poesia

Fiama Hasse Pais Brandão (1938-2007)

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fiama hasse pais brandão (lisboa 1938 – lisboa 2007) foi uma poeta, dramaturga, ensaísta e tradutora portuguesa. estudou letras germânicas na faculdade de letras da universidade de coimbra. faz seu debute literário em 1957, com o livro Em cada pedra um voo imóvel, que lhe rendeu o prêmio adolfo casais monteiro, mas ganha espaço mesmo em 1961, quando junto com outros cinco poetas (gastão cruz, maria teresa horta, casimiro de brito e luiza jorge neto), lança uma revista chamada poesia 61, em que cada poeta contribuiu com uma plaquette. em 1965, ainda o mesmo grupo funda o grupo de teatro de letras. em 1974, fundou outro grupo de teatro, o grupo teatro hoje, algo que revela sua intensa atividade teatral. como tradutora, verteu para o português john updike, brecht, artaud, novalis, tchekov &alii. faleceu em 2007.

sua obra, vasta, ainda não é lá propriamente a coisa mais divulgada aqui no brasil, vide a dificuldade em se achar algum livro, ou até mesmo pdf, da autora; mas sua obra é sem dúvida uma das coisas mais potentes da poesia portuguesa. sem mais, passemos aos poemas.

 

sergio maciel

* * *

Modo Histórico da Cidra

Numa lápide, afinal, num puro tampo
(de mesa), um ente nasce:
o fruto (diáfano); cidra, em si a sua origem;
vem do tempo, celta ou da ibéria, já
me transcende? Ó reino pressuposto de um
vegetal; essa paragem – cidra – no percurso.
Num tempo celebrado, o aniversário.
É um suco mortífero, ou o de um real
aberto porque o vêem muitos modos ou o dizem.

Meus anos expostos (a frutos) que formas
confirmaram: ou, mais longínquo,
houve o soalho: no espaço a hora ocorre.
A omissão de cidra ou mármore ágrio é um dom
do luto: meu exercício e o mundo.

E que urna ou ornamento (essa mesa)? É
um sentido vário; não que pareça,
mas, quando imóvel, muda. A emoção de ser
corpo (um fruto) decomposto que hoje
recrio ou lego: a minha existência
(entre os iberos) urge.

15 Agosto 69

 

§

DESDE QUANDO?

Os dois vultos encaminham-se hoje
para o pinhal. Entram
na cancela delineada. Será possível
saber qual a parte do Todo ou sinédoque
verdadeira. Transposta a caocela
o primeiro desejo de ambos
é escolher a clareira. Vêem pedras
espelhadas, várias flores miríficas
como as candeias rasteiras
com a sua coifa arroxeada e o pavio branco
estranho. Olham toda a periferia
para recompilar as árvores que os rodeiam.
Num manso pinheiro próximo
podem arrancar o córtex
já seco e solto.

Entalhadeiras
de pequenos artefactos, vasilhas e baixela
miniatural, cor castanho poroso e de leveza
surpreendente. O ofício diário industrioso
torná-las-á figuras móveis
do microcosmos. Cada uma traz uma navalha,
e a mais experiente entalhadeira ensina
a indústria matinal
à mais nova praticante da metafísica.

Depois, todas essas manhãs se juntam
numa cadeia de elos semelhantes.

§

Nunca manhã suave

Nunca manhã suave me havia interrompido noites com hipérboles
em que ao abrigo do sonho germinara uma imagem. Mas os vultos
linhas de tracção para a terra estado sólido adquirido
pela flutuação demonstravam um termo. As cores oníricas
matizavam o nascente que não se espelha no olhar mas transborda.

Podia a força da madrugada perturbar os impulsos. O orvalho embebera
a medula e assim o pólo das imagens se aglutinou.
Mesmo que este bafo exausto sufocasse o corpo nocturno
a sintonia no limiar do nascente é expressa com os versos
sobre o nexo entre as cabeças unidas situadas na luz.
O alvor matinal confuso entre a atenção ao sonho
e a distracção. A espiral cintilante do conjunto das frases
que oscilam sob o poder da noite e se levantam pela seta do sol.

