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Daniel Arelli (1986—)

Daniel Arelli (Belo Horizonte, 1986) é professor, poeta e tradutor. Doutor em filosofia pela Universidade de Munique, atualmente é pesquisador de pós-doutorado na Universidade Federal de Minas Gerais. Os poemas acima integram seu livro de estreia, Lição da Matéria, vencedor do Prêmio Paraná de Literatura de 2018. Poemas extraídos do livro Lição da Matéria (Prêmio Paraná de Literatura 2018), de Daniel Arelli

* * *

ACÁCIAS

Numa viagem de ônibus
longuíssima
através do dia
e da noite
li pela primeira vez o poema de Parra
sobre as acácias.

Deve ter sido aí que me dei conta
de que sempre projetamos
o que se passa dentro
sobre o que está fora
incuravelmente
como uma espécie de alergia crônica
os erros da geração passada
um mito.

Desde então
sempre que viajo de ônibus
me lembro de Parra
e de seu poema
apoio o rosto no vidro da janela
e tento acompanhar
a paisagem
nua.

§

ALGUÉM VATICINOU      

que o nome próprio é uma maldição perene
como se não bastasse nascer
somos forçados ainda a carregar
os nomes que nos impingem
como um carimbo um ferrete uma etiqueta
a história de promessa e frustração
que representam.

Senão vejamos:

Daniel foi um profeta judeu
capturado pelos babilônios
para servir na guerra contra os persas.
Não raro tinha visões apocalípticas
que transcrevia em versos.
(Sofria também de azia.)
Quando descobriram que era um completo farsante
Daniel foi lançado aos leões
e devorado em poucos minutos.

§

DE QUE SERVIRÁ UM LIVRO

se
ao tomá-
lo
& torcê-
lo
qual pano
de chão en-
cardido
& imun-
do
não lhe
ex-
trair-
mos
ao menos
uma go-
ta de bi-
le
negra
melan-
colia
?

§

CAMERA OBSCURA

1.

Recuas do espaço da luz e da sombra.
Minha palavra te alcança e imobiliza
por um átimo. Vejo-te.

2.

Não sigas o meu rastro, não
a minha palavra, não
a tua memória. Ignora
o meu nome, abandona:
quem eu fui.

3.

Não vês o horizonte de onde
te veem. (Não vês horizonte algum.)
Não vês o exato ponto
de onde te tornas visível.

4.

Dentre todas as formas de aparecer,
apenas uma é a tua.
Dentre todas as formas de ser,
apenas uma te cabe.

5.

Escapar da mirada que vê um rosto em cada coisa.
Escapar da mirada que vê o próprio rosto em cada coisa.

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poesia, tradução

Reinaldo Arenas (1943-1990), por Gilberto Clementino Neto

Reinaldo Arenas (Holguín, Cuba, 1943-1990), foi um poeta, dramaturgo e romancista cubano. É mais conhecido no Brasil por sua obra ficcional, embora apenas uma pequena parcela desta já tenha sido traduzida para o português. Seus poemas, entretanto, ainda não receberam a mesma atenção.

Usualmente referido por sua trajetória confundida com o movimento revolucionário cubano, do qual inicialmente fez parte, é de fato em relação ao regime castrista que sua obra oferece feições interpretativas mais evidentes.

De 1963 a 1968, Arenas esteve integrado aos esforços de formular um quadro independente de intelectuais em Cuba; trabalhou como pesquisador na Biblioteca Nacional José Martí, como editor no Instituto Cubano do Livro (Instituto Cubano del Libro) e na revista literária A Gazeta de Cuba (La gaceta de Cuba). Abertamente homossexual, Arenas foi por isso – e pela oposição à censura oficial que sua obra sofria – perseguido e finalmente preso. Foi um dos que, em 1980, conseguiu deixar Cuba e ir para os EUA, no famoso “Êxodo de Mariel”. Nos Estados Unidos, porém, conviveu com o vírus da Aids, até que no ano de 1990 cometeu suicídio em seu apartamento em Nova Iorque. Em uma nota de despedida, declarou-se afinal livre.

A obra poética de Reinaldo Arenas reflete com frequência essa condição insular permanente. Da experiência da pobreza extrema nos anos do regime de Fulgêncio Batista, à posição de dissidente político durante os anos de Castro e, por fim, à de imigrante pobre no coração do capitalismo, Arenas nomeia sua constante inadequação. Mesmo nessa posição, aliás bastante característica em toda poesia moderna, o autor encontrou, no entanto, sua voz na “vontade de viver manifestando-se”.

Os poemas aqui selecionados são oriundos de diversas fases da vida do autor, desde Cuba até os EUA, mas o que há de comum a todos eles é um estado de dramaticidade representado ora pela brevidade coerente do soneto ora pela liberdade do derramamento formal. Sempre cônscio de uma interioridade negada, os poemas de Arenas carregam a agitação vital de um espírito transportado da morte figurada socialmente à morte enfim contemplada.

Todos os seus poemas foram reunidos, em 2001, no volume (ainda inédito no Brasil) Inferno: poesía completa, com prólogo de Juan Abreu.                                                                        

Gilberto Clementino Neto (Olinda, 1988) é poeta e doutorando em Teoria da Literatura pela UFPE.

* * *

Vontade de viver manifestando-se

Agora me comem.
Agora sinto como sobem e me puxam das unhas.
Ouço seu roer chegar-me até os testículos.
Terra, me lançam terra.
Dançam, dançam sobre este monte de terra
E pedra
Que me cobre.
Me esmagam e insultam.
Repetindo não sei que aberrante solução que me atinja.
Me sepultaram.
Dançaram sobre mim.
Aplanaram bem o solo.
Foram, foram deixando-me bem morto e enterrado.
Este é meu momento.

Voluntad de vivir manifestándose

Ahora me comen.
Ahora siento cómo suben y me tiran de las uñas.
Oigo su roer llegarme hasta los testículos.
Tierra, me echan tierra.
Bailan, bailan sobre este montón de tierra
Y piedra
Que me cubre.
Me aplastan y vituperan.
Repitiendo no sé qué aberrante resolución que me atañe.
Me han sepultado.
Han danzado sobre mí.
Han apisonado bien el suelo.
Se han ido, se han ido dejándome bien muerto y enterrado.
Este es mi momento.

§

Não é o morto quem provoca o estupor

Não é o morto quem provoca o estupor
é a surpresa de ver como olvidamos
sua própria morte, nossa grande dor.
Fica o morto, nós embora vamos.

Não é o morto, não, quem se retira.
Somos nós que vamos debatendo,
sobre o cadáver que, mudo, nos mira,
a possibilidade de seguir sobrevivendo.

Quando na memória ao morto divisamos
(jogos do tempo, macabro despejador)
não é pois ao morto a quem estamos vendo:

Somos nós que, tétricos, ficamos
ao ver como olhamos sem horror
ao que no grande horror vai apodrecendo.

No es el muerto quien provoca el estupor

No es el muerto quien provoca el estupor
es la sorpresa de ver cómo olvidamos
su propia muerte, nuestro gran dolor.
Queda el muerto, nosotros nos marchamos.

