crítica, xanto

XANTO | Estudando a voz de Edimilson de Almeida Pereira, por André Capilé

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Contenda: palavra que interessa, muito e de perto, dada a tensa operação entre os circuitos pelos quais transita Edimilson. A justa disposição para o jogo, nem sempre evidente em seu regramento, de arregimentar cenas da memória vivida, junto da infensa tarefa de levantar os documentos do escorbuto e dos escombros, mais a experiência de campo na escavação de si mesmo na voz de outros, encampam o universo de contensão do poeta. O invariável do choque, quando fios de oposição entram em contato e fazem vibrar, desde sua peculiar sintaxe de revel, atravessada, ainda, por um infestado mundo substantivo, descortina a obra de contenção do poeta, quase, sem adjetivos.

Afeito aos nós do sentido, trançado nas fendas do estranhamento e das tensões dissonantes, parte considerável dos poemas de Edimilson imprimem, em um primeiro contato, uma presente sensação de desconforto que, mesmo após outras investidas, vai se tornando constante — o que não compromete a fruição do texto, seja bem dito.

Ora, é inegável que a prática do poema atuando em função de sua obscuridade foi um dos legados da “estrutura da lírica moderna”. Contudo, tal intenção era manifesta — o que acabou por transformar o plano da estranheza e da dissonância em cartilha, de modo tão veloz quanto cresceram as cidades e as máquinas foram cantadas no correr do século passado. Tal hábito faz, ainda hoje, com que o leitor educado nas raias dos modernismos saia como quem lava as mãos, sem grandes ruídos ou resíduos.

Do repertório de formas que Edimilson lança mão, assiste-se a uma variada gama de modalidades de verso livre. Mesmo quando lida com o recurso da prosa, quase que invariavelmente soa, e se endereça, como versificação convencional. Embora não utilize, de modo sistemático, um preceito de modos e medidas, eventualmente alguns de seus poemas esbarram nos limites de certas tradições métricas. Estudando esse modo de fala, ainda que arbitrário por consequência da escolha pela leitura de um poema apenas, observe-se o flerte com a fatura do canto, logo abaixo:

 

Mulher estudando a voz

não para ganhar dinheiro.
Talvez fale do trabalho
entre rixas no mercado.

Estuda a voz porque olha
afora do mercado. Na
vida deslinda negócios

frutos de vário estrago.
Estuda a voz no tango
pelas mulheres que chora.

Sua voz quando sua ouve
outras como recado.
Conversam as filhas avós

pelo correio do sangue.
Mulher estudando a voz
é uma escola e tanto.

Sua cabeça em grisalhos
calcula dentro do canto.
E o canto é como gesta

de mãe antiga moderna.

 

Em “mulher estudando a voz” flagra-se a captura de uma cena cotidiana. Tal elemento, que figura entre algumas das preferências temáticas de Edimilson, comparece no balanço dos compassos de seu Veludo Azul, livro republicado agora pela Edições Macondo.

Embora tenhamos uma indicação de cenário — o mercado — a ação é construída sem que haja ampliação de informações exteriores no espaço. É dentro da vida, no comércio da existência “afora do mercado” — cuja a ação cede lugar para o desenvolvimento do sujeito como paisagem —, que se estabelecem as zonas de resolução e conflito [na vida deslinda negócios // frutos de vário estrago].

A demanda da preparação, “estudar a voz”, implica sair de si [estuda a voz no tango / pelas mulheres que chora] e, quando do uso de seu instrumento, apontar um movimento de escuta [sua voz quando sua ouve / outras como recado] encampando, no exercício, uma espécie de entrelaçamento de um outro em si mesmo.

EAP joga, de modo constante, com a criação e quebras de expectativas, utilizando a justa associação de motivos corriqueiros [sua cabeça em grisalhos] com flagrante senso de ordenação poética [calcula dentro do canto], administrando tensões que, em suas bordas, quase sempre apontam para a reflexão sobre a linguagem [e o canto é como gesta] e suas relações com a malha social [de mãe antiga moderna]. O que permite, em feliz expressão de Fábio Lucas, “[a] abertura do inacabado, da estrutura em andamento”.

Mas ainda há outro interesse, nesse passo de análise, que é demonstrar como EAP utiliza suas ferramentas de versificação para, então, extrair novos componentes na fatura de sua obra ainda, e sempre, em progresso. Vejamos:

eap

A contar do título, que está amarrado ao correr do texto, têm-se um total de vinte versos. Doze deles marcam o registro rítmico do setissílabo, seis são hexassílabos e, finalmente, dois são oitissílabos. O regime, embora polimétrico, registra a marcante incidência da redondilha maior.

Todavia, como somar sílabas é muito pouco, avancemos a análise — mas antes uma nota de perfumaria: note-se que a maioria dos versos, exceto dois deles, se apresentam regularmente como trímetros e, como dito mais acima, de vez que há um flerte com o canto, a música que se endereça aqui toma dos tons da vida comum o aspecto estratégico, e estrutural, da associação do blues com os cantopoemas do congado, objeto de estudo do autor enquanto poeta-antropólogo — o que não será possível discutir aqui, mas fica dada a nota.

O primeiro andamento estrófico apresenta um contrato em redondilha. Não se forma nenhum tipo de unidade rítmica, embora os dois primeiros versos, inclusive o título, afirmem o tema de saída em um desenho acentual que se repete entre eles, possivelmente como preparação e/ou marcação de um possível pacto de medida.

Ainda, tomando como análise a partida do poema, são apresentadas duas vogais temáticas que serão recorrentes: /á/ e /ó/. A primeira, a meu ver, ligada ao “mercado” — termo que reincide, trançando os planos de dentro e de fora [no mercado / afora do mercado] — e a segunda, ligada à presença da “voz”, que vai criando permutas sonoras até a estrofe 5.

Se no instante inicial o corpo sonoro se dá entre /á/ e /ó/, enquanto a “voz” se imbrica no conflito do comércio, é justo na saída do “mercado”, quando comparece a assonância /i/ marcando a passagem, “(..) na / vida deslinda negócios”, que se assiste a marca vocálica /á/ em corrosão: “vário estrago”.

Estando o contrato métrico aparentemente resolvido em arte menor, ao menos em sua primeira metade, o poema, quando apresenta de modo mais afirmativo a presença do outro, começa então a modelar constâncias rítmicas mais marcadas. Contudo, na posição média do poema, estrofes 3 e 4, observa-se uma maior irregularidade, como se ali se instalasse uma preparação antes de retomar a cena rítmica.

Embora exista uma breve regulação nos versos 8 e 9 — compostos em hexassílabos, mais as aliterações em /t/ e /v/, além da modulação entre [ó] e [ou] — é possível que o desvio, dito um pouco antes, esteja assim colocado para chamar a atenção para uma sutil mudança de registro: a passagem do estudo para o uso da voz que, em seguida, na conformação do ritmo e na retomada do contrato estipulado, vai dar curso à passagem da voz ao canto. Cabe, para registro, observar o requinte da transição das aliterações /v/ para /c/ e das assonâncias /ó/ para /ã/, além do uso marcante do hexassílabo jâmbico, nos versos 9, 16 e 19, que acentua, ainda que discretamente, a gradação dessas mudanças.

