poesia, tradução

Nicanor Parra, por Joana Barossi e Cide Piquet

Nicanor Parra nasceu em 1914 em San Fabián de Alico, próximo a Chillán. Em 1933 ingressa na Universidade do Chile, onde cursa matemática e física. Em 1937 publica seu primeiro livro de poemas, Cancionero sin nombre, ainda sob a influência de García Lorca. Em 1943, viaja para os Estados Unidos para fazer pós-graduação na Universidade Brown, onde estuda mecânica avançada, e a partir de 1945 passa a lecionar na Universidade do Chile. Entre 1949 e 1952 frequenta cursos em Oxford, quando trava contato com a poesia inglesa. Em 1954, de volta ao Chile, publica seu segundo livro, Poemas y antipoemas, até hoje considerado um marco da poesia sul-americana. A partir daí torna-se um dos poetas mais prolíficos do século XX, com uma obra que se estende por cerca de oitenta anos e compreende mais de vinte livros de poemas, como Versos de salón (1962) e Sermones y prédicas del Cristo de Elqui (1977), e uma série de antologias, exposições visuais, traduções e colaborações artísticas. Em 1969 publica Obra gruesa, reunião de todos os seus poemas escritos até então, e em 1972 lança Artefactos, uma caixa com os poemas-objeto que vinha desenvolvendo desde os anos 1960. Em 1985, época em passa a morar no balneário de Las Cruces, publica Hojas de Parra, com poemas escritos a partir de 1969. Em 2011 é agraciado com o Prêmio Cervantes, e em 2017 surge seu derradeiro livro, a coletânea El último apaga la luz. Faleceu em 23 de janeiro de 2018, aos 103 anos, na casa da família Parra em La Reina.

Os dois poemas abaixo foram tirados de Só para maiores de cem anos é a primeira grande antologia de Nicanor Parra a ser publicada no Brasil, com 75 poemas selecionados e traduzidos por Joana Barossi e Cide Piquet, pela Editora 34.

Joana Barossi é professora, editora e poeta. Estudou Jornalismo, Arquitetura e História da Arte, e é mestranda pela FAU-USP. Trabalhou com desenho de exposições e curadoria e escreveu textos críticos para artistas como Héctor Zamora, Marcelo Cipis, Lina Kim, Guga Szabson e Pablo Saborido. Contribuiu com as revistas Gagarin (Bélgica), Letras Libres (México) e Fórum Permanente (Brasil), entre outras. Foi editora do Projeto Contracondutas (2016), coordenadora editorial da 11ª Bienal de Arquitetura de São Paulo e professora convidada no workshop Travel School da Rhode Island School of Design. Atualmente leciona Arte e Arquitetura na Escola da Cidade, em São Paulo.

Cide Piquet nasceu em Salvador em 1977 e estudou Letras na USP. É editor, tradutor e poeta. Trabalha desde 1999 na Editora 34, atuando nas coleções de poesia e literatura estrangeira. Ministrou cursos sobre edição e tradução na Casa Guilherme de Almeida, na Universidade do Livro e no Curso de Editoração da ECA-USP, entre outros. É autor do livro de poesia malditos sapatos (2013) e da plaquete Poemas e traduções (2017). Publicou traduções de ensaios e poemas em antologias e revistas literárias, e traduziu os livros Histórias para brincar, de Gianni Rodari (2007), e Esta vida: poemas escolhidos, de Raymond Carver (2017, volume em que assina a organização).

* * *

Manifesto

Senhoras e senhores
Esta é nossa última palavra
— Nossa primeira e última palavra —:
Os poetas baixaram do Olimpo.

Para os mais velhos
A poesia foi um objeto de luxo
Mas para nós
É um artigo de primeira necessidade:
Não podemos viver sem poesia.

Diferentemente dos mais velhos
— E digo isso com todo respeito —
Nós sustentamos
Que o poeta não é um alquimista
O poeta é um homem qualquer
Um pedreiro que constrói seu muro:
Um construtor de portas e janelas.

Nós conversamos
Na linguagem do dia a dia
Não acreditamos em signos cabalísticos.

E tem mais:
O poeta está aí
Para que a árvore não cresça torta.

Esta é a nossa mensagem.
Nós denunciamos o poeta demiurgo
O poeta Barata
O poeta Rato de Biblioteca.

Todos esses senhores
— E digo isso com muito respeito —
Devem ser processados e julgados
Por construir castelos no ar
Por desperdiçar espaço e tempo
Escrevendo sonetos à lua
Por agrupar palavras ao acaso
À última moda de Paris.
Para nós, não:
O pensamento não nasce na boca
Nasce no coração do coração.

