poesia, tradução

Gary Snyder, por André Mendo

Gary Snyder é o mais conhecido expoente norte-americano da poesia da vida selvagem, do ambientalismo e do Zen Budismo. É considerado herdeiro da escrita natural de Walt Whitman e Henry David Thoreau e seu estilo simples e imagístico revela as influências de William Carlos Williams e Ezra Pound. O poeta, que nasceu em São Francisco, EUA, em 1930, descende dos pioneiros que marcharam para o Oeste, desbravando novas fronteiras em busca de prosperidade e aventura. Seus ancestrais “exterminaram o puma e o urso-cinzento”, mas ele trilha um caminho diferente. Desde jovem, desenvolveu uma forte reverência pela natureza. A proximidade com mamíferos, insetos, árvores, rios e montanhas, observados sob uma ótica familiarizada com estudos sobre nativos norte-americanos e culturas orientais, constitui não só a matéria de sua poesia e ensaios, mas também seu estilo de vida. Snyder é outro tipo de pioneiro, um que se move em direção à conexão perdida entre o homem e a natureza.

O poeta cresceu em uma família que conheceu a severidade da vida no campo, mas que também teve a oportunidade de aprender a trabalhar em um ambiente bastante autossuficiente e de produção variada. Em casa, cercado de literatura socialista, era encorajado pela mãe a ler. Sua infância foi ainda marcada pela proximidade com os índios Salish e seus rituais e crenças. Todas essas lembranças ressoam em uma instância peculiar dos escritos de Snyder: a necessidade de transformar a sociedade por sua relação com a natureza. Seus versos ilustram esse desejo de igualdade entre as pessoas e entre pessoas e animais.

Snyder graduou-se em antropologia e literatura enquanto ocupava-se de uma série de atividades junto à natureza, como lenhador, marinheiro e guarda florestal. Estudou japonês e chinês e tornou-se tradutor desses idiomas. Em 1955, participou da leitura na Six Gallery em São Francisco que inaugurou o movimento Beat. Em 1956, deixou os EUA para uma residência de 12 anos na Ásia, a maior parte no Japão, onde imergiu na prática zen budista. Em 1959, publicou seu primeiro livro de poemas, Riprap. Snyder voltou os EUA em 1969 e construiu uma casa no sopé setentrional de Sierra Nevada, onde ainda vive. Desde 1985, leciona na Universidade da Califórnia, Davis.

A poesia de Snyder não é puramente intelectual, mas sobretudo empírica, pois deriva de sua experiência imediata junto à natureza selvagem. Seus poemas apresentam traços confessionais derivados de seu estado de contemplação haicaística diante da natureza, de sua ligação emocional com lugares e animais e de sua preocupação com o meio ambiente e o amadurecimento da sociedade no sentido de se aproximar do mundo natural. Os poemas seguintes e outros foram reunidos com um conjunto de ensaios na edição Turtle Island, que venceu o Prêmio Pulitzer em 1975. Turtle Island (Ilha da Tartaruga) é um nome antigo do continente norte-americano resgatado por Snyder ao nomear sua coletânea escrita entre 1969 e 1974.

André Mendo é graduado em Estudos Literários de Língua Inglesa pela UFPR, onde apresentou a monografia Um conselho de aldeia de todos os seres: a animalidade em Turtle Island, do poeta Gary Snyder, donde foram tiradas as traduções abaixo.

* * *

Anasazi

Anasazi,
Anasazi,

Enfiados nas fendas das falésias
cultivando estreitos campos de milho e feijão
afundando cada vez mais na terra
até o quadril nos Deuses
        sua cabeça coberta por penas de águia
        & relâmpagos pelos joelhos e cotovelos
seus olhos cheios de pólen

        o cheiro de morcegos
        o sabor de arenito
        sorriem na língua

        mulheres
        dando à luz
ao pé das escadas no escuro

córregos gotejando em cânions ocultos
sob o deserto móvel e gélido

cesta de milho                        olhos arregalados
bebê vermelho
na casa na borda da pedra,

Anasazi

§ 

Canção da pega[1]

Seis da manhã,
Sentado no cascalho de escavação
junto ao zimbro e as trilhas desertas de S.P.
interestadual 80 não muito longe
          entre caminhões
Coiotes–talvez três
          uivando e latindo de uma elevação

A pega em um ramo
Inclinou a cabeça e disse

          “Aqui na mente, irmão
          Azul turquesa.
          Eu não te enganaria.
          Sinta o cheiro da brisa
          Veio por todas as árvores
          Não precisa temer
          O que está por vir
          Neve nas montanhas a oeste
          Estará lá todos os anos
          Fica tranquilo
          Uma pena no chão–
          O som do vento–

Aqui na Mente, Irmão
Azul turquesa”

§

Linhas de frente

A borda do câncer
Dilata contra a colina–nós sentimos
                      uma brisa fétida
E ela afunda de volta.
O inverno do cervo aqui
Uma serra elétrica rosna no desfiladeiro

Dez dias úmidos e os caminhões de toras param,
As árvores respiram.
Domingo, o jipe tração 4 rodas da
Companhia Imobiliária traz
Os especuladores de terras, olheiros, eles dizem
À terra
Abra as pernas.