Em se tratando da cadeia de ritmos, uma vez que não há utilização fechada de sistemas métricos definidos, faz-se necessário trabalhar de modo um pouco mais elástico as noções do verso como unidade de som e sentido. Desconcerto, desvio e ruptura. Deslocamento, transição e quebra. Ambivalência, evasão, mobilidade e intervalo. Enfim, a peleja das entrelinhas, entre rasgo e dobra, simulacro e dissimulação que, fora do curso de sinopse que ora é exposto na tentativa de leitura desse poema, são termos e motivos recorrentes na voz de Edimilson de Almeida Pereira que, nas últimas três décadas, tem proposto em sua extensa obra e comparecem de modo vigoroso em Veludo Azul.

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poesia, tradução

Brendan Constantine, por Rodrigo Tadeu Gonçalves

Brendan Constantine é um poeta de Los Angeles. Seus poemas já foram publicados no Best American Poetry, Poem A Day, Prairie Schooner, Virginia Quarterly, Field, Ploughshares e American Journal of Poetry. Seu último livro se chama Dementia, My Darling (2016, Red Hen Press). Alguns poemas novos sairão nas revistas Terminus e Tin House. Constantine já recebeu apoio do Getty Museum, James Irvine Foundation e do National Endowment for the Arts. Performer popular, Brendan já apresentou sua obra para plateias ao redor dos Estados Unidos e Europa. Desde 2017, tem trabalhado com o patologista da fala Michel Biel para criar o primeiro workshop de poesia para portadores de afasia. 

* * *

O jogo dos contrários

Para Patricia Maisch

Um dia desses eu e meus alunos jogamos o Jogo dos Contrários
com um verso de Emily Dickinson. Minha vida tem sido
uma arma carregada
, e eu escrevo no quadro,
pausadamente, pra eles poderem dizer os antônimos –

Minha — Sua
Vida — Morte
Tem sido? — Vai virar
Uma — Muitas
Arma ? —
Carregada — Vazias

Arma.
Por um instante, como aquele entre o relâmpago
e o seu estrondo, as crianças ficam só me olhando
e então vem uma saraivada, um dilúvio de respostas –

Flor, diz uma. Não, Livro, diz outra. Que idiota,
grita uma terceira, o contrário de arma é travesseiro. Ou,
talvez, abraço, mas não livro, nem a pau que é livro. Assim
os outros vêm com suas respostas

e de repente é uma competição de gritaria. Ninguém concorda
pra cada aluno, uma resposta definitiva. É uma música,
uma oração, não, uma promessa, que nem uma aliança e depois
um bebê. Ou como chama aquela pessoa que faz os partos?

Parteira? Isso, uma parteira. Não, tá errado. Você tá tão errado
que nunca mais vai acertar nada. É um sussurro, uma estrela,
é dizer eu te amo pra palma da sua mão e então tocar o ouvido
de alguém. Você tá louco? Você virou o presidente

da Terra-dos-Burros? Se não, devia. Quando é a eleição?
É um ursinho, uma espada, um pêssego perfeitinho.
Volta pra primeira, é uma flor, uma rosa branca.
Quando dá o sinal, eu pego um apagador, mas uma menina

arranca da minha mão. Não está resolvido, ela diz,
ainda não terminamos. Eu deixo as respostas todas
no quadro. No dia seguinte, alguns deles pararam
de conversar entre eles, tomaram partido.

Tem o grupo da Flor, o grupo do Gatinho. E dois meninos
se chamando de os Bola de neve. O resto ficou travado
no jogo original, que era tentar escrever algo
como se fosse poesia.

Um diamante, uma dança,
o contrário de uma arma é um museu na França.
É a lua, é um espelho,
é o som de um sino e uma orelha.

A discussão recomeça, mais gritaria, e, por fim,
um novo grupo. Pela primeira vez eu tento empurrá-los.
E digo, talvez vocês estejam todos certos.

Talvez. Talvez seja tudo que dissemos. Talvez tudo
que não dissemos. São as palavras e os espaços pras palavras.
E agora eles se entreolham. É tudo nesta sala
e fora dela, e descendo a rua, e no céu.

É todo mundo na escola e no shopping, todo mundo
esperando no hospital. E nos correios. E sim,
é uma flor, também. Todas as flores. O jardim todo.
O contrário de uma arma é pra onde quer que você a aponte

Não escreva isso no quadro, eles dizem. Só diga poema.
Sua morte vai virar muitos poemas vazios.

O filme para o poema faz parte do projeto Blank Verse Films, do poeta Dana Gioia e de seu filho Michael Gioia (aqui), que busca novos modos de adaptar poesia para a tela. 

The opposites game

This day my students and I play the Opposites Game
with a line from Emily Dickinson. My life had stood
a loaded gun
, it goes and I write it on the board,
pausing so they can call out the antonyms –

My — Your
Life — Death
Had stood — ? Will sit
A — Many
Loaded — Empty
Gun — ?

Gun.
For a moment, very much like the one between
lightning and it’s sound, the children just stare at me,
and then it comes, a flurry, a hail storm of answers –

Flower, says one. No, Book, says another. That’s stupid,
cries a third, the opposite of a gun is a pillow. Or maybe
a hug, but not a book, no way is it a book. With this,
the others gather their thoughts

and suddenly it’s a shouting match. No one can agree,
for every student there’s a final answer. It’s a song,
a prayer, I mean a promise, like a wedding ring, and
later a baby. Or what’s that person who delivers babies?

A midwife? Yes, a midwife. No, that’s wrong. You’re so
wrong you’ll never be right again. It’s a whisper, a star,
it’s saying I love you into your hand and then touching
someone’s ear. Are you crazy? Are you the president

of Stupid-land? You should be, When’s the election?
It’s a teddy bear, a sword, a perfect, perfect peach.
Go back to the first one, it’s a flower, a white rose.
When the bell rings, I reach for an eraser but a girl

snatches it from my hand. Nothing’s decided, she says,
We’re not done here. I leave all the answers
on the board. The next day some of them have
stopped talking to each other, they’ve taken sides.

There’s a Flower club. And a Kitten club. And two boys
calling themselves The Snowballs. The rest have stuck
with the original game, which was to try to write
something like poetry.

It’s a diamond, it’s a dance,
the opposite of a gun is a museum in France.
It’s the moon, it’s a mirror,
it’s the sound of a bell and the hearer.

The arguing starts again, more shouting, and finally
a new club. For the first time I dare to push them.
Maybe all of you are right, I say.

Well, maybe. Maybe it’s everything we said. Maybe it’s
everything we didn’t say. It’s words and the spaces for words.
They’re looking at each other now. It’s everything in this room
and outside this room and down the street and in the sky.