No es el muerto, no, quien se retira.
Somos nosotros que vamos discutiendo,
sobre el cadáver que mudo nos mira,
la posibilidad de seguir sobreviviendo.

Cuando en la memoria al muerto divisamos
(juegos del tiempo, macabro escanciador)
no es pues al muerto a quien estamos viendo:

Somos nosotros que tétricos quedamos
al ver cómo miramos sin horror
al que en el gran horror se va pudriendo.

(La Habana, 1970)

§ 

De modo que Cervantes era manco

De modo que Cervantes era manco;
surdo, Beethoven, Villon, ladrão;
Góngora de tão louco andava de tamanco.
E Proust? Desde já, viadão.

Negreiro, sim, foi Don Nicolás Tanco,
e Virgínia suprimiu-se de um mergulhão,
Lautréamont morreu paralisado em algum banco.
Ai de mim, também Shakespeare era viadão.

Também Leonardo e Federico García,
Whitman, Michelangelo e Petrônio,
Gide, Genet e Visconti, as fatais.

Esta é, senhores, a breve biografia
(puxa, esqueci de mencionar Santo Antônio!)
de quem são da arte sólidos pontuais.

De modo que Cervantes era manco

De modo que Cervantes era manco;
sordo, Beethoven; Villon, ladrón;
Góngora de tan loco andaba en zanco.
¿Y Proust? Desde luego, maricón.

Negrero, sí, fue Don Nicolás Tanco,
y Virginia se suprimió de un zambullón,
Lautréamont murió aterido en algún banco.
Ay de mí, también Shakespeare era maricón.

También Leonardo y Federico García,
Whitman, Miguel Ángel y Petronio,
Gide, Genet y Visconti, las fatales.

Ésta es, señores, la breve biografía
(¡vaya, olvidé mencionar a san Antonio!)
de quienes son del arte sólidos puntuales.

(La Habana, 1971)

§

Tu e eu estamos condenados

Tu e eu estamos condenados
pela ira de um senhor que não mostra o rosto
a dançar sobre um território calcinado
ou a nos esconder no cu de algum monstro

Tu e eu sempre prisioneiros
daquela maldição desconhecida.
Sem viver, lutando pela vida.
Sem cabeça, pondo-nos sombreiro.

Vagabundos sem tempo e sem espaço,
uma noite incessante nos envolve,
nos enreda os pés, nos entorpece.

Caminhamos sonhando um grande palácio
e o sol sua imagem quebrada nos devolve
transformada em prisão que nos guarnece.

Tu y yo estamos condenados

Tú y yo estamos condenados
por la ira de un señor que no da el rostro
a danzar sobre un paraje calcinado
o a escondernos en el culo de algún monstruo.

Tú y yo siempre prisioneros
de aquella maldición desconocida.
Sin vivir, luchando por la vida.
Sin cabeza, poniéndonos sombrero.

Vagabundos sin tiempo y sin espacio,
una noche incesante nos envuelve,
nos enreda los pies, nos entorpece.

Caminamos soñando un gran palacio
y el sol su imagen rota nos devuelve
transformada en prisión que nos guarece.

(La Habana, 1971)

§

Menino velho

Eu sou esse menino de cara redonda e suja
que em cada esquina os incomoda com seu
“can you spend another quarter”

Eu sou esse menino de cara suja
-sem dúvida inoportuno-
que de longe contempla as carruagens
de onde outros meninos emitem risos e saltos consideráveis

Eu sou esse menino desagradável
-sem dúvida inoportuno-
de cara redonda e suja que ante os grandes faróis
ou sob as grandes damas também iluminadas
ou ante as meninas que parecem levitar
projeta o insulto de sua cara redonda e suja.

Eu sou esse menino tosco, melhor dizendo cinza,
que envolto em lamentáveis combinações
põe uma nota escura sobre a neve
ou sobre o gramado tão cuidadosamente cortado
que ninguém senão eu, porque não pago multas, se atreve a pisotear.

Eu sou esse distraído e sozinho menino de sempre
que os lança o insulto do menino sozinho de sempre
e os adverte: se hipocritamente me acariciares a cabeça
aproveitarei a ocasião para afanar-lhes a carteira.

Eu sou esse menino de sempre
ante o panorama do iminente espanto.
Esse menino, esse menino,
esse menino que corrompe o poema com sua nota naturalista.
Esse menino, esse menino,
esse menino que impõe árduos e chatos ensaios,
e até romances, ainda mais chatos, sobre “os bairros malfalados”.
Esse menino, esse menino,
esse menino de cara distraída e suja que impõe árduas
e sinistras revoluções
para logo continuar com sua cara ainda mais distraída e suja
Esse menino, esse menino,
esse menino ante o panorama sempre iminente
(só iminente)
do iminente espanto, da iminente lepra, do iminente
piolho,
do delito ou do crime iminentes.
Eu sou esse menino repulsivo que improvisa uma cama
com papelões velhos e espera, seguro, que você venha a
lhe fazer companhia.

Niño viejo

Yo soy ese niño de cara redonda y sucia
que en cada esquina os molesta con su
“can you spend one quarter”

Yo soy ese niño de cara sucia
–sin duda inoportuno–
que de lejos contempla los carruajes
donde otros niños emiten risas y saltos considerables.

Yo soy ese niño desagradable
–sin duda inoportuno–
de cara redonda y sucia que ante los grandes faroles
o bajo las grandes damas también iluminadas
o ante las niñas que parecen levitar
proyecta el insulto de su cara redonda y sucia

Yo soy ese niño hosco, más bien gris,
que envuelto en lamentables combinaciones
pone una nota oscura sobre la nieve
o sobre el césped tan cuidadosamente recortado
que nadie sino yo, porque no pago multas se atreve a pisotear.

Yo soy ese airado y solo niño de siempre
que os lanza el insulto del solo niño de siempre
y os advierte: si hipócritamente me acariciáis la cabeza
aprovecharé la ocasión para levantarles la cartera.

Yo soy ese niño de siempre
ante el panorama del inminente espanto.
Ese niño, ese niño,
ese niño que corrompe el poema con su nota naturalista.
Ese niño, ese niño,
ese niño que impone arduos y aburridos ensayos
y hasta novelas, aún más aburridas, sobre “los bajos fondos”.
Ese niño, ese niño,
ese niño de cara airada y sucia que impone arduas
y siniestras revoluciones
para luego seguir con su cara aún más airada y sucia.
Ese niño, ese niño
ese niño ante el panorama siempre inminente
(sólo inminente)
del inminente espanto, de la inminente lepra, del inminente
piojo,
del delito o del crimen inminentes.
Yo soy ese niño repulsivo que improvisa una cama
con cartones viejos y espera, seguro, que venga usted a
hacerle compañía.

§

Antes que anoiteça

Ó lua! Sempre estiveste ao meu lado, alumbrando-me nos momentos mais terríveis; desde minha infância foste o mistério que velaste pelo meu terror, foste o consolo nas noites mais desesperadas, foste minha própria mãe, banhando-me em um calor que ela talvez nunca soube brindar-me; em meio ao bosque, nos lugares mais tenebrosos, no mar; ali estavas tu acompanhando-me; eras meu consolo, sempre foste a que me orientaste nos momentos mais difíceis. Minha grande deusa, minha verdadeira deusa, que me tem protegido de tantas calamidades; para você no meio do mar; para você junto à costa; para você entre as costas da minha ilha desolada. Elevava o olhar e te via; sempre a mesma; no teu rosto via uma expressão de dor, de amargura, de compaixão para mim; teu filho. E agora, subitamente, lua, estouras em pedaços diante da minha cama. Já estou sozinho. É de noite.