Nós repudiamos
A poesia de óculos escuros
A poesia de capa e espada
A poesia de chapéu de aba larga.
Por outro lado, propiciamos
A poesia de olhos abertos
A poesia de peito aberto
A poesia de cabeça descoberta.

Não acreditamos em ninfas nem tritões.
A poesia tem que ser isto:
Uma garota rodeada de espigas
Ou não ser absolutamente nada.

Agora sim, no plano político
Eles, nossos avós imediatos,
Nossos bons avós imediatos!
Se refrataram e se dispersaram
Ao passar pelo prisma de cristal.
Uns poucos se tornaram comunistas.
Bom, não sei se o foram de fato.
Suponhamos que foram comunistas
O que sei é o seguinte:
Não foram poetas populares
Foram veneráveis poetas burgueses.

Há que dizer as coisas como são:
Apenas um ou outro
Soube chegar ao coração do povo.
Cada vez que puderam
Se declararam em palavras e ações
Contra a poesia engajada
Contra a poesia do presente
Contra a poesia proletária.

Aceitemos que foram comunistas
Mas a poesia foi um desastre
Surrealismo de segunda mão
Decadentismo de terceira mão
Tábuas velhas devolvidas pelo mar.
Poesia adjetiva
Poesia nasal e gutural
Poesia arbitrária
Poesia copiada dos livros
Poesia baseada
Na revolução da palavra
Quando deveria se fundar
Na revolução das ideias.
Poesia de círculo vicioso
Para meia dúzia de eleitos:
“Liberdade absoluta de expressão”.

Hoje nos persignamos perguntando
Para que escreveriam essas coisas —
Para assustar o pequeno-burguês?
Tempo perdido miseravelmente!
O pequeno-burguês não reage
Senão quando se trata do estômago.

Como vão assustá-lo com poesias!

A situação é esta:
Enquanto eles defendiam
Uma poesia do crepúsculo
Uma poesia da noite
Nós propugnamos
A poesia do amanhecer.
Esta é a nossa mensagem
Os resplendores da poesia
Devem chegar a todos igualmente
A poesia é bastante para todos.

É isso, companheiros
Nós condenamos
— E isto, sim, digo com respeito —
A poesia de pequeno deus
A poesia de vaca sagrada
A poesia de touro furioso.

Contra a poesia das nuvens
Nós opomos
A poesia da terra firme
— Cabeça fria, coração quente
Somos terrafirmistas convictos —
Contra a poesia dos cafés
A poesia da natureza
Contra a poesia de salão
A poesia da praça pública
A poesia de protesto social.

Os poetas baixaram do Olimpo.

Manifiesto

Señoras y señores
Ésta es nuestra última palabra
— Nuestra primera y última palabra —:
Los poetas bajaron del Olimpo.

Para nuestros mayores
La poesía fue un objeto de lujo
Pero para nosotros
Es un artículo de primera necesidad:
No podemos vivir sin poesía.

A diferencia de nuestros mayores
— Y esto lo digo con todo respeto —
Nosotros sostenemos
Que el poeta no es un alquimista
El poeta es un hombre como todos
Un albañil que construye su muro:
Un constructor de puertas y ventanas.
Nosotros conversamos
En el lenguaje de todos los días
No creemos en signos cabalísticos.

Además una cosa:
El poeta está ahí
Para que el árbol no crezca torcido.

Este es nuestro mensaje.
Nosotros denunciamos al poeta demiurgo
Al poeta Barata
Al poeta Ratón de Biblioteca.

Todos estos señores
— Y esto lo digo con mucho respeto —
Deben ser procesados y juzgados
Por construir castillos en el aire
Por malgastar el espacio y el tiempo
Redactando sonetos a la luna
Por agrupar palabras al azar
A la última moda de París.
Para nosotros no:
El pensamiento no nace en la boca
Nace en el corazón del corazón.

Nosotros repudiamos
La poesía de gafas obscuras
La poesía de capa y espada
La poesía de sombrero alón.
Propiciamos en cambio
La poesía a ojo desnudo
La poesía a pecho descubierto
La poesía a cabeza desnuda.

No creemos en ninfas ni tritones.
La poesía tiene que ser esto:
Una muchacha rodeada de espigas
O no ser absolutamente nada.

Ahora bien, en el plano político
Ellos, nuestros abuelos inmediatos
¡Nuestros buenos abuelos inmediatos!
Se refractaron y se dispersaron
Al pasar por el prisma de cristal.
Unos pocos se hicieron comunistas.
Yo no sé si lo fueron realmente.
Supongamos que fueron comunistas
Lo que sé es una cosa:
Que no fueron poetas populares
Fueron unos reverendos poetas burgueses.