It’s everyone on campus and at the mall, and all the people
waiting at the hospital. And at the post office. And, yeah,
it’s a flower, too. All the flowers. The whole garden.
The opposite of a gun is wherever you point it.

Don’t write that on the board, they say. Just say poem.
Your death will sit through many empty poems.

Padrão
poesia

Ricardo Pedrosa Alves (1970-)

Ricardo Pedrosa Alves é autor dos livros Desencantos mínimos (Iluminuras, 1996), barato (Medusa, 2011), Orumuro & Remerzbau (com Ronald Augusto e Cândido Rolim – Butecanis Editora Cabocla, 2017) e Poemas baseados (Kotter, 2018). É doutor em Letras e professor universitário, residindo atualmente na cidade de Guarapuava/PR.

vá de valha  

benjamin e o anjo de costas de klee que não quer cores mas claro&escuro cair de costas do ronald catástrofe mas queda e não movimento ou, não continuidade mas gesto o um só da queda, mas não deserção pois cai de costas: o percurso cronológico contrariado impõe outra questão (que é na origem que termina a queda como se, também nascido do chão, e indo para o futuro, também se revertesse a caída): o atingido de frente ou, no mínimo, o que quer continuar de frente para o mundo dos vivos (e de costas para o dos mortos), certa consciência da queda (a conferir, a determinar) de quem morre&continua no mundo, ainda que.

o nome? (em grego, o que particulariza, o que revela a característica).

sem ginga o quadril de pedra: outra música? poema, a moenda, musseque a terra vermelha, loanda, a lama dos casebres em que se amam, não, divergem, contrários, suados de favela (mexidos em pilão), também angola as bessanganas, estamos na deturpação social e histórica da áfrica, mas não, não isso, elementos como: tira a música óbvia e põe outra (como quem não pode cortar ao certo o pão, que não há, e faz isso com migalhas, farelos de chão), para terminar com o quase xingo-moleque, moleque, chamam assim, apesar.

a página me revolta, uso-a no mínimo, com meu(s) raro(s), não o seu, ainda que não se possa, dizer se o olho (palavra) vai dentro ou fora ou & (da opressão).

depois do nome o intervalo, no vá de va-lha, quase vazado, reticente porém, porejado&não em branco (que de branco já bastam os brancos, vários à mallarmé, hein?).

outro me fala (negro, pemba, avoengo) e o leio (quadro-nêgo) como quem em desfebrização escreve, não escravo, meu nome de tiros (vãos vários) picotado.

o dizer doce, o dizer dos doces, o dizer como os doces, os dizeres da doceira, os doces deserdados num além da mais-valia? (mas não, mas sim): comida dos outro, religião dos outro, opressão dos outro: sobra o emprego (oliveira) de negro (silveira) e ao mesmo tempo ditos os versos vindos da oposição, em postes opostos (a aposta-resposta do travo), ainda que o não seja ao fim o fim.

relendo o ronald ao longo do dia lento, de rastelo e espelho no colo.

nome de intervalo, o que o google olorum escolhe: o nenhum?, partes que não colam, polpa “sem prole” (umbra que a devore em vazio de onoma). mocama palavra no (embornal não há) mnemoseiro.

lamba o livro branco: lembra?, o dialeto eliot do waste lama?

palavras que dizem uma na outra, calam os nomes (saussure será o projeto do deserto?).

o intervalo, enfim, é um lugar malíssimo, de sangue coagulado por cola, de vala cubata por cova, daquilo que não falando (quase) em esmola, ainda&assim, assola.

o seu fetiche é a minha pele (onde o dentro penumbra): você me desenha, nomeia, explora: crioulo, otelo, king cole.

o riso gentili (que não se vende pela tez dos dentes) faculta o açoite – a cabra nos guizos – do mascote de circo: ele, o famigerado, esfarelado entre jogos frívolos de consortes (a conivência de sócios na compra&venda de sortes alheias) e isso mesmo nos supostos ótimos da raça: de um a outro, disse bolle, tentou-se o prumo do diálogo, mas só o do jagunço escolado, não o do entregue à própria cor. a prosa de ferpas entre veredas, não crispada mas como que articulada por molas (deserto é o de quem está fora, em sobrevoo, que no dentro só há paredes e é oco): vianda, vianda e um macaco pra janta de gentes gentilis.

não precisa de in-fans, sig-nans, nem é alguém: tem um branco na sombra e ganha como cabra de ganho, nem em sonho é aquele, ou nem é mais aquele (espécie de ele-nenhum, o que a câmera não capta). mesmo no poema não escapa.

calão (calar para que o nome venha de um não, à mão pesada)(sem artigo mesmo) de caserna (sem anistia ao carcereiro)(aquele com cheiro de bolge do florentino)(aquele do velho fascio no calabouço, pedindo aos campos um resgate institucional via cartinha ao embaixador) do barroco do mattos guerra (capanga de classe&raça, jabor dos seis centos). nomear os nomeadores (bardos sem borda, no à vontade do arbítrio), no contrapé, via tiros no esfíncter e prosa perturbada, saliva de sibila.

palavra, não bata na trave, fira o mero com cara de melro (de keats a eliot, carcereiros centauros da glote, um trote, ou nenhum): entretanto a medida é a mão, quem cava ou é cavado o sabe.

sacra a cura do broxa branco (saco de cancro, se tanto): ainda a sua pele, dentro, onde a sorte é certa, ventre, e a piada é pronta, preta.                           

§

puya  

(puya.11)

como escavar sem
o mole da pedra
sabão o crispado
da pedra do cabral?
do saponáceo ‘pro
paganda de branco’
ao crack ‘usança
de negro’ não
há dança só
cortes mas
inda assim
como isso
na langue
do assassino?  

(puya.10)

opoemacomocrítica  

(puya.9)

nomes de negro
por regra
são sistematicamente
nomes no negro
(rosa os deu e,
sim, meu pai e eu)  

(puya.8)

torce tanto
que o verso (ver-o)
não volta
a ler-o
não da versura
como pound
à usura  

(puya.7)

conta o sol (os sóis)
nada que o
nada não estrague
(solo a mesma
frase) nem há
mallarmé que
o afague  

(puya.6)

cuida a cana
do dono des
dobrando a
sina des
pojada da
cena de
ser nomeado
rato de
catarro de
garapa  

(puya.5)

rediga pretinto
o paradigma branco
dos brancos: não
há barco tumbeiro
bêbado  

(puya.4)

também queria o narrado do nada
ao som da mijada birra
do rimbaud (sim ao suor
do que se escora sem uma
– aquela uma – perna)

ps. não há o papagaio
da felicidade  

(puya.3)

não fala (não
tem colunas a
senzala) ou
tra língua
a mesma
e erma (mais)
de ouro au
gusto ou
tra lida ou
tros campos
não seus
(mais o
asco do
concreto
poeta
de osasco)

(puya.2)

ou uchoa leite
à beira (plantando ou
tdoor em
ror de escamas)  

(puya.1)

é liso e lúcido
o jabón do enjam
bement como
se diz no poema
como não se diz
do siscar (o
siso do
estive-sendo
palmer) assim
o assassin-au
gusto

 

 

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poesia, tradução

Joanne Kyger, por Mariana Basílio

joane

Joanne Kyger (1934 – 2017) foi uma das mais proeminentes poetas estadunidenses do século XX. Autora de mais de 30 livros de poesia e prosa, Kyger foi associada com os poetas do Renascimento de San Francisco, assim como a Geração Beat, Black Mountain e a Escola de Nova York. Sua poiesis está inserida tanto no modernismo norte-americano quanto nos clássicos orientais. Foi casada com Gary Snyder (1930) e grande amiga de Allen Ginsberg (1926 – 1997).

