poesia, tradução

André Pieyre de Mandiargues (1909 – 1991), por Natan Schäfer

André Pieyre de Mandiargues e sua esposa Bona, pintora e escultora. Foto de Cartier Bresson. Veneza, 1952.

André Pieyre de Mandiargues (1909 – 1991) é autor de uma extensa e diversa obra que, embora agraciada com Prêmio Goncourt (em 1967, pelo romance La Marge) e o Grande Prêmio da Academie Française (em 1979, por sua poesia), ainda enfrenta dificuldades para encontrar seu lugar nas histórias da literatura francesa. Nascido em Paris mas tendo passado grande parte de sua vida no sul da Europa devido à sua paixão pelo mediterrâneo, Mandiargues foi um dos “herdeiros indiretos” do surrealismo francês, apesar de nunca ter participado e militado oficialmente junto ao grupo liderado por André Breton. Excêntrico e algo insular, Mandiargues foi definido em seu obituário no jornal Le Figaro como o “mais secreto de nossos escritores” e possui uma poética geralmente apresentada como barroca e vinculada ao onírico e ao erótico, mas não que para por aí. Como muito bem observou o poeta e ensaísta Alain Jouffroy, os textos de Mandiargues nos conduzem “às profundezas da voz baixa”.

O autor foi apresentado no Brasil por Mônica Cristina Corrêa, que traduziu a prosa de “Fogo em brasa” (Feu de brase), publicado pela editora Iluminuras em 2003.

As traduções aqui reunidas referem-se a diferentes momentos do longo percurso poético de Mandiargues, que vai de 1943, ano de publicação de Dans les anées sordides, até o início dos anos 1990. Podemos assim acompanhar alguns movimentos de uma poética que não se resume à obediência a postulados ou dogmas, não se deixando reduzir a um ismo e cuja voz, ainda que sussurante, se faz ouvir e segue conversando conosco, hoje.

Natan Schäfer (1991) nasceu em Ibirama, Santa Catarina. É mestrando em Estudos Literários pela UFPR e proprietário, com Flávia Chornobai, da microeditora Contravento Editorial. Atualmente vive em Lyon.

* * *

Arroio de solidões [André Pieyre de Mandiargues, Ruisseau des solitudes, 1968, p.:? “Ruisseau de solitudes”]

Ninguém que seja só
Em si
E ali que
Não queira estar na rua,

Ninguém na rua
Que seja

E não queira
Estar em si
Pra lá da soleira
A sós,

A rua anula
No rolar ela anula
Dia e noite anula,
A nuvem no céu
Desdobra
Um sudário sobre a rua,

Longa rua
Quanto mais longa
Mais anula
E mais cedo cerca o homem,

Sulco longo
Cova escavada,

Sob o azul gris
Da lavanderia suspensa
Gotejando desejos,

Doce doçura dos sozinhos
Desejosos sim,

Sozinhos na casa dele quando estão
Ou ao que parece
Na casa dela
Nu e nua se querem
E arruam
Suam,

Embora dois sendo sós
Suam sim pois
Arruam para
Em dois ser um,

Se ela é arável
Ele é charrua
Queriam ser grãos
De uma só espiga,

Aspirando ao singular
No barro
Fazem a lebre dupla,

Só a só se pregam
Panela e tampa
Da arca oblonga
Que em par
Desce no lamaçal,

Para ser anulada
Pela lei da vassoura,

Enquanto longe
Frente ao cabo
E atrás também
Reforma-se a rua,

Arroio de solidões.

Ruisseau de solitudes

Nul qui seul soit
Chez soi
Et là qui
Ne veuille être en la rue,

Nul en la rue
Qui soit
Seul
Et qui ne veuille
Être chez soi
Derrière un seuil
À soi,

La rue annule
Par roulement elle annule
Jour e nuit elle annule,

La nue au ciel
Déploie
Un linceul sur la rue,

Longue rue
Plus longue elle est
Plus elle annule
Plus tôt l’homme est enclos,

Un sillon long
Une fosse fouie,

Sous le bleu-gris
De la buanderie haute
D’où les désirs découlent,

Douce douceur des seuls
Désireux oui,

Seuls chez lui quand ils sont
Ou semblablement
Chez elle
Nu et nue ils se veulent
Ils ruent Suent,

Quoique deux étant seuls
Ils suent oui donc
Ils ruent afin
D’être en deux un,

Qu’elle soit arable
Ils est charrue
Ils se voudraient le grain
D’un seul épi,

Aspirant à l’unique
Ils terrent
Font un double lapin,

Seul à seule ils s’enclouent
Couvercle et fond
Du coffre long
Qui est couple et
Qui descend en des boues,

Pour être annulé
De par loi de balai,

Tandis que loin
Devant le manche
Et en arrière aussi
Se reforme la rue,

Ruisseau des solitudes.