Hay que decir las cosas como son:
Solo uno que otro
Supo llegar al corazón del pueblo.
Cada vez que pudieron
Se declararon de palabra y de hecho
Contra la poesía dirigida
Contra la poesía del presente
Contra la poesía proletaria.

Aceptemos que fueron comunistas
Pero la poesía fue un desastre
Surrealismo de segunda mano
Decadentismo de tercera mano
Tablas viejas devueltas por el mar.
Poesía adjetiva
Poesía nasal y gutural
Poesía arbitraria
Poesía copiada de los libros
Poesía basada
En la revolución de la palabra
En circunstancias de que debe fundarse
En la revolución de las ideas.
Poesía de círculo vicioso
Para media docena de elegidos:
“Libertad absoluta de expresión”.

Hoy nos hacemos cruces preguntando
Para qué escribirían esas cosas
¿Para asustar al pequeño burgués?
¡Tiempo perdido miserablemente!
El pequeño burgués no reacciona
Sino cuando se trata del estómago.

¡Qué lo van a asustar con poesías!

La situación es ésta:
Mientras ellos estaban
Por una poesía del crepúsculo
Por una poesía de la noche
Nosotros propugnamos
La poesía del amanecer.
Este es nuestro mensaje
Los resplandores de la poesía
Deben llegar a todos por igual
La poesía alcanza para todos.

Nada más, compañeros
Nosotros condenamos
— Y esto sí que lo digo con respeto —
La poesía de pequeño dios
La poesía de vaca sagrada
La poesía de toro furioso.

Contra la poesía de las nubes
Nosotros oponemos
La poesía de la tierra firme
— Cabeza fría, corazón caliente
Somos tierrafirmistas decididos —
Contra la poesía de café
La poesía de la naturaleza
Contra la poesía de salón
La poesía de la plaza pública
La poesía de protesta social.

Los poetas bajaron del Olimpo.

§

Cartas do poeta que dorme numa cadeira

I

Eu digo as coisas tal como são
Ou sabemos tudo de antemão
Ou nunca saberemos absolutamente nada.

A única coisa que nos permitem
É aprender a falar corretamente.

II

Todas as noites sonho com mulheres
Algumas riem ostensivamente de mim
Outras me acertam um golpe na nuca.
Não me deixam em paz.
Estão em guerra permanente comigo.

Me levanto com cara de trovão.

Do que se deduz que estou louco
Ou pelo menos que estou morto de medo.

III

Custa bastante trabalho crer
Num deus que deixa suas criaturas
Abandonadas à própria sorte
À mercê das ondas da velhice
E das doenças
Pra não dizer nada da morte.

IV

Sou dos que saúdam as carroças.

V

Jovens
Escrevam o que quiserem
No estilo que acharem melhor
Já correu sangue demais por baixo das pontes
Pra continuar acreditando — acredito
Que só se pode seguir um caminho:
Em poesia tudo é permitido.

VI

Doença
                  Decrepitude
                                               e Morte
Dançam como donzelas inocentes
Ao redor do lago dos cisnes
Seminuas
                       bêbadas
Com seus lascivos lábios de coral.

VII

Fica declarado
Que não existem habitantes na lua

Que as cadeiras são mesas
Que as borboletas são flores em movimento perpétuo
Que a verdade é um erro coletivo
Que o espírito morre com o corpo

Fica declarado
que as rugas não são cicatrizes.

VIII

Toda vez que por alguma razão
Tive que descer
Da minha pequena torre de tábuas
Voltei tiritando de frio
De solidão
                         de medo
                                              de dor.

IX

Já desapareceram os bondes
Cortaram as árvores
O horizonte está cheio de cruzes.

Marx foi negado sete vezes
E nós continuamos por aqui.

X

Alimentar abelhas com fel
Inocular o sêmen pela boca
Ajoelhar-se numa poça de sangue
Espirrar na capela-ardente
Ordenhar uma vaca
E derramar-lhe o próprio leite na cabeça.

XI

Das nuvens do café da manhã
Aos trovões da hora do almoço
E daí aos relâmpagos do jantar.

XII

Eu não fico triste facilmente
Para ser sincero
Até as caveiras me fazem rir.
Cumprimenta-os com lágrimas de sangue
O poeta que dorme numa cruz.

XIII

O dever do poeta
Consiste em superar a página em branco
Duvido que isto seja possível.

XIV

Só com a beleza me conformo
A feiura me causa dor.

XV

Última vez que repito a mesma coisa
Os vermes são deuses
As borboletas são flores em movimento perpétuo
Dentes cariados
                                      dentes quebradiços
Eu sou do tempo do cinema mudo.

Fornicar é um ato literário.