Ao lado de poetas como Diane di Prima (1934) e Anne Waldman (1945), a poeta deixou sua marca como autora, como mulher em destaque em um contexto de dominação masculina das letras americanas após a Segunda Guerra Mundial, personificada por autores como William S. Burroughs (1914 – 1997), Neal Cassady (1926 – 1968), Jack Kerouac (1922 – 1969), além dos próprios Ginsberg e Snyder.

Kyger faleceu de câncer aos 82 anos, no dia 22 de março de 2017, em sua casa em Bolinas – Califórnia na companhia de seu marido, Donald Guravich. Ela trabalhava em um novo livro, There You Are: Interviews, Journals, and Ephemera. O livro foi publicado postumamente pela Wave Books, em setembro do mesmo ano.

Sua obra também inclui livros como: The Tapestry and the Web (1965), All This Every Day (1975), Going On: Selected Poems, 1958–1980 (1983), Just Space: Poems 1979–1989 (1991), Again: Poems 1989–2000 (2001), As Ever: Selected Poems (2002), God Never Dies (2004), On Time: Poems 2005–2014 (2015), There You Are: Interviews, Journals, and Ephemera (2017).

Em relação à tradução, me organizei na poesia de Kyger procurando um equilíbrio entre seus versos livres, tanto na métrica quanto no ritmo, focando sobretudo no sentido, na fluidez, na contemporaneidade de seus versos na língua portuguesa, acompanhando a essência de Joanne: uma poesia de detalhes e inesperadas sensações – repleta de reflexões sociais e religiosas– em pensamentos que procuram saltar os escombros de uma sociedade que ainda se dizima constantemente.

 Mariana Basílio

*

Já faz muito tempo

NOTAS DA REVOLUÇÃO

Durante a batida desta história você pode encontrar outras batidas. Quero dizer
uma batida, quero dizer Cantus, quero dizer Firme-nos, quero dizer papel, quero dizer no Reino que está vindo, que está aqui em descoberta.

Também é Om Shri Maitreya, você não atravessa minhas vibrações,
mas com elas, perdendo o pronome. É Tu, é Ti, sou eu, sou mim.

Máquinas são metal, elas nos servem, nós cuidamos delas. Isso é para mim, e isso é para você. Você diz você para mim, e eu digo você para você. Algumas máquinas são muito delicadas, elas são precisas, elas não são grandes carimbadoras de metal, Ela fez poesia suficiente para manter sua companhia.

Minhas Vibrações. Você interceptou minhas vibrações. As longas sombras,
as longas sombras, as longas sombras. Meu pequeno e doce tom,
meu pequeno e doce tom é meu braço.

Naquilo Apenas: A canção que a menina cantou a canção que a menina cantou

It’s been a long time

NOTES FROM THE REVOLUTION

During the beat of this story you may find other beats. I mean a beat, I mean Cantus, I mean Firm us, I mean paper, I mean in the Kingdom which is coming, which is here in discovery.

It is also Om Shri Maitreya, you don’t go across my vibes, but with them, losing the pronoun. It is Thy, it is Thee, it is I, it is me.

Machines are metal, they serve us, we take care of them. This is to me, and this is to you. You say you to me, and I say you to you. Some machines are very delicate, they are precise, they are not big metal stampers, She made enough poetry to keep her company.

My Vibes. You intercepted my vibes. The long shadows, the long shadows, the long shadows. My sweet little tone, my sweet little tone is my arm.

On what Only: The song that girl sang the song that girl sang

§

“Quando eu me concentrava nas preocupações, todo mundo”

Quando eu me concentrava nas preocupações, todo mundo
estava à minha frente, eu era a base
do pilar do totem,
um animal amplamente agachado.

Que tal uma massagem rápida agora, ele me disse.
Eu não acho que seja legal, respondi.
Oh, disse ele, depois de uma pausa, eu deveria ter esperado
você me pedir.

As ondas chegaram cada vez mais perto.

Quando caio na lacuna da suspeita, já não estou mais aqui.

Neste mundo que foi fechado por casas
e redes, eu saio voando de
debaixo da barriga. A zonza coroa da vida,
de luzes giratórias, circula essa cabeça. Pura
com o assombro, quente
com o assombro. As ruas se tornaram douradas. Todos
os tamanhos aumentam, as cores brilham, estamos no mito.

Nós estamos em fácil compreensão.
Mal falando, os pensamentos passam por nós.
É a memória. Enquanto busco encontrar
a doce deriva deste dia. A névoa para o mar, o vento.

“When I used to focus on the worries, everybody”

When I used to focus on the worries, everybody
                      was ahead of me, I was the bottom
                of the totem pole,
              a largely spread squat animal.

How about a quick massage now, he said to me.
I don’t think it’s cool, I replied.
Oh, said he, after a pause, I should have waited
                     for you to ask me.

The waves came in closer and closer.

When I fall into the gap of suspicion I am no longer here.

In this world that has got closed over by houses
                       and networks, I fly out
from under the belly.     Life’s dizzy crown
of whirling lights, circles this head.    Pure
with wonder, hot
with wonder.    The streets become golden.     All
size increases, the colors glow, we are in myth.

We are in easy understanding.
Scarcely talking, thoughts pass between us.
                                    It is memory.    As I search to find
this day’s sweet drifting.    The fog out to sea, the wind.

§

Setembro

 A grama é marrom clara
e o oceano adentra
longas linhas cintilantes
sob a frota da noite anterior
que dorme agora de manhã cedo

Aqui e lá pastam os cavalos
no terreno de alguém

Estranhamente, não foi minha vontade

que me fez falar na igreja para ser liberada
mas a memória de como costumava ser
em um jogo descontraído e exótico

quando os personagens eram promessas
e depois reconhecimentos. O mundo da transformação
é real e irreal, mas confiante.

Chega dessas lições? Quero dizer
frases didáticas para te fazer entrar e sair dos
laços misteriosos do amor?

Bem, eu mesma não sou eu mesma

e o poder de sobrevivência pelo qual eu falo
não é feito de casas.

É luxo interior, de figuras douradas
que respiram como as montanhas
e cuja pele é escurecida por estrelas.

