poesia, tradução

Joanne Kyger, por Mariana Basílio

joane

Joanne Kyger (1934 – 2017) foi uma das mais proeminentes poetas estadunidenses do século XX. Autora de mais de 30 livros de poesia e prosa, Kyger foi associada com os poetas do Renascimento de San Francisco, assim como a Geração Beat, Black Mountain e a Escola de Nova York. Sua poiesis está inserida tanto no modernismo norte-americano quanto nos clássicos orientais. Foi casada com Gary Snyder (1930) e grande amiga de Allen Ginsberg (1926 – 1997).

Ao lado de poetas como Diane di Prima (1934) e Anne Waldman (1945), a poeta deixou sua marca como autora, como mulher em destaque em um contexto de dominação masculina das letras americanas após a Segunda Guerra Mundial, personificada por autores como William S. Burroughs (1914 – 1997), Neal Cassady (1926 – 1968), Jack Kerouac (1922 – 1969), além dos próprios Ginsberg e Snyder.

Kyger faleceu de câncer aos 82 anos, no dia 22 de março de 2017, em sua casa em Bolinas – Califórnia na companhia de seu marido, Donald Guravich. Ela trabalhava em um novo livro, There You Are: Interviews, Journals, and Ephemera. O livro foi publicado postumamente pela Wave Books, em setembro do mesmo ano.

Sua obra também inclui livros como: The Tapestry and the Web (1965), All This Every Day (1975), Going On: Selected Poems, 1958–1980 (1983), Just Space: Poems 1979–1989 (1991), Again: Poems 1989–2000 (2001), As Ever: Selected Poems (2002), God Never Dies (2004), On Time: Poems 2005–2014 (2015), There You Are: Interviews, Journals, and Ephemera (2017).

Em relação à tradução, me organizei na poesia de Kyger procurando um equilíbrio entre seus versos livres, tanto na métrica quanto no ritmo, focando sobretudo no sentido, na fluidez, na contemporaneidade de seus versos na língua portuguesa, acompanhando a essência de Joanne: uma poesia de detalhes e inesperadas sensações – repleta de reflexões sociais e religiosas– em pensamentos que procuram saltar os escombros de uma sociedade que ainda se dizima constantemente.

 Mariana Basílio

*

Já faz muito tempo

NOTAS DA REVOLUÇÃO

Durante a batida desta história você pode encontrar outras batidas. Quero dizer
uma batida, quero dizer Cantus, quero dizer Firme-nos, quero dizer papel, quero dizer no Reino que está vindo, que está aqui em descoberta.

Também é Om Shri Maitreya, você não atravessa minhas vibrações,
mas com elas, perdendo o pronome. É Tu, é Ti, sou eu, sou mim.

Máquinas são metal, elas nos servem, nós cuidamos delas. Isso é para mim, e isso é para você. Você diz você para mim, e eu digo você para você. Algumas máquinas são muito delicadas, elas são precisas, elas não são grandes carimbadoras de metal, Ela fez poesia suficiente para manter sua companhia.

Minhas Vibrações. Você interceptou minhas vibrações. As longas sombras,
as longas sombras, as longas sombras. Meu pequeno e doce tom,
meu pequeno e doce tom é meu braço.

Naquilo Apenas: A canção que a menina cantou a canção que a menina cantou

It’s been a long time

NOTES FROM THE REVOLUTION

During the beat of this story you may find other beats. I mean a beat, I mean Cantus, I mean Firm us, I mean paper, I mean in the Kingdom which is coming, which is here in discovery.

It is also Om Shri Maitreya, you don’t go across my vibes, but with them, losing the pronoun. It is Thy, it is Thee, it is I, it is me.

Machines are metal, they serve us, we take care of them. This is to me, and this is to you. You say you to me, and I say you to you. Some machines are very delicate, they are precise, they are not big metal stampers, She made enough poetry to keep her company.

My Vibes. You intercepted my vibes. The long shadows, the long shadows, the long shadows. My sweet little tone, my sweet little tone is my arm.

On what Only: The song that girl sang the song that girl sang

§

“Quando eu me concentrava nas preocupações, todo mundo”

Quando eu me concentrava nas preocupações, todo mundo
estava à minha frente, eu era a base
do pilar do totem,
um animal amplamente agachado.

