poesia

Marcelo Ariel (1968-)

marceloariel

Marcelo Ariel no evento Literatura e(m) performance, UFPR (novembro/2017). Foto de Rodrigo Tadeu Gonçalves.

Tratado dos Anjos Afogados, livro que reuniu vinte anos de produção poética de Marcelo Ariel, completa, em 2018, dez anos de publicação. Nesse ínterim, o poeta publicou mais de uma dezena de livros de poesia, prosa e textos diversos, por editoras convencionais, artesanais e cartoneras.

Desse volume chama a atenção a seção “Vila Socó: Libertada”, conjunto de poemas que tratam de Cubatão – cidade na qual o poeta viveu grande parte de sua vida – e sua trajetória arruinada: de maior polo industrial do país a uma das cidades mais poluídas do mundo, na década de 80. Há, nesses poemas, um mosaico de imagens do caos ambiental, do descaso do estado e do fracasso do modelo desenvolvimentista, compondo uma das linhas de força da voz poética de Ariel que se faz presente em vários de seus escritos: a necessidade de falar da barbárie, da catástrofe, do horror.

O massacre dos indígenas, Canudos, Carandiru, a destruição ambiental de Cubatão, Auschwitz, a condição do negro nas periferias, Palestina, Hiroshima e Nagasaki. Guardadas as proporções e os contextos históricos, são diferentes situações nas quais pode-se perceber a capacidade destrutiva do homem e que, justamente por isso, interessam a Ariel: é preciso não esquecer e é preciso, para esse poeta, que se entenda o continuum do horror que constitui a experiência de grande parte da população mundial.

Ariel – nome artístico de Marcelo – é um arcanjo importante nas tradições hebraica e cristã, mensageiro da voz divina em alguns momentos dos relatos bíblicos e até mesmo personificação da Terra Santa em outros. Podemos pensar no Ariel de Marcelo como uma espécie de “Anjo da História”, ao modo de Walter Benjamin ao falar do Angelus Novus, de Paul Klee: o poeta, assim como o anjo da imagem, olha para o passado e vê uma única história de catástrofe que “amontoa escombros sobre escombros e os arremessa a seus pés”.

Mas, Ariel em seu gesto contemporâneo é, como nos diria Giorgio Agambem ao pensar sobre Ossip Mandelstam, aquele que mantém “fixo o olhar nos olhos do seu século-fera”, soldando “com seu sangue o dorso quebrado do tempo (…)”. O poeta (Ariel, Mandelstam) é “aquilo que impede o tempo de compor-se e, ao mesmo tempo, o sangue que deve suturar a quebra”.

A sobreposição do tempo do indivíduo e suas experiências ao tempo histórico onde se situam as experiências coletivas, e o trabalho de tentar soldá-los, suturá-los, evoca justamente a ideia de Benjamin em relação ao Anjo da história. Esse anjo olha para o passado a partir do presente e tem o desejo de “juntar os fragmentos” das ruínas que ele observa, diretamente de seu contemporâneo. Ao mesmo tempo ele tenta reagir à rajada de progresso, costurar e colar as vértebras desse tempo que o compõe e é composto por ele, simultaneamente. O poeta impede que o tempo se recomponha sem que haja uma reflexão sobre ele e é isso que vemos na poesia de Mandelstam, assim como na de Ariel, já que este sabe que a promessa do progresso é o prenúncio da miséria: “Houve um vazamento de enxofre anteontem seguido de uma chuva ácida”.

Assim, os inúmeros processos de destruição – materiais e psíquicos – aos quais somos submetidos na era do capital e da tecnologia são matéria essencial da matriz poética de Ariel. Entretanto, é importante registrar: não se trata de uma poesia preocupada em representar o real ou de tentar mimetizá-lo através da linguagem poética. A extensa e profícua obra de Marcelo Ariel é fundada sobre a consciência do quão impossível seria tentar representar e transmitir as imagens do horror.

