poesia, tradução

Paul Éluard, por Natan Schäfer

Paul Éluard por Cartier-Bresson, 1944.

Paul Éluard (1895 – 1952) resistiu. Fazendo nossa sua voz, resistimos.

Deixo que, em nossa língua, o próprio Éluard comente seus poemas:

“(…) e alguns outros poemas cujo sentido não deixam sombra de dúvida quanto ao objetivo visado: reencontrar a liberdade de expressão para atacar os ocupantes. Então, por toda França, vozes se respondem, cantando para encobrir os pesados murmúrios da besta, para que triunfem os vivos, para fazer desaparecer a vergonha. Cantar, lutar, gritar, batalhar e se salvar. (…)

Mas era preciso que a poesia tomasse parte na resistência. Ela não podia continuar por mais muito tempo brincando com as palavras sem correr riscos. Enfim, ela pôs tudo a perder para acabar com as brincadeiras e se fundir no seu eterno reflexo: a verdade mais nua, mais pobre, mais ardente e eternamente bela. E se digo “eternamente bela” é porque no coração dos homens ela ocupa um lugar de estima, o lugar de toda beleza, tornando-se a única virtude, o único bem. Um bem incomensurável”.

In: Éluard, Paul. Au rendez-vous allemand. “Raisons d’écrire, entre autres, et bibliographie”, p . 78.

* * *

Depois de tantos anos [Éluard, Paul. Poèmes politiques, 1948. Oeuvres II, p. 225. “Après tant d’anées”]

Depois de tantos anos de martírio
De tantos anos-pó muito mais longos
Que anos-luz seguindo um astro perdido
De novo miséria a dar e vender
Por nada, que pra nós não é palavra

Lutando e trabalhando falimos
O desespero deita onde dormimos
Sonhamos abraçar saúde e jovens
A boca e a cabeça ainda sonham
A vida vai mudar como um infante

Não desesperamos, sobrevivemos
Tudo nunca foi tão duro tão obscuro
Mas a noite não misturou-se ao sangue
Mais um passo juntos rompe-se o beco
Dando a nós todos o bem e um rumo.

Après tant d’années

 Après tant d’années passées à souffrir
Tant d’années-poussière au souffle plus long
Qu’années-lumière vers un astre disparu
Nous retrouvons misère à vendre et à revendre
Pour rien et rien n’est pas un pour nous

 Notre combat notre travail font-ils faillite
Le désespoir s’est-il couché dans notre lit
Nous rêvions d’embrasser la santé la jeunesse
Sur la bouche et le front nous en rêvons encore
Notre vie changera comme change un enfant

 Nous n’avons pas désesperé nous survivons
Tout a été plus dur plus obscur que jamais
Mais la nuit ne s’est pas mêlée à notre sang
Un pas de plus ensemble et le sentier se rompt
Pour nous offrir à tous notre bien notre route.

§

 De um tempo futuro [Éluard, Paul. Pouvoir tout dire, 1948. Oeuvres II, p. 373. “D’un temps futur”]

As prisões foram fechadas aos prisioneiros
Elas se tornaram rochedos em meio a multidão
Falo isso assim como respiro
Se estivessem abertas eu estaria lá dentro
Todo mundo está fora.

*

O trabalho está vivo
O cansaço está feliz
Além disso eu respiro
Usando meu próprio peito.

*

As ruas as casas as campinas as florestas
Cintilam um mesmo brilho cada qual com seu sol
As nuvens se dispersaram
Uma multidão de sóis paira no ar
E o amor é mútuo
E a emoção é geral

Já nem me lembro mais
Do passado desolador.

D’un temps futur

Les prisons sont fermées aux prisonniers
Elles sont devenues des rochers dans la foule
J’en parle comme je respire
Si elles étaient ouvertes je serais dedans
Tout le monde est dehors 

*

Le travail est vivant
La fatigue est joyeuse
Je respire au-delà
De ma propre poitrine. 

*

Le rues et les maisons les prés et les forêts
Brillent d’un même éclat chacun a son soleil
Il y a une foule de soleils dans l’air
Et l’amour est mutuel
Et l’émotion est générale

 Je ne me souviens pas
Du passé désolant.