O estrondo dos jatos sobre nossas cabeças está OK aqui;
Cada pulsar podre no coração
Nas veias gordurosas e doentes da Amerika
Empurra a borda mais perto–

Uma escavadeira que brita e remenda
Desliza e cospe fumaça em cima
Dos corpos esfolados de arbustos ainda vivos
No pagamento de um cara
Da cidade.

Atrás é uma floresta que vai até o Ártico
E um deserto que ainda pertence aos Piute
E aqui devemos desenhar
Nossa linha.

§

 Mãe Terra: suas baleias

Uma coruja cintila nas sombras
Um lagarto ergue-se na ponta dos pés, respirando pesado
O jovem pardal masculino estica o pescoço
                      grande cabeça, observando–

A grama está trabalhando ao sol. Torna-o verde.
Torna-o doce. Para que possamos comer.
Cultivam nossa carne.

O Brasil diz “uso soberano dos Recursos Naturais”
Trinta mil tipos de plantas desconhecidas.
As pessoas reais vivas da selva
          vendidas e torturadas–
E um robô de terno que vende uma ilusão chamada “Brasil”
          pode falar por eles?

          As baleias giram e reluzem, mergulham
                      e assoviam e sobem de novo,
          Suspensas sobre profundezas sutilmente escurecedoras
          Fluindo como planetas que respiram
                      Em espirais espumantes de
                                luz viva–

E o Japão sofisma com palavras em
          que tipos de baleias eles podem matar?
Uma antiga grande nação budista
          pinga metilmercúrio
          como gonorreia
                      no mar.

O cervo de Père David, o Elaphure,
Vivia nos charcos de junco do rio Amarelo
Há dois mil anos–e perdeu seu lar para o arroz–
As florestas de Lo-yang foram desmatadas e todo o lodo &
A areia escorreram, e se foram, até 1200 AD–

Gansos Selvagens chocados na Sibéria
          seguiam para o sul sobre as bacias do Yang, o Huang,
          o que chamamos de “China”
Em voos eles usaram um milhão de anos.
Ah China, onde estão os tigres, os javalis,
          os macacos,
                      como as neves do passado
Desaparecidos em uma névoa, um clarão, e o chão seco e duro
É o estacionamento para cinquenta mil caminhões.
SERÁ homem o mais precioso de todas essas coisas?
–então, vamos amá-lo, e seus irmãos, todos aqueles
Desaparecendo, seres vivos–

América do Norte, Ilha da Tartaruga, tomadas por invasores
          que fazem guerra contra o mundo.
Podem formigas, moluscos, lontras, lobos e alces
Levantem-se! E afastem suas dádivas
          das nações robóticas.

Solidariedade. As pessoas.
De pé. Pessoas árvores!
Pessoa pássaro voando!
Pessoas do mar nadando!
De quatro pés, de duas pernas, pessoas!

Como pode o cientista político cabeça-pesada com fome de poder
Governo        dois mundos    Capitalista-Imperialista
Terceiro-mundo        Comunista       macho baralha-papel
          não-fazendeiros          milionários      burocratas
Falam pelo verde da folha? Falam pelo solo?

(Ah Margaret Mead . . . às vezes você sonha com Samoa?)

Os robôs argumentam como distribuir nossa Mãe Terra
Para durar um pouco mais
          como abutres batendo as asas
Arrotando, gorgolejando,
          ao lado de um Alce moribundo.

“No outro lado, está deitado um cavaleiro morto–
Vamos voar até ele e comer seus olhos
                      com um down
          derry derry derry down down. “

                      Uma coruja cintila na sombra
                      Um lagarto levanta na ponta dos pés
                                  respirando pesado
                      As baleias giram e reluzem
                                  mergulham e
                      Assovia, e sobem de novo
                      Fluindo como planetas que respiram

                      Nas espirais espumantes

                      De luz viva.

                                              Estocolmo: solstício de verão 40072

§

Ninguém deve falar a um caçador habilidoso sobre o que é proibido pelo Buda

                                                          –Hsiang-yen

Uma raposa cinza, fêmea, quatro quilos
um metro de comprimento com a cauda
A pele do dorso esfolada (Kai
nos lembrou de cantar o Shingyo antes)
pele gelada, enrugada; e o cheiro almiscarado
misturado com o corpo morto começando a cheirar.

Conteúdo estomacal: um esquilo-terrestre inteiro bem mastigado
mais um pé de lagarto
e em algum lugar do interior do esquilo-terrestre
um pedaço de papel alumínio.

O segredo.
e o segredo escondido lá no fundo disso.