O poeta sabe que a linguagem é, por excelência, falha. Leitor de Maurice Blanchot, de Stéphane Mallarmé, de Paul Celan, reconhece a impossibilidade efetiva das palavras de dizerem: “a linguagem se confunde com um enorme campo coberto por uma densa névoa”, nos dirão alguns de seus escritos. E nisso funda mais um de seus eixos poéticos: um intenso e profundo embate com a língua e a linguagem. E a poesia surge exatamente daí: como a possibilidade de dilatar os limites e tensionar as impossibilidades do falar. Supostamente, responde Yves Bonnefoy em um dos poemas de Ariel: “Não posso resumi-la, mas a poesia é antes de tudo um modo de lutar contra a linguagem”.

Essa compreensão sobre o não-dizível guardado em tudo que é dito – ou que almeja sê-lo – leva à construção de um universo poético repleto de imagens de sono, sonho, nuvens, vapor, névoa, onde nada é, e onde há a tentativa constante de banir paradigmas, sejam eles os conceituais, os ideais, os ontológicos, inclusive, talvez principalmente, o próprio conceito de “eu”, poético ou não: “…sempre haverá a demanda do não-eu em algum lugar de mundo nenhum”.

Contraditório? Profundamente. O próprio poeta reconhece – em entrevistas – esse aspecto e o afirma como elemento poético, enquanto força de afirmação da própria vida, contraditória por excelência, da qual sempre se pode extrair o sublime. Mesmo quando um menino fumando crack atravessa a rua ou o poema. Aliás, para Ariel, o único “opaciamento” inaceitável é contra o sublime.

Sublime este encontrado na brutalidade do cotidiano e, principalmente, no universo das artes e do pensamento.

Ariel constrói como base poética um intricado complexo de alusões e citações diretas a poetas, músicos, pintores, filósofos, pensadores, utilizando também trechos e traduções de obras, não só como epígrafe, mas como parte integrante de seus poemas.

Procedimento presente em muitos poetas contemporâneos que remonta a tradições poéticas milenares, em Ariel, o intertexto ganha outro tipo de proporção, em um intenso processo de referenciação, no qual há espaço não só para a tradição literária ocidental, como também para filósofos e escritores orientais, em meio à citação de trechos da carta de fundação do Primeiro Comando da Capital.

Forjando entrevistas com nomes importantes dentro de seu panteão pessoal, simulando diálogos impensáveis ou imaginando sonhos sonhados por outros, Marcelo Ariel arquiteta uma rede de sentidos e de não-sentido, sobrepondo sua experiência de leitor e sua voz poética, tecendo algo que ele já não deseja chamar de poesia, mas de uma forma híbrida, que trasborda o próprio verso e se converte em um arquivo labiríntico: “Por absoluta necessidade vou continuar escrevendo dentro dessa filosofia mística torta (Ver Ulpiano e Coltrane), barroco-aracniana (ver Deligny e Lezama), mestiça e infrareal (ver Bolaño e Oswald). A micropolítica da invisibilidade na cachoeira da obscuridade, como ouvi de mim mesmo num sonho”.

Há uma indefinição quanto ao entendimento do lugar ocupado pelo poeta Marcelo Ariel. Ora é possível apresentá-lo como uma voz singular que o torna isolado de seus contemporâneos, ora como um “poeta de seu tempo”, ou seja, alguém que se situa prontamente entre os seus, sem que haja uma determinação ou adesão a nenhum desses supostos extremos, configurando assim sua não-adesão.

Os poemas de Ariel não se encaixam perfeitamente em nenhum rótulo. Alguém que está aqui, hoje, tentando soldar as costelas partidas da memória de nosso processo de modernização precário e negligente, ao mesmo tempo em que transforma em matéria poética o suicídio de alguns de seus poetas preferidos. Constituindo, assim, um tensionamento de nosso discurso sobre a boa poesia brasileira e seus signatários.

A “brutalidade jardim”, resultado do embate do poeta com o horror do mundo, também compõe o olhar que se preocupa em escrever sobre a morte de grandes poetas e de traficantes; o silêncio de Paul Celan guarda semelhanças com o do menino que invade o poema enquanto fuma crack; o real das bibliotecas é tão potente quanto a realidade brutal da cidade na qual se vive.

