poesia

Julia Raiz

julia raiz

julia raiz. escrevo, sou professora no cursinho “tô passada” do transgrupo marcela prado. no doutorado estudo tradução, ensaio e crítica literária feminista. como militante, construo a frente feminista de curitiba e região, também edito os blogs literários totem & pagu e pontes outras. meu livro de estreia “diário: a mulher e o cavalo” saiu em 2017 pela contravento editorial.

*

você diz não acreditar em incêndio
como se desastres
dependessem da sua habilidade
de tacar fogo no corpo

sonhei antes de passar por essa trilha
com um carvão pairando sobre
a minha cabeça

não tão preto quanto seus cabelos
nem tão enredado
quanto o coração dos cachorros
que você devora

do carvão saíam cabos de aço
tortos tantos e ainda assim
você não sabe fingir
nem dizer a verdade

se voltasse àquela casa
da chinesa fu
talvez soubesse
que te entregaram uma adaga
como símbolo da sua entrada
no mundo dos homens
que não usam bermudas
ainda que com vontade
ainda que ardendo
por dentro

eu digo não acredito em incêndio
e penso em sigilos
cadeados
e torneiras mal fechadas

§

você confunde o amor com uma pérola

o poeta na parede
com um tiro na testa
também sabia seu nome
sabia da constância do topo nevado
mesmo no calor do seu pescoço
ele podia ter fugido pelo mar
em vez de conviver
com seus impulsos violentos

a destruição minando
de cada contraparte

ele teria gostado de te socar a cara
como um jaguar
saindo da água quente
eu não me importo mais
com o tamanho do corte
não quero mais seguir mergulhando
odeio você
e a sua cidade aquática
só amo o lorca

§

p/ júlia manacorda

as coisas passam com tanta velocidade
júlia
queria te contar como me apaixonei
por uma sala três anos atrás
e como era difícil
respirar lá dentro com as janelas
me convidando a medir o tronco
uma sala em permanente reforma
que nunca existia
por mais de alguns dias
intacta e que no fim esteve fechada
por dois meses na companhia
de homens estranhos
pensei que você
dentre todas as pessoas
entenderia o que é
ter andaimes no lugar do tórax
as cores de uma sala circular
passam tão alucinantes
quanto uma tempestade
quanto a sua alegria
no centro da cidade
a história segue enferrujando
às nossas costas
júlia
nesses últimos dias
eu vomito mercúrio
de tanta saudade
daquela sala
de passagens secretas
parece que eu nunca vou deixar
de gritar seu nome à noite
como a versão que você chamaria de moderna
de um pesadelo antigo

§

a mim você eu não me engano

sabe que ontem
eu trepava com quem me ama

uma onda por cima de um terremoto

o que saia de mim era o som de um órgão
crispando no fogo

eu ri sem parar

queria acabar com vocês
um monstro de duas cabeças

comê-las como se louvasse a deus

esta é a primeira última página
a que me dedico a te enganar

de nada por ter me marcado a ferro

agora só me resta deitar neste vão
não ter medo de que você pela rua
saia com a pele brilhando

§

julia raiz

Julia Raiz, poemacolagem sem título, 2015.

1

sarah se pergunta antes de dormir com o quê sonha o lula. ela sabe que a Outra sonha com o irmão sendo espancado de novo. um braço retorcido, lá fora a árvore floresce. 0 reais pra pagar o botijão de gás. o pai da Outra entra na casa pra levar a geladeira mais duas vezes, a televisão já era. lá fora tem mais 3 homens mexendo no lixo. 1 escreve uma novela-folhetim sobre o estado brasileiro, o outro tem formulada na cabeça uma teoria dos olhares, o último volta pra casa com dor de cabeça, não sabe se é possível amar duas pessoas ao mesmo tempo e ainda pagar a condução.

2

o final de tarde é um martírio, a gente sabe, companheiro. COM O QUÊ SONHA O LULA? gladíolos. a resposta sobre os retrocessos e certezas dos mitos é irrelevante, disfarça a atriz, sentada na cadeira de plástico com os talheres de plástico. caiu do seu bolso uma imagem do carneirinho de São João. neste momento voa pela calçada uma compradora de gladíolos, flores que são comuns nessa época do ano.

3

o objetivo da sarah sempre foi complexificar o tubarão pra complexificar o rapaz e a sua genitália. nunca foi simplificar, nunca, nunca. ela sofre por isso. como uma mulher complexa ela sofre por saber que o rapaz de óculos espelhado é um universo inteiro em si, que o tubarão representa o que existe de mais real no universo: um corpo em movimento pela sobrevivência. sarah não exige que as pessoas saibam de imediato fazer com ela um bom sexo oral, não quer colocar essa pressão nas costas alheias. ela mesma não sabe o que faz, às vezes. olha, são ímpetos de humanidade querer descobrir do que as gentes são feitas, se vem a Outra e te ameaça com uma faca de carne, te obriga a entregar seu celular que você nem acabou de pagar (tá na sétima parcela ainda), sarah, você faz o quê? começa a gritar que ela é sua irmã? você abraça ela como se fosse um menino descalço passando na rua, sarah? esse tempo já passou, o tempo da ficção brasileira da CULPA & PERDÃO, da INOCÊNCIA & CASTIGO já foi! o que você vai fazer agora, sarah? que os moldes foram destruídos…você precisa olhar pra cara das pessoas nas ruas e gritar me digam, pelo amor de deus, me digam como eu posso servir.
todos esses rostos textos bonitos pra quê?

*

Anúncios
Padrão

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s