poesia

Naiana Gomes

Naiana Gomes estudou um pouco de algumas coisas, jornalismos literaturas fotografias. está tropegamente aprendendo crochê com a avó, de forma que o ano vai mesmo começar todo torto. ainda assim, vive da teima em acreditar na dúvida, na pessoa e no mundo que se move pelo mundo. as imagens e vídeopoema abaixo são de sua autoria.

*

um outro fim do mundo é possível
intelectuais franceses afirmaram
há dois minutos e trinta segundos
talvez tomados pelo otimismo
que pede um começo de século
no despontar do milênio
eu sempre desconfiei
de tudo que vivesse além daquele peixe
cinco metros de comprimento
movendo-se pelo universo
durante trezentos e noventa e dois anos
fazem do tubarão da groenlândia
o vertebrado mais longevo
(pescado acidentalmente)
de que se tem notícia
mas confesso quis escrever um poema
que não sentisse nada por você
ignorando completamente
sua passagem pelo mundo
o fim do mundo
e o mundo

§

Dínamo

você sob o sol
ao toque tão forte do sol
você que se move
veloz feito um cão um gato
um lagarto
um bicho alado
atravessando a cidade de skate aos trinta anos
um peixe preto e dourado
deslizando rio rua abaixo
enquanto lá do quintal este peito se expande
vê lá vem eu meu alvoroço
ondeando os panos nos varais
tão suavemente quanto
foguete, peixe-espada, guitarra
rasgando o ar
e outra vez
o corpo todo no jogo
e uma vez mais
tomando fôlego
um balanço elevando-se
além das árvores
dos muros das torres dos edifícios comerciais
para alcançar o mar
tudo tão alto tão rápido
quase não percebemos
uma ligeira variação
entre as minhas as suas
coordenadas
uma fração de grau
partícula de luz
gota, grão
migalha
um quase nada
que nos afasta
um
do
outro
por inteiro
atravessados, entretanto, somos
de coisas muito pequenas
porém alarmantes
pólvora ou purpurina
tantas outras coisas vivas
besouros, nuvens, piabas, ranhuras
certezas mínimas
de que tudo pode mudar
existe o encontro e existe a distância
nesta manhã em que continuamos
nem sei como
mas continuamos
pelo mundo
e o mundo continua

uma grande confusão.

o avô nunca falou do fim do mundo
mas diante do mar calculava
eita água que ninguém acaba
e terra adentro apontava o bicho
que comia veneno e antídoto
sempre combinados
tentei procurar no google
mas nada é páreo ao inventário
do avô
morcegos subaquáticos
(nas goteiras de casa)
toupeiras que se alimentam
de grandes barcos
lagartos dados a peixe
amores longevos
essas coisas a gente prova
com pimenta e sal

§

é possível inclinar-se
alinhando o tronco ao horizonte
mover os dois braços
e sentir o ar
entrar e pender e erguer
um pássaro
isto eu sei
de te ver dançar
e naquele dia
quebrei cento e cinquenta taças
de uma vez

§

está no horóscopo de hoje
ou da semana passada
o ponto onde teu signo
e meu signo
contam como somos
diferentes
sob um mesmo sol
sentimos muito
sobrevoamos ilhas
visitamos as casas de nossa infância
vem, há esta árvore que eu quis te dar
quando ainda não te conhecia
cresce acima dos telhados
em fevereiro
frutifica
pequeninos sóis
resplandescentes
em cada geografia
colecionamos potinhos imaginários
neles queríamos
guardar B. e R. e M. e
guardar N.
e guardar T.
não os guardamos
os potinhos todos
vão preenchendo-se
de vazios
e os vazios contam
de uma cidade
atravessamos a rua
juntos
respirando
entre um passo e outro passo
há algo
que eu gostaria de te dizer
e digo.

*

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poesia

O testemunho de fé de Damares Alves, por Rodolfo Jaruga

Rodolfo Brandão de Proença Jaruga é curitibano do ano 82. Poeta e advogado, enxadrista e ativista militante, tem um livro de poemas no prelo, o Pornopoder.

* * *

O TESTEMUNHO DE FÉ DE DAMARES ALVES

Aos dez anos de idade, ela falou,
                                    eu quis me matar.

Pra que viver, o corpo machucado,
            a alma ferida, pra que viver.

Eu vou falar por códigos
            porque pode ter criança me assistindo em casa.
E ela fecha a mão esquerda,
            na direita ela sustenta o microfone,
na camiseta negra vemos uma bicicleta
                        e a palavra infância.

Eu peguei uma substância,
                        entenderam,
eu peguei uma substância
e eu ia tomar aquela substância, ela falou,
mas vou contar uma coisa pra vocês,
a casa do meu pai era uma casa pastoral
                        que ficava no fundo da igreja
e do lado da casa do meu pai
                        tinha um pé de goiaba,
e é naquele pé de goiaba que eu subia e chorava,

ô irmãos,
eu achava que todo mundo sabia
que eu estava sendo abusada,
            e que todo mundo concordava
            que eu tinha sido escolhida
                                    pra sofrer,

e no dia que eu estava com o veneno
                        em cima do pé de goiaba,
aconteceu algo extraordinário,
                        presta atenção,
vocês acreditam se vocês quiserem,
mas eu não subiria no púlpito pra contar uma mentira,
            argumentou,
eu estava em cima do pé de goiaba com o veneno na mão
e quando ia comer o veneno,
            e aqui a voz dela fica trêmula,
e quando eu ia comer o veneno aconteceu algo extraordinário,
                        eu vi Jesus
                                    se aproximando do pé de goiaba,
eu tive uma revelação extraordinária,
                                    e agora a voz dela fica mais enérgica
                                    e ela caminha em círculos rapidamente,
olha aqui irmãos, deixa eu dizer uma coisa pra vocês,
Jesus quer ter experiências extraordinárias com as crianças,
            acreditem nisso,
Jesus quer se revelar de uma forma sobrenatural pras crianças,
            acreditem nisso,
proporcione que seus filhos tenham experiência extraordinária
                                    com Jesus
porque eu tive a minha experiência aos dez anos com Jesus,
                                                ela falou,
                        em cima de um pé de goiaba,
            e foi incrível.

Jesus Cristo quer ter experiência com as crianças,
            acreditem nisso.

E quando eu vi Jesus, irmãos, eu esqueci o veneno,
            olha como Deus é criativo, ela falou,
eu esqueci o veneno,
            eu não tomei o veneno,
e daqui a pouco Jesus Cristo começou a se aproximar do pé de
                                                                                                       [goiaba,
e ele olhava pra mim
                        e ele era tão lindo,
ele tinha uma roupa comprida,
                        uma barba comprida,
aquela visão que a criança tem de Jesus,
mas Jesus não se aproximou só do pé de goiaba,
            sabe o que aconteceu,
                                    ela perguntou,
Jesus Cristo começou a subir no pé de goiaba,
aí quando eu vi Jesus subir no pé de goiaba
eu pensava assim na minha cabeça,
                        (eu esqueci o veneno)
não sobe Jesus, ela falou,
            você não sabe subir em pé de goiaba,
e aqui a voz dela fica estridente
                        e ela balança o corpo para frente,
você vai cair, ela falou chorosa,
            você vai cair e você vai se machucar,
já te machucaram tanto na cruz.