Em Ariel, todos esses acontecimentos, cenários e “personagens” merecem um comentário através de um poema, mas sem que ele seja uma voz inflamada pela dor, pela cólera ou mesmo pelo amor, pela compaixão. Quase não há possibilidade de perceber o que sente essa voz poética em razão de sua dessubjetivação. Nós sabemos que o poeta é tocado por tudo isso pelo óbvio: a escolha em trazer como componentes de seus poemas esses temas, e dessa forma. Ou seja, pela opção de tocar com sua palavra e com sua linguagem cada um desses termos que o rodeiam através não de um relato, de um texto narrativo, mas através do texto poético, lugar onde a palavra tem a supremacia. Ariel entende essa idiossincrasia e se alinha junto de seus mestres na tentativa de empreender, ele também, uma reflexão sobre o que permite o seu trabalho: a linguagem.

Embora não seja ingênuo, a literatura é sua profissão de fé e a poesia uma promessa de mudança, devido ao fato de que entre ela e o real da vida não existe separação: “(…) há uma nítida apartação entre os poetas e a realidade suja do ‘em torno’, que é no máximo citada como cenário dos poemas e não como centro de onde eles se irradiam, que é o que tento fazer nos meus, apesar da guinada maldita para a névoa metafísica (…). A poesia entra nesse contexto como um enfrentamento do vazio proposto por estes dois projetos de seqüestro, estupro e esquartejamento do espírito. O que encontrei no exercício da poesia foi, em poucas palavras, um sentido maior para o meu egoísmo. No fundo, o maior poeta de todos os tempos, o Qoélet, autor do Eclesiastes, estava certo: Tudo é vaidade, mas a poesia, quando é realmente vivida como uma verdade da existência do indivíduo, é capaz de dar um sentido elevado para o egoísmo e para a vaidade, um sentido que transcenda o mercado. Mas não só a poesia, a arte em geral, quando é autêntica e leva em conta a realidade exterior a partir de um centro interior, é capaz disso. Van Gogh não é um banco, Picasso não é uma marca de automóvel”. (Ariel em entrevista para o escritor Nicodemos Sena).

A poesia é, assim, uma possibilidade de enfrentamento diante da barbárie, do vazio, da morte, ao mesmo tempo que se estabelece como o espaço no qual o poeta pode comentar, livremente, as fontes que compuseram e compõem continuamente seu percurso como leitor. O discurso poético é o lugar do qual Marcelo Ariel dispara sua scherzo-rajada.

apresentação de Diamila Medeiros
(para ler a dissertação de Diamila sobre a poesia de Marcelo Ariel clique aqui)

Marcelo Ariel é prosador, poeta, ensaísta e performer. Nasceu em Santos-SP (1968) e é autor dos livros Me enterrem com a minha AR 15 (Dulcinéia Catadora, 2007-Esgotado), Tratado dos anjos afogados (LetraSelvagem, 2008), O céu no fundo do mar (Dulcinéia Catadora, 2009-esgotado), Conversas com Emily Dickinson (Selo Orpheu/Multifoco, 2010-esgotado), Samba Coltrane (Yi Yi Jambo Cartonera, 2011-esgotado) , A morte de Herberto Helder (Sereia Cantadora Cartonera, 2012), A segunda morte de Herberto Helder (21 Gramas-esgotado), Diário Ontológico I e II (Pharmakon, 2014), Retornaremos das cinzas para sonhar com o silêncio (Editora Patuá, 2013), Urchatz Gaza (Lumme, 2014), Para sempre (Lumme, 2014), Gilberto Mendes –Encontros (Azougue Editorial, 2015, Org. ), O rei das vozes enterradas (Córrego, 2015 ) e Com o Daimon no contrafluxo (Editora Patuá, 2016). Além disso, participou de diversas antologias aqui e no exterior, tais como: Mehr alls bucher, org. Timor Berger (PapperLapPapp\Berlin, 2010), Poesia para el fim del mundo, org. por Estela Mendonza (Kodama cartonera\México, 2013), Poètes du Brésil aujourd’hui, préparé par Ines Oseki-Dépré (Action Poétique\Paris\France, 2011) entre outras. Coordena o Laboratório de Equizoanálise Literária em Santos-SP. Lançou, neste ano, A névoa dentro da nuvem Prosa Reunida – 2012 -2016, pela Lumme Editora, e A Rainha do fogo invisível seguido de A morte de David Bowie, pela Rubra Cartoneira.

