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XANTO | Estudando a voz de Edimilson de Almeida Pereira, por André Capilé

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Contenda: palavra que interessa, muito e de perto, dada a tensa operação entre os circuitos pelos quais transita Edimilson. A justa disposição para o jogo, nem sempre evidente em seu regramento, de arregimentar cenas da memória vivida, junto da infensa tarefa de levantar os documentos do escorbuto e dos escombros, mais a experiência de campo na escavação de si mesmo na voz de outros, encampam o universo de contensão do poeta. O invariável do choque, quando fios de oposição entram em contato e fazem vibrar, desde sua peculiar sintaxe de revel, atravessada, ainda, por um infestado mundo substantivo, descortina a obra de contenção do poeta, quase, sem adjetivos.

Afeito aos nós do sentido, trançado nas fendas do estranhamento e das tensões dissonantes, parte considerável dos poemas de Edimilson imprimem, em um primeiro contato, uma presente sensação de desconforto que, mesmo após outras investidas, vai se tornando constante — o que não compromete a fruição do texto, seja bem dito.

Ora, é inegável que a prática do poema atuando em função de sua obscuridade foi um dos legados da “estrutura da lírica moderna”. Contudo, tal intenção era manifesta — o que acabou por transformar o plano da estranheza e da dissonância em cartilha, de modo tão veloz quanto cresceram as cidades e as máquinas foram cantadas no correr do século passado. Tal hábito faz, ainda hoje, com que o leitor educado nas raias dos modernismos saia como quem lava as mãos, sem grandes ruídos ou resíduos.

Do repertório de formas que Edimilson lança mão, assiste-se a uma variada gama de modalidades de verso livre. Mesmo quando lida com o recurso da prosa, quase que invariavelmente soa, e se endereça, como versificação convencional. Embora não utilize, de modo sistemático, um preceito de modos e medidas, eventualmente alguns de seus poemas esbarram nos limites de certas tradições métricas. Estudando esse modo de fala, ainda que arbitrário por consequência da escolha pela leitura de um poema apenas, observe-se o flerte com a fatura do canto, logo abaixo:

 

Mulher estudando a voz

não para ganhar dinheiro.
Talvez fale do trabalho
entre rixas no mercado.

Estuda a voz porque olha
afora do mercado. Na
vida deslinda negócios

frutos de vário estrago.
Estuda a voz no tango
pelas mulheres que chora.

Sua voz quando sua ouve
outras como recado.
Conversam as filhas avós

pelo correio do sangue.
Mulher estudando a voz
é uma escola e tanto.

Sua cabeça em grisalhos
calcula dentro do canto.
E o canto é como gesta

de mãe antiga moderna.

 

Em “mulher estudando a voz” flagra-se a captura de uma cena cotidiana. Tal elemento, que figura entre algumas das preferências temáticas de Edimilson, comparece no balanço dos compassos de seu Veludo Azul, livro republicado agora pela Edições Macondo.

Embora tenhamos uma indicação de cenário — o mercado — a ação é construída sem que haja ampliação de informações exteriores no espaço. É dentro da vida, no comércio da existência “afora do mercado” — cuja a ação cede lugar para o desenvolvimento do sujeito como paisagem —, que se estabelecem as zonas de resolução e conflito [na vida deslinda negócios // frutos de vário estrago].

A demanda da preparação, “estudar a voz”, implica sair de si [estuda a voz no tango / pelas mulheres que chora] e, quando do uso de seu instrumento, apontar um movimento de escuta [sua voz quando sua ouve / outras como recado] encampando, no exercício, uma espécie de entrelaçamento de um outro em si mesmo.

EAP joga, de modo constante, com a criação e quebras de expectativas, utilizando a justa associação de motivos corriqueiros [sua cabeça em grisalhos] com flagrante senso de ordenação poética [calcula dentro do canto], administrando tensões que, em suas bordas, quase sempre apontam para a reflexão sobre a linguagem [e o canto é como gesta] e suas relações com a malha social [de mãe antiga moderna]. O que permite, em feliz expressão de Fábio Lucas, “[a] abertura do inacabado, da estrutura em andamento”.

