poesia

QUATRO POEMAS INÉDITOS DE MARCELO ARIEL

 

Marcelo Ariel é poeta e performer, autor dos livros TRATADO DOS ANJOS AFOGADOS ( LetraSelvagem, esgotado), RETORNAREMOS DAS CINZAS PARA SONHAR COM O SILÊNCIO ( Editora Patuá, esgotado) , JAHA ÑANDE ÑAÑOMBOVY’A ( Editora Penalux), entre outros. Em breve será lançado OU O SILÊNCIO CONTÍNUO -POESIA REUNIDA 2007-2017 que está no prelo pela Kotter/Patuá.

* * *

ANTÍFONA

ANTÍFONA

Ó Formas alvas, brancas, Formas claras

E aí, branquitudes, purezas, certezas

De luares, de neves, de neblinas!…

De clareiras, nuvens, névoas

Ó Formas vagas, fluidas, cristalinas…

E aí, branquíssimas peles lapidadas

Incensos dos turíbulos das aras…

nuvens brancas atravessando avenidas cercadas

Formas do Amor, constelarmente puras,

Modos de  se matar, celestiais estáticos

De Virgens e de Santas vaporosas…

Em estados líquidos, enevoados

Brilhos errantes, mádidas frescuras

Fosforescências efêmeras

E dolências de lírios e de rosas…

e melancólicas orquídeas vaporosas

Indefiníveis músicas supremas,

  Inefáveis  mixtapes esquecidas

Harmonias da Cor e do Perfume…

perfeitas mas sem cheiros e sem lume

Horas do Ocaso, trêmulas, extremas,

vindo em ondas de  sangue  que o Sol queima

Réquiem do Sol que a Dor da Luz resume…

Velórios da luz no vidro que o projétil quebra

Visões, salmos e cânticos serenos,

Delírios, funks,  risos, celas

Surdinas de órgãos flébeis, soluçantes…

Ecos de toques de celulares nas biqueiras

Dormências de volúpicos venenos

Sonabulismos do beck com doce batendo na viela

Sutis e suaves, mórbidos, radiantes..

.

vagos e violentos, santos rostos faíscantes

Infinitos espíritos dispersos,

Duplos vetorizados, capturados  logo adiante

Inefáveis, edênicos, aéreos,

encurralados ao revés por  ancestrais , mortos, indigentes

Fecundai o Mistério destes versos

florescendo em galáxias distantes

Com a chama ideal de todos os mistérios.

na parte azul do sangue, nenhuma verdade

Do Sonho as mais azuis diafaneidades

alucinações em vermelho, nos olhos que se fecham

Que fuljam, que na Estrofe se levantem

que se dissolvam no refrão gritando não

E as emoções, sodas as castidades

com o sentimento sonoro, vertendo em espuma a interdição

Da alma do Verso, pelos versos cantem.

nas ruas as almas dos internos, crianças-onças-pardas

Que o pólen de ouro dos mais finos astros

germinando o sonho do mais fino grão do ser

Fecunde e inflame a rime clara e ardente…

sejam  flores, os que desabrochando debaixo do  chão e

Que brilhe a correção dos alabastros

como baleias  nadando no mar de esgoto , em sua amplidão

Sonoramente, luminosamente.

entoando para a luz , a ultima canção evocando

Forças originais, essência, graça

forças de dentro que jamais avançam em vão

De carnes de mulher, delicadezas…

através da pele mestiça e negra , docemente

Todo esse eflúvio que por ondas passe

dos rios soterrados,  subindo em ondas quentes

Do Éter nas róseas e áureas correntezas…

sobem, crescem, todos sentem

Cristais diluídos de clarões alacres,

tudo se refletindo em tudo, sem alarde

Desejos, vibrações, ânsias, alentos,

Eros regendo o ritmo das carnes

Fulvas vitórias, triunfamentos acres,

E aí, Branquitudes, a hora é agora!

