentidos do verbo reparar, o primeiro abrange a reconstrução e a recriação do poema por meio da mesma matriz (esqueleto/forma significante) a partir da qual as mentes que “ficaram sonhando” (em êxtase/intuição da língua pura) vão consumar o seu amor delirante na forma de uma “flor de saliva”, por exemplo; o segundo sentido do verbo “reparar”  (notar, observar, perceber) está ligado à contemplação e nomeação do esqueleto em si, que é a investigação da forma significante que compõe o poema. Reparar o poema quer dizer significar e perceber seus mecanismos, desvendar sua linguagem, seus artifícios e funcionamentos, não é nada menos do que um exercício de crítica, de se enveredar pelos seus meandros e abrir no poema um caminho próprio, se equilibrando entre a materialidade do texto e a subjetividade daquele que se propõe a decifrá-lo. Foi do “Poema da Eternidade sem Vísceras” que retirei cirurgicamente o título da dissertação: “PARA REPARO DE VÍSCERAS”; pois a metáfora que ilustra meu processo tradutório é essa da transferência da dicção produzida pela persona de Piva que caminha pela noite paulista em Paranoia.

POEM OF ETERNITY WITHOUT VISCERA/POEMA DA ETERNIDADE SEM VÍSCERAS

PRAÇA DA REPÚBLICA OF MY DREAMS/PRAÇA DA REPÚBLICA DOS MEUS SONHOS

 

Francisco De Matteu entrou na UFPR em 2009. Na  monografia estudo a “Canção de Mim Mesmo” (1855), de Walt Whitman com um traço chamado “merge”, que nada mais é do que o estado meditativo de transe induzido no eu-lírico através dessa canção que provoca o êxtase cósmico, assimilando toda uma nação e um continente  e gerando as imagens do poema que são a jornada de expansão e fusão do eu lírico.

BIBLIOGRAFIA

BACHELARD, Gaston. A poética do espaço. Tradução de Antonio de Pádua Danesi. São Paulo: Martins Fontes, 1993.

BATAILLE, Georges. O ânus solar. Tradução de Anibal Fernandes. Lisboa: Hiena Editora, 1985.

CAMPOS, Haroldo de. Transcriação. Organização Marcelo Tápia, Thelma Médici Nóbrega. São Paulo: Perspectiva, 2015.

DALI, Salvador. Sim ou a paranóia: método crítico-paranóico e outros textos. Tradução de Denise Vreuls. Rio de Janeiro: Editora Artenova S. A., 1974.

ARRIGUCCI, Davi. O cavaleiro do mundo delirante. In: PIVA, Roberto. Paranoia. São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2009.

PIVA, Roberto. Paranóia. Fotografado e desenhado por Wesley Duke Lee. São Paulo: Instituto Moreira Salles e Jacarandá, 2000.

____________. Roberto Piva: encontros. Organização Sergio Cohn. Rio de Janeiro: Beco do Azogue, 2009.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                         

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poesia

Lucio Carvalho (1971—)

Lucio Carvalho nasceu em Bagé, Rio Grande do Sul, em 1971.  Tradutor bissexto, publicou a coletânea de contos A aposta, o livro de artigos e ensaios Inclusão em pauta e o livro de poemas Falso alarde. Há uma década, é redator e co-editor da revista Inclusive – Inclusão e Cidadania. Escreve ficção, poesia, crítica e artigos jornalísticos para diversas publicações.

* * *

Antílope

andei muito por aqui
mas hoje esqueço
se há marcas para encontrar
como em João e Maria
ou se houve, de repente,
nova devastação
de tanto em tanto
os cometas invadem o espaço
e suas caudas de luz e detrito
espalham terror e espanto
mas elas não fazem por si sós
dependem dos outros portanto
com meus cabelos nas árvores é diferente
são marcas de mim mesmo
e o chão fez brotar
de uma forma indecente
tudo o que derreti
no seu calor
são plantas loucas as que alimentam
o cultivo da floresta
desordenada e íngreme
que me faz subir e subir
e nunca parar de subir –
que modo estranho elas têm
elas todas são tão igualmente
compenetradas e objetivas
na devoração das pedras
e no consumo da água
e vão extrair até a última gota
sem sacrifício
mas eu não sei para o que sirvo
nem o que vim fazer aqui
deve ser um sonho que não tive
e que me sonhou, de onde acordei
e deparei com a selva intacta
e o carinho feroz de seus animais
esse que tem a cara de antílope
é brando e quer tocar meu coração
com seus dedos desumanos
e aquela dríade que nasceu dentro de mim
vai a varrer minhas pegadas
e a engolir meu caminho
aqui não é como nas savanas
onde os rugidos prenunciam o óbvio
mas tudo é sorrateiro como as sombras
que ocultam o dia da noite
e vice-versa
é mais ou menos o caos completo
ninguém passa gritando ou buzinando
a regra é dita em rumores e o ramo de rosas
que se guarda sob a pele
só pode abrir-se por invocação
ao transformar-se em vapor
e nos perfumes do alimento
quando acabamos não há muito o que ver
nem entender nem acalmar
o tempo parou para eu tocar
nos poros e na seiva dos seres
e tudo o que existe lá fora
é apenas tédio e aborreceres
dizem por aí que viver é pouco
mais que haver comida e bebida
o bastante e coisas elementares
que se devem ter por direito
um dia desses posso dizer – quando sair daqui
a salvo e a sós, como deve ser o sujeito –
viver só vale a pena para provar seu efeito