Antes que anochezca

¡Oh Luna! Siempre estuviste a mi lado, alumbrándome en los momentos más terribles; desde mi infancia fuiste el misterio que velaste por mi terror, fuiste el consuelo en las noches mas desesperadas, fuiste mi propia madre, bañándome en un calor que ella tal vez nunca supo brindarme; en medio del bosque, en los lugares más tenebrosos, en el mar; allí estabas tu acompañándome; eras mi consuelo, siempre fuiste la que me orientaste en los momentos más difíciles. Mi gran diosa, mi verdadera diosa, que me has protegido de tantas calamidades; hacia ti en medio del mar; hacia ti junto a la costa; hacia ti entre las costas de mi isla desolada. Elevaba la mirada y te miraba; siempre la misma; en tu rostro veía una expresión de dolor, de amargura, de compasión hacia mí; tu hijo. Y ahora, súbitamente, luna, estallas en pedazos delante de mi cama. Ya estoy solo. Es de noche.

§

Autoepitáfio

 Mau poeta apaixonado pela lua,
não teve mais destino que o espanto;
e foi suficiente pois como não era um santo
sabia que a vida é risco ou abstinência,
que toda grande ambição é grande demência
e que o mais sórdido horror tem seu encanto.
Viveu para viver o que é ver a morte
como algo cotidiano a que apostamos
um corpo esplêndido ou toda nossa sorte.
Soube que o melhor é aquilo que deixamos
-precisamente porque nos vamos-.
Todo o cotidiano resulta aborrecível,
há somente um lugar para viver, o impossível.
Conheceu a prisão, o ostracismo,
o exílio, as múltiplas ofensas
típicas da vileza humana;
mas sempre o escoltou certo estoicismo
que o ajudou a caminhar por cordas tensas
ou a desfrutar da manhã esplendente.
E, quando já se bamboleava, uma janela insurgente
pela qual se lançava ao infinito.
Não quis cerimônia, discurso, duelo ou grito,
nem um túmulo de arena onde repousasse o esqueleto
(nem depois de morto quis viver quieto).
Ordenou que suas cinzas fossem lançadas ao mar
onde haverão de fluir constantemente.
Não perdeu o costume de sonhar:
espera que em suas águas mergulhe algum adolescente.

Autoepitafio

Mal poeta enamorado de la luna,
no tuvo más fortuna que el espanto;
y fue suficiente pues como no era un santo
sabía que la vida es riesgo o abstinencia,
que toda gran ambición es gran demencia
y que el más sórdido horror tiene su encanto.
Vivió para vivir que es ver la muerte
como algo cotidiano a la que apostamos
un cuerpo espléndido o toda nuestra suerte.
Supo que lo mejor es aquello que dejamos
-precisamente porque nos marchamos-.
Todo lo cotidiano resulta aborrecible,
sólo hay un lugar para vivir, el imposible.
Conoció la prisión, el ostracismo,
el exilio, las múltiples ofensas
típicas de la vileza humana;
pero siempre lo escoltí cierto estoicismo
que le ayudó a caminar por cuerdas tensas
o a disfrutar del esplendor de la mañana.
Y cuando ya se bamboleaba surgía una ventana
por la cual se lanzaba al infinito.
No quiso ceremonia, discurso, duelo o grito,
ni un túmulo de arena donde reposase el esqueleto
(ni después de muerto quiso vivir quieto).
Ordenó que sus cenizas fueran lanzadas al mar
donde habrán de fluir constantemente.
No ha perdido la costumbre de soñar:
espera que en sus aguas se zambulla algún adolescente.

(Nueva York, 1989)

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Chuvas de Niikuni Seiichi (1925 – 1977), por Alessandro Funari

Niikuni Seiichi (1925 – 1977) foi um pintor e poeta japonês, um dos principais autores relacionados ao movimento concretista – tendo, inclusive, traduzido Haroldo de Campos para o japonês. Trabalhou com poesia ideogramática, com uma preocupação bastante visual. Para este poema, Chuva, foram feitas duas versões: uma visual e uma com foco no aspecto sonoro (soma-se o fato de que, em japonês, a onomatopeia para chuva é “shito shito”); cada uma destas possui uma variante que substitui o formato retangular da obra – como se alguém estivesse vendo a chuva através de uma janela, conforme o ideograma apresenta – por uma forma mais oblíqua, diagonal, como uma chuva mais movimentada pelo vento.

Alessandro Funari

* * *

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poesia

Raphael Sassaki

foto sassaki

Raphael Sassaki nasceu em 1988 e edita PDFs na Shiva Press (shivapress.tumblr.com). Os poemas publicados aqui são do livro A Destruição do Mundo, a ser lançado pela Douda Correria.

*

babel

desculpa a demora
esqueci de novo de enviar seu i-ching

acho que eu estou me especializando
em pegar caminhos errados

os correios aqui já fecharam
mas achei esse livro que fala
da beleza das estruturas que
emanam de um mesmo ponto
fixo

entre as coisas que gostei de fazer hoje estão: 1-
perder tempo em pontos de ônibus
2- passar aflição por não achar livros de 7 reais

e meu deus como é bonito
o desenho mágico daquela avenida

é estranho dizer assim, mas eu e você
sempre soubemos, instintivamente
onde havia beleza
(e havia beleza em tudo)

quem nunca atravessou a rua errado
que jogue a primeira pedra

ontem o padre me contou a história
do menino de rua que cruzou o atlântico
só para renascer na cracolândia

e eu sei lá quantas músicas já ouvi hoje
enquanto via as fotos do seu rosto
pintado feito um príncipe yanomami

dizem que os deuses dos índios são todos canibais e
que as almas são feitas de ossos queimados

mas o certo é que hoje é de novo outro dia e
o verão acabou de começar

§

astrologs

sinais de leite no degrau de estrelas
passos predestinados

seu bazar beneficente
de corações amorfos

escaladas de mãos dadas
com espíritos na aclimação

dorme debaixo de astros grávidos

barulho de chuva em pesadas
enteléquias no rolê

sua boca selvagem forma
sortilégios primitivos

há desastres abertos
nas costelas rachadas
da catedral da sé

e a rua fecha os olhos como nosso amor

§

crowley

somos só
tribos estivais
buscando antídoto
a qualquer alegria
filantrópica

bisnetos de guaranis
e holocaustos
colhendo flashbacks
em darknets
ao sul do mundo

speakers fluentes
da barbárie
espalhando
novas vibrações

§

kiss me deadly

você diz: da mente rachada jorra o arco-íris
amor, palavras não vão salvar sua alma

(mas seus olhos são os relâmpagos
mais bonitos no céu apocalíptico
de são paulo)

ei, você não sabia
que estamos nadando no abismo?
que estamos fabricando mortes?
que estamos escondidos em teatros
de sonho elétrico?