 

§

Nada tão silencioso como o tempo
no interior do corpo. Porque ele passa
com um rumor nas pedras que nos cobrem,
e pelo sonoro desalinho de algumas árvores
que são os nossos cabelos imaginários.
Até nas íris dos olhos o tempo
faz estalar faíscas de luz breve.

Só no interior sem nome do nosso corpo
ou esfera húmida de algum astro
ignoto, numa órbita apartada,
o tempo caladamente persegue
o sangue que se esvai sem som.
Entre o princípio e o fim vem corroer
as vísceras, que ocultamos como a Terra.

Trilam os lábios nossos, à semelhança
das musicais manhãs dos pássaros.
Mesmo os ouvidos cantam até à noite
ouvindo o amor de cada dia.
A pele escorre pelo corpo, com o seu correr
de água, e as lágrimas da angústia
são estridentes quando buscam o eco.

Mas não sentimos dentro do coração que somos
filhos dilectos do tempo e que, se hoje amamos,
foi depois de termos amado ontem.
O tempo é silencioso e enigmático
imerso no denso calor do ventre.
Guardado no silêncio mais espesso,
o tempo faz e desfaz a vida.

 

§

Considero à vista o poema
uma gota de lodo, pois é possível
pintá-lo com o bico superior alto
e o bojo rotundo cheio
de esquírolas e de depósitos.
Escuro e medonho foi como
os renascentes me indicaram
o abismo do mar. Os hipostáticos,
os frenéticos românticos
ao sentir brotar o terror existencial,
viram que o elemento água
ensopava a alma e os olhos
sem diferença, e que o estrépito
das situações extremas no mar
traduzia o pânico de morrer.

Considero o poema o mar,
com uma pasta arroxeada
no lugar mais adequado à água.
Também tem um fundo
de desperdícios, uma dimensão
espaçosa cheio de cavername
solto, que me obriga
a ranger como uma arte
os meus ossos de poeta,
sem nenhuma crença herética,
senão a de que a morte teve noções
diversas e que a noção mais cruel
foi a que a assemelhou tanto
à vida, que os meus contemporâneos
a sentem como a ser assistida
imediatamente pela sua consciência.

Para quem como eu viu
o próprio corpo do poema
tomar uma configuração mole,
semelhante a um licor
em gotículas ou à de coágulos,
estando longe de mim neste caso
uma associação de ideias
com a morte ou a agonia,
esta hora é já
a imagem de púrpura
de um ocaso impessoal.
Olhado como uma abóbada
de pele plástica estendida
e repuxada pelos querubins,
que não quero esquecer
como anjos necessários,
que os bizantinos confundiram
em demasiados pormenores
com aves nítidas, tantas vezes
azuis enquanto o céu se dourava.

 

§

POEMA PARA A PADEIRA QUE ESTAVA A FAZER PÃO
ENQUANTO SE TRAVAVA A BATALHA DE ALJUBARROTA

Está sobre a mesa e repousa
o pão
como uma arma de amor
em repouso

As armas guardam no campo
todo o campo
Já os mortos não aguardam
e repousam

Dentro de casa ela aguarda
abrir o forno
Ela em mão que prepara
o amor

Pelos campos todos armas
não repousam
mais os mortos
ter amor

Sobre a mesa põe as mãos
pôs o pão
Fora de casa o rumor
sem repouso

Ela agora abre o fogo
para o pão
em repouso ela ouve os mortos
lá de fora

Lá de fora entram armas
os homens
As mãos dela não repousam
acolhem

Sobre a mesa pôs o pão
arma de paz
Contra as armas da batalha
arma de mão

Contra a batalha das armas
não repousa
Caem contra a mesa os mortos
contra o forno

Outra paz não defende ela
que a do pão
Defende a paz que é da casa
e das mãos

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