September

The grasses are light brown
              and the ocean comes in
              long shimmering lines
              under the fleet from last night
              which dozes now in the early morning

Here and there horses graze
              on somebody’s acreage

                               Strangely, it was not my desire

that bade me speak in church to be released
         but memory of the way it used to be in
careless and exotic play

               when characters were promises
      then recognitions.  The world of transformation
is real and not real but trusting.

                            Enough of these lessons?  I mean
didactic phrases to take you in and out of
love’s mysterious bonds?

                      Well I myself am not myself

           and which power of survival I speak

for is not made of houses.

          It is inner luxury, of golden figures
that breathe like mountains do
            and whose skin is made dusky by stars.

§

PALÁCIO NOTURNO

A melhor coisa do passado
é que acabou
quando você morre
você acorda
do sonho
que é a sua vida.

Então você cresce
e se torna pós-humano
em um passado que ainda acontece
à sua frente.


NIGHT PALACE

The best thing about the past
is that it’s over
when you die
you wake up
from the dream
that’s your life.

Then you grow up
and get to be post human
in a past that keeps happening
ahead of you.

*

Mariana Basílio (Bauru – São Paulo, 198). Prosadora, poeta, ensaísta e tradutora. Mestre em Educação pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). Autora dos livros de poesia Nepente (2015) e Sombras & Luzes (2016). Colabora em portais e revistas nacionais e internacionais, tendo traduzido nomes como May Swenson, Alejandra Pizarnik, Edna St. Vincent Millay, Sylvia Plath e William Carlos Williams. Com patrocínio do prêmio ProAC (2017) do Governo de São Paulo, publicou em 2018 seu terceiro livro, o poema longo Tríptico Vital (Patuá). O projeto também foi finalista do programa de Residência Literária do Sesc (2018). Mantém o site www.marianabasilio.com.br.

*

Padrão
poesia, tradução

César Vallejo, por Fred Girauta

Em 2018, completou-se 80 anos da morte de Cesar Vallejo, poeta que fez parte do grupo vanguardista latino-americano que emergiu na década de 1920. Autor de um aobra singular, da qual se destaca Trilce, seu livro mais radical, onde Vallejo desenvolveu uma poética muito pessoal, com temas melancólicos sobre, entre outros, reminiscências da infância, experiência do cárcere, reprocessadas com uma depuração poética concisa, repleta de inversões sintáticas, morfemáticas, que dão ao conjunto de poemas uma dicção fragmentária. Tais obstáculos estéticos, que poderiam levar a uma leitura travada e difícil, são compensados por um desfrute quase musical dos poemas, fruto de sua vinculação a uma linguagem oral/coloquial. Esse amálgama entre escrita retorcida e musicalidade faz de Trilce uma obra única, onde convivem hermetismo e fruição.

No Brasil, temos duas traduções mais conhecidas, as de Thiago de Mello, que traduziu todos os 77 poemas, optando por uma tradução mais literal dos poemas, e a de Amálio Pinheiro, menos óbvia.

Na transcriação dos 77 poemas de Trilce, trabalho/obsessão de mais de uma década, procurei manter a radicalidade dos poemas, buscando, na medida do possível, encontrar soluções inventivas para as invenções trílcicas (para usar um termo de H. deCampos).

Fred Girauta é poeta, letrista e tradutor. Paulistano radicado no Rio de Janeiro. Graduado emPortuguês / Espanhol e suas respectivas Literaturas (UFF), mestre em Literatura Brasileira (UERJ). Autor de canções gravadas por Fred Martins, Beatrice Mason, Daniela Alcarpe, Dalila Couti. Publicou artesanalmente o Livro de poemas Poemas de Katmandu” (2008), a caixa de poemas visuais em caixa (2007), entre outras publicações artesanais. Mantém o site de poesia fredgirauta.blogspot.com.br. Publicou em 2013 o livro de poemas Nós pela Editora Vidráguas.

* * *

I

      Quem faz tanta balbúrdia, e nem deixa
provar as ilhas que vão restando

      Um pouco mais de consideração
que logo será tarde, cedo,
e se aquilatará melhor
a titica, a simples bodega tesudórea
que brinda sem querer,
no coração insular,
salobre alcatraz, a cada hialóideia 
            
largada.

      Um pouco mais de consideração,
e o adubo líquido, seis da tarde
DOS MAIS SOBERBOS BEMÓIS.

      E a península estanca
de costas, acabrestada, impertérrita
na linha mortal do equilíbrio.

I

      Quién hace tanta bulla y ni deja
testar las islas que van quedando.

      Un poco más de consideración
en cuanto será tarde, temprano,
y se aquilatará mejor
el guano, la simple calabrina tesórea
que brinda sin querer,
en el insular corazón,
salobre alcatraz, a cada hialóidea 
            
grupada.

      Un poco más de consideración,
y el mantillo líquido, seis de la tarde
DE LOS MÁS SOBERBIOS BEMOLES.

      Y la península párase
por la espalda, abozaleada, impertérrita
en la línea mortal del equilibrio.

§

II

            Tempo Tempo.

      Meiodia estancado entre relentos
Bomba emburrada do quartel esguicha
tempo tempo tempo tempo.

                Era Era.

      Galos cocorocam ciscando em vão.
Boca do claro dia que conjuga
era era era era.

                Amanhã Manhã

      O repouso quente que há de ser.
Pensa o presente me guarda para
amanhã manhã amanhã manhã

                Nome Nome.

      Que se chama tudo que nos feriça?
Se chama Omesmo que padece
nome nome nome nomE.

II

            Tiempo Tiempo.

      Mediodía estancado entre relentes.
Bomba aburrida del cuartel achica
tiempo tiempo tiempo tiempo.

          Era Era.

      Gallos cancionan escarbando en vano.
Boca del claro día que conjuga
era era era era.

          Mañana Mañana.

      El reposo caliente aún de ser.
Piensa el presente guárdame para
mañana mañana mañana mañana

          Nombre Nombre.

      ¿Qué se llama cuanto heriza nos?
Se llama Lomismo que padece
nombre nombre nombre nombrE.

§

III

      As pessoas mais velhas
Que horas voltarão?
Deu seis horas o cego Santiago,
e já está muito escuro

      Mamãe disse que não demorava.

      Amandinha, Marina, Miguel,
cuidado ao sair por aí, por onde
acabam de passar fanhoseando suas memórias
duplicantes penas,
ante o curral de silêncio, e onde
as galinhas que se deitando estão ainda
se espantaram tanto.
      Melhor estarmos aqui mais nada
Mamãe disse que não demorava.

      Já não tenhamos pena. Vamos olhar
os barcos !o meu é o mais bonito de todos!
com eles brincamos todo santo dia,
sem brigas, como deve ser:
ficaram na poça d’água, prontos,
lotados de doces para amanhã.

      Esperamos assim, obedientes e sem mais
remédio, a volta, o desagravo
dos adultos sempre na frente
deixando as crianças em casa,
como se nós também
                  não pudéssemos partir.

