poesia, tradução

Eeva-Liisa Manner (1921-1995), por Ricardo Domeneck

Eeva-Liisa Manner foi uma poeta, dramaturga, romancista e tradutora finlandesa, nascida em Helsinque no dia 5 de dezembro de 1921. Estreou como poeta em 1944, com o livro Mustaa ja punaista — “Preto e vermelho”). Mas foi a partir da coletâna de poemas Tämä matka (“Esta jornada”, 1956) que passou a ser vista como uma das mais influentes vozes da poesia finlandesa no pós-guerra. Traduziu obras de William Shakespeare, Lewis Carroll, Hermann Hesse e Franz Kafka para o finlandês. Eeva-Liisa Manner morreu em Tampere, no dia 7 de julho de 1995. Os poemas abaixo foram vertidos a partir das traduções em inglês.

 Ricardo Domeneck

* * *

Descartes

Eu pensava, mas não existia.
Eu disse que animais eram máquinas.
Eu perdera tudo menos a razão.

Dê meus parabéns a todos
cujo conhecimento é secreto –
Paracelso, Swedenborg e os cavalos matemáticos de Elberfeld
que extraem a raiz e a elevam a uma potência,
calculam com seus cascos espertos, não suas cabeças –

porque o corpo tudo sabe
mas um prego atravessa uma cabeça culta.

Diga que a filosofia é solidão e um cadáver
copulando com a razão e o bebê
é um discurso sobre o método e extensão imaginada.

Hoje
cavalos rápidos correm por uma França moribunda
e seus cascos batucam um conhecimento oculto
no osso-temporal cartesiano.
Hoje, eles e eu somos um só.

§

Contraponto

Tudo despencou do meu colo:
o jardim, o quintal, a casa, as vozes, os quartos,
a criança – segurando uma andorinha e um peixe –
caíram no chão
que empurrava suas pedras.
Eu sou um quarto vazio
cercado por pontos cardeais
e árvores embrulhadas em neve,
frio, frio, vazio.
Mas em minha mão
tudo o que amo ascende –
o quintal, as rosas, o ninho artificial,
perfeitos,
uma casa como vagem, sementes quietas
com morte e moção em seus tecidos,
o pequeno poço, o pequeno cão, a coleira invisível.
Quarto pequeno, janelas pequenas, pequenos, sapatos
de cadarços ágeis para o coração e a corrida.
Os sapatos correm entre câmara e átrio
e sobre o sangue dedos infantis constróem
um cais de pedra para os remadores de pedra.
Sonhos como pedras
nas profundezas,
lidos e dedicados à morte.
E pássaros afinados
flutuam janela adentro –
com um risinho nos bicos:
gotas de Mozart
zart zart

 

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