poesia

Beatriz Bastos (1979—)

Beatriz Bastos (Rio de Janeiro, 1979) publicou Areia (Aqueronta Movebo, 2000), Pandora – Fósforos de Segurança, em coautoria com Fernanda Branco (Editora Azougue, 2003) e Da Ilha (Editacuja, 2009). Fez mestrado e doutorado em tradução de poesia (PUC-Rio, 2014), para o que traduziu poemas do americano Frank O’Hara, da portuguesa Adília Lopes e da brasileira Hilda Hilst. Publicou, com a editora Luna Parque, e em parceria com Paulo Henriques Britto, uma primeira antologia brasileira de O’Hara, Meu coração está no bolso (2017). Também traduziu, juntamente com Ismar Tirelli Neto, o livro Silêncio, de John Cage (no prelo, Ed. Cobogó). Trabalha como tradutora e professora.

* * *

SONHOS DE TRADUTORA (OU UMA LÍNGUA DE PÁSSAROS)

I. A tradutora sonha que perde
braços, pernas e pés

e se pudesse ficar perdendo-os,
seus próprios pedaços,

sem parar?

II. Ansiou pela chuva
a chuva veio

III. Encontra, final, a rima correta
agora só falta cantar

IV. No quarto dos sonhos
há dois passarinhos

não há o que voar da gaiola

V. A tradutora sonha que tem
muita sorte e se transforma

felizmente em um macaco

VI. Sonha que mora dentro
bem dentro de um poema
com paredes, teto e rede

até que aparecem os ratos

VII. A tradutora sonha
com o ar de novo

feito um ovo

VIII. De dia, escreve cartas.

Decide entre destinatários
plausíveis e inventados.

Suas alegrias são tão breves,
como suas pedras, seus céus
com nuvens
“Berlim estava feliz”,

traduziu um dia.

§

AOS QUE VÃO NASCER

Houve um tempo
agora as flores não abrem mais
há escândalos a cada esquina
metralhadoras escapam do meu coração
                        todos os dias

Dentes dóceis afastam as cadeiras
rins são inegociáveis
uma boca é apenas uma boca
e todas são sempre assassinas

§

TE OFEREÇO

esses lábios meus pés meus olhos
vermelhos minha cabeça pesada esses
braços meus ângulos minha nuca
ofereço esse corpo essa saliva
que canta ofereço esses pés meus
lábios meus cabelos meu calor meus
sinos ofereço minha igreja este coração
meu pulmão meus rins essas
vísceras que cantam ofereço minhas
orelhas meus ouvidos este suplício esta minha                                    

            ausência

que canta
como canta

§

[sem título]

I. ainda tenho uma hora
me quebre em pequenas partes

algumas podem ser boas,

veja, com cuidado,
se não há alguma que sirva

II. vamos, vá com calma

me amarre na cadeira,
não aperte muito,

prefiro sem dor

III. pergunte sobre a minha filha
chame minha gata Dinah

outra pequena parte,
afinal, já não importa muito

IV. sim, toque o piano,
talvez música traga algum alívio.

é possível que dor pare de vez em quando?
quero dizer, por um tempo considerável?

coloque suas mãos na minha testa
isso me deixará mais forte.

V. silentes desejos
apontam a pombos

sacrifícios
tombam e

espiam

VI. as flores,

mesmo morrendo, bebem
como peixes.

é o que pode-se dizer.

VII. passo ligeiro, passo ligeiro

quem não entende de formiga
não atiça formigueiro

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