      Amandinha, Marina, Miguel?
Chamo, busco o tateio na escuridão.
Sem essa de me deixarem sozinho,
e o único recluso seja eu.

III

      Las personas mayores
¿a qué hora volverán?
Da las seis el ciego Santiago,
y ya está muy oscuro.

      Madre dijo que no demoraría.

      Aguedita, Nativa, Miguel,
cuidado con ir por ahí, por donde
acaban de pasar gangueando sus memorias
dobladoras penas,
hacia el silencioso corral, y por donde
las gallinas que se están acostando todavía,
se han espantado tanto.

      Mejor estemos aquí no más.
Madre dijo que no demoraría.

      Ya no tengamos pena. Vamos viendo
los barcos ¡el mío es más bonito de todos!
con los cuales jugamos todo el santo día,
sin pelearnos, como debe de ser:
han quedado en el pozo de agua, listos,
fletados de dulces para mañana.

      Aguardemos así, obedientes y sin más
remedio, la vuelta, el desagravio
de los mayores siempre delanteros
dejándonos en casa a los pequeños,
como si también nosotros 
                  no pudiésemos partir.

      Aguedita, Nativa, Miguel?
Llamo, busco al tanteo en la oscuridad.
No me vayan a haber dejado solo,
y el único recluso sea yo.

§

IV

      Rangem duas carretas, contra os martelos
até os trifurcos lagrimais,
quando nunca lhe fizemos nada.
Àquela outra sim, desamada,
amargurada sob túnel campeiro
por algum, e sobre duras gélidas
provas                          espiritivas.

      Estiquei-me em som de terceira parte
Mas a tarde – aquela que vamos ffazer–
se aninha em minha cabeça, furiosamente
sem querer dosificar-se em mãe. São
                                                os anéis.
      São os trópicos nupciais já mastigados.
O alhear-se, melhor que tudo,
rompe em Crisol.

      Aquele não ter descolorido
por nada. Lado a lado ao destino e chora
e chora. Toda a canção
quadrada em três silêncios.

      Calor, Ovário. Quase transparência.
Tudo se faz choro.      Inteiro se faz velado
em plena esquerda.

IV

      Rechinan dos carretas, contra los martillos
hasta los lagrimales trifurcas,
cuando nunca las hicimos nada.
A aquella otra sí, desamada,
amargurada bajo túnel campero
por lo uno, y sobre duras ájidas
pruebas                               espiritivas.

      Tendime en són de tercera parte,
mas la tarde —qué la bamos a hhazer—
se anilla en mi cabeza, furiosamente
a no querer dosificarse en madre. Son 
                                          los anillos.

      Son los nupciales trópicos ya tascados.
El alejarse, mejor que todo,
rompe a Crisol.

      Aquel no haber descolorado
por nada. Lado al lado al destino y llora
y llora. Toda la canción
cuadrada en tres silencios.

      Calor. Ovario. Casi transparencia.
Háse llorado todo.          Háse entero velado
en plena izquierda.

§

V

      Grupo dicotiledôneo, Aberturam
desdele petréis, propensões de trindade,
finais que começam, ohs de ais
achava-se abagatelados de heterogeneidade.
Grupo dos dois cotiledôneos!

      Vejamos.  Aquilo seja sem ser mais.
Vejamos. Não transcenda para fora
e pense em som de não ser escutado,
e crome e não seja visto.
E não derrape no grande colapso

      A criada voz rebela-se e não quer
ser rede, nem amor.
Os amantes sejam amantes na eternidade.
Então não deem 1, que ressoará ao infinito.
e não deem 0, que calará tanto,
até despertar e por de pé o 1.

      Ah grupo bicardíaco.

V

      Grupo dicotiledón. Oberturan
desde él petreles, propensiones de trinidad,
finales que comienzan, ohs de ayes
creyérase avaloriados de heterogeneidad.
¡Grupo de los dos cotiledones!

      A ver. Aquello sea sin ser más.
A ver. No trascienda hacia afuera,
y piense en són de no ser escuchado,
y crome y no sea visto.
Y no glise en el gran colapso.

      La creada voz rebélase y no quiere
ser malla, ni amor.
Los novios sean novios en eternidad.
Pues no deis 1, que resonará al infinito.
Y no deis 0, que callará tánto,
hasta despertar y poner de pie al 1.

      Ah grupo bicardiaco.

§

VI

      A roupa que vesti amanhã
não a lavou minha lavadeira:
lavava em suas veias otilinas
no jorro de seu coração, e hoje não
vou me perguntar se eu deixava
a roupa turva de injustiça.

      Aghora que não há mais quem vá às águas
em minhas pautas engatilha
o pano para empanar, e todas as coisas
do castiçal de tanto que será de mim,
todas não estão minhas
a meu lado.
                        Ficaram de sua propriedade,
aplainadas, estampadas com sua trigueira bondade.

      E se soubesse se há de voltar;
e se soubesse que amanhã entrará
entregando-me as roupas lavadas, aquela minha
lavadeira da alma. Que amanhã entrará
satisfeita, camapu de olaria, ditosa
de provar que sabe sim, que pode sim
                ¡COMO NÃO VAI PODER!
engomar e passar todos os caos.”

VI

      El traje que vestí mañana
no lo ha lavado mi lavandera:
lo lavaba en sus venas otilinas,
en el chorro de su corazón, y hoy no he
de preguntarme si yo dejaba
el traje turbio de injusticia.

      A hora que no hay quien vaya a las aguas,
en mis falsillas encañona
el lienzo para emplumar, y todas las cosas
del velador de tánto qué será de mí,
todas no están mías
a mi lado.
                  Quedaron de su propiedad,
fratesadas, selladas con su trigueña bondad.

      Y si supiera si ha de volver;
y si supiera qué mañana entrará
a entregarme las ropas lavadas, mi aquella
lavandera del alma. Que mañana entrará
satisfecha, capulí de obrería, dichosa
de probar que sí sabe, que sí puede
                                ¡CÓMO NO VA A PODER!
azular y planchar todos los caos.

§

VII

      Rumei sem novidade pela sulcada rua
em que me sei. Tudo sem novidade,
é vero. E fundeei para coisas assim,
e fui passado.

      Dobrei a rua pela qual raras
vezes se passa de boa, saída
heroica pela ferida daquela
esquina viva, nada mero.

      São as grandezas,
aquele grito, a claridade do cara a cara
o porrete submerso em sua função de
                                                            já!

      Quando a rua está olheirosa de portas
e propala desde descalços pedestais
transmanhecer as salvas nos duplos.

      Agora formigas minuteiras
se enfiam adocicadas, dormitadas,
quase indispostas, e se abatem,
queimadas pólvoras, dos altos de 1921.

VII

      Rumbé sin novedad por la veteada calle
que yo me sé. Todo sin novedad,
de veras. Y fondeé hacia cosas así,
y fui pasado.

      Doblé la calle por la que raras
veces se pasa con bien, salida
heroica por la herida de aquella
esquina viva, nada a medias.