que somos só bichos hipnotizados por
palavras
cometendo todos os dias os mesmos crimes

hoje choveu e lembrei que temos fogo por dentro

a vida não volta
e isso se chama liberdade

você diz: a dor da diferença
(é a felicidade das coisas
aí é quando sinto que vou acordar

meu cérebro é um monstro de 100 milhões de anos
deitado na cama

é uma língua mais velha que a gramática
e todas as palavras só formam constelações de loucuras
que chamamos mentiras

mas agora é quase meia noite
e as luzes da cidade já se enfiam
no silêncio do mundo

você diz: nós somos vida após a morte

você diz: foi um soco no escuro que te fez cair aqui
você diz: há um ruído pesado nestes sonhos
foi quando

§

o movimento giratório dos peixes

nosso papo é um círculo
que não para de crescer
em volta da praça roosevelt

sobretudo quando você fala
das três canções perdidas de lady dylan

ou diz que nem as ruas
nem os corpos
já nos pertencem mais

agora eu conto
todos os guarda-chuvas
no bar dos atores

e registro quase 69 ângulos
diferentes do seu rosto

enquanto você fala
dos teus sete flertes
e faz nossos planos
para os próximos
duzentos anos

e então ouvimos a
voz dos mortos
da Vila Munhoz
e vemos a vida perdida
de dona Zilda
e sabemos que
entre essas duas coisas
deveria haver todas
as chances do mundo
mas não há

e que nem por isso
você deixa de juntar
moléculas e gases
e qualquer outro
elemento interestelar
bem perto de si
e segue batendo seus
olhos castanhos em
todos os cantos da
cidade

acho que nenhum deus
sabe exatamente
onde vai dar o mundo
mas que o amor existe
isso não há quem duvide

a verdade está
alguns decibéis acima
do ouvido humano
e por cima passam
todos os bichos

***

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poesia, tradução

Um salmo de John Milton, por Cesar Veneziani

BEM AVENTURADA TRADUÇÃO

Traduzir poesia obriga o tradutor a enfrentar uma incontável quantidade de problemas. Traduzir poesia que se baseia num texto canônico e sensível a uma gama ainda maior de intenções e significados é um desafio multiplicado. Essa multiplicação de dificuldades é o que se apresenta ao se traduzir o “Psalm II” de John Milton (“The Poetical Works of John Milton”, Oxford, Clarendon Press, 1900). O Salmo II, texto bíblico traduzido em poema por Milton em 1653 a partir do hebraico e cotejando com a vulgata, a tradução latina e ainda, certamente, também cotejando com a recém-publicada King James Version – KJV de 1611, tida hoje em dia como uma tradução exemplar da bíblia em língua inglesa, exige para sua tradução poética para o português o mesmo procedimento, uma vez tratar-se de texto doutrinário e sagrado para milhões de leitores.

Antes de qualquer coisa, analisemos o poema. O Salmo II de Milton é apresentado em terça rima e os versos são pentâmetros iâmbicos. A reprodução desta forma adotando-se o decassílabo como correspondente do pentâmetro iâmbico é uma opção imediata.

Com a devida atenção ao cuidado que o texto exige, buscamos traduzi-lo tendo à mão o correspondente bíblico em português que mais se identifica com a KJV, a tradução de João Ferreira de Almeida feita também ao final do século XVII (Almeida Revista e Atualizada – ARA, consultada em 11/07/2018 no site http://biblia.com.br/joaoferreiraalmeidarevistaatualizada/salmos/sl-capitulo-2/).

Apresentamos a seguir o poema de Milton, a tradução de Almeida e a nossa tradução do poema de Milton apoiada no texto de Almeida.

Cesar Veneziani

* * *

PSAL. II. Done Aug. 8. 1653. Terzetti. – John Milton

Why do the Gentiles tumult, and the Nations
      Muse a vain thing, the Kings of th’earth upstand
      With power, and Princes in their Congregations
Lay deep their plots together through each Land,
      Against the Lord and his Messiah dear.
      Let us break off, say they, by strength of hand
Their bonds, and cast from us, no more to wear,
      Their twisted cords: he who in Heaven doth dwell
      Shall laugh, the Lord shall scoff them, then severe
Speak to them in his wrath, and in his fell
      And fierce ire trouble them; but I saith hee
      Anointed have my King (though ye rebell)
On Sion my holi’ hill. A firm decree
      I will declare; the Lord to me hath say’d
      Thou art my Son I have begotten thee
This day; ask of me, and the grant is made;
      As thy possession I on thee bestow
      Th’Heathen, and as thy conquest to be sway’d
Earths utmost bounds: them shalt thou bring full low
      With Iron Scepter bruis’d, and them disperse
      Like to a potters vessel shiver’d so.
And now be wise at length ye Kings averse
      Be taught ye Judges of the earth; with fear
      Jehovah serve, and let your joy converse
With trembling; kiss the Son least he appear
      In anger and ye perish in the way
      If once his wrath take fire like fuel sere.
Happy all those who have in him their stay.

Salmos – Capítulo 2 – Almeida

  1. Por que se enfurecem os gentios e os povos imaginam coisas vãs?
  2. Os reis da terra se levantam, e os príncipes conspiram contra o SENHOR e contra o seu Ungido, dizendo:
  3. Rompamos os seus laços e sacudamos de nós as suas algemas.
  4. Ri-se aquele que habita nos céus; o Senhor zomba deles.
  5. Na sua ira, a seu tempo, lhes há de falar e no seu furor os confundirá.
  6. Eu, porém, constituí o meu Rei sobre o meu santo monte Sião.
  7. Proclamarei o decreto do SENHOR: Ele me disse: Tu és meu Filho, eu, hoje, te gerei.
  8. Pede-me, e eu te darei as nações por herança e as extremidades da terra por tua possessão.
  9. Com vara de ferro as regerás e as despedaçarás como um vaso de oleiro.
  10. Agora, pois, ó reis, sede prudentes; deixai-vos advertir, juízes da terra.
  11. Servi ao SENHOR com temor e alegrai-vos nele com tremor.
  12. Beijai o Filho para que se não irrite, e não pereçais no caminho; porque dentro em pouco se lhe inflamará a ira. Bem-aventurados todos os que nele se refugiam.

Salmo II – Feito Fev 10. 2018. Tradução em tercetos.

Porque será que os pobres se enfurecem
      E os povos coisas vãs tenham sentido?
      E se erguem reis e príncipes que tecem
Traições contra o Senhor e seu Ungido
      Dizendo: “Laços rotos, sem correntes”!
      Por todo o céu um riso então é ouvido.
Quem mora nas alturas, sorridente,
      Senhor que deles zomba, em tom irado
      No tempo certo irá até o descrente
Para deixá-lo assim desconcertado.
      Mas eu, porém, constituí meu Rei
      Ali por sobre o monte Sião sagrado
As leis do meu Senhor eu proclamei.
      E dele, emocionado, ouvi as lições:
      Tu és meu filho, eu hoje te gerei
Pede-me e te darei estas nações
      De herança e até as terras mais distantes
      Farei que sejam tuas possessões.
De ferro o teu cajado em mãos vibrantes
      Que guiam ou que quebram qual uns pratos,
      Quem se insurgir com ar desafiante.
Agora, pois, ó reis, sede sensatos,
      Deixai-vos ser levados ao Senhor
      Terrenos juízes, não sedes ingratos,
Servi com fé e com todo o seu fervor
      Beijai o Filho, em sua aparição
      E nele siga alegre com temor.
Não pereçais em tua direção
      Pois chega o tempo em que serás julgado
      E quem nele refúgio busca então
Será de todo bem aventurado.