§

À natureza

empenho aos seus olhos
como notas promissórias
duas dúzias de palavras
nas quais o silêncio envergonha-se
e começo a dizer outra vez
como tudo pode acontecer
é assim, espetado de ponta a ponta,
que atravesso meus dias
e as noites por sua vez atravessam-me
criando hiatos e prenúncios de véspera
(a criação é uma bandeira
trêmula e lunar nestes lugares)
eu sei que em breve
no vento que vem do oriente
nos sinais de um livro entre as estantes
nos versos que nunca fizeram sentido
eu nascerei na forma de palavras
que nunca esgrimiram, afora estas vinte
(fosse um lutador versátil
como um puma distante de casa
cuja fome especula a vítima
até que ela possa defender-se
enorme e inacessível
como uma montanha
teria gasto as unhas nas pedras
até que me convencesse por elas
do que deveria ou não fazer –
meu maior temor é temer
o sobejo soterramento
e eu vir abaixo)
estou à direita, no corredor ao lado
há um arbusto falso
que nunca me oferece certeza
se o que estou a ver
ou a fazer
pertence mesmo à natureza

§

Provisória

não espero fazer nada
e que tudo esteja cumprido
nem entender o que seja
mas estar desde já entendido
que quando abra meus olhos de dia
é que a noite foi esconder-se
o pouco que sei aprendi
sem lastro nem alicerce
como o acaso desenha nas nuvens
ou um algoz o machado afia
olhando bem em meus olhos
sou quem ele nem desconfia
ao juntar meus pedaços do chão
sossego a alma que grita
depois que tudo acabar-se
talvez eu a ela demita
a minha parte estará feita
não que isso melhore a história
querendo-a pouco ou demais
a vida é solução provisória

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poesia

uma poema de nina rizzi

fredy alexandrakis

arte: fredy alexandrakis

‘nossa pele água toda
carne ossos pele
como coisa única

tenho um mapa nas pernas
poros que se coçam nas axilas e virilhas

e ainda mais um mapa linhas transparentes
verdes que me sobem da barriga até os braços

disseram que eu ame o meu corpo

era bom quando o conhecia
o sangue espesso e quente que me escorria

cada dorzinha absurda
em seu devido lugar

as festinhas que me fazia em êxtase
cantando um tanto louca o bliss o amor

agora cá dentro um bicho que me come
dizem mulher
digo Coralina

nome destino
sereia petrificada
água e coral

Coralina é toda mole
de tão mole chega a ser dura
como negação de seu ser toda água

toda água
cheia d’água Coralina

abraço-a
mas então é toda bicho
selvagem e rígida dói-me toda

até que sou também
esse imenso recife de corais
espelho d´água toda síndrome

cabelos e pelos caem
caem    caem    caem

penso numa deusa do milho
num verso que diga
“bonecas de milho afogadas
…………………………………. adeus”

enquanto uma agulha me vara a barriga
de fora adentro mordo as mãos da mulher
que me recita documentos e valores

e o essa é a vontade de deus
um deus de leis e vontades
que em mim se vinga

por uma eva e sua maçã
que jamais existiram

Coralina cresce
a água toda

eu espero
eu espero

a barreira de coral
se alarga
ela é uma sereia

feia?
bonita?

implacável com seu coração
de florezinhas petrificadas

meu corpo um mar desconhecido
furioso de nostalgias e quebrantos

es
go ta
men to
……………………………………. água-forte

o que é esta mulher?
o que é uma mulher?

me dissolvo lentamente
11 semanas
17 semanas

um homem diz
não mais que 20
já se vão 28

sou um experimento genético

um corpo que pertence ao estado
ao deus
à ciência
………………………………………… ao além

eu sei de cor
o esperar
o esperar

essa vontade que não é minha
e todo homem com seu eu te amo
e a cartinha contravenção

o eu te amo habeas-corpus
vindo assim da boca-
-documento sem tamanho

{eu te prendo
}eu me rendo

olha
Coralina
eu te amo

eu sei o bicho que me come dentro
eu sei eu sou uma mulher

[nina rizzi]

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