Que tal uma massagem rápida agora, ele me disse.
Eu não acho que seja legal, respondi.
Oh, disse ele, depois de uma pausa, eu deveria ter esperado
você me pedir.

As ondas chegaram cada vez mais perto.

Quando caio na lacuna da suspeita, já não estou mais aqui.

Neste mundo que foi fechado por casas
e redes, eu saio voando de
debaixo da barriga. A zonza coroa da vida,
de luzes giratórias, circula essa cabeça. Pura
com o assombro, quente
com o assombro. As ruas se tornaram douradas. Todos
os tamanhos aumentam, as cores brilham, estamos no mito.

Nós estamos em fácil compreensão.
Mal falando, os pensamentos passam por nós.
É a memória. Enquanto busco encontrar
a doce deriva deste dia. A névoa para o mar, o vento.

“When I used to focus on the worries, everybody”

When I used to focus on the worries, everybody
                      was ahead of me, I was the bottom
                of the totem pole,
              a largely spread squat animal.

How about a quick massage now, he said to me.
I don’t think it’s cool, I replied.
Oh, said he, after a pause, I should have waited
                     for you to ask me.

The waves came in closer and closer.

When I fall into the gap of suspicion I am no longer here.

In this world that has got closed over by houses
                       and networks, I fly out
from under the belly.     Life’s dizzy crown
of whirling lights, circles this head.    Pure
with wonder, hot
with wonder.    The streets become golden.     All
size increases, the colors glow, we are in myth.

We are in easy understanding.
Scarcely talking, thoughts pass between us.
                                    It is memory.    As I search to find
this day’s sweet drifting.    The fog out to sea, the wind.

§

Setembro

 A grama é marrom clara
e o oceano adentra
longas linhas cintilantes
sob a frota da noite anterior
que dorme agora de manhã cedo

Aqui e lá pastam os cavalos
no terreno de alguém

Estranhamente, não foi minha vontade

que me fez falar na igreja para ser liberada
mas a memória de como costumava ser
em um jogo descontraído e exótico

quando os personagens eram promessas
e depois reconhecimentos. O mundo da transformação
é real e irreal, mas confiante.

Chega dessas lições? Quero dizer
frases didáticas para te fazer entrar e sair dos
laços misteriosos do amor?

Bem, eu mesma não sou eu mesma

e o poder de sobrevivência pelo qual eu falo
não é feito de casas.

É luxo interior, de figuras douradas
que respiram como as montanhas
e cuja pele é escurecida por estrelas.

September

The grasses are light brown
              and the ocean comes in
              long shimmering lines
              under the fleet from last night
              which dozes now in the early morning

Here and there horses graze
              on somebody’s acreage

                               Strangely, it was not my desire

that bade me speak in church to be released
         but memory of the way it used to be in
careless and exotic play

               when characters were promises
      then recognitions.  The world of transformation
is real and not real but trusting.

                            Enough of these lessons?  I mean
didactic phrases to take you in and out of
love’s mysterious bonds?

                      Well I myself am not myself

           and which power of survival I speak

for is not made of houses.

          It is inner luxury, of golden figures
that breathe like mountains do
            and whose skin is made dusky by stars.

§

PALÁCIO NOTURNO

A melhor coisa do passado
é que acabou
quando você morre
você acorda
do sonho
que é a sua vida.

Então você cresce
e se torna pós-humano
em um passado que ainda acontece
à sua frente.


NIGHT PALACE

The best thing about the past
is that it’s over
when you die
you wake up
from the dream
that’s your life.

Then you grow up
and get to be post human
in a past that keeps happening
ahead of you.

*

Mariana Basílio (Bauru – São Paulo, 198). Prosadora, poeta, ensaísta e tradutora. Mestre em Educação pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). Autora dos livros de poesia Nepente (2015) e Sombras & Luzes (2016). Colabora em portais e revistas nacionais e internacionais, tendo traduzido nomes como May Swenson, Alejandra Pizarnik, Edna St. Vincent Millay, Sylvia Plath e William Carlos Williams. Com patrocínio do prêmio ProAC (2017) do Governo de São Paulo, publicou em 2018 seu terceiro livro, o poema longo Tríptico Vital (Patuá). O projeto também foi finalista do programa de Residência Literária do Sesc (2018). Mantém o site www.marianabasilio.com.br.

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