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poesia

Alguns inéditos de André Capilé (1978-)

capile

André Capilé é um poeta brasileiro, nascido em Barra Mansa, Rio de Janeiro, em 1978, e já apareceu aqui na escamandro (clique aqui). É graduado em Filosofia pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Mestre em Letras pela PUC-Rio. Doutor em “Literatura, Cultura & Contemporaneidade”, também pela PUC. Publicou rapace [2012 – Editora TextoTerritório] e balaio [2014 – 7Letras]; traduziu, para a Edições Macondo, “The Love Song of J. Alfred Prufrock” na coleção Herbert Richers. Tem previsão de lançamento e relançamento este ano pela editora TextoTerritório.

* * *

das flores que comemos desde antanho
quando chamou-me irmão em suas linhas

— leitores do desastre e arte mesquinha —
a vida ainda não tinha esse tamanho

do horror batendo à porta nos chamando.

§

 

a inversão dos sinais indiciava
: se a vara é curta, então cutuque a onça.

contavam que a urutu mordesse em brasa

e a baba do tinhoso lá se via
armada em meio ao medo a cada esquina.

§

 

há ceia farta até num galho morto

ao ver na fruta empenhada, futura
a força de seu peso antes da colha.

§

 

e o verde da miséria observava
a trama da anti-história que assobia.

na pressão manifesta dos desejos,
de corpos atritando-se entre beijos,

naquela encruzilhada de onde um sol
detrás da barricada avolumava.

§

a máquina da morte nos chegava
coturna como a besta trincadentes.

(bandeiras vão voar — um viva às bruxas
— feitiço rubro na língua das ruas,

nos vimos horizonte olhos nos olhos,
e o abraço que nos demos fortaleza

foi grão de resistir mas não por medo).

Padrão
poesia, tradução

Adrienne Rich, por Sarah Valle

adrienne-rich

Adrienne Rich (1929 – 2012) foi uma poeta norte-americana, pensadora e ativista, ícone feminista, também reconhecida pela ampla militância em prol de direitos humanos. Vinte e um poemas de amor (1976) integram o livro O sonho de uma língua comum, conjugando a história do silenciamento coletivo e o diálogo amoroso. Além de poemas a uma amante, são atos mentais de consciência e vontade, assumindo responsabilidade frente às forças que minam o relacionamento narrado. A sequência já foi chamada de a “primeira abertamente lésbica” escrita por uma autora norte-americana de renome e um “marco histórico” no Women’s Liberation Movement.

Sobre a tradução

Apesar de diretos, dialógicos e cortantes, os poemas de Adrienne muitas vezes se fazem nas bordas do verso regular. Vinte e um poemas de amor flertam com as sequências de sonetos de amor, de forma a inserir um tema renegado numa forma canônica repaginada. A partir da percepção de que nesses “quase sonetos” há um metro fantasma, o pentâmetro iâmbico, recrio na tradução um flerte com os versos tradicionais decassílabos, hendecassílabos e dodecassílabos, contudo diluídos. Especialmente no início, os poemas tendem à lembrança da métrica, acabando por vezes em finais antiestéticos. Incluo nesta amostra o “poema flutuante, não numerado”, que resiste a ser enquadrado na sequência e surpreende quem espera de Adrienne poemas mentais. Este é meu primeiro exercício de tradução e durou os anos do mestrado. A tarefa de alcançar um tom médio entre a tradição e o caráter direto engessou um pouco os poemas. Ainda assim, suponho que incorporam a tensão entre ato estético e ato político e colocam contra a parede a tradição literária de língua inglesa, bem como a tradição literária de minha própria língua.

Sarah Valle

*

VI
Suas mãos pequenas, tão iguais às minhas—
só o polegar é mais largo, longo—nessas mãos
eu entregaria o mundo, ou em muitas mãos como essas,
manuseando ferramentas, volantes
ou tocando um rosto. . . Tais mãos poderiam recolocar
a criança não nascida no canal do parto
ou pilotar o exploratório navio de resgate
por entre icebergs, ou reunir
os cacos feito agulhas de uma grande cratera grega
sustentando à sua volta
silhuetas de mulheres em êxtase dando grandes passos
rumo à gruta da sibila ou à caverna de Elêusis—
tais mãos poderiam comportar uma violência inevitável
com tal restrição, com um tal senso
dos alcances e limites da violência
que toda violência seria, dali em diante, obsoleta.

VI
Your small hands, precisely equal to my own—
only the thumb is larger, longer—in these hands
I could trust the world, or in many hands like these,
handling power-tools or steering-wheel
or touching a human face. . . Such hands could turn
the unborn child rightways in the birth canal
or pilot the exploratory rescue-ship
through icebergs, or piece together
the fine, needle-like sherds of a great krater-cup
bearing on its sides
figures of ecstatic women striding
to the sibyl’s den or the Eleusinian cave—
such hands might carry out an unavoidable violence
with such restraint, with such a grasp
of the range and limits of violence
that violence ever after would be obsolete.

§

VIII
Vejo-me há muitos anos em Sunião
sofrendo com um pé infeccionado, Filoctetes
em forma de mulher, mancando pelo longo caminho,
deitada num cabo sobre o mar escuro,
olhando embaixo as rochas rubras onde uma linha muda
e branca me contou que uma onda as golpeara,
supondo a tração da água àquela altura,
sabendo que suicídio deliberado não era meu métier,
no entanto todo tempo aleitando, aferindo a ferida.
Bem, isso está acabado. A mulher que acarinhava
seu sofrimento está morta. Sou sua descendente.
Amo a malha de cicatrizes que ela me concedeu,
mas quero seguir daqui com você
resistindo à tentação de fazer da dor uma carreira.

VIII
I can see myself years back at Sunion
hurting with an infected foot, Philoctetes
in woman’s form, limping the long path,
lying on a headland over the dark sea,
looking down the red rocks to where a soundless curl
of white told me a wave had struck,
imagining the pull of that water from that height,
knowing deliberate suicide wasn’t my métier,
yet all the time nursing, measuring that wound.
Well, that’s finished. The woman who cherished
her suffering is dead. I am her descendant.
I love the scar-tissue she handed on to me,
but I want to go on from here with you
fighting the temptation to make a career of pain.

§

IX
Seu silêncio de hoje é um poço onde vivem submersas
coisas que eu quero ver alçadas, pingando ao sol.
Não é meu próprio rosto que vejo ali, mas outros rostos,
até mesmo o seu rosto em outra idade.
O que quer que esteja perdido ali é necessário a ambas—
um relógio de ouro velho, um gráfico de febre borrado,
uma chave. . . Mesmo os seixos e o lodo do fundo
merecem seu lampejo de percepção. Temo esse silêncio,
essa vida inarticulada. Espero
um vento suave que abra esse lençol d’água
finalmente, e me mostre o que fazer
por você, que tantas vezes tornou o inomeável
nomeável para outros, até para mim.