§

Não são mãos de gigantes [Éluard, Paul. Poesie initerrompue: Abolir les mystères, 1953. Oeuvres II, p. 692. “Ce ne sont pas mais de géants”]

Não são mãos de gigantes
Não são mãos de gênios
Que forjaram o crime e nossos grilhões

São mãos acostumadas a si mesmas
Vazias de amor vazias de mundo
Mãos que os mais ordinário dos mortais não apertou

Ela se tornaram cegas estranhas
A tudo aquilo que não é besta caça
Seu prazer parece o fogo nu do deserto

Seus dez dedos multiplicam zeros nas contas
Que levam somente às profundezas da falência
E sua habilidade lhes enche de nada

Essas mãos seguram a popa ao invés da proa
O crepúsculo ao invés da alvorada reluzente
E segmentando o ímpeto anulam toda esperança

Não são mãos de condenados sempiternos
Pela multidão em festa descendente do dia
Em que todo mundo poderia ser justo para sempre

E poderia rir de saber que não está só na terra
Decidindo sua conduta em virtude de seus irmãos
Em prol de uma felicidade única onde o riso seja lei

É preciso entre nossas mãos mais numerosas
Esmigalhar a morte idiota abolir os mistérios
Construir a razão de nascer e viver feliz.

Ce ne sont pas mais de géants

Ce ne sont pas mains de géants
Ce ne sont pas mains de génies
Qui ont forgé nos chaînes ni le crime

 Ce sont de mains habituées à elles-mêmes
Vides d’amour vides du monde
Le commun des mortels ne les a pas serrées

Elles sont devenues aveugles étrangères
A tout ce qui n’est pas bêtement une proie
Leur plaisir s’assimile au feu nu du désert

 Leurs dix doigt multiplient des zéros dans des comptes
Qui ne mènent à rien qu’au fin fond des faillites
Et leur habileté les comble de néant

Ces mains sont à la poupe au lieu d’être à la proue
Au crépuscule au lieu d’être à l’aube éclatante
Et divisant l’élan annulent tout espoir

Ce ne sont que des mains condamnées de tout temps
Par la foule joyeuse qui descend du jour
Où chacun pourrait être juste à tout jamais

 Et rire de savoir qu’il n’est pas seul sur terre
A vouloir se conduire en vertu de ses frères
Pour un bonheur unique où rire est une loi

 Il faut entre nos mains qui sont les plus nombreuses
Broyer la mort idiote abolir les mystères
Construire la raison de naître et vivre heureux.

§

Àquela com quem sonham [Éluard, Paul. Au rendez-vous allemand. “À celle dont ils rêvent”, p. 36]

Novecentos mil prisioneiros
Mais de quinhentos mil políticos
E um milhão de trabalhadores

Senhora dos sonhos do povo
Dai-lhes ainda mais força humana
Alegria de estar no mundo
Dai-lhes em meio a sombra imensa
Os lábios de um amor doce
Que faça esquecer o sofrer

Senhora do sono do povo
Moça mulher irmã e mãe
De seios inchados de beijos
Dai-lhes este nosso país
Tal qual eles sempre estimaram
Um país louco por viver

Um país onde cante o vinho
Onde a colheita é generosa
Onde a criançada é sapeca
Onde os velhinhos são mais finos
Que pomares brancos de flores

Novecentos mil prisioneiros
Mais de quinhentos mil políticos
E um milhão de trabalhadores

Senhora dos sonhos do povo
Neve negra de noites brancas
Atravessando um fogo exangue
Santa Alva branca bengala
Fazei-lhes ver caminhos novos
Além da sua cela de tábuas

Pagos para que conhecessem
As piores forças do mal
Entretanto não se curvaram
Mesmo crivados de virtudes
Assim como de ferimentos
Porque a si sobreviveram

Senhora do descansar
Senhora do despertar
Dai a liberdade ao povo e
Deixe a vergonha de
Crer na vergonha ainda que
Para aniquilar-lhe.

