poesia

Mafalda Sofia Gomes (1992-)

MafaldaSofiaGomes.JPG

Mafalda Sofia Gomes nasceu em Matosinhos, Portugal, em 1992. Faz trabalho de investigação no âmbito da germanística medieval. É co-fundadora e co-editora da plataforma “A Bacana”.

* * *

 

Bolo de aniversário

Dia haverá
e será de festa
em que me farás
um bolo

duas camadas
separadas
com cobertura
doce
celebradas
com recheio muito
amargo

no topo
as velas o fogo aceso
dado de presente
à maneira antiga
de humanizar

a alegria e o brio
da vida obnubilada na cozinha
as horas ensimesmadas
o fermento

perdido
na serpentina
das festas
que fazemos
para os outros

§

 

Reprodução I

I

Subimos aos montes
como quem vai pra se encontrar com Deus

debaixo do braço
levamos as tábuas
vernaculares
esperamos a lei
escrevemos o governo
umas para as outras e todas para o mundo inteiro

II

um bolo bate-se
sempre para o mesmo lado
brincadeiras de homens
são beijos de burro
mais vale cair em graça
que ser engraçada
não faças maionese
se estás com a menstruação
não vás à fonte
com a sede toda
nunca te arrependas
de estar calada
a melhor laranja
é do teu marido
faz-te farta como
um espigueiro no meio da eira
o reino do céu
é de quem se senta no fim da ceia
cresce que crescer
é castigo

III

Descemos os montes
grávidas como um legislador

§

 

Reprodução II

I

O abismo da saia afunilada
não nos deixa subir às árvores
e se quisermos visitar o nosso amante
é bom que alcemos a perna com desenvoltura
porque as escadas que dão acesso aos aviões
foram pensados por engenheiros
que pensavam em mulheres de minissaia
e nós não somos concubinas nenhumas
O abismo da stabat mater
não nos deixa comer laranjas à noite
e se quisermos dançar sem espaço para Jesus
é bom que seja com o nosso amante
afinal ele saberá que em princípio
não somos concubinas nenhumas
somos melancólicas não temos minissaias gozos
temos bolores e preguiça não subimos às árvores
estamos sempre potencialmente grávidas
choramos nos aviões nas escadas nos bailes
não somos concubinas nenhumas
temos milhões de abismos
para contar

II

se quisermos sair
vamos constipar-nos
porque somos esburacadas
e tudo nos engravida
por todos os lados

o ar dos aviões
os engenheiros
o espírito santo

geramos com leite
amantes filhos pais
que choramos loucas
porque somos vacas

civilizamos com leite
temos com fartura
não se preocupem

afinal não queremos sair
porque estamos sempre
potencialmente grávidas
III

“A minha mulher não me é nada
a minha mulher não é da minha família
o meu filho é da minha família
ela não me é nada”

“A minha mulher não come pão fresco
quando há pão seco em casa
a minha filha também não
se eu como pão seco
em quê que elas são mais do que eu?”

“A minha mulher não usa decotes
porque tenho os decotes das minhas primas
o calendário da cozinha onde não cozinho
porque ela cozinha tudo para mim”

§

 

Recreio

I

Os rapazes afugentam os gatos
quando lhes atiram pedras
em frente às raparigas
que delicadas choram

fingem ser maus
como maus são os homens
e fingem ser porcos
como porcos são os homens
porque é cedo que as coisas importantes se definem
como cultivar a vergonha
a culpa na cama desfeita
dos nossos pais

As raparigas gostam de gatos
e as pedras que não lhes atiram
guardam para as atirarem aos rapazes
que nunca acertam
porque os rapazes fogem depressa
como se montados num cavalo
e as nossas mãos como ratos
são as mãos que aos rapazes
ferozes estendemos
que nos dão estalos no recreio
que mostram o pénis
que não sabemos se temos
coragem de ver

fugimos como se dissemos
que queremos
que nos apanhem
que nos atirem pedras
iguais às que atiramos
e que falham o alvo
porque estávamos entretidas
com uma ideia de amor
e outra de expiação

II

Os rapazes não sonham
ainda o segredo
que deusas nos entretemos
a bulir

só mais tarde
quando te beijei a palma da mão da masturbação
compreendi que não havia tipos de rapazes
proporcionais ao único tipo de rapariga
que eu conhecia

§

 

Tirania

A arte de expulsar
os botões de suas casas
não se aprende
no meu país

Os rapazes existem para glória
de suas mães
As raparigas limpam a merda
dos rituais

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Um comentário sobre “Mafalda Sofia Gomes (1992-)

  1. Partes baixas disse:

    Se fugimos do nosso desejo perseguimos ao avesso o nosso desejo e damos de cara com nosso desejo e fugimos do nosso desejo e

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