IX
Your silence today is a pond where drowned things live
I want to see raised dripping and brought into the sun.
It’s not my own face I see there, but other faces,
even your face at another age.
Whatever’s lost there is needed by both of us—
a watch of old gold, a water-blurred fever chart,
a key. . . Even the silt and pebbles of the bottom
deserve their glint of recognition. I fear this silence,
this inarticulate life. I’m waiting
for a wind that will gently open this sheeted water
for once, and show me what I can do
for you, who have often made the unnameable
nameable for others, even for me.

§

(O POEMA FLUTUANTE, NÃO NUMERADO)

Aconteça conosco o que for, seu corpo
vai assombrar o meu—delicado, terno
quando faz amor, como a rama espiralada
do broto de samambaia em bosques
recém-banhados pelo sol. Suas coxas viajadas, generosas
entre as quais meu rosto inteiro goza e goza—
a inocência e a sabedoria do lugar que a minha língua achou ali—
a dança viva, insaciável, dos seus mamilos na minha boca—
seu toque em mim, firme, protetor, que me
busca, sua língua forte e seus dedos esguios
atingindo onde esperei tantos anos por você
na minha caverna rosa-molhada—aconteça o que for: é isso.

(THE FLOATING POEM, UNNUMBERED)

Whatever happens with us, your body
will haunt mine—tender, delicate
your lovemaking, like the half-curled frond
of the fiddlehead fern in forests
just washed by sun. Your traveled, generous thighs
between which my whole face has come and come—
the innocence and wisdom of the place my tongue has found there—
the live, insatiate dance of your nipples in my mouth—
your touch on me, firm, protective, searching
me out, your strong tongue and slender fingers
reaching where I had been waiting years for you
in my rose-wet cave—whatever happens, this is.

§
XIV
Sua visão do piloto confirmou
minha visão de você: você disse, Ele atira
o barco contra as ondas, de propósito
enquanto nos encolhemos no alçapão aberto
vomitando em sacos plásticos
durante três horas entre St. Pierre e Miquelon.
Nunca me senti tão próxima a você.
Na cabine apertada onde os casais em lua-de-mel
se amontoavam nos colos e braços uns dos outros
coloquei minha mão sobre sua coxa
para nos confortar, e sua mão veio sobre a minha,
ficamos assim, sofrendo juntas
em nossos corpos, como se todo o sofrimento
fosse físico, nos tocando na presença
de estranhos que nada sabiam nem se importavam
vomitando suas dores privadas
como se todo sofrimento fosse físico.

XIV
It was your vision of the pilot
confirmed my vision of you: you said, He keeps
on steering headlong into the waves, on purpose
while we crouched in the open hatchway
vomiting into plastic bags
for three hours between St. Pierre and Miquelon.
I never felt closer to you.
In the close cabin where the honeymoon couples
huddled in each other’s laps and arms
I put my hand on your thigh
to comfort both of us, your hand came over mine,
we stayed that way, suffering together
in our bodies, as if all suffering
were physical, we touched so in the presence
of strangers who knew nothing and cared less
vomiting their private pain
as if all suffering were physical.

§

Sarah Valle é mestre em Estudos da Tradução pela Universidade de São Paulo. É autora da novela Arquitetura do Sim – fragmentos de um diário da Ásia (2018, Editora Cozinha Experimental).

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entrevista

Canteiro de obras – Rafael Zacca entrevista Marcelo Reis de Mello

Foto de Sergio Mauricio Texeira.

As oficinas de criação e análise literária são um grande canteiro de obras. Não foram poucos os filósofos e teóricos da arte que disseram que a obra precisa, depois de pronta, esconder os seus andaimes. O quanto as obras têm mostrado os seus andaimes no último século e meio, testemunha a arte contemporânea, que se tornou, aqui e ali, a produção de vigas e cimento e máquina sem o verniz do acabamento. Isto é, expõe-se o fazer. As oficinas avançam nesse processo e mostram mais, recuando ao passado: recuperam uma prática pré-moderna, antiga e principalmente medieval de fazer comunitário. Esta série de entrevistas procura visibilizar oficineirxs de diferentes perfis, idades e práticas, e tomar a arte-educação em poesia como, ao mesmo tempo, um campo do saber e uma forma em si. A oficina como forma. A oficina como campo do saber. A oficina.

Rafael Zacca

* * *

Rafael Zacca: Marcelo, hoje você é coordenador das oficinas de literatura na Coordenadoria de Artes e Oficinas de Criação da UERJ, a Coart. Pelo que entendo, você é responsável por pensar as atividades de literatura promovidas pelo espaço, bem como é responsável por escolher o time de oficineiros. Que função ou papel social você tenta exercer a partir desse cargo? Trata-se de uma prestação de serviços ou existe um planejamento pedagógico que atravessa as suas escolhas, tanto em termos de equipe quanto de planejamento de suas próprias oficinas?

Marcelo Reis de Mello: A Coart não possuía orientadores de área concursados até 2016. Antes do nosso concurso, era quase todo mundo terceirizado. Foi quando nós (orientadores das áreas de dança, teatro, música, cinema, artes visuais e literatura) entramos e começamos a descobrir na prática qual exatamente seria o trabalho e como ele poderia ser desenvolvido. Com as interrupções decorrentes de paralisações e greves, 2018 foi o primeiro ano em que pudemos desenvolver de forma contínua o planejamento, por isso respondo a sua pergunta como alguém que ainda está chegando. Este cargo me dá uma liberdade pedagógica extraordinária, porque não atendo a uma estrutura curricular pré-definida. Durante a greve, por exemplo, cheguei a oferecer pela Coart uma oficina sobre poéticas da insurreição e desobediência civil na Aldeia Maracanã, que culminou num grande evento de apoio aos indígenas. A coisa já começou assim. Então, respondendo mais objetivamente à sua pergunta, entendo que a principal função deste cargo é, por um lado, aproximar e criar um canal entre o Centro Cultural como um todo e os institutos acadêmicos da UERJ. Por outro, diminuir a distância entre a universidade e o público externo, sobretudo com as pessoas que convivem diariamente com a imagem da UERJ (aparentemente tão maciça, pesada, intimidadora) sem ter como desfrutar do ambiente universitário. É o caso da maior parte das pessoas que vivem no Complexo da Mangueira, para as quais o prédio parece de costas. Se é uma prestação de serviço ou se há planejamento pedagógico, não vejo uma coisa excluindo a outra. Entendo que, justamente por ser um servidor público, preciso planejar com muito cuidado as atividades e a equipe de profissionais que chega para trabalhar comigo. Por isso tenho convidado professores e artistas como você, Zacca, que me ajuda a iluminar as possibilidades, a enxergar os erros e acertos do percurso.