À celles dont ils rêvent

Neuf cent mille prisonniers
Cinq cent mille politiques
Un million de travailleurs

Maîtresse de leur sommeil
Donne-leur des force d’homme
Le bonheur d’être sur terre
Donne-leur dans l’ombre immense
Les lèvres d’un amour doux
Comme l’oubli des souffrances

Maîtresse de leurs sommeil
Fille femme soeur et mère
Aux seins gonflés de baisers
Donne-leur notre pays
Tel qu’ils l’ont toujours chéri
Un pays fou de la vie

 Un pays où le vin chante
Où les moissons ont bon coeur
Où les enfants sont malins
Où les vieillards sont plus fins
Qu’arbres à fruits blancs de fleurs
Où l’on peut parler aux femmes

Neuf cent mille prisonniers
Cinq cent mille politiques
Un million de travailleurs

Maîtresse de leur sommeil
Neige noire des nuit blanches
À travers un feu exsangue
Sainte Aube à la canne blanche
Fais-leur voir un chemin neuf
Hors de leur prison de planches

Ils sont payés pour connaître
Les pires forces du mal
Pourtant ils ont tenu bon
Ils sont criblés de vertus
Tout autant que de blessures
Car il faut qu’ils se survivent

Maîtresse de leur repos
Maîtresse de leur éveil
Donne-leur la liberté
Mais garde-nous notre honte
D’avoir pu croire à la honte
Même pour l’anéantir.

§

Marielle [Éluard, Paul. Rendez-vous allemand. “Gabriel Péri”, p.41]

Morreu uma mulher que se escudava
Só com seus braços abertos à vida
Morreu uma mulher que só seguia
O caminho do ódio ao revólver
Morreu uma mulher que ainda briga
Contra o esquecimento e a morte

O que era seu desejo
Nós queremos também
E agora nos convém
Que a alegria seja um candeeiro
No fundo do olhar e do peito
E a justiça no mundo inteiro

Há palavras que nos dão vida
E são palavras inocentes
Por exemplo calor confiança
Justiça amor e também liberdade
A palavra gentileza ou criança
E alguns nomes de flores e nomes de frutos
Coragem e a palavra descobrir
E alguns nomes de países cidades
E alguns nomes de amigos e mulheres
Adicionamos Marielle
Marielle morreu pelo que nos faz viver
Nossa amiga perfuraram seu peito
Mas você fez que com nos conhecêssemos
Sejamos amigos seu sonho segue vivo

Gabriel Péri

Un homme est mort qui n’avait pour défense
Que ses bras ouverts à la vie
Un homme est mort qui n’avait d’autre route
Que celle où l’on hait le fusils
Un homme est mort qui continue la lutte
Contre la mort contre l’oubli

Car tout ce qu’il voulait
Nous le voulions aussi
Nous le voulons aujourd’hui
Que le bonheur soit la lumière
Au fond des yeux au fond du coeur
Et la justice sur la terre

Il y des mots qui font vivre
Et ce sont des mot innocents
Le mot chaleur le mot confiance
Amour justice et le mot liberté
Le mot enfant et le mot gentillesse
Et certain noms de fleurs et certains noms de fruits
Le mot courage et le mot découvrir
Et le mot frère et le mot camarade
Et certains noms de pays et villages
Et certains noms de femmes et d’amis
Ajoutons-y Péri
Péri est mort pour ce qui nous fait vivre
Tutoyons-le sa poitrine est trouée
Mais grâce à lui nous nous connaissons mieux
Tutoyons-nous son espoir est vivant.

§

O mesmo dia para todos [Éluard, Paul. Rendez-vous allemand. “Le même jour pour tous”, p.46]

I

A espada que evita o peito do chefe dos culpados
Se enfia no coração dos pobres e inocentes

O olhar primeiro é da inocência
E o segundo é o da pobreza
Há que se saber protegê-los

Não quero condenar o amor
Por não ter matado o ódio
E aqueles que o despertaram

II

Caminha um passarinho por imensas terras
Onde o sol tem asas

III

Ela ria a minha volta
A minha volta despida
Era como uma floresta
Uma turba de mulheres
A minha volta

Como uma armadura contra o deserto
Como uma armadura contra injustiça

A injustiça dava em todos
Estrela singular estrela inerte de um céu gordo que é a privação de luz
A injustiça golpeava os inocentes e os heróis os sem piedade
Quem sabe um dia aptos a administrarem

Pois os ouvi dar risada
No seu sangue e na beleza
Na miséria e na tortura
Rindo um riso por vir
Rindo para a vida e nascendo ao rir.

