crítica, poesia

De-estar, entrestrelas: 2 poemas de Age de Carvalho, com um comentário de Mayara Ribeiro Guimarães

SEGUES A TUA ESTRELA,
embaixo,
além-nuvens, o fulgurante mergulho
no subcéu interior.

Teu ovário está lindo,

são quatro novos folículos
em posição,
feno e berço da hipótese deposta
à tua porta,

                       bem-vindas

as quatro estrelas subterrâneas
abrilhantando a noite possante
de teu ventre

em cripta.

§

VACILA O DIA. A chama,
refugiada em ti,
vela sobre a maçã descorada
do coração.

Enoitece. Confiscada,
a fé, em débito
por quem cambia nada
por nada
em radiante apostasia,
cintila, cintila ainda
sob a asa imantada do cristo-
prepúcio — a oração florescendo
da carne, estrela e anúncio
te procuram, em vão.

Dobra o coração.

Pede.

§§§

O próximo livro de Age de Carvalho, ainda sem plano de publicação, leva o instigante título De-estar, entrestrelas. Carregando a semântica da expressão em língua inglesa “from the stars” para esse “de-estar”, convoca o idioma do outro, na tradução-apropriação, ao interior do seu, no corpo-a-corpo com a língua, nela inventando várias outras, em sua contração e expansão, como o desenho das nuvens no céu — pois são o céu e as estrelas o motivo central desses poemas inéditos.

Ou, em linguagem mais clássica, o Firmamento e as Plêiades. Clássica porque, também aqui, Age recorre a certas leituras presentes em seus livros anteriores: Safo, Catulo, Dante. No momento o livro ainda é work in progress, mas já conta com cerca de 50 poemas, dois deles apresentados aqui em primeira mão na escamandro.

O primeiro poema inicia uma ascese invertida em mergulho ao céu/útero da mulher. Subvertendo os sinais, o mergulho é interno e para baixo, engendrando um outro céu, à semelhança-diferença do que guarda nossas cabeças, expondo um firmamento de folículos/estrelas, pulsante fulgor a postos para a fecundação. Uma voz narrativa intromete-se no texto, elogio a esse céu interior, dando tom informal à densidade lírica do poema. O céu é também berço — manjedoura remetente ao nascimento do infante-mor, sempre ressurgido a cada nova criança, o milagre do Cristo vindouro a cada renovada Noite de Reis. Redourada a questão sobre nascer, renascer. Mas este céu é também berço-cripta — a potente imagem central do poema —, berço do ser ainda não nascido, pura conjectura, expectativa silente da hipótese-mundo que bate à porta e sela o destino.

As estrelas subterrâneas — imagem poderosa que acende este ovário-poema todo luz — iluminam, guiam, a galope, ao possante receptáculo-cripta: igreja que acolhe o ato dos amantes, berço subterrâneo de uma possibilidade ainda não nascida.

O segundo poema trata das coisas inexplicáveis do fervor. “Vacila o dia” introduz a atmosfera e o espírito do que é dito. Quando é que o dia vacila? Não é ele e sim o sujeito quem vacila, na dúvida, na descrença, no dilaceramento interno, no cansaço da vida, que quase se apaga, junto à vela (que no poema é verbo e substantivo simultaneamente).

A chama da vela estremece. Como o coração. A violência branda da escrita desvia a violência do fim último e torna a passagem do tempo mais suportável.

No poema, a fé, confiscada, quase morta, tenta ainda resistir, cintilando, vinda da carne, ameaçada a todo instante. E que, por isso, vacila. Em relação ao deus? À existência? A uma mulher? O coração é descrente, a fé confiscada: no deus, no amor, na vida? A parte enlutada do poema diz: “cambiar nada por nada”, que a ironia da “radiante apostasia” vem aumentar.

Lembranças de Clarice: “Chego à altura de poder cair, escolho, estremeço e desisto, e, finalmente, me voltando à minha queda, despessoal, sem voz própria, finalmente sem mim – eis que tudo o que não tenho é que é meu. Desisto e quanto menos sou mais viva, quanto mais perco o meu nome mais me chamam”.

E mesmo o “cristo-prepúcio”, no momento de tensão em que o discurso parece querer se dessacralizar, traz ainda a marca da fé, na imagem mais expressamente cristã de todo o poema.

O verbo “Enoitece” levanta a pergunta: por que ‘e’ e não ‘a’? O dicionário diz: “Enoitecer: tornar escuro, cercar de trevas, escurecer”. E diz mais: “Enlutar, entristecer”. Vacila o dia: de amor e de luto. De quem sofre, de quem se despede.

A oração que floresce da carne é sempre profana; a carne ora, mas constata o anúncio de uma busca vã. Vencido, o sujeito dobra o coração e pede. O que, pode-se crer, seja enfim chance e redenção.

Mayara Ribeiro Guimarães

***

Abaixo vão imagens do livro Age de Carvalho: todavida, todavia, publicado recentemente, que reúne a produção de AC nos campos da poesia, do design gráfico e do jornalismo cultural, contando com vasto material iconográfico.
O livro foi organizado por Mayara Ribeiro Guimarães e editado pela Secult/PA. Até o momento, só pode ser comprado em Belém, mas, em breve, à venda também na Livraria da Travessa, no Rio.

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