Os mais estranhos estremecimentos…

a mais feroz doçura

Flores negras do tédio e flores vagas

desce até a piscina a matéria escura

De amores vãos, tantálicos, doentios…

de tristezas cósmicas, sem vagueza

Fundas vermelhidões de velhas chagas

fendas, falésias, fios, chamas, feras são

Em sangue, abertas, escorrendo em rios…..

sangram , fluem, pela água , antes represada

Tudo! vivo e nervoso e quente e forte,

cristalina fome de ser que vem do fundo, como a morte

Nos turbilhões quiméricos do Sonho,

vórtices, espirais de outra realidade

Passe, cantando, ante o perfil medonho

engolem vossos corpos, como  o  sono

E o tropel cabalístico da Morte…

chega para reger a manhã da insurreição

§

SIDERAÇÕES

GRAVITAÇÕES

Para as Estrelas de cristais gelados

Para os oceanos que vagam na matéria escura

As ânsias e os desejos vão subindo,

os sentimentos  vastos são atraídos

Galgando azuis e siderais noivados

como no casamento do Sol e da Lua

De nuvens brancas a amplidão vestindo…

a anterioridade de contrários se fundindo

Num cortejo de cânticos alados

num ritmo , pulsação e vibração contínuos

Os arcanjos, as cítaras ferindo,

crianças na ocupação cantam esse hino

Passam, das vestes nos troféus prateados,

dançando com seus corpos negros azuis e cabelos prateados

As asas de ouro finamente abrindo…

de uma revoada de pássaros no peito tatuado

Dos etéreos turíbulos de neve

fortes em porosidade etérea

Claro incenso aromal, límpido e leve,

doçuras moventes , risos firmes permanentes

Ondas nevoentas de Visões levanta…

atravessam o sereno

E as ânsias e os desejos infinitos

agem derrubando muros, tropas, policias, fascistas

Vão com os arcanjos formulando ritos

da insurreição dos proscritos

Da Eternidade que nos Astros canta…

ecoando a força infinita de um grito

Poemas do livro inédito ESCUDOS BROQUÉIS onde dialogo linha a linha com o livro de Cruz e Souza, criando através desse diálogo um novo poema formado pela união de dois poemas . É minha homenagem ao legado do poeta negro  Cruz e Souza, que considero meu Mestre maior.

§

O NASCIMENTO DA PAISAGEM

“Amor e coração nobre são uma única coisa.“

Dante

A menina vê o mar

a partir de dentro

………………………………

nasce para dizer

caminho por uma rua

chamada luar

segurando crisântemos

……………………………………..

os corpos

reunidos pela água

que molha as plantas

…………………………………….

mulher de sal

nadando

depois

pássaro de água

depois

flor   esta

§

UMA CONVERSA INFINITA ONDE ESPINOSA , O AFRICANO EXPLICA AS ESTRATÉGIAS INSURRECIONAIS DO JAGUAR-ORQUÍDEA

como uma partitura para uma contrametafísica mestiça  *para a ocupação do  campo transcendente

Para Suely Rolnik e Felix Guattari

o estado mundial é o corpo                     O CORPO LIVRE                                                              

ATRAVÉS DELE OS CÍRCULOS MENORES IRÃO DESTRUIR O GRANDE CÍRCULO

O  MOVIMENTO INCESSANTE DOS CÍRCULOS MENORES NÃO ACONTECE COMO UM EVENTO E PODE SER SENTIDO  COMO O ANÚNCIO  DE UM NASCIMENTO QUE SÓ PODE ACONTECER NA IMPOSSIBILIDADE

NASCER É UM INCÊNDIO AO CONTRÁRIO

O NOMADISMO DOS CÍRCULOS MENORES É UM NOMADISMO SUFINAMBÀ

O QUE PODERIA ACELERAR INTERNAMENTE O MOVIMENTO INCESSANTE DOS CÍRCULOS MENORES SERIA A ________________________ DAS AUTONOMIAS IMANENTES :

A CRIAÇÃO DAS ESCOLAS DE DESOBEDIÊNCIA CIVIL  E A CONVERSÃO DAS PRISÕES EM UNIVERSIDADES LIVRES POPULARES É A PARTE DISSO QUE PODERIA GERAR OS CÍRCULOS DE VISITAÇÃO DA PRIMEIRA ESCULTURA DO SER * ONDE ESTÁ ESCRITO SER AQUI ENTENDAM COMUNIDADE

A FUSÃO DO DEVIR DOS POVOS-DO-DESERTO COM O DEVIR-TUPINAMBÀ EVOCO COMO O JAGUAR-ORQUÍDEA QUE PODE SER ESCULPIDO PELO SER

o mundo roda o louco em sua chave imanente

NÃO APENAS COMO FORMA MAS COMO ABERTURA PARA A ÁRVORE-MOVENTE QUE PERMITE O ACESSO AS SINAPSES EM ESTADO DE SONO NA COPA DAS ÁRVORES E NOS RIOS  ENCOBERTOS