§

Você vai rir [André Pieyre de Mandiargues, Le Point où j’en suis / Dalila exaltée / La Nuit l’amour (p. 64), 1964 e Correspondance Paris – Buenos Aires 1961-1972, 2018 “Tu riras”]

Para Alejandra Pizarnik

Você vai rir de ter passado fome
Vai rir da necessidade
E da satisfação,

Vai rir do frio e do calor
Vai rir de ter dado risada e chorado
Vai sorrir por ter amado,

Você vai zombar por ter estado viva.

Tu riras

Tu riras d’avoir eu faim
Tu riras du besoin
Et de la satisfaction,

Tu riras du froid et du chaud
Tu riras d’avoir ri et pleuré
Tu souriras d’avoir aimé,

Tu te moqueras d’avoir eté vivante.

§

Heroína [André Pieyre de Mandiargues, Gris de perle, 1993, “Héroïne”, p. 64]

Quem cai não é a flor
Mas seu adorno de pétalas
Quando o macio ventre cresce
Ovário da papoula branca
De onde um dia sairás
Moça ofuscada,

Mas o que não longe de ti
Já brilha
É a tumba de mármore nova
Numa floresta vasta e velha,

A tumba da heroína
Que serás contra tua vontade
De ter uma vida de planta entre as árvores
Comumente obscuramente
Inocentemente eternamente
Aos pés do portal de giz.

(28 de outubro de 1984)

Héroïne

C’est n’est pas la fleur qui tombe
C’est sa parure de pétales
Quand son doux ventre grossit
Ovaire du pavot blanc
Dont tu sortiras un jour
Jeune éblouie,

Mais ce qui non loin de toi
Brille déjà
Est un tombeau de marbre neuf
Dans une forêt vaste et vielle,

Le tombeau de l’héroïne
Que tu seras contre ta volonté
De n’avoir qu’une vie de plante entre les arbres
Communément obscurément
Innocemment longtemps
Au pied d’une porte de craie.

(28 octobre 1984)

§

Incêndio [André Pieyre de Mandiargues, L’âge de la craie, 1961, p.15: “L’incendie”]

Que foste buscar em meio ao incêndio
Por trás dos vapores de esplendor barroco
Através do segredo de uma escada aos trapos
Estrangulada por heras escarlates?

Que promessa te fez abrir uma porta em chamas
Santa face de fogo e cinza
Na beira de um mundo morno
Falcatrua silêncio ruína?

Diante de ti agora não mais
Que diamantes e rubis brincando na poeira
Que gesso caído sobre azulejos de mármore
Com estátuas de escudos brancos
De mãos de vidro de jarros cheios de pranto
De pretas de veludo e de rosas passadas
Embaixo de paredes caducas.

Eis que vem vindo uma dama radiante e funérea
Desaparece de repente de repente aparece reaparece de repente
Mais que de repente nua
Que é como a sombra de uma desolação.

Nua sangrenta e negra
Nos cabelos desfeitos uma fagulha
Vermelha como um cravo capaz de perfurar a fuligem.

Pisoteando com os pés as pedras
Ouro e prata o tinir do cristal
Indiferente à opulência ou à ruína
Na beleza da hora catastrófica.

E talvez a julgues boa atriz
Gigante que se estende com tranquilidade
Na calçada como sob uma faca
Enquanto ao seu redor explode e se espalha
O louco luxo do seu teatro de sempre
Que mil línguas engolem.

L’incendie

Qu’allais-tu donc chercher à travers l’incendie
Derrière des vapeurs à la splendeur baroque
Par le secret d’un escalier en loques
Étranglé de lierres écarlates ?

Quel voeu te fit pousser une porte brûlante
Sainte face de feu et de cendre
A la limite d’un monde morne
Sournoiserie silence délabrement ?

Devant toi ce n’est plus maintenant
Que diamants et rubis qui jouent dans la poussière
Que plâtres retombés sur des carreaux de marbre
Avec des statues blanches des armes
Des mains de verre des vases pleins de larmes
Des nègres de velours et des roses passées
Au bas de murs caducs.

Il vient une dame éclatante et funèbre
Tôt apparue tôt disparue tôt reparue
Plus tôt encore nue
Qui est comme l’ombre d’une désolation.

Nue saignante et noire
Une flammèche en ses cheveux défaits
Rouge comme un oeillet qui crèverait la suie.

Foulant aux pieds les pierres
L’or et l’argent le fracas du cristal
Indifférente à l’opulence ou à la ruine
Dans la beauté d’une heure catastrophique.

Et tu la trouveras peut-être bonne actrice
La géante qui s’étend avec tranquillité
Sur le pavement comme sous un couteau
Tandis qu’alentour explose et se disperse
Le luxe fou de son théâtre de toujours
Que mille langues engloutissent.