XVI

Aforismos chilenos:
Todas as ruivas têm sardas
O telefone sabe o que diz
Nunca perdeu mais tempo a tartaruga
do que quando tomou lições da águia.

O automóvel é uma cadeira de rodas.

O viajante que olha pra trás
Corre o sério perigo
De que sua sombra não queira segui-lo.

XVII

Analisar é renunciar a si mesmo
Só é possível raciocinar em círculo
Só se vê o que se quer ver
Um nascimento não resolve nada
Reconheço que me caem as lágrimas.

Um nascimento não resolve nada
Só a morte diz a verdade
A poesia mesmo não convence.
Nos ensinam que o espaço não existe

Nos ensinam que o tempo não existe
Mas seja como for
A velhice é um fato consumado.

Seja o que a ciência determinar.

Me dá sono ler os meus poemas
E no entanto foram escritos com sangue.

Cartas del poeta que duerme en una silla

I

Digo las cosas tales como son
O lo sabemos todo de antemano
O no sabremos nunca absolutamente nada.

Lo único que nos está permitido
Es aprender a hablar correctamente.

II

Toda la noche sueño con mujeres
Unas se ríen ostensiblemente de mí
Otras me dan el golpe del conejo.
No me dejan en paz.
Están en guerra permanente conmigo.

Me levanto con cara de trueno.

De lo que se deduce que estoy loco
O por lo menos que estoy muerto de susto.

III

Cuesta bastante trabajo creer
En un dios que deja a sus creaturas
Abandonadas a su propia suerte
A merced de las olas de la vejez
Y de las enfermedades
Para no decir nada de la muerte.

IV

Soy de los que saludan las carrozas.

V

Jóvenes
Escriban lo que quieran
En el estilo que les parezca mejor
Ha pasado demasiada sangre bajo los puentes
Para seguir creyendo — creo yo
Que solo se puede seguir un camino:
En poesía se permite todo.

VI

Enfermedad
                          Decrepitud
                                                   y Muerte
Danzan como doncellas inocentes
Alrededor del lago de los cisnes
Semidesnudas
                               ebrias
Con sus lascivos labios de coral.

VII

Queda de manifiesto
Que no hay habitantes en la luna

Que las sillas son mesas
Que las mariposas son flores en movimiento perpetuo
Que la verdad es un error colectivo
Que el espíritu muere con el cuerpo

Queda de manifiesto
Que las arrugas no son cicatrices.

VIII

Cada vez que por una u otra razón
He debido bajar
De mi pequeña torre de tablas
He regresado tiritando de frío
De soledad
                        de miedo
                                            de dolor.

IX

Ya desaparecieron los tranvías
Han cortado los árboles
El horizonte se ve lleno de cruces.

Marx ha sido negado siete veces
Y nosotros todavía seguimos aquí.

X

Alimentar abejas con hiel
Inocular el semen por la boca
Arrodillarse en un charco de sangre
Estornudar en la capilla ardiente
Ordeñar una vaca
Y lanzarle su propia leche por la cabeza.

XI

De los nubarrones del desayuno
A los truenos de la hora de almuerzo
Y de ahí a los relámpagos de la comida.

XII

Yo no me pongo triste fácilmente
Para serles sincero
Hasta las calaveras me dan risa.
Los saluda con lágrimas de sangre
El poeta que duerme en una cruz.

XIII

El deber del poeta
Consiste en superar la página en blanco
Dudo que eso sea posible.

XIV

Solo con la belleza me conformo
La fealdad me produce dolor.

XV

Última vez que repito lo mismo
Los gusanos son dioses
Las mariposas son flores en movimiento perpetuo
Dientes cariados
                                    dientes quebradizos
Yo soy de la época del cine mudo.

Fornicar es un acto literario.

XVI

Aforismos chilenos:
Todas las colorinas tienen pecas
El teléfono sabe lo que dice
Nunca perdió más tiempo la tortuga
Que cuando tomó lecciones del águila.

El automóvil es una silla de ruedas.

Y el viajero que mira para atrás
Corre el serio peligro
De que su sombra no quiera seguirlo.

XVII

Analizar es renunciar a sí mismo
Solo se puede razonar en círculo
Solo se ve lo que se quiere ver
Un nacimiento no resuelve nada
Reconozco que se me caen las lágrimas.

Un nacimiento no resuelve nada
Solo la muerte dice la verdad
La poesía misma no convence.
Se nos enseña que el espacio no existe

Se nos enseña que el tiempo no existe
Pero de todos modos
La vejez es un hecho consumado.

Sea lo que la ciencia determine.

Me da sueño leer mis poesías
Y sin embargo fueron escritas con sangre.

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