é preciso trincar o nome das coisas com o surto

trincar o que é nomeado e assim capturado pelos esquemas desnaturantes da máquina de opressão

ESTA PRIMEIRA ARTE ESCULTÓRIA A PARTIR DAS POTÊNCIAS INTUITIVAS DA INTERIORIDADE SEMPRE EVOCANDO OS SABERES FORA DO TEMPO CRONOLÓGICO NO ESTADO MUNDIAL DO CORPO QUE HÁ DENTRO DO SONHAR, DA CONVERSA IMANENTE E DE GRADAÇÕES DE ESTADOS SURTOLÓGICOS

OS MOVIMENTOS DO NOMADISMO EXTERINTERIOR QUE ALIMENTAM OS GESTOS INVISIVEIS QUE COMPÕE OS MOVIMENTOS INCESSANTES DOS CIRCULOS MENORES DO SER QUE PODEMOS EVOCAR COMO DECISÃO SURTOLÓGICA DE NASCER OU COMO REPETIÇÃO QUE GERA DIFERENÇA DE ‘INCÊNDIO AO CONTRÁRIO ‘  ATRAVESSANDO A IMPOSSIBILIDADE DE_____________________________________ POR ISSO O IMPOSSÍVEL É UMA ENERGIA DO PRÉ-DEVIR QUE ESTIMULA A DECISÃO DE NASCER

as conversas-caminhadas-surtos são na dimensão micropolítica da respiração como o movimento das águas-vivas e inauguram o nascimento do estado mundial do corpo

do jaguar-orquídea que canta e dança para o desaparecimento  da nossa imagem  no espelho

A SINGULARIDADE É UMA SÉRIE DE GESTOS DE DISCERNIMENTO DAS MISTURAS ENTRE O CORPO E O MUNDO QUE COMPÕE UMA CIRCULARIDADE  DIALÓGICO-SURTOLÓGICA

são gestos que expandem o nomadismo para regiões psíquícas externas onde a caminhada, a conversa, o sonhar e o surto se  misturam no nomadismo para fora do nome na direção do ser topológico-numinoso

junho de 2013 é um campo movente que se origina no corpo insurrecional

das potências nômades dos rios soterrados e depois migra para a copa das árvores

nanoêxtase  para a criação de novas temporalidades

para a desfantasmagorização pela via do campo-dança-surto do devir-jaguar-orquídea que como o devir-negro é

JÁ uma práxis ontológica

O DEVIR NEGRO INAUGURA O QUILOMBO INTERIOR DE CADA SER

É UM IRMÃO SIAMÊS DOS MOVIMENTOS DO JAGUAR-ORQUÍDEA

AMBOS SEM NENHUMA RELAÇÃO COM O PENSAMENTO BINÁRIO

IRÃO ASSASSINAR O ANJO DA HISTÓRIA * NOSSO INIMIGO

PELO VOO DESNOMEADOR DO PÁSSARO DA ETERNIDADE

e todos nós podemos sentir o que é o seu cantar no fundo de todos os sonhos

os círculos menores e sua expansão biogeonanocosmopolitica

NOMÁDICA

levam para a mestiçagem da floresta do quilombo , das aldeias que são

a placenta rizomática das potências surtológicas insurrecionais

que se mannifestam principalmente como AMIZADE

É DA CONVERSA SILENCIOSA DOS AMIGOSAMIGAS

QUE CRIA OS DUPLOS INCENDIADOS DAS TRANSPARÊNCIAS

o incêndio das projeções identitárias

E DA TERCEIRA CAMADA IMPESSOAL  DO SER

que surgirão as estratégias para a destruição das máquinas de opressão

ENTRE O CÍRCULO MAIOR E O MENOR

ESTÁ O DESERTO

E EM NÓS A FLORESTA

E OS RIOS ONDE O JAGUAR-ORQUÍDEA

NOS ESPERA

NO LUGAR DE NOSSO NOME

LUGAR-PÓLEN RESERVA DE IMPESSOALIDADES IMANENTES

  QUE NOS FARÁ NASCER

mas não somos nós que devemos nascer

mas os sopros de atravessamento

irradiados pela expansão topológica do nosso corpo

emanando memórias de sensações impossíveis

de serem capturadas

memórias do futuro

* não acaba aqui , não começa aqui

** Lido durante a abertura do Seminário Novos Povoamentos na PUC-SP em 12 de junho de 2018

Do livro inédito O TREMOR ESSENCIAL DA MATÉRIA ESCURA

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