      Son los grandores,
el grito aquel, la claridad de careo,
la barreta sumersa en su función de
                                                             ¡ya!

      Cuando la calle está ojerosa de puertas,
y pregona desde descalzos atriles
trasmañanar las salvas en los dobles.

      Ahora hormigas minuteras
se adentran dulzoradas, dormitadas, apenas
dispuestas, y se baldan,

quemadas pólvoras, altos de a 1921.

§

VIII

      Amanhã sendoutro dia, alguma
vez acharia pro sobressalto poder,
entrada eternal.

      Amanhã algum dia,
seria a tenda aprazível
com um par de pericárdios, casal
de carnívoros no cio.

      Bem pode fincar isso tudo.
Mas um amanhã sem manhã,
entre os aros de que viúvos seremos
margem de espelho haverá
em que traspassarei a própria fronte
até perder o eco
e ficar com a cara nas costas.

VIII

      Mañana esotro día, alguna
vez hallaría para el hifalto poder,
entrada eternal.

      Mañana algún día,
sería la tienda chapada
con un par de pericardios, pareja
de carnívoros en celo.

      Bien puede afincar todo eso.
Pero un mañana sin mañana,
entre los aros de que enviudemos,
margen de espejo habrá
donde traspasaré mi propio frente
hasta perder el eco
y quedar con el frente hacia la espalda.

§

IX

      Buzco devolvvver num golpe o golpe.
Suas duas folhas largas, sua válvula
que se abre em suculenta recepção
de multiplicando a multiplicador,
sua condição excelente para o prazer,
tudo a via verdade.

      Busco devolvver num golpe o golpe.
Ao seu afago, intrometo rugosas insurgências
os trintaedois cabos e seus múltiplos
se ajustam pelo por pelo
soberanos beiços, os dois tomos da Obra,
e não vivo então ausência,
                  nem ao tato.

      Falho volwer num golpe o golpe.
Não encilharemos jamais o taurino Babeio
de egoísmo e daquele bulir mortal
de lençóis,
desque esta mulher
                  quanto pesa geral!

E fêmea é a alma da ausente.
E fêmea é a minha alma.

IX

      Vusco volvvver de golpe el golpe.
Sus dos hojas anchas, su válvula
que se abre en suculenta recepción
de multiplicando a multiplicador,
su condición excelente para el placer,
todo avía verdad.

      Busco volvver de golpe el golpe.
A su halago, enveto bolivarianas fragosidades
a treintidós cables y sus múltiples,
se arrequintan pelo por pelo
soberanos belfos, los dos tomos de la Obra,
y no vivo entonces ausencia,
                    ni al tacto.

      Fallo bolver de golpe el golpe.
No ensillaremos jamás el toroso Vaveo
de egoísmo y de aquel ludir mortal
de sábana,
desque la mujer esta
                    ¡cuánto pesa de general!

Y hembra es el alma de la ausente.
Y hembra es el alma mía.

§

X

      Prístina e última pedra de infundada
ventura, acaba de morrer
com alma e tudo, outubro cafofo e prenhe.
De três meses de ausente e dez de doce.
Como o destino,
mitrado monodáctilo, ri.

      Como atrás desenganam juntas
de contrários. Como sempre assoma o algarismo
sob a linha de todo avatar.

      Como as baleias singram as pombas.
Como estes por sua vez deixam o bico
cubicado em terceira asa.
Como descavalgamos, de cara com monótonas ancas.

      Se reboca dez meses até a dezena,
até outro mais além.
Dois ficam ainda ao menos de fraldas.
E os três meses de ausência.
E os nove de gestação.

      Não há nem uma violência
O paciente incorpora-se,
e sentado empapuça tranquilas misturas.

X

      Prístina y última piedra de infundada
ventura, acaba de morir
con alma y todo, octubre habitación y encinta.
De tres meses de ausente y diez de dulce.
Cómo el destino,
mitrado monodáctilo, ríe.

      Cómo detrás desahucian juntas
de contrarios. Cómo siempre asoma el guarismo
bajo la línea de todo avatar.

      Cómo escotan las ballenas a palomas.
Cómo a su vez éstas dejan el pico
cubicado en tercera ala.
Cómo arzonamos, cara a monótonas ancas.

      Se remolca diez meses hacia la decena,
hacia otro más allá.
Dos quedan por lo menos todavía en pañales.
Y los tres meses de ausencia.
Y los nueve de gestación.

      No hay ni una violencia.
El paciente incorpórase,
y sentado empavona tranquilas misturas.

Padrão
poesia

Stephanie Borges

Stephanie Borges é jornalista, tradutora e poeta. Trabalhou em editoras como Cosac Naify e Globo Livros. Publicou poemas nas revistas Garupa, Pessoa e A bacana. Traduziu ensaios da poeta Claudia Rankine (Revista Serrote 28, Apocalipse?) e Irmã Outsider, de Audre Lorde (Autêntica, no prelo). Seu livro de estreia Talvez precisemos de um nome pra isso venceu o IV Prêmio Cepe Nacional de Literatura e será publicado em 2019. Escreve sobre suas leituras na newsletter a cartinha de banalidades (tinyletter.com/stephieborges).

*

nas cartas

I

você acaba
descobrindo coisas
sobre as pessoas, nem elas
querem saber
você também não quer, mas
precisa de dinheiro, afinal
tá difícil,
os brigadeiros gourmet
não deram certo, nem ser
babá de gatos,
por que não o tarô?
ainda mais, agora, olha,
esse às de ouros é um começo
novas oportunidades
então é escolher um nome

Mística
Feiticeira
Sacerdotisa
pensa no que eles sempre querem
Fortuna
Amor
Prosperidade

junta tudo, uns vestidos coloridos,
anéis pulseiras, inventa essa persona
manda fazer cartazes
pintar muros
tuas propagandas
de certezas espalhadas
por toda cidade

II

sei do seu amor, escrevo cartas, leio mãos,
removo calos, estanco choro, curo cólicas, faço o jogo,
adivinhação streap poker truco buraco, três cartas
não precisa me contar a situação, aceito débito, crédito,
banho de ervas, incensos, cristais para sua mesa de trabalho
e de cabeceira, pipoca, oferendas de flores no mar, na cachoeira,
desfaço trabalhos, espanto encosto, guardo segredos
marque agora sua consulta

III

essa carta é sobre o que você quer
e o que você tem medo, ao mesmo tempo
isso mesmo
é ser feliz no amor
acontece, a gente quer mas
pode não estar pronta
existe o risco, as coisas mudam
acabam, e aí?
é como ganhar
um dinheiro inesperado
seria bom, mas se vem, de repente
a pessoa periga não saber o que fazer
volta e meia alguém diz quero mudar,
mas não quer que doa
fosse assim, era fácil
não diriam estamos aqui pra evoluir
desculpa, não
eu não entendo de vidas passadas
meu negócio é o presente, o futuro
e olha aqui, tá vindo, o seu amor
e vai ser grande, vai mexer com toda sua vida
não, não dizem mais nada além disso
você vai ter que descobrir
o que fazer com isso