RZ: Geralmente há uma resistência no mundo da arte com relação a uma oferta de serviços. Compreende-se que uma coisa é essa oferta, outra coisa é um trabalho pedagógico sério, e uma terceira ainda é a produção artística competente. O interessante é que você parece não ver diferença entre essas coisas. Você acha que as oficinas de criação têm a oportunidade de reconciliar uma função, uma pedagogia e uma competência artística? Ou estou entendendo errado e as coisas não devem ser tão misturadas assim?

MRM: Não só devem como estão misturadas, e isso é bom. Sabe, Zacca, também acho ótimo que o poeta se identifique cada vez mais com o sapateiro e menos com o bacharel. As palavras têm mais a ver com graxa do que com retórica. E mais com os andarilhos do que com retores. Se quisermos um pouco de poesia, mais vale conversar com o sapateiro ou com o engraxate do que com um Juiz de Direito (com aquela capa aristocrática, disfarçado de Lorde Byron). O mito “poesia” e o mito “poeta” ainda existem, mas estão se esgarçando. E isso se deve, entre outras coisas, à disseminação social dos modos de fazer a coisa, à democratização dos processos criativos ou compositivos de um texto poético. Quando abriram a caixa de ferramentas do Gênio (como os antigos anatomistas abriam cabeças) encontraram apenas uma tira de couro e uma flanela gasta. Com esses materiais é que ele trabalha. Por isso não distingo muito mesmo as fronteiras entre essas atividades. A poesia é a linguagem que se distancia do servilismo, mas, por outro lado, como servidor da UERJ posso aproximar um público muito heterogêneo do universo da poesia. É a isso que “sirvo” atualmente. E como todo orientador de oficina artística é ou acaba atuando como professor (por mais que alguns docentes universitários façam bico), ele também vai precisar de uma diretriz pedagógica, de um planejamento, de certo cuidado com a teoria. Às vezes, como é o nosso caso, calha de o sujeito ser também artista, poeta, mas não é uma exigência. O mais importante, em se tratando de poesia, nunca é a poesia. Essa talvez seja a única, ou pelo menos a principal diferença entre um poema e um sapato.

RZ: Estamos falando de um contexto atual, mas você começou há muitos anos a dar oficinas de criação, né? Sei que pelo menos desde 2011, quando criou a Oficina Experimental de Poesia (para a qual você mesmo me convidou, na passagem de 2012 para 2013) com o poeta Heyk Pimenta, isso está no seu horizonte. Foi aí que começou pra você? O que eram as oficinas de criação pra você naquela época?

MRM: Acho que a Oficina Experimental de Poesia foi uma grande sacada. O Heyk foi o primeiro grande amigo que eu fiz no Rio, nós ficamos íntimos de cara e ele vivia me chamando para trabalhar. Demos oficinas, fizemos apresentações por aí, foi um momento inesquecível. Em 2010 lançamos juntos os nossos primeiros livros de poesia, pouco depois tivemos a ideia da Oficina Experimental para ensinar o pouco que havíamos aprendido, mas também como um meio de continuar estudando e conhecendo gente. Lembro que o primeiro encontro da OEP, no pátio de uma livraria em Santa Teresa, foi uma leitura de dois poetas com “G”: Luis de Góngora, expoente do Siglo de Oro espanhol, e Allen Guinsberg, poeta estadunidense da geração Beat. Queríamos fazer jus ao adjetivo “experimental”. E foi lindo. No início iam poucas pessoas, às vezes íamos só nós dois e aproveitávamos pra ler e discutir poesia. Qualquer encontro onde o ritmo da conversa é pautado pela poesia já é uma espécie de oficina experimental. Depois eu me tornei algo como um sócio honorário, fui me dedicar mais à editora com o Germano e o Heyk levou o projeto nas costas até você chegar. Então a coisa vai deixando de ser tão amadora e o grupo cresce, aparecem novos horizontes, vocês escrevem o Almanaque lá no Hélio Oiticica. Acho que a mudança da OEP para o Méier foi um divisor de águas nessa trajetória. Na minha opinião, um ato de grande sensibilidade ao momento histórico da poesia e da própria cidade.

RZ: E o que mudou de lá pra cá? Quero dizer, desde então você se tornou editor da Cozinha Experimental ainda naquela época, a editora cresceu, você fez o seu processo de doutoramento, e, por outro lado, está vivendo um Rio de Janeiro (e um Brasil) um bocado diferente daquele de sua chegada. Você acha que esses processos, individuais e coletivos, alteraram a sua relação com a ideia e com as práticas das oficinas de poesia?

MRM: A editora nasceu em 2010, um pouco antes da Oficina. Aliás, as duas levam “experimental” no nome porque no início acreditávamos que os projetos poderiam caminhar juntos. Não foi exatamente assim, mas tivemos nossas parcerias. A coroação desse relacionamento foi no fim de 2017, durante o Prêmio Baixo Meier de Poesia, quando OEP laureou a Cozinha Experimental (numa disputa acirrada) com o troféu “Prazer total, enriquecimento zero”. Nesses anos muita coisa aconteceu, eu decidi voltar à universidade para estudar poesia, publiquei muitas e muitos poetas pela editora, escrevi outros livros, a cidade e o Estado entraram numa nova fase de profunda depressão, passamos pelas manifestações de 2013 e pelo golpe parlamentar de 2016, a prisão de dois governadores do Rio e, no instante em que respondo à sua pergunta, o Brasil empossa um ex-militar de extrema-direita. Em todo esse processo, qual o lugar da poesia? Pra que poesia, poetas? Essas questões retornam o tempo todo porque a perspectiva nunca é a mesma. Ouvindo a nova claque presidencial cantar o hino com a mão direita no peito, percebemos o quanto um poema pode ser submisso, o quanto ele pode servir à cristalização de um estereótipo. Por isso é preciso insistir que a poesia não é a afirmação de um sentido, mas aquilo que escapa à sua pretensa apropriação. Ou, como escreveu Jean-Luc Nancy, talvez a poesia não seja um acesso ao sentido, mas um acesso de sentido. Evidentemente, tudo o que acontece no mundo muda a nossa relação com a linguagem, com as palavras, com os livros. E ao exercício coletivo desse “acesso de sentido” podemos dar o nome Oficina.

RZ: Pode me explicar melhor por que esse acesso de sentido é importante pra você como oficineiro e como poeta? Eu queria saber também se é isso o que é mais importante em uma oficina de poesia pra você hoje, ou se é alguma outra coisa.

