poesia

uma poema de nina rizzi

fredy alexandrakis

arte: fredy alexandrakis

‘nossa pele água toda
carne ossos pele
como coisa única

tenho um mapa nas pernas
poros que se coçam nas axilas e virilhas

e ainda mais um mapa linhas transparentes
verdes que me sobem da barriga até os braços

disseram que eu ame o meu corpo

era o bom quando o conhecia
o sangue espesso e quente que me escorria

cada dorzinha absurda
em seu devido lugar

as festinhas que me fazia em êxtase
cantando um tanto louca o bliss o amor

agora cá dentro um bicho que me come
dizem mulher
digo Coralina

nome destino
sereia petrificada
água e coral

Coralina é toda mole
de tão mole chega a ser dura
como negação de seu ser toda água

toda água
cheia d’água Coralina

abraço-a
mas então é toda bicho
selvagem e rígida dói-me toda

até que sou também
esse imenso recife de corais
espelho d´água toda síndrome

cabelos e pelos caem
caem    caem    caem

penso numa deusa do milho
num verso que diga
“bonecas de milho afogadas
…………………………………. adeus”

enquanto uma agulha me vara a barriga
de fora adentro mordo as mãos da mulher
que me recita documentos e valores

e o essa é a vontade de deus
um deus de leis e vontades
que em mim se vinga

por uma eva e sua maçã
que jamais existiram

Coralina cresce
a água toda

eu espero
eu espero

a barreira de coral
se alarga
ela é uma sereia

feia?
bonita?

implacável com seu coração
de florezinhas petrificadas

meu corpo um mar desconhecido
furioso de nostalgias e quebrantos

es
go ta
men to
……………………………………. água-forte

o que é esta mulher?
o que é uma mulher?

me dissolvo lentamente
11 semanas
17 semanas

um homem diz
não mais que 20
já se vão 28

sou um experimento genético

um corpo que pertence ao estado
ao deus
à ciência
………………………………………… ao além

eu sei de cor
o esperar
o esperar

essa vontade que não é minha
e todo homem com seu eu te amo
e a cartinha contravenção

o eu te amo habeas-corpus
vindo assim da boca-
-documento sem tamanho

{eu te prendo
}eu me rendo

olha
Coralina
eu te amo

eu sei o bicho que me come dentro
eu sei eu sou uma mulher

[nina rizzi]

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2 comentários sobre “uma poema de nina rizzi

  1. Leopoldo Ramos disse:

    O poema é ótimo. Mas a obsessão de vocês deste blog com corpo, é corpinho aqui, corpinho acolá, é chata à beça. É coisa ultrapassada, velha, pífia. Cresçam, meninos.

  2. Oi, Leopoldo! fico contente que tenha lido e, claro, que tenha gostado.
    Sobre o que vc chama “obsessão”, sabe que eu nunca tinha reparado?! E olha que publicamos em língua portuguesa e tradução desde poesia a mais antiga até os contemporâneos.
    Particularmente, escrevo o que me arde e é urgente, seja ou não o “corpo”.
    Enquanto editora o critério é quase o mesmo: o que me causa algum impacto, publico; e o “impacto” significa muitas coisas, mas olha que coisa: quase sempre passa pelo corpo! sabe, algo que se vc não lesse lhe doía?
    Quanto a poesia, a escritura contemporânea, acredito que depois de séculos passamos, felizmente, do tabu e da proibição para a obsessão e, oxalá, a liberdade.
    Agradeço novamente a leitura, e a gentileza em comentar. 🙂

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