Mas ainda há outro interesse, nesse passo de análise, que é demonstrar como EAP utiliza suas ferramentas de versificação para, então, extrair novos componentes na fatura de sua obra ainda, e sempre, em progresso. Vejamos:

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A contar do título, que está amarrado ao correr do texto, têm-se um total de vinte versos. Doze deles marcam o registro rítmico do setissílabo, seis são hexassílabos e, finalmente, dois são oitissílabos. O regime, embora polimétrico, registra a marcante incidência da redondilha maior.

Todavia, como somar sílabas é muito pouco, avancemos a análise — mas antes uma nota de perfumaria: note-se que a maioria dos versos, exceto dois deles, se apresentam regularmente como trímetros e, como dito mais acima, de vez que há um flerte com o canto, a música que se endereça aqui toma dos tons da vida comum o aspecto estratégico, e estrutural, da associação do blues com os cantopoemas do congado, objeto de estudo do autor enquanto poeta-antropólogo — o que não será possível discutir aqui, mas fica dada a nota.

O primeiro andamento estrófico apresenta um contrato em redondilha. Não se forma nenhum tipo de unidade rítmica, embora os dois primeiros versos, inclusive o título, afirmem o tema de saída em um desenho acentual que se repete entre eles, possivelmente como preparação e/ou marcação de um possível pacto de medida.

Ainda, tomando como análise a partida do poema, são apresentadas duas vogais temáticas que serão recorrentes: /á/ e /ó/. A primeira, a meu ver, ligada ao “mercado” — termo que reincide, trançando os planos de dentro e de fora [no mercado / afora do mercado] — e a segunda, ligada à presença da “voz”, que vai criando permutas sonoras até a estrofe 5.

Se no instante inicial o corpo sonoro se dá entre /á/ e /ó/, enquanto a “voz” se imbrica no conflito do comércio, é justo na saída do “mercado”, quando comparece a assonância /i/ marcando a passagem, “(..) na / vida deslinda negócios”, que se assiste a marca vocálica /á/ em corrosão: “vário estrago”.

Estando o contrato métrico aparentemente resolvido em arte menor, ao menos em sua primeira metade, o poema, quando apresenta de modo mais afirmativo a presença do outro, começa então a modelar constâncias rítmicas mais marcadas. Contudo, na posição média do poema, estrofes 3 e 4, observa-se uma maior irregularidade, como se ali se instalasse uma preparação antes de retomar a cena rítmica.

Embora exista uma breve regulação nos versos 8 e 9 — compostos em hexassílabos, mais as aliterações em /t/ e /v/, além da modulação entre [ó] e [ou] — é possível que o desvio, dito um pouco antes, esteja assim colocado para chamar a atenção para uma sutil mudança de registro: a passagem do estudo para o uso da voz que, em seguida, na conformação do ritmo e na retomada do contrato estipulado, vai dar curso à passagem da voz ao canto. Cabe, para registro, observar o requinte da transição das aliterações /v/ para /c/ e das assonâncias /ó/ para /ã/, além do uso marcante do hexassílabo jâmbico, nos versos 9, 16 e 19, que acentua, ainda que discretamente, a gradação dessas mudanças.

Em se tratando da cadeia de ritmos, uma vez que não há utilização fechada de sistemas métricos definidos, faz-se necessário trabalhar de modo um pouco mais elástico as noções do verso como unidade de som e sentido. Desconcerto, desvio e ruptura. Deslocamento, transição e quebra. Ambivalência, evasão, mobilidade e intervalo. Enfim, a peleja das entrelinhas, entre rasgo e dobra, simulacro e dissimulação que, fora do curso de sinopse que ora é exposto na tentativa de leitura desse poema, são termos e motivos recorrentes na voz de Edimilson de Almeida Pereira que, nas últimas três décadas, tem proposto em sua extensa obra e comparecem de modo vigoroso em Veludo Azul.

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