MRM: É muito importante sim. Eu podia ter dito isso de outro modo, mais simples. Podia ter lembrado daquele vídeo em que o Leminski fala que a poesia é o inutensílio, uma das coisas sem porquê (como o grito de gol, o abraço do amigo, o gozo) que fazem o bagulho valer a pena. Essas não são coisas sem sentido, mas elas não fazem sentido porque têm uma utilidade, não são meros meios para outra coisa qualquer. Eu diria que são meios para si próprios, o que quer dizer que não são da mesma natureza que um texto jornalístico, os autos de um processo ou uma bula de remédio. Um poema, ao invés de explicar, sacode o explicável, joga com ele, faz um furo no dicionário (pelo qual as palavras escapam), ou seja, é um “acesso” mais enquanto “crise” ou “ataque” do que como um “ingresso” (acesso de tosse, acesso de raiva, acesso de riso… acesso de sentido). De algum modo, essa questão sempre estará em jogo em tudo que eu faço, seja como professor ou poeta, leitor, crítico de poesia. Às vezes essa questão precisa vir pelas laterais e evidentemente não começo toda oficina com a mesma ladainha. Porque o mais importante numa oficina não é exatamente o que eu sei ou presumo saber, é o que as pessoas que nos procuram têm o desejo de saber e os modos pelos quais iremos nos educar, reciprocamente. Estamos na terra de Paulo Freire: não há educação que não seja dialógica, nem ninguém educa sem ser educado. Em se tratando de uma oficina de poesia, isso é levado ao paroxismo, ao limite. Porque numa oficina de poesia tudo é matéria-prima e tudo já é, potencialmente, poema. Da expressão da face ao tom da voz; da cor dos olhos ao modo de andar; do vocabulário escolhido à ortografia. Uma oficina de poesia é, antes de tudo, uma oficina de olhar. Mais ainda se o aluno é cego. 

RZ: As oficinas de poesia têm algum papel importante a desempenhar em uma “vida literária”?

MRM: Uma oficina de poesia é, ou deveria ser, vida literária. E sim, as oficinas costumam ajudar a galera a se inserir nos grupos, oficiais ou não; conhecer outros escritores e escritoras, velhos, novos, bons, ruins. Às vezes a rapaziada entra numa oficina ainda com aquela visão meio sacralizadora da figura dos poetas e da tal “vida literária”. Isso, o convívio mais chão com a poesia ajuda a desmistificar. Você sabe, às vezes juntamos a galera mais nova com poetas experientes numa mesa de bar (depois das oficinas) e é divertido, é uma parte bacana do processo. Talvez seja um pouco deceptivo em determinados aspectos (vai dar pra perceber que tal poeta fala bobagem, é carente, bebe demais, peida fedido). Mas é fundamental aprender a reconhecer que uma coisa é o poeta e as suas poses; outra coisa, o poema e as suas máscaras.

RZ: E elas desempenham algum papel na sua própria vida como poeta? Quer dizer, o Marcelo oficineiro e o seu convívio com alunos, transformam o Marcelo poeta?

MRM: Quanto às oficinas, não é um trabalho fácil, nem muito simples. A gente tem que lidar com pessoas bem diferentes entre si, com expectativas diferentes, de lugares, classes, idades, formações completamente díspares. Às vezes é bom, às vezes é triste, às vezes dá vontade de sair direto pro analista, às vezes saímos todos juntos para beber e declamar poemas, mas de qualquer modo é sempre uma experiência humana interessante isso de nos reunirmos em torno da poesia. Eu faço isso sempre, mas tem gente que vem e nunca tinha feito isso antes. É um ato quase criminoso, num Estado utilitarista. Fico emocionado quando as oficinas começam e a sala está cheia, aquelas pessoas achando que o encontro pode ter força (buscando, talvez, um poema que as faça tremer, que lhes cause um “acesso”).  Claro que isso me transforma também. Muito. Em todos os sentidos.

RZ: As oficinas de poesia são também literatura, Marcelo?

Depende do entendimento sobre o que é ou pode vir a ser literatura. Eu às vezes acho que não, às vezes acho que sim. Para manter meu emprego, geralmente digo que sim. Então, a uma perguntinha malandra, arrisco uma saidinha astuta, com Cortázar, no Jogo da Amarelinha: “Tudo é escritura, ou seja, fábula. Mas para que nos serve a verdade que tranquiliza o honesto proprietário? A nossa verdade possível tem de ser invenção, ou seja, literatura, pintura, escultura, agricultura, psicultura, todas as turas deste mundo. Os valores, turas, a santidade, uma tura, a sociedade, uma tura, o amor pura tura, a beleza, tura das turas.” 

RZ: Você pode descrever como é o seu cotidiano com uma turma de oficina de poesia? O que é exatamente que vocês fazem dentro de sala? Com que tipo de poesia se defrontam, como você faz os oficinandos trabalharem? Você consegue dar uma imagem disso?

Olha, eu não quero parecer aqui mais experiente, mais profissional nem mais inteligente do que eu sou. Estou trabalhando com oficinas na UERJ há muito pouco tempo. A verdade é que eu me bato pra preparar os cursos, não acho que tenha grande facilidade, principalmente porque não sou um tipo metódico. Luto com isso, tento compensar os defeitos com a paixão pela coisa (sou do tipo que treme) e às vezes dá certo, às vezes não. Mas não existe educação sem erro, a gente com o tempo se dá conta. Em geral funciona assim: um tanto de poesia (a parte do afeto, do tesão, da comunidade), outro tanto de teoria (porque é preciso aprender a montar e desmontar qualquer máquina) e, para encerrar, uma dose de mão na massa, criação, experimentação. Quando há tempo e faz parte do plano, organizo também um exercício de crítica, que é algo temido por quem está começando. Mas é importante aprender a ouvir e a fazer críticas. Nesse caso, o método é aquele que sempre foi empregado lá na OEP: quem escreveu o poema não tem direito à fala, o poema tem que falar por si. Agora, relendo as suas perguntas, acho que saí pela tangente. Então só uma última emenda: Tenho trabalhado principalmente com poesia contemporânea, de preferência autores vivos. Recentemente bolei uma pasta pirata de poesia publicada no Brasil a partir de 2010, que está online. Privilegio agora a leitura dos vivos, mas a gente sempre acaba tendo que voltar no tempo, porque não tem como mostrar o que é sem mostrar o que foi, de onde as coisas vêm e tal. As propostas de trabalho dependem da proposta do curso e dos poetas que estamos lendo/vendo/ouvindo.

RZ: A última coisa que eu queria te perguntar é se existem limites ou aspectos negativos na prática das oficinas, coisas que oficineiros e oficinandos devem ficar de olho?

MRM: Tudo tem limite e lado ruim. Os oficineiros devem ficar de olho nos lugares em que estão se enfiando para trabalhar. Se a instituição não for séria, caia fora. Mas o mais difícil é para quem quer aprender. Tem professor picareta, dinheirista. Tem professor bonzinho, bem-intencionado e muito ruim de jogo. Tem o tipo que é tão bom mas tão bom que todo mundo sai da oficina escrevendo que nem ele, só que pior (abre o olho!). Eu recebo propostas aqui na Coart, às vezes, que me deixam perplexo. Se as oficinas cumprem um papel democrático importante, é preciso ficar atento à qualidade do trabalho. Um dos melhores que eu já vi trabalhando é você, Zacca, mas sei que tem muita gente boa, com projetos interessantes e potentes por aí. Inclusive oficinas que atendem a demandas diferentes, abordando pautas identitárias, por exemplo. Isso também acontece aqui na Coart, porque eu tento montar equipes com boa variedade de propostas, com pessoas de diferentes orientações e que atendam a públicos diferentes. Enfim, estou ansioso para ler as outras entrevistas da série. Obrigado pelas perguntas. Amo você.

* * *

Marcelo Reis de Mello é poeta, autor de Esculpir a Luz (2010), Violens (2016), Elefantes dentro de um sussurro (2017