            Eu amava tanto Jesus, irmãos,
eu amava tanto e eu não ia mais pro céu,
mas eu não queria que Jesus se machucasse
                                    caindo do pé de goiaba,
mas vou contar uma coisa que a igreja não sabe,
Jesus é tão poderoso,
            tão poderoso
que ele conseguiu subir no pé de goiaba
            sem cair,
                                    ó Jesus, ela clamou,
e ele foi pro galho onde eu estava
            e lá naquele galho do pé de goiaba
Jesus Cristo me deu o abraço que a igreja não deu,
Jesus Cristo me deu o abraço
            que a mamãe e o papai não me deram,
e naquele pé de goiaba acontece um milagre,

E isso, mon frère Guillaume,
não é tosquice em estado puro,
é projeto de poder
            em andamento.

a menininha que Satanás quis esmagar aos seis anos de idade                 
            foi transformada
e essa menininha tá hoje lá no Senado Federal
            escrevendo leis
                        pra salvar crianças no Brasil.
E aqui os fiéis ovacionaram com vivacidade.

 

coda:

Vocês conseguem imaginar quantos anos a minha mãe
                        ficou de joelhos
                                    orando pra eu me curar.
Eu louvo a Deus, ela louvou,
eu louvo a Deus pelas orações dos meus pais,
                        eu sou uma mulher curada.
Mas eu quero dizer uma coisa com toda sinceridade,
                                    ela falou,
eu trocaria dezenove anos de orações da minha mãe
            por um abraço dela
                        quando eu tinha seis anos.

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crítica, poesia

É ISTO UMA MULHER? #1, por Nina Rizzi

Ilustração de Xueh Magrini

Participei em junho deste ano da graça de doismilizezoito do Festival Vida & Arte, promovido pelo Jornal O Povo, no debate intitulado “E a mulher escreveu o mundo”, com Ana Paula Maia, Juliana Diniz e Marília Lovatel.  Em um dado momento comentei uma entrevista com Ana Paula Maia em que o entrevistador ressaltava o talento e êxito de suas narrativas por não se parecem em nada com “textos de mulher”. A plateia riu quando disse certamente por não serem açucarados, histéricos, biográficos e suicidas. Claro que, assim como todo mundo pode escrever sobre o que quiser – seja homem, mulher, pós-gênero ou que seja – tal assertiva é machista; afinal o que seria um modo feminino ou masculino de escrever? Quem diz algo assim sem juízo de valor? Ao tratar de gente esquecida, miserável e degradada, Ana Paula é menos mulher?

Tendo como tema “E a mulher escreveu o mundo”, pensei que tal referência podia trazer ao debate um descortinado de tais ideias ridículas, nada de novo no front, não fosse a resposta de Ana Paula Maia:

Sem ambientes domésticos ou personagens femininas e suas subjetividades, sua narrativa de fato afasta-se do universo feminino, afinal “eu já sou mulher todo dia, aguento coisas de mulher todos os dias, vou ao salão de beleza, fico me olhando no espelho, namoro, vou à festas”, e mais alguns exemplos desse senso comum da mulher, aparentemente, fútil, açucarada e sem graça. Juliana Diniz, que comentava seu livro Memória dos Ossos (Editora Dummar, 2018), onde todas as personagens são femininas e dentro de uma casa ressaltou que, o ambiente e as personagens não geram qualquer hierarquização de textos, ao que completei “nunca tomei chá numa xicarazinha; e há mulheres em todos os lugares que urgem escrever narrativas, sejam biográficas ou não, de outros tônus. Então a mediação levou a conversa para outro rumo, dado o tempo que se findava.

Saí da mesa com aquela sensação de guarda-chuva molhado e aberto dentro da boca. Eu sabia que devia ter dito algo ainda. Uma colega que estava na plateia comentou também seu enfado com a reprodução de ideias machistas. O fato é que ali, na hora certa, eu simplesmente fiquei absurdada, como acontecia quando era adolescente e ia fazer uma prova cujo conteúdo tinha total domínio e, no entanto, dava um branco. E mais: como dizer àquela mulher, àquela mulher escritora, àquela mulher com quem tenho afinidades, naquele espaço feminino e nosso, sem cair também nas malhas do embaraço machista, consciente ou não de opressões e lutas? Bem depois, pude dizer “o seu mundo literário de homens e abates e confinamentos é também um “mundo feminino”, afinal foi de você que saíram. Um sorriso, nenhum chá na xícara e apenas isto.

O acontecimento me relembra perguntas já muito antigas, tão anteriores a mim e que continuamos sempre a nos perguntar. Ainda não posso escrever este livro de perguntas sem antes caminhar por respostas que me dão mulheres escritoras. Assim, para pensar essas questões, alguns trechos desses “textos de mulher” que apresento em Laboratórios de Escrita Criativa para Mulheres que costumo promover; trechos que pretendo comentar numa segunda parte deste breve texto, mas que você também pode, é claro. Nosso diálogo e interminável.

nina rizzi

*

1. O ambiente doméstico é exatamente recoberto de chá onde as mulheres escovam o chão e se penteiam os cabelos?

Meu Deus: A mãe morreu. Morreu a gritar e a praguejar. Gritava comigo. Praguejava para mim. Estou prenha. Não posso mexer-me bem. Ainda não chego do paço e a água já está quente. Ainda não preparo a bandeja e a comida já ficou fria. Ainda não arranjo os miúdos para irem para a escola e já são horas de almoçar. Ele não dizia nada. Estava sentado à beira da cama. Pegava na mão dela e chorava e repetia: Não me deixes, não te vás embora. Quando foi do primeiro, ela perguntou: De quem é? Eu disse: De Deus. Não conheço mais nenhum homem e não sei que dizer. Quando comecei a ter dores de barriga e ela a mexer-se e saiu de lá aquele bebe que mordia a mão fiquei pasmada. Ninguém nos vinha ver. Ela estava pior e cada vez pior. Um dia perguntou-me: Onde está? Eu disse: Deus levou-o. Mas foi ele que o levou. Levou-o quando eu estava a dormir. E matou-o no bosque. E vai matar este agora se puder. Meu Deus: Diz que está farto. Já não pode comigo. Diz que sou má e só aborreço. Tirou-me o outro bebê. Era um menino. Mas parece-me a mim que não o matou. Acho que o vendeu a um casal de Monticello. Tenho o peito cheio de leite e sai sempre e estou encharcada. Ele pergunta: Porque não tens um ar mais decente? Veste qualquer coisa. Que quer ele que eu vista? Não tenho nada. Oxalá encontre alguém para se casar. Olha muito para a minha irmã mais nova e ela tem medo. Mas eu digo: Eu tomo conta de ti. Se Deus me ajudar. [A COR PÚRPURA, ALICE WALKER; TRADUÇÃO DE PAULA REIS]

2. Por que escrever uma narrativa autobiográfica? Um texto autobiográfico feminino terá sempre tom doce, com mulheres submissas que anseiam pelo príncipe encantado?

 “[…] Merciana era a verdadeira chefe da família, uma “civilizada”, como diziam na época. Não sei onde ela tinha ido à escola, mas ela sabia ler e escrever. Saber escrever era algo perigoso se você tinha um pai exilado no Burundi. Logo começam a suspeitar que você está se correspondendo com os tutsis que preparam seu retorno a Ruanda, que você é uma espiã dando informações aos que estão do desse lado da fronteira e poderia facilitar a volta dos tutsis. E talvez você esconda armas. Os capangas da prefeitura sempre iam interrogar Merciana, revistar a miserável choupana. Ouvíamos os irmãos e as irmãs de Merciana chorando, a mãe suplicando. Depois, um dia, eles chegaram com dois militares. Eles pegaram Merciana e a levaram até o meio do pátio, um lugar onde todo mundo podia ver. Tiraram a roupa dela, deixaram-na completamente nua. As mulheres esconderam os debaixo dos panos. Lentamente, os dois militares pegaram as espingardas. “Eles não miravam no coração, repetia minha mãe, e sim nos seios, somente nos seios. Eles queriam dizer a nós, mulheres tutsis: ‘Não deem vida a mais ninguém, pois, na verdade, se colocarem mais alguém no mundo, vocês vão acabar trazendo a morte. Vocês não são mais portadoras de vida, são portadores de morte.” [A MULHER DE PÉS DESCALÇOS, SCHOLASTIQUE MUKASONGA; TRADUÇÃO DE MARÍLIA GARCIA]

3. Uma mulher nunca irá escrever sobre um tema “masculino” como, por exemplo, fertilização de vacas?

um touro
quando cobre uma vaca
ele tem uma peça
700 gramas entre 500 quilos
ele tem uma peça
pra encaixar
que nem sempre encaixa bem
são 499,3 kg e uma vida
quadrúpede
tem vaca que não arria
é o cio
mas muitas muitas muitas
se descaderam
desencaixam o eixo das ancas
estragam a carcaça
não prestam pra mais nada
é o cio
dos machos
é mais forte 
[MUGIDO, MARÍLIA FLÔOR KOSBY]

4. Uma mulher sempre vai representar a maternidade como ideal de realização e felicidade?

gestação infinita
o filho podre a filha cerca viva
meu útero arregaçado expelindo medo em sangue
porque é meu horror que gero –
sei me ferir.
[NÃO, BRUNA MITRANO]

5. A mulher sempre terá um papel de submissão e resignação diante das opressões? Seus heróis serão sempre modelos masculinos?

A noite não adormecenos olhos das mulheres,
a lua fêmea, semelhante nossa,
em vigília atenta vigia
a nossa memória.
A noite não adormece
nos olhos das mulheres,
há mais olhos que sono
onde lágrimas suspensas
virgulam o lapso
de nossas molhadas lembranças.
A noite não adormece
nos olhos das mulheres,
vaginas abertas
retêm e expulsam a vida
donde Ainás, Nzingas, Ngambeles
e outras meninas luas
afastam delas e de nós
os nossos cálices de lágrimas.
A noite não adormecerá
Jamais nos olhos das fêmeas,
pois do nosso sangue-mulher
de nosso líquido lembradiço
em cada gota que jorra
um fio invisível e tônico
pacientemente cose a rede
de nossa milenar resistência.
[POEMAS DA RECORDAÇÃO E OUTROS MOVIMENTOS, CONCEIÇÃO EVARISTO]

6. O amor e o erótico, quando escritos por uma mulher, serão sempre com rimas fáceis, metáforas bobas, descrições melosas?

Após o terremoto, o rio será atravessado,
frações de veneno serão espalhadas
para afugentar as cobras,
raízes de gengibre serão colhidas
em profundo silêncio.
O amor se banhará em ervas
e retornará da infância
com o seu verdadeiro nome,
saberá a origem de toda planta,
o odor de todo gozo.
O amor pertence ao amor,
isso ninguém lhes rouba,
nem mesmo sentenças de morte
proferidas por bestas assassinas
em horrendos tribunais.
Sempre o amor olhará para o amor
e estilhaços de inútil beleza
se soltarão da intimidade do solo.
No ressoar de suas asas, a verdade surgirá:
não se separa o amor do amor.

[A MESMA FOME, MARIZE CASTRO]

7. Uma mulher é uma coisa pura? O que é uma mulher pura?

Pura? Que vem a ser isso? 
As línguas do inferno 
São baças, baças como as tríplices 

Línguas do apático, gordo Cérbero 
Que arqueja junto à entrada. Incapaz 
De lamber limpamente 

O febril tendão, o pecado, o pecado. 
Crepita a chama. 
O indelével aroma 

De espevitada vela! 
Amor, amor, escassa a fumaça 
Rola de mim como a echarpe de Isadora, e temo 

Que uma das bandas venha a prender-se na roda. 
A amarela e morosa fumaça 
Faz o seu próprio elemento. Não irá alto 

Mas rolará em redor do globo 
A asfixiar o idoso e o humilde, 
O frágil 

E delicado bebê no seu berço, 
A lívida orquídea 
Suspensa do seu jardim suspenso no ar, 

Diabólico leopardo! 
A radiação faz que ela embranqueça 
E a extingue em uma hora. 

Engordurar os corpos dos adúlteros 
Tal qual as cinzas de Hiroshima e corroê-los. 
O pecado. O pecado. 

Querido, a noite inteira 
Eu passei oscilando, morta, viva, morta, viva. 
Os lençóis opressivos como beijos de um devasso. 

Três dias. Três noites. 
água de limão, canja 
Aguada, enjoa-me. 

Sou por demais pura para ti ou para alguém. 
Teu corpo 
Magoa-me como o mundo magoa Deus. Sou uma lanterna – 

Minha cabeça uma lua 
De papel japonês, minha pele de ouro laminado 
Infinitamente delicada e infinitamente dispendiosa. 

Não te assombra meu coração. E minha luz. 
Eu sou, toda eu, uma enorme camélia 
Esbraseada e a ir e vir, em rubros jorros. 

Creio que vou subir, 
Creio que posso ir bem alto – 
As contas de metal ardente voam, e eu, amor, eu 

Sou uma virgem pura 
De acetileno 
Acompanhada de rosas, 

De beijos, de querubins, 
Do que venham a ser essas coisas rosadas. 
Não tu, nem ele 

Não ele, nem ele 
(Eu toda a dissolver-me, anágua de puta velha) – 
Ao Paraíso. 

[40 GRAUS DE FEBRE, SYLVIA PLATH; TRADUÇÃO DE AFONSO FÉLIX DE SOUZA]

8. Uma mulher só pode escrever sobre si?


os olhos falam o exato
olhos que se abrem
lançam o excesso
olhos
                não palavras
olhos
                não promessas
trabalho com meus olhos
em construir
em reparar
em reconstruir
algo parecido com um olhar humano
com um poema de homem
com um poema longe do bosque
[NÃO COLIGIDO, ALEJANDRA PIZARNIK; TRADUÇÃO DE NINA RIZZI]

Escreve poemas
porque precisa
de um lugar
onde seja o que não é
[APROXIMAÇÕES, ALEJANDRA PIZARNIK; TRADUÇÃO DE NINA RIZZI]

9. Por que se mete uma mulher a escrever? O que é um texto de mulher?

“Não deveriam ter primeiro boas razões para escrever? Aquelas que, misteriosas para mim, nos dão “direito” a escrever? E eu não as conhecia. Eu só tinha uma “má” razão, não era uma razão, era uma paixão, algo inconfessável, – e inquietante, um rasgo de violência que me afligia. […] Razão, nenhuma. Mas havia loucura. Escritura no ar ao meu redor. Sempre próxima, embriagadora, invisível, inacessível. Escrever me atravessa! […]

Escrever? Se escrevia “EU”, quem seria? Poderia passar sob “EU” na vida cotidiana sem saber mais a respeito, mas como faria para escrever sem saber quem-eu? Não tinha esse direito. Não é a escritura o lugar do Verdadeiro? Mas o Verdadeiro não é claro, distinto e único? E eu, imprecisa, várias, simultânea, impura. […]

[A CHEGADA À ESCRITURA, HÉLÈNE CIXOUS; TRADUÇÃO DE NINA RIZZI]

10. É isto uma mulher?

Era eu uma mulher? ao reviver esta pergunta interpelo toda a história das mulheres. uma história feita de milhões de histórias singulares, mas atravessada pelas mesmas perguntas, os mesmos terrores, as mesmas incertezas. As mesmas esperanças pelas que até pouco tempo só se abriam para consentir, se resignar ou com desesperança. Tomar-me por uma mulher? De que maneira? Que mulher? […]

Quantas mortes a atravessar, quantos desertos, quantas regiões em chamas e regiões geladas, para chegar um dia a dar um bom nascimento! E você, quantas vezes morreu antes de poder pensar, “Sou uma mulher”, sem que esta frase significasse: “Então sirvo”? […]

[A CHEGADA À ESCRITURA, HÉLÈNE CIXOUS; TRADUÇÃO DE NINA RIZZI]

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poesia

Marcelo Ariel (1968-)

marceloariel

Marcelo Ariel no evento Literatura e(m) performance, UFPR (novembro/2017). Foto de Rodrigo Tadeu Gonçalves.

Tratado dos Anjos Afogados, livro que reuniu vinte anos de produção poética de Marcelo Ariel, completa, em 2018, dez anos de publicação. Nesse ínterim, o poeta publicou mais de uma dezena de livros de poesia, prosa e textos diversos, por editoras convencionais, artesanais e cartoneras.

Desse volume chama a atenção a seção “Vila Socó: Libertada”, conjunto de poemas que tratam de Cubatão – cidade na qual o poeta viveu grande parte de sua vida – e sua trajetória arruinada: de maior polo industrial do país a uma das cidades mais poluídas do mundo, na década de 80. Há, nesses poemas, um mosaico de imagens do caos ambiental, do descaso do estado e do fracasso do modelo desenvolvimentista, compondo uma das linhas de força da voz poética de Ariel que se faz presente em vários de seus escritos: a necessidade de falar da barbárie, da catástrofe, do horror.

O massacre dos indígenas, Canudos, Carandiru, a destruição ambiental de Cubatão, Auschwitz, a condição do negro nas periferias, Palestina, Hiroshima e Nagasaki. Guardadas as proporções e os contextos históricos, são diferentes situações nas quais pode-se perceber a capacidade destrutiva do homem e que, justamente por isso, interessam a Ariel: é preciso não esquecer e é preciso, para esse poeta, que se entenda o continuum do horror que constitui a experiência de grande parte da população mundial.

Ariel – nome artístico de Marcelo – é um arcanjo importante nas tradições hebraica e cristã, mensageiro da voz divina em alguns momentos dos relatos bíblicos e até mesmo personificação da Terra Santa em outros. Podemos pensar no Ariel de Marcelo como uma espécie de “Anjo da História”, ao modo de Walter Benjamin ao falar do Angelus Novus, de Paul Klee: o poeta, assim como o anjo da imagem, olha para o passado e vê uma única história de catástrofe que “amontoa escombros sobre escombros e os arremessa a seus pés”.

Mas, Ariel em seu gesto contemporâneo é, como nos diria Giorgio Agambem ao pensar sobre Ossip Mandelstam, aquele que mantém “fixo o olhar nos olhos do seu século-fera”, soldando “com seu sangue o dorso quebrado do tempo (…)”. O poeta (Ariel, Mandelstam) é “aquilo que impede o tempo de compor-se e, ao mesmo tempo, o sangue que deve suturar a quebra”.

A sobreposição do tempo do indivíduo e suas experiências ao tempo histórico onde se situam as experiências coletivas, e o trabalho de tentar soldá-los, suturá-los, evoca justamente a ideia de Benjamin em relação ao Anjo da história. Esse anjo olha para o passado a partir do presente e tem o desejo de “juntar os fragmentos” das ruínas que ele observa, diretamente de seu contemporâneo. Ao mesmo tempo ele tenta reagir à rajada de progresso, costurar e colar as vértebras desse tempo que o compõe e é composto por ele, simultaneamente. O poeta impede que o tempo se recomponha sem que haja uma reflexão sobre ele e é isso que vemos na poesia de Mandelstam, assim como na de Ariel, já que este sabe que a promessa do progresso é o prenúncio da miséria: “Houve um vazamento de enxofre anteontem seguido de uma chuva ácida”.

Assim, os inúmeros processos de destruição – materiais e psíquicos – aos quais somos submetidos na era do capital e da tecnologia são matéria essencial da matriz poética de Ariel. Entretanto, é importante registrar: não se trata de uma poesia preocupada em representar o real ou de tentar mimetizá-lo através da linguagem poética. A extensa e profícua obra de Marcelo Ariel é fundada sobre a consciência do quão impossível seria tentar representar e transmitir as imagens do horror.

O poeta sabe que a linguagem é, por excelência, falha. Leitor de Maurice Blanchot, de Stéphane Mallarmé, de Paul Celan, reconhece a impossibilidade efetiva das palavras de dizerem: “a linguagem se confunde com um enorme campo coberto por uma densa névoa”, nos dirão alguns de seus escritos. E nisso funda mais um de seus eixos poéticos: um intenso e profundo embate com a língua e a linguagem. E a poesia surge exatamente daí: como a possibilidade de dilatar os limites e tensionar as impossibilidades do falar. Supostamente, responde Yves Bonnefoy em um dos poemas de Ariel: “Não posso resumi-la, mas a poesia é antes de tudo um modo de lutar contra a linguagem”.

Essa compreensão sobre o não-dizível guardado em tudo que é dito – ou que almeja sê-lo – leva à construção de um universo poético repleto de imagens de sono, sonho, nuvens, vapor, névoa, onde nada é, e onde há a tentativa constante de banir paradigmas, sejam eles os conceituais, os ideais, os ontológicos, inclusive, talvez principalmente, o próprio conceito de “eu”, poético ou não: “…sempre haverá a demanda do não-eu em algum lugar de mundo nenhum”.

Contraditório? Profundamente. O próprio poeta reconhece – em entrevistas – esse aspecto e o afirma como elemento poético, enquanto força de afirmação da própria vida, contraditória por excelência, da qual sempre se pode extrair o sublime. Mesmo quando um menino fumando crack atravessa a rua ou o poema. Aliás, para Ariel, o único “opaciamento” inaceitável é contra o sublime.

Sublime este encontrado na brutalidade do cotidiano e, principalmente, no universo das artes e do pensamento.

Ariel constrói como base poética um intricado complexo de alusões e citações diretas a poetas, músicos, pintores, filósofos, pensadores, utilizando também trechos e traduções de obras, não só como epígrafe, mas como parte integrante de seus poemas.

Procedimento presente em muitos poetas contemporâneos que remonta a tradições poéticas milenares, em Ariel, o intertexto ganha outro tipo de proporção, em um intenso processo de referenciação, no qual há espaço não só para a tradição literária ocidental, como também para filósofos e escritores orientais, em meio à citação de trechos da carta de fundação do Primeiro Comando da Capital.

Forjando entrevistas com nomes importantes dentro de seu panteão pessoal, simulando diálogos impensáveis ou imaginando sonhos sonhados por outros, Marcelo Ariel arquiteta uma rede de sentidos e de não-sentido, sobrepondo sua experiência de leitor e sua voz poética, tecendo algo que ele já não deseja chamar de poesia, mas de uma forma híbrida, que trasborda o próprio verso e se converte em um arquivo labiríntico: “Por absoluta necessidade vou continuar escrevendo dentro dessa filosofia mística torta (Ver Ulpiano e Coltrane), barroco-aracniana (ver Deligny e Lezama), mestiça e infrareal (ver Bolaño e Oswald). A micropolítica da invisibilidade na cachoeira da obscuridade, como ouvi de mim mesmo num sonho”.

Há uma indefinição quanto ao entendimento do lugar ocupado pelo poeta Marcelo Ariel. Ora é possível apresentá-lo como uma voz singular que o torna isolado de seus contemporâneos, ora como um “poeta de seu tempo”, ou seja, alguém que se situa prontamente entre os seus, sem que haja uma determinação ou adesão a nenhum desses supostos extremos, configurando assim sua não-adesão.

Os poemas de Ariel não se encaixam perfeitamente em nenhum rótulo. Alguém que está aqui, hoje, tentando soldar as costelas partidas da memória de nosso processo de modernização precário e negligente, ao mesmo tempo em que transforma em matéria poética o suicídio de alguns de seus poetas preferidos. Constituindo, assim, um tensionamento de nosso discurso sobre a boa poesia brasileira e seus signatários.

A “brutalidade jardim”, resultado do embate do poeta com o horror do mundo, também compõe o olhar que se preocupa em escrever sobre a morte de grandes poetas e de traficantes; o silêncio de Paul Celan guarda semelhanças com o do menino que invade o poema enquanto fuma crack; o real das bibliotecas é tão potente quanto a realidade brutal da cidade na qual se vive.

Em Ariel, todos esses acontecimentos, cenários e “personagens” merecem um comentário através de um poema, mas sem que ele seja uma voz inflamada pela dor, pela cólera ou mesmo pelo amor, pela compaixão. Quase não há possibilidade de perceber o que sente essa voz poética em razão de sua dessubjetivação. Nós sabemos que o poeta é tocado por tudo isso pelo óbvio: a escolha em trazer como componentes de seus poemas esses temas, e dessa forma. Ou seja, pela opção de tocar com sua palavra e com sua linguagem cada um desses termos que o rodeiam através não de um relato, de um texto narrativo, mas através do texto poético, lugar onde a palavra tem a supremacia. Ariel entende essa idiossincrasia e se alinha junto de seus mestres na tentativa de empreender, ele também, uma reflexão sobre o que permite o seu trabalho: a linguagem.

Embora não seja ingênuo, a literatura é sua profissão de fé e a poesia uma promessa de mudança, devido ao fato de que entre ela e o real da vida não existe separação: “(…) há uma nítida apartação entre os poetas e a realidade suja do ‘em torno’, que é no máximo citada como cenário dos poemas e não como centro de onde eles se irradiam, que é o que tento fazer nos meus, apesar da guinada maldita para a névoa metafísica (…). A poesia entra nesse contexto como um enfrentamento do vazio proposto por estes dois projetos de seqüestro, estupro e esquartejamento do espírito. O que encontrei no exercício da poesia foi, em poucas palavras, um sentido maior para o meu egoísmo. No fundo, o maior poeta de todos os tempos, o Qoélet, autor do Eclesiastes, estava certo: Tudo é vaidade, mas a poesia, quando é realmente vivida como uma verdade da existência do indivíduo, é capaz de dar um sentido elevado para o egoísmo e para a vaidade, um sentido que transcenda o mercado. Mas não só a poesia, a arte em geral, quando é autêntica e leva em conta a realidade exterior a partir de um centro interior, é capaz disso. Van Gogh não é um banco, Picasso não é uma marca de automóvel”. (Ariel em entrevista para o escritor Nicodemos Sena).

A poesia é, assim, uma possibilidade de enfrentamento diante da barbárie, do vazio, da morte, ao mesmo tempo que se estabelece como o espaço no qual o poeta pode comentar, livremente, as fontes que compuseram e compõem continuamente seu percurso como leitor. O discurso poético é o lugar do qual Marcelo Ariel dispara sua scherzo-rajada.

apresentação de Diamila Medeiros
(para ler a dissertação de Diamila sobre a poesia de Marcelo Ariel clique aqui)

Marcelo Ariel é prosador, poeta, ensaísta e performer. Nasceu em Santos-SP (1968) e é autor dos livros Me enterrem com a minha AR 15 (Dulcinéia Catadora, 2007-Esgotado), Tratado dos anjos afogados (LetraSelvagem, 2008), O céu no fundo do mar (Dulcinéia Catadora, 2009-esgotado), Conversas com Emily Dickinson (Selo Orpheu/Multifoco, 2010-esgotado), Samba Coltrane (Yi Yi Jambo Cartonera, 2011-esgotado) , A morte de Herberto Helder (Sereia Cantadora Cartonera, 2012), A segunda morte de Herberto Helder (21 Gramas-esgotado), Diário Ontológico I e II (Pharmakon, 2014), Retornaremos das cinzas para sonhar com o silêncio (Editora Patuá, 2013), Urchatz Gaza (Lumme, 2014), Para sempre (Lumme, 2014), Gilberto Mendes –Encontros (Azougue Editorial, 2015, Org. ), O rei das vozes enterradas (Córrego, 2015 ) e Com o Daimon no contrafluxo (Editora Patuá, 2016). Além disso, participou de diversas antologias aqui e no exterior, tais como: Mehr alls bucher, org. Timor Berger (PapperLapPapp\Berlin, 2010), Poesia para el fim del mundo, org. por Estela Mendonza (Kodama cartonera\México, 2013), Poètes du Brésil aujourd’hui, préparé par Ines Oseki-Dépré (Action Poétique\Paris\France, 2011) entre outras. Coordena o Laboratório de Equizoanálise Literária em Santos-SP. Lançou, neste ano, A névoa dentro da nuvem Prosa Reunida – 2012 -2016, pela Lumme Editora, e A Rainha do fogo invisível seguido de A morte de David Bowie, pela Rubra Cartoneira.

* * *

Uma delicada tessitura

se constrói na memória, onde a linguagem se confunde com um enorme campo coberto por uma densa névoa.
Talvez não exista um ‘Sol da palavra ‘ mas certamente há um’ Sol de silêncios ‘ que devagar e decididamente, queimará a névoa e o que veremos desfeito o etéreo opaciamento de tudo serão pequenas gotas de orvalho e iridescências capazes de revelar estas tessituras.
Este pequeno e precioso momento é como um pequeno bordado feito com pontos na névoa, costurado cuidadosamente com os raios de silêncio de uma manhã que apenas pressentimos.

§

Carta para João Gilberto Noll

há um calafrio na fé do meu corpo. ter de suportar mais um dia e o meu olhar certeiro, traduzindo minhas partes mais imundas, andando a prumo retraído, carcomido pela fé quase esvaziada, mas eu caminho, mas eu pulo. ah, eu também grito , aprendi a movimentar os meus gozos mais sutis, aqueles que consigo atuar na mossoroca que meu esqueleto com pele e carne e pelo está girando e girando, olhando pro céu e se mexendo, andando entre escombros e encenando a cena final do que seria uma salvação, e de tempo em tempo deposito um sutil gozo amarelo-quero-mais. é a fé ainda, é a agonia desvirada da lucidez transfigurada pela circunstância.

Uma fé parecida com o pó flutuando na luz, procurando o esvaziamento de uma paz vegetal, uma síntese dessa impossível transfiguração, e continuo girando debaixo deste abismo azul-do-nunca-mais, os estilhaços de um cansaço sem começo nem fim, esvoaçam por dentro, mesmo parada estou correndo como uma corça no escuro, na direção da cama-barco-savana, na direção de um campo de silêncios, sem jamais ouvir alguém chamar meu nome

os átimos de meus cílios pesados pressentem o peso a acrescentar-se em minhas pálpebras, e reverberar-se em meus ombros, e despojar-se do restante do corpo, conhecendo célula por célula como o banho de mar-pesado deitado sobre meu corpo-objeto deixa micro-objetos no fim da tarde. espumas de passagem, acredito que meus ombros também já carregam o quase acontecimento e começam a transmitir para os meus pés o sinal de reações adversas que eu traduzo em estranhamento-entranhamento, congelando no tempo , sinto meu estômago gargalhando do desafio de estar encoberta pelo manto do som do que ainda não existe

esse triunfo de não se reconhecer no próprio nome, exatamente o oposto do que acontece com as outras sombras, que não se reconhecem no próprio corpo, neste momento que separa o existir e o viver do estar sendo a chuva para e um improvável raio de Sol cai e entra no mar

Rudá Abaé!

§

O Menino orquídea

Para Gil Veloso e Caio F.

que o corpo é uma floresta
por dentro

há corpos jardim ?

sim, como uma canção
O seu é uma orquídea
Descobri isso
quase no fim
do não entendimento

Descobriu o quê?

vamos voltar
para o começo
do poema
É para isso
que servem
as flores
que nascem
pelos caminhos

Para que?

Voltar
E no instante
fora do tempo

tudo ficou nítido?

o verdadeiro corpo
não nos abandona
jamais
Vocês estavam certas
Gertrude, Clarice, Hilda

era a orquídea
me dizendo
que só existe
uma alma
para tudo o que existe

está vendo agora?

Sim

§

Dois ônibus se cruzam em sonho, numa dimensão paralela

1+1=1 como ir ao cinema e depois ver o mar
o discurso das ondas,o fim das fronteiras
nossa vida secreta
‘ A Ilha perdida ‘ , foi graças a ela que te conheci
Chet Baker sorri para Elis Regina
Uma tartaruga gigante
e um cavalo-marinho
Van Gogh sem o suicídio
Rimbaud sem a ida para Abissínia
A carne desce à lama, A chama some.
A Seiva se derrama. A terra chama
naturalmente livre
como uma borboleta
atravessando o ônibus lotado
como os silêncios intersiderais
depois descemos
parcialmente derrotados
para toda parte e todo lugar.

§

Infelizmente, o plataforma do wordpress não aceitou a formatação do poema COMO SER O NEGRO, porém, como julgamos ser um poema fundamental dentro da obra de Marcelo Ariel, deixamos aqui um link para que o leitor possa conhecê-lo (clique aqui).

 

 

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tradução

As Geórgicas de Virgílio (I, vv. 1-70), por Arthur Rodrigues Santos

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Entre as duas obras mais famosas de Virgílio, as Bucólicas e a Eneida, temos esta que já foi referida, talvez com alguma extravagância, como the best poem by the best poet. Não cabe a mim discutir se as Geórgicas são verdadeiramente a grande obra do poeta mantuano. Gosto não se discute e eu sou suspeito.

Só queria dizer apenas o que me fascina nesse poema de assunto banal, um poema que (como seu próprio nome sugere) se dirige aos agricultores romanos para ensiná-los o cultivo da terra, como amparar as videiras ou criar o gado e trazer as abelhas de volta para colmeia. Um manual de agricultura, portanto. Mas um manual apenas na superfície, apenas um pretexto para fazer a grande poesia que nos comove tanto com seus exuberantes hinos à natureza quanto com a simples árvore que, surpreendida, não reconhece mais os seus frutos, visto que nela se enxertou outra espécie. Como disse Sêneca, o Jovem (Epist. 86.15), o nosso poeta, mais do que ensinar os homens do campo, queria mesmo era encantar os seus leitores: nec agricolas docere uoluit, sed legentes delectare.

O trecho traduzido é o início das Geórgicas e nele já se podem ver aqueles dois tipos de painéis: o primeiro é grandioso: após um breve proêmio, vem uma longa invocação aos deuses campestres (e a um futuro deus, pelo menos para o exagero virgiliano); o segundo, mais singelo, é o começo da lida no campo, a hora em que os touros puxam o arado fincado na terra sob o sol da primavera.

Para emular os hexâmetros originais, me servi de um verso variante ao de Carlos Alberto Nunes, que já vem sendo usado pelo Rodrigo Gonçalves e Guilherme Flores. Ele consiste de quatro células métricas (cada uma podendo ser ternária ou binária) seguidas de uma cláusula com terminação grave. Além disso, não há anacruse no início do verso e me permito no máximo iniciá-lo com uma tônica secundária seguida de duas átonas.

Por fim, quero agradecer ao Sergio Maciel pelo convite.

Arthur Rodrigues Santos (1983), fluminense e mestre em Letras Clássicas pela UFRJ. Começou a traduzir um trecho da segunda bucólica de Virgílio no começo da graduação e, a partir daí, não parou mais. Atualmente é doutorando pela mesma instituição, com passagem pela Universidade de Bolonha no ano passado. Seu principal projeto é traduzir as Geórgicas de Virgílio em versos hexamétricos.

* * *

O que dá viço às searas alegres, sob qual astro
deve-se a terra, Mecenas, volver e casar as videiras
com os olmeiros, quais cuidados ao boi e ao rebanho
são dispensados, quanta perícia às parcas abelhas:
eis o que agora celebro. Vós, ó luzeiros brilhantes 5
deste mundo, guiando no céu o ano que escoa;
Líber e Ceres nutriz, a terra, com a vossa anuência,
pôde trocar Caônias bolotas por trigo graúdo
e misturar o copo Aqueloio às uvas achadas;
vós também, propícios aos lavradores, ó Faunos, 10
vinde dançando, Faunos, ao lado das Dríades ninfas:
vossos dons eu celebro; e tu, que a terra fendeste
com teu tridente, donde surgiu o fogoso cavalo,
ó deus Netuno; e tu boscarejo, a quem uns trezentos
níveos vitelos pastam de Cea fecunda os arbustos; 15
tu, que abandonas o bosque natal e as Liceias clareiras,
Pã, guardião das ovelhas, se o Mênalo inda te agrada,
vem até mim, ó Tegeu, me apoia; e Minerva, dadora
das oliveiras, e o jovem inventor do arado recurvo,
tu também, ó Silvano, trazendo extirpado cipreste: 20
todos, deuses e deusas, vós que zelais pelos campos,
ora nutrindo os novos rebentos não semeados,
ora enviando do céu a forte chuva às sementes.
E, finalmente, tu, de quem não sabemos qual posto
vais ocupar entre os deuses: se queres, César, o zelo 25
pelas cidades e campos, e o vasto universo te acolha
como o pai dos frutos e das estações o regente,
já coroando a tua fronte com murta de Vênus materna;
ou te tornes o deus do imenso mar e os marujos
só o teu nume cultuem e a extrema Tule te sirva, 30
Tétis te quer como genro a preço de todas as ondas;
ou, novo astro, te somes aos meses mais vagarosos,
onde um espaço entre Erígone e as Quelas vizinhas
ora se abre: vê, já contrai suas garras o ardente
Escorpião e deixou-te no céu uma parte folgada; 35
Seja quem fores (não és esperado no mundo Tartáreo
nem te acometa o terrível desejo deste reinado,
mesmo que a Grécia tanto admire os Campos Elíseos
e Proserpina se furte a voltar com a mãe para cima),
fácil percurso me dá, consente o propósito ousado 40
e, compassivo comigo dos lavradores sem rumo,
vem até mim e já te acostuma a ouvir nossas preces.
A primavera revém, dos cândidos montes escorre
frio regato e o Zéfiro quebra o torrão ao seu sopro:
já me comece o touro a gemer no arado tanchado 45
e recupere seu brilho a relha atrita com sulcos.
Só corresponde aos votos do lavrador ansioso
campo que duas vezes sentiu o sol e a friagem;
sua imensa colheita acabou de romper os celeiros.
Antes, porém, de cortarmos com ferro um solo ignoto, 50
cumpre primeiro estudar o vento e o clima mutável,
a qualidade das terras e a prática antiga legada,
o que produz um lugar e também o que ele nos nega.
Trigo vai bem por aqui, por ali, as uvas vigoram,
mais além enverdecem o novo arvoredo e a selvagem 55
erva. Não vês que o Tmolo exporta açafrão perfumado,
Índia marfim, os Sabeus delicados seu típico incenso,
ferro das minas os Cálibes nus, o Ponto castóreo
nauseabundo e o Epiro vitórias das éguas em Élis?
A natureza impôs essas leis e contratos eternos 60
para lugares determinados assim que no mundo,
antes vazio, Deucalião lançou as suas pedras,
delas os homens nasceram, dura progênie. Ao trabalho!
Já no começo do ano, revolvam o gordo terreno
touros fortes, dessa forma as leivas expostas 65
sejam cozidas ao sol maturado do estio pulvéreo;
mas, sendo a terra pouco fecunda, basta somente
leve amanho de sulco no despontar do Arcturo:
lá, as ervas daninhas não tolhem messes alegres,
cá, não deserta a pouca umidade do seco terreno. 70

Quid faciat laetas segetes, quo sidere terram
uertere, Maecenas, ulmisque adiungere uites
conueniat, quae cura boum, qui cultus habendo
sit pecori, apibus quanta experientia parcis,
hinc canere incipiam. uos, o clarissima mundi 5
lumina, labentem caelo quae ducitis annum;
Liber et alma Ceres, uestro si munere tellus
Chaoniam pingui glandem mutauit arista
poculaque inuentis Acheloia miscuit uuis;
et uos, agrestum praesentia numina, Fauni, 10
ferte simul Faunique pedem Dryadesque puellae:
munera uestra cano; tuque o, cui prima frementem
fudit equum magno tellus percussa tridenti,
Neptune; et cultor nemorum, cui pinguia Ceae
ter centum niuei tondent dumeta iuuenci; 15
ipse nemus linquens patrium saltusque Lycaei
Pan, ouium custos, tua si tibi Maenala curae,
adsis, o Tegeaee, fauens, oleaeque Minerua
inuentrix, uncique puer monstrator aratri,
et teneram ab radice ferens, Siluane, cupressum: 20
dique deaeque omnes, studium quibus arua tueri
quique nouas alitis non ullo semine fruges
quique satis largum caelo demittitis imbrem.
tuque adeo, quem mox quae sint habitura deorum
concilia incertum est, urbisne inuisere, Caesar, 25
terrarumque uelis curam, et te maximus orbis
auctorem frugum tempestatumque potentem
accipiat cingens materna tempora myrto;
an deus immensi uenias maris ac tua nautae
numina sola colant, tibi seruiat ultima Thule, 30
teque sibi generum Tethys emat omnibus undis;
anne nouum tardis sidus te mensibus addas,
qua locus Erigonen inter Chelasque sequentis
panditur: ipse tibi iam bracchia contrahit ardens
Scorpios et caeli iusta plus parte reliquit; 35
quidquid eris (nam te nec sperant Tartara regem,
nec tibi regnandi ueniat tam dira cupido,
quamuis Elysios miretur Graecia campos
nec repetita sequi curet Proserpina matrem),
da facilem cursum atque audacibus adnue coeptis 40
ignarosque uiae mecum miseratus agrestis
ingredere et uotis iam nunc adsuesce uocari.
Vere nouo, gelidus canis cum montibus umor
liquitur et Zephyro putris se glaeba resoluit,
depresso incipiat iam tum mihi taurus aratro 45
ingemere et sulco attritus splendescere uomer.
illa seges demum uotis respondet auari
agricolae, bis quae solem, bis frigora sensit;
illius immensae ruperunt horrea messes.
ac prius ignotum ferro quam scindimus aequor, 50
uentos et uarium caeli praediscere morem
cura sit ac patrios cultusque habitusque locorum,
et quid quaeque ferat regio et quid quaeque recuset.
hic segetes, illic ueniunt felicius uuae,
arborei fetus alibi atque iniussa uirescunt 55
gramina. nonne uides croceos ut Tmolus odores,
India mittit ebur, molles sua tura Sabaei,
at Chalybes nudi ferrum uirosaque Pontus
castorea, Eliadum palmas Epiros equarum?
continuo has leges aeternaque foedera certis 60
imposuit natura locis, quo tempore primum
Deucalion uacuum lapides iactauit in orbem,
unde homines nati, durum genus. ergo age, terrae
pingue solum primis extemplo a mensibus anni
fortes inuertant tauri, glaebasque iacentis 65
puluerulenta coquat maturis solibus aestas;
at si non fuerit tellus fecunda, sub ipsum
Arcturum tenui sat erit suspendere sulco:
illic, officiant laetis ne frugibus herbae,
hic, sterilem exiguus ne deserat umor harenam. 70

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poesia

Mafalda Sofia Gomes (1992-)

MafaldaSofiaGomes.JPG

Mafalda Sofia Gomes nasceu em Matosinhos, Portugal, em 1992. Faz trabalho de investigação no âmbito da germanística medieval. É co-fundadora e co-editora da plataforma “A Bacana”.

* * *

 

Bolo de aniversário

Dia haverá
e será de festa
em que me farás
um bolo

duas camadas
separadas
com cobertura
doce
celebradas
com recheio muito
amargo

no topo
as velas o fogo aceso
dado de presente
à maneira antiga
de humanizar

a alegria e o brio
da vida obnubilada na cozinha
as horas ensimesmadas
o fermento

perdido
na serpentina
das festas
que fazemos
para os outros

§

 

Reprodução I

I

Subimos aos montes
como quem vai pra se encontrar com Deus

debaixo do braço
levamos as tábuas
vernaculares
esperamos a lei
escrevemos o governo
umas para as outras e todas para o mundo inteiro

II

um bolo bate-se
sempre para o mesmo lado
brincadeiras de homens
são beijos de burro
mais vale cair em graça
que ser engraçada
não faças maionese
se estás com a menstruação
não vás à fonte
com a sede toda
nunca te arrependas
de estar calada
a melhor laranja
é do teu marido
faz-te farta como
um espigueiro no meio da eira
o reino do céu
é de quem se senta no fim da ceia
cresce que crescer
é castigo

III

Descemos os montes
grávidas como um legislador

§

 

Reprodução II

I

O abismo da saia afunilada
não nos deixa subir às árvores
e se quisermos visitar o nosso amante
é bom que alcemos a perna com desenvoltura
porque as escadas que dão acesso aos aviões
foram pensados por engenheiros
que pensavam em mulheres de minissaia
e nós não somos concubinas nenhumas
O abismo da stabat mater
não nos deixa comer laranjas à noite
e se quisermos dançar sem espaço para Jesus
é bom que seja com o nosso amante
afinal ele saberá que em princípio
não somos concubinas nenhumas
somos melancólicas não temos minissaias gozos
temos bolores e preguiça não subimos às árvores
estamos sempre potencialmente grávidas
choramos nos aviões nas escadas nos bailes
não somos concubinas nenhumas
temos milhões de abismos
para contar

II

se quisermos sair
vamos constipar-nos
porque somos esburacadas
e tudo nos engravida
por todos os lados

o ar dos aviões
os engenheiros
o espírito santo

geramos com leite
amantes filhos pais
que choramos loucas
porque somos vacas

civilizamos com leite
temos com fartura
não se preocupem

afinal não queremos sair
porque estamos sempre
potencialmente grávidas
III

“A minha mulher não me é nada
a minha mulher não é da minha família
o meu filho é da minha família
ela não me é nada”

“A minha mulher não come pão fresco
quando há pão seco em casa
a minha filha também não
se eu como pão seco
em quê que elas são mais do que eu?”

“A minha mulher não usa decotes
porque tenho os decotes das minhas primas
o calendário da cozinha onde não cozinho
porque ela cozinha tudo para mim”

§

 

Recreio

I

Os rapazes afugentam os gatos
quando lhes atiram pedras
em frente às raparigas
que delicadas choram

fingem ser maus
como maus são os homens
e fingem ser porcos
como porcos são os homens
porque é cedo que as coisas importantes se definem
como cultivar a vergonha
a culpa na cama desfeita
dos nossos pais

As raparigas gostam de gatos
e as pedras que não lhes atiram
guardam para as atirarem aos rapazes
que nunca acertam
porque os rapazes fogem depressa
como se montados num cavalo
e as nossas mãos como ratos
são as mãos que aos rapazes
ferozes estendemos
que nos dão estalos no recreio
que mostram o pénis
que não sabemos se temos
coragem de ver

fugimos como se dissemos
que queremos
que nos apanhem
que nos atirem pedras
iguais às que atiramos
e que falham o alvo
porque estávamos entretidas
com uma ideia de amor
e outra de expiação

II

Os rapazes não sonham
ainda o segredo
que deusas nos entretemos
a bulir

só mais tarde
quando te beijei a palma da mão da masturbação
compreendi que não havia tipos de rapazes
proporcionais ao único tipo de rapariga
que eu conhecia

§

 

Tirania

A arte de expulsar
os botões de suas casas
não se aprende
no meu país

Os rapazes existem para glória
de suas mães
As raparigas limpam a merda
dos rituais

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poesia, tradução

Eeva-Liisa Manner (1921-1995), por Ricardo Domeneck

Eeva-Liisa Manner foi uma poeta, dramaturga, romancista e tradutora finlandesa, nascida em Helsinque no dia 5 de dezembro de 1921. Estreou como poeta em 1944, com o livro Mustaa ja punaista — “Preto e vermelho”). Mas foi a partir da coletâna de poemas Tämä matka (“Esta jornada”, 1956) que passou a ser vista como uma das mais influentes vozes da poesia finlandesa no pós-guerra. Traduziu obras de William Shakespeare, Lewis Carroll, Hermann Hesse e Franz Kafka para o finlandês. Eeva-Liisa Manner morreu em Tampere, no dia 7 de julho de 1995. Os poemas abaixo foram vertidos a partir das traduções em inglês.

 Ricardo Domeneck

* * *

Descartes

Eu pensava, mas não existia.
Eu disse que animais eram máquinas.
Eu perdera tudo menos a razão.

Dê meus parabéns a todos
cujo conhecimento é secreto –
Paracelso, Swedenborg e os cavalos matemáticos de Elberfeld
que extraem a raiz e a elevam a uma potência,
calculam com seus cascos espertos, não suas cabeças –

porque o corpo tudo sabe
mas um prego atravessa uma cabeça culta.

Diga que a filosofia é solidão e um cadáver
copulando com a razão e o bebê
é um discurso sobre o método e extensão imaginada.

Hoje
cavalos rápidos correm por uma França moribunda
e seus cascos batucam um conhecimento oculto
no osso-temporal cartesiano.
Hoje, eles e eu somos um só.

§

Contraponto

Tudo despencou do meu colo:
o jardim, o quintal, a casa, as vozes, os quartos,
a criança – segurando uma andorinha e um peixe –
caíram no chão
que empurrava suas pedras.
Eu sou um quarto vazio
cercado por pontos cardeais
e árvores embrulhadas em neve,
frio, frio, vazio.
Mas em minha mão
tudo o que amo ascende –
o quintal, as rosas, o ninho artificial,
perfeitos,
uma casa como vagem, sementes quietas
com morte e moção em seus tecidos,
o pequeno poço, o pequeno cão, a coleira invisível.
Quarto pequeno, janelas pequenas, pequenos, sapatos
de cadarços ágeis para o coração e a corrida.
Os sapatos correm entre câmara e átrio
e sobre o sangue dedos infantis constróem
um cais de pedra para os remadores de pedra.
Sonhos como pedras
nas profundezas,
lidos e dedicados à morte.
E pássaros afinados
flutuam janela adentro –
com um risinho nos bicos:
gotas de Mozart
zart zart

 

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