IV

calma, a pessoas se espantam
com essa carta – porque chamam de
a morte – mas
nos baralhos antigos
nem tem nome nessa carta, talvez
porque a caveira com a foice
diga tudo, ou porque ninguém
pense que precisa chamar a morte,
só que que dificilmente é Ela,
a morte mesmo de alguém, é um fim
um ciclo que esgota,
uma mudança de emprego,
uma relação que termina
às vezes, quem consulta sabe,
desconfia que acabou e a carta
vem, é isso

mas e a Torre? que é um desmonte?
o raio, a tempestade, a demolição
é de fora para dentro, a intempérie
te pega de surpresa

a caveira, todo mundo tem a sua, né
a gente não vê, nunca pensa nisso
a caveira dentro da gente

vai que na carta não tem nome
porque são sempre os ossos
de quem faz a pergunta

§


outro lugar
para Angélica Freitas

para embarcar na poesia
contemporânea é preciso passar
pelo poema de aeroporto

cite um país
fora do circuito turistão
ou uma cidade não óbvia
se for num destino muito desejado

na ausência de um drink
com nome curioso, escolha:
café,
chá,
uma coca cola com você
água, só se for com gás

emule a linguagem afetiva
e recortada dos cartões postais
ou apenas dê um jeito
de colocá-los em cena

use um vocativo,
para atrair o leitor, logo em seguida
jogue uma piada interna com os amigos
deixando claro
que não, o poeta não estava
pensando em quem lê

mas em A., M. ou em D.
insira a inicial
de uma pessoa querida
ou uma letra avulsa que soe bem

evoque uma sensação
estranhamento, impermanência
fragilidade

ao observar uma cena que se passa num(a)
( ) café
( ) bar
( ) livraria
( ) saguão de aeroporto
( ) estação de trem

traga uma escritora, um autor
pouco conhecido
talvez ainda sem tradução,
ouse, faça uma versão livre

vá da reminiscência
para uma canção daquela banda indie
e insira uma estação do ano

ou eleve o tom e cite
música clássica, mas
jamais um compositor
sequestrado
por centrais telefônicas
nem pelo caminhão de gás

se o poeta mora
onde há tubulações, como saberia
o que fizeram com Beethoven

artistas pop com trabalhos conceituais
também valem, especialmente se
fazem parte de minorias

descreva uma obra de arte
que fará o leitor
recorrer ao google se ele estiver
num lugar com wi-fi ou ainda
houver uns megas em seu pacote
de dados

cole um trecho de conversa
engraçada mantida em sua mídia social favorita,
é de bom tom
avisar ao interlocutor,
vai que

na edição do poema de aeroporto
há cortes
que evocam
movimento,
a incapacidade
de captar o instante,
o ouvido sensível à língua
estrangeira
o analfabetismo
geográfico

caem fora
os boletos que poderiam ser pagos
com o valor da taxa do passaporte
[considerando que o pt ainda emita]
a passagem parcelada na promoção,
o câmbio meses antes, horas pesquisando
hospedagens, o tédio do voo atrasado,
a bagagem perdida [qualquer perrengue
diferente ser confundido com terrorista
não entra no poema]

e cabe menos ainda
o dia em que o plano
era passear a pé mas a chuva
fez o poeta se refugiar num
museu / bar / café
com seu caderninho e
(volte para a segunda estrofe)

§


Uhura

Olorum encarregou Oxalá
de fazer o mundo

um espetáculo tão estranho
que qualquer um
que olhasse, pensaria

sequenciadores
samplers
sintetizadores

componentes de um código
uma tecnologia secreta
para modelar o ser humano

incorporar
o não narrado
os buracos

orixá tentou fazer o homem
de ar
como ele

um fragmento narrativo,
o homem logo de desvaneceu

a empreitada de criar
uma distorção significativa do presente

a maior empresa de tecnologia
do mundo
que controla boa parte
de nosso tráfego na web
absorve empresas de robótica
e inteligência artificial
especula-se
por que

o orixá tentou
vários caminhos
fez de fogo
o homem se consumiu

tentou azeite
água
até vinho de palma

uma nova geração
de sistemas autônomos
o marketing indireto
de produzir realidades
informações circulam
como uma commodity

foi então
que Nanã Burucu veio
apontou com seu ibiri centro e arma –
Para o fundo lago onde morava
e de lá retirou
todos os restos, os pedaços
que não foram apagados
uma memória coletiva
e individual
que nunca irá compor
um discurso

Oxalá modelou o homem do barro,
e com o sopro de Olorum,
ele caminhou

descendente direto
de alienígenas sequestrados
levado de uma cultura para outra
nessa nova sociedade híbrida

enquanto isso, no Japão
as pessoas já fazem
rituais funerários budistas
para seu cães-robôs
que podem fazer qualquer coisa
de trabalhar em depósitos
a cuidar de idosas
o mundo caminha à passos largos

mas chega o dia
que seu corpo precisa voltar

Nanã Burucu
espera os descendentes
despossuídos
abduzidos para o novo mundo

ela deu a matéria no começo
mas quer de volta
no fim
tudo o que é seu
a lama, frágeis arquivos
a chave
para o futuro na diáspora

*

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poesia

1 poema inédito de Leila Danziger

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LEILA DANZIGER é Artista plástica, poeta e professora do Instituto de Artes da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) desde 2006, pesquisadora (CNPq e Faperj).

* * *

 

OZ NA CINELÂNDIA

No dia em que comemorava
vinte e cinco anos
meu pai perdeu
seu pai.

………………………….Na manhã
em que faria noventa
e sete no jornal
a manchete –

Amos Oz, Israeli Literary Giant, Dies at 79

e não
…………….não há nexo algum
apenas relutância
em aceitar
a morte –

ao anoitecer
da sexta-feira
rezo

……………de pé
numa livraria
onde entro ao acaso
e leio um poema
de Yehuda Amichai
sobre seu pai
que rezava
…………….imóvel, obrigando Deus a oscilar
…………….como junco e rezar a meu pai
que tenho certeza
não rezava
como os personagens de Oz
tampouco rezam
ao acordar
às 5 da manhã
vestem-se com a camisa azul dos pioneiros
fazem rondas e rondas
recebem o vento do deserto
abraçam os próprios ombros
…………….como se sentissem sempre frio
cravam as sandálias na terra
e as vezes
se balançam
como o junco

ou
como as palmeiras

transplantadas
ao Brasil onde Oz esteve
três ou quatro vezes –

caminhou no Aterro? na Cinelândia?
sentou-se no Amarelinho?
talvez

próximo à mesa
em que seis monges
almoçavam em julho
ou agosto
o que me recordo
agora
neste último shabat do ano
em que os jornais noticiam –

Amós Oz morreu

sem
a paz.

Rio de janeiro, dezembro de 2018

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