19 de novembro de 1944

Le même jour pour tous

I

L’épée qu’on enfonce pas dans le coeur des maîtres des coupables

On l’enfonce dans le coeur des pauvres et des innocents

Les premiers yeux sont d’innocence
Et les seconds de pauvreté
Il faut savoir les protéger

Je ne veux condamner l’amour
Que si je ne tue pas la haine
Et ceux qui me l’ont inspirée 

II

Un petit oiseau marche dans d’immenses régions
Où le soleil a des ailes

 III

Elle riait autour de moi
Autour de moi elle était nue

Elle était comme une forêt
Comme une foule de femmes
Autour de moi

Comme une armure contre le désert
Comme une armure contre l’injustice

L’injustice frappait partout
Étoile unique étoile inerte d’un ciel gras qui est la privation de lumière
L’injustice frappait les innocents et les héros les insensés
Qui sauront un jour régner 

Car je les entendais rire
Dans leur sang dans leur beauté
Dans la misère et les tortures
Rire d’un rire à venir
Rire à la vie et naître au rire. 

19 novembre 1944

§

Fazer viver [Éluard, Paul. Rendez-vous allemand. “Faire vivre”, p. 54]

Eram somente alguns vivendo na noite
Sonhando com um céu carinhoso
Eram somente alguns que amavam a floresta
E que acreditavam na lenha em chamas
Ainda que distante lhes alegrava o aroma das flores
Cobertos pela nudez de seus desejos

Reuniam no peito o fôlego em compasso
Com este nada de ambição da vida no mato
Que cresce no verão como um verão ainda mais intenso

Reuniam no peito a esperança dos tempos que vêm vindo
E que saúdam mesmo de longe um outro tempo

Um pouquinho de sono
Lhes entregava o sol do futuro
Resistiam sabiam que viver eterniza

E suas necessidades obscuras engendravam a clareza.

*

Não passavam de uns poucos
Subitamente se tornaram multidão

Desde sempre isso acontece.

Faire vivre 

Ils étaient quelques-uns qui vivaient dans la nuit
En rêvant du ciel caressant
Ils étaient quelques-uns qui aimaient la forêt
Et qui croyaient au bois brûlant
L’odeur des fleurs les ravissait même de loin
La nudité de leurs désirs les recouvrait

Ils joignaient dans leur coeur le souffle mesuré
À ce rien d’ambition de la vie naturelle
Qui grandit dans l’été comme un été plus fort 

Ils joignaient dans leur coeur l’espoir du temps qui vient
Et qui salue même de loin un autre temps
À des amours plus obstinées que le désert 

Un tout petit peu de sommeil
Les rendait au soleil futur
Ils duraient ils savaient que vivre perpétue 

Et leurs besoins obscurs engendraient la clarté.

§

Logo [Éluard, Paul. Rendez-vous allemand. “Biêntot”, p. 64”]

Das primaveras do mundo
Esta é a mais terrível
Do meus modos de ter sido
Confiante é meu preferido

Feito a pedra ergue a tumba
A grama ergue a neve branca
Durmo sob bruta chuva
E acordo meus olhos claros

Lento e miúdo tempo afunda
Onde passaria a rua
Por minhas íntimas fugas
Para que eu encontre alguém

Não escuto mais os monstros
Disseram tudo já os conheço
Vejo apenas rostos lindos
Rostos lindos com certeza

De logo aniquilar os chefes.

Biêntot 

De tous les printemps du monde
Celui-ci est le plus laid
Entre toutes mes façons d’être
La confiante est la meilleure

L’herbe soulève la neige
Comme la pierre d’un tombeau
Moi je dors dans la tempête
Et je m’éveille les yeux clairs

Le lent le petit temps s’achève
Où toute rue devait passer
Par me plus intimes retraites
Pour que je rencontre quelq’un

Je n’entends pas parler les monstres
Je les connais ils ont tout dit
Je ne vois que les beaux visages
Les bons visages sûrs d’eux mêmes

Sûrs de ruiner bientôt leurs maîtres.

§

De fora [Éluard, Paul. Rendez-vous allemand. “Du dehors”, p. 69]

A noite o frio a solidão
Me encerraram com cuidado
Mas na cela abriam caminho os galhos
Grama e céu se encontravam a minha volta
Encarceram o céu
Desmoronou a prisão
Segurou-me nas mãos o frio ardente e vivo.

Du dehors

La nuit le froid la solitude
On m’enferma soigneusement
Mais les branches cherchaient leur voie dans la prison
Autour de moi l’herbe trouva le ciel
On verrouilla le ciel
Ma prison s’écroula
Le froid vivant le froid brûlant m’eut bien en main.

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