poesia

Um poema inédito de Ricardo Escudeiro

Ricardo Escudeiro (Santo André-SP, 1984) é (ex) metalúrgico e (ex) professor. Autor dos livros de poemas “rachar átomos e depois” (Editora Patuá, 2016) e “tempo espaço re tratos” (Editora Patuá, 2014). Atua como editor na Fractal e assistente editorial na Patuá. Possui publicações em mídias digitais e impressas: Escamandro, Germina, Jornal RelevO, Revista 7faces, Mallarmargens, Flanzine (Portugal), Enfermaria 6 (Portugal), entre outras. Traduziu poemas da autora afro americana Nayyirah Waheed, publicados pelo Selo Gueto Editorial, da Revista Gueto, em 2017. Publicou mensalmente, entre 2014-2016, poemas na Revista Soletras, de Moçambique. Participou das antologias “Os pastéis de nata ali não valem uma beata” (Enfermaria 6, 2018), “29 de abril: o verso da violência” (Editora Patuá, 2015), “Golpe: antologia-manifesto” (Punks Pôneis, 2016), “Poemas para ler nas ocupa” (Editora Estranhos Atratores, 2016).

sílex

para W.W.
minha estrela, meu silêncio perfeito

é domingo e já é tarde
mas
quando não é
procuro o controle
tá aqui
no beiral do sofá
aperto o botão liga desliga
nada
mexo nas pilhas dou umas duas ou três batidas no mesmo
nada
talvez seja mesmo o fim dessas pilhas
tento lembrar se foi por falta de dinheiro ou se foi por esquecimento
que deixei de trocá-las há tempos
há dias que falhavam
levanto e ligo a tevê
analogicamente
coloco um episódio de uma série que já vi
e dou uma volta pela casa
vejo no parapeito de uma das janelas baixas
o isqueiro bic tamanho grande azul que você esqueceu
e há semanas tá ali na beirada
penso o seguinte

nem fumamos juntos um último cigarro

mas penso
que dessa última vez que voltamos
há um bom tempo que eu já nem fumava mais
mas penso
agora em seguida que dizer eu ou dizer a gente
quando se fala assim só com o pensamento
a voz é a mesma embora os tons distintos
como dizer a chama artificial e dizer a chama cadente
como dizer a resistência às intempéries e dizer a resistência ao tempo
aciono o isqueiro e funciona de prima
contemplo
numa silenciosa beleza o que é ígneo

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