Fogo é uma velha história
Eu gostaria,
com um útil senso de ordem,
com respeito pelas leis
da natureza,
de ajudar minha terra
com uma queimada, uma quente e limpa
queimada.
          (as sementes de manzanita só abrirão
          depois que um incêndio ocorrer
          ou uma vez espalhada por um urso)

E então
seria mais
como,
quando pertencia aos índios

Antes.

§

O Caminho do Oeste, subterrâneo

O cedro-dividido
salmão defumado
dias nublados do Oregon,
florestas espessas de abeto.

                      Cabeças de UrsoNegro          colina acima
                      No condado de Plumas,
                      fundo redondo escorrendo pelos salgueiros–

A Mulher do Urso move-se costa acima

                      onde arbustos de amoras
                      vagueiam nos regatos.

E ao redor da curva das ilhas
Vulcões brumosos
em direção ao norte do Japão. Os ursos
& lanças de peixes dos Ainu.
Gyliak.
Curandeiro com visão de cogumelos
Tambor plano sozinho
de muito antes da China.

Mulheres com tambores que voam sobre o Tibete.

Seguindo as florestas a oeste, e
rolando, seguindo a savana
rastreando ursos e cogumelos,
comendo bagas todo o caminho.
Na Finlândia por fim tomou um banho:
                      como a Tenda de Suor de sequóia no Klamath–
todos os finlandeses em mocassins e
chapéus pontudos com manchas brancas,
urtigas, armadilhas, banhos,
cantando de mãos dadas, enquanto

gangorrando em um banco, uma visão de amor–

Karhu-Bjorn-Braun-Bear

                      [clarão arco-íris grande nuvem árvore
                                  diálogos de aves]

Europa.         ‘O Oeste.’
os ursos se foram
                                              exceto Brunhilde?

ou as deusas mais antigas mais selvagens renascidas–vão correr
          as ruas da França e da Espanha
          com armas automáticas–
          na Espanha,
Ursos e Bisão,
Mãos Vermelhas com dedos faltando,
Labirintos de cogumelos vermelhos;
labirintos relâmpagos,
Pintados em cavernas,

Subterrâneos.

§

Os mortos ao lado da estrada

Como um grande Falcão-de-cauda-vermelha
          veio deitar–todo rígido e seco–
                      na margem da
                                  Interestadual 5?

Suas asas para leques

Zac esfolou um gambá com a cabeça esmagada
          lavou a pele em gasolina; ela pende,
                      curtida, na tenda dele

Cozido de alce no Halloween
          atingido por um caminhão na rodovia quarenta e nove
                      oferecer farinha de milho pela boca;
                                  esfolá-lo.

Caminhões de toras circulam com combustível fóssil

Nunca vi um Guaxinim até que encontrei um na estrada:
          tirei a pele dele e deixei as unhas dos pés
                      as solas das patas, o nariz e os bigodes;
                                  está de molho em água e sal
                                  salmoura de ácido sulfúrico;

ela será uma bolsa para ferramentas mágicas.

O Veado foi aparentemente baleado
          de comprido e pelo lado
                      ombro e o flanco de fora
                                  a barriga cheia de sangue

O outro ombro pode ser salvo
          se ela não ficasse muito tempo deitada–
Rezar por seus espíritos. Pedir que nos abençoem:
          as trilhas das nossas antigas irmãs
                      as estradas foram colocadas e os mataram:
                                  olhos-brilhantes-da-noite

Os mortos ao lado da estrada.

§

Primavera no Vale do Coiote

Filhotes
rolam nas folhas úmidas
Cervo, urso, esquilo.
ventos frescos varrem as
estrelas da primavera.
pedras se despedaçam
a lama profunda endurece
sob colinas pesadas.

Coisas moventes
pássaros, ervas,
deslizam pelo ar
através de olhos e ouvidos,

Vale do Coiote. Olema
na primavera.
Flor de toloache alva e solene

e muito longe no tamal
um povo perdido
flutua

em barquinhos de junco.

§

R R R M L

A própria morte,
          (Reator de Reprodução Rápida com Metal Líquido)
          está sorrindo, acenando.
Plutônio dente-fosforescente.
Sobrancelhas zumbindo.
Foice de garimpo.

Kālī dança no pau morto duro.

          Latas de cerveja de alumínio, colheres de plástico,
folheados de madeira compensada, tubo de PVC, coberturas de vinil,
          não queimam exatamente, não apodrecem totalmente,
          inundam-nos,

          roupões e trajes
          do Kālī-yüga

                      fim dos dias.

[1] A pega ou pega-rabuda (pronuncia-se o “e” fechado) é uma ave da família dos corvos, preta e branca, comum em várias regiões do Hemisfério Norte, o que inclui a costa oriental dos EUA, onde Snyder vive e trabalha. A ave costuma frequentar áreas semiurbanas e pode ser avistada nos arredores das cidades e em parques urbanos.

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