* * *

Uma delicada tessitura

se constrói na memória, onde a linguagem se confunde com um enorme campo coberto por uma densa névoa.
Talvez não exista um ‘Sol da palavra ‘ mas certamente há um’ Sol de silêncios ‘ que devagar e decididamente, queimará a névoa e o que veremos desfeito o etéreo opaciamento de tudo serão pequenas gotas de orvalho e iridescências capazes de revelar estas tessituras.
Este pequeno e precioso momento é como um pequeno bordado feito com pontos na névoa, costurado cuidadosamente com os raios de silêncio de uma manhã que apenas pressentimos.

§

Carta para João Gilberto Noll

há um calafrio na fé do meu corpo. ter de suportar mais um dia e o meu olhar certeiro, traduzindo minhas partes mais imundas, andando a prumo retraído, carcomido pela fé quase esvaziada, mas eu caminho, mas eu pulo. ah, eu também grito , aprendi a movimentar os meus gozos mais sutis, aqueles que consigo atuar na mossoroca que meu esqueleto com pele e carne e pelo está girando e girando, olhando pro céu e se mexendo, andando entre escombros e encenando a cena final do que seria uma salvação, e de tempo em tempo deposito um sutil gozo amarelo-quero-mais. é a fé ainda, é a agonia desvirada da lucidez transfigurada pela circunstância.

Uma fé parecida com o pó flutuando na luz, procurando o esvaziamento de uma paz vegetal, uma síntese dessa impossível transfiguração, e continuo girando debaixo deste abismo azul-do-nunca-mais, os estilhaços de um cansaço sem começo nem fim, esvoaçam por dentro, mesmo parada estou correndo como uma corça no escuro, na direção da cama-barco-savana, na direção de um campo de silêncios, sem jamais ouvir alguém chamar meu nome

os átimos de meus cílios pesados pressentem o peso a acrescentar-se em minhas pálpebras, e reverberar-se em meus ombros, e despojar-se do restante do corpo, conhecendo célula por célula como o banho de mar-pesado deitado sobre meu corpo-objeto deixa micro-objetos no fim da tarde. espumas de passagem, acredito que meus ombros também já carregam o quase acontecimento e começam a transmitir para os meus pés o sinal de reações adversas que eu traduzo em estranhamento-entranhamento, congelando no tempo , sinto meu estômago gargalhando do desafio de estar encoberta pelo manto do som do que ainda não existe

esse triunfo de não se reconhecer no próprio nome, exatamente o oposto do que acontece com as outras sombras, que não se reconhecem no próprio corpo, neste momento que separa o existir e o viver do estar sendo a chuva para e um improvável raio de Sol cai e entra no mar

Rudá Abaé!

§

O Menino orquídea

Para Gil Veloso e Caio F.

que o corpo é uma floresta
por dentro

há corpos jardim ?

sim, como uma canção
O seu é uma orquídea
Descobri isso
quase no fim
do não entendimento

Descobriu o quê?

vamos voltar
para o começo
do poema
É para isso
que servem
as flores
que nascem
pelos caminhos

Para que?

Voltar
E no instante
fora do tempo

tudo ficou nítido?

o verdadeiro corpo
não nos abandona
jamais
Vocês estavam certas
Gertrude, Clarice, Hilda

era a orquídea
me dizendo
que só existe
uma alma
para tudo o que existe

está vendo agora?

Sim

§

Dois ônibus se cruzam em sonho, numa dimensão paralela

1+1=1 como ir ao cinema e depois ver o mar
o discurso das ondas,o fim das fronteiras
nossa vida secreta
‘ A Ilha perdida ‘ , foi graças a ela que te conheci
Chet Baker sorri para Elis Regina
Uma tartaruga gigante
e um cavalo-marinho
Van Gogh sem o suicídio
Rimbaud sem a ida para Abissínia
A carne desce à lama, A chama some.
A Seiva se derrama. A terra chama
naturalmente livre
como uma borboleta
atravessando o ônibus lotado
como os silêncios intersiderais
depois descemos
parcialmente derrotados
para toda parte e todo lugar.

§

Infelizmente, o plataforma do wordpress não aceitou a formatação do poema COMO SER O NEGRO, porém, como julgamos ser um poema fundamental dentro da obra de Marcelo Ariel, deixamos aqui um link para que o leitor possa conhecê-lo (clique aqui).

 

 

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