§

Temporada de neve [André Pieyre de Mandiargues, L’âge de la craie, 1961, p.: “Les temps de neige”]

Neva e elas riem

Elas riem de tudo
Da sua nudez do inverno
Da cabra preta e pinhos
Do vento e de seu mestre.

Leito frio tinto em fogo
De araras e quimeras
De gargantas brilhantes
Nos olhos se debatem
Colibris faisões gaios.

Ornamento incontestável
Os dias de sol minguam
Em clarões de alegria insana
Em plumas jorrando em sincelos
Pelo mais vão dos sacrifícios
É hora de se perderem.

Se o leito é o campo da derrota
Se os lençóis rasgados tombam
Aos pés deste homem sem idade
Sem amizades nem perdão
Bloco mineral errático
Que um glaciar deixou no quarto.

Pelo orgulho submisso a tudo
Uma se finge indiferente
Logo a outra se maravilha
Fica vermelha e segue branca
Pequena coruja-das-neves
Presa nos fios do caçador.

Sabe ele que ela é a caçula e
Que sua penugem tão fina
Um só fio de sangue arruina?

Mas a fogueira também toma parte
Rompe-se a rocha o quarto se ilumina
O áspero jogo logo vai findar
Numa onda ardente de rubi e nácar.

Le temps de neige

Il neige elles s’en rient
Elles se rient de tout

De l’hiver d’être nues
De la nuit et des hommes
Du bouc noir des sapins
Du vent et de leur maître.

Le feu peint leur lit froid
D’aras et de chimères
Aux gorges étincelantes
Et dans leurs yeux se battent
Faisans geais colibris.

La parure incontestable
De beaux jours qui s’amenuisent
En éclats d’une gaieté folle
En duvets jetés aux frimas
Pour le plus vain des sacrifices
S’il n’est temps que d’être perdues.

Si leur lit est un champ de défaite
Si les draps rompus sont à bas
Aux pieds de cet homme sans âge
Sans amitié ni pardon
Bloc de pierre erratique
Qu’un glacier laissa dans la chambre.

Soumise à tout par sa fierté
L’une se feint indifférente
Mais déjà l’autre s’émerveille
Rosit sans cesser d’être blanche
Comme un petit harfang des neiges
Pris aux filets de l’oiseleur.

Sait-il bien qu’elle est la plus jeune
Et que son plumage est si tendre
Qu’un trait de sang le ruinera ?

Mais le bûcher s’est mis de la partie
Le roc se fend la chambre s’illumine
Le jeu bourru va bientôt s’achever
En chaude ondée de rubis et de nacre.

§

País gélido [André Pieyre de Mandiargues, L’âge de la craie, 1961, p.40: “Le pays froid”]

Fala mais alto, o inverno atordoa.
O ruído dos passos que ontem ouvimos
No lago congelado
Somente na memória agora soa
E nossa vida se faz um triste hábito
Por trás da parede de vidro níveo.

Já tem dias semanas que cai neve
E o carvão o café cada dia menos
Cada dia enfraquece
O amanhã sempre pior que a véspera.

Nossa própria memória extravia as respostas.

Fome e gelo expulsam do bosque os cervos
Paras as ruas do vilarejo
Um deitou-se perante a cruz
Boquiaberto a cabeça pra trás
Fera imagem do nosso amor.

Escutou o uivo dos lobos à noite
Quando vêm vindo rondar o curral?
Sob a chaminé o fogo enfraquece
Com tanta indulgência o cão nos encara
Com tanta pena
Que nosso peito se aperta.

Não ninguém vai varrer os degraus da entrada.

Jovem gigante, ganha força o inverno
Cai neve a geada engrossa e nós
Envelhecemos no compasso.

Fala baixo não é mais preciso que escutem
O homem de pedra já vai abrir o caminho.

Le pays froid

Parlez plus haut l’hiver nous assourdit
Les bruits des pas que l’on entendait hier
Au bord du lac gelé
Ne sonnent plus que dans le souvenir
Et notre vie devient une habitude triste
Derrière la paroi des vitres blanches.

La neige tombe depuis bien des semaines
Le charbon le café diminuent tous les jours
Chaque jour s’amoindrit
Le lendemain toujours est pire que la veille.

Notre mémoire même égare les réponses.

La faim le froid chassent les cerfs hors des bois
Jusque dans les rues du village
L’un s’est couché devant la croix
Bouche bée la tête à la renverse
Fauve image de notre amour.

Avez-vous entendu crier le loup le soir
Quand ils viennent rôder autour des étables?

Sous la haute cheminée le feu languit
Le chien nous regarde avec tant d’indulgence
Avec tant de pitié
Que notre coeur se serre.

Nul ne balayera les marches de l’entrée.

L’hiver s’accroît comme un jeune géant
La neige tombe le givre s’épaissit
Et nous vieillissons à mesure.

Parlez bas il n’est plus besoin de nous entendre
Bientôt l’homme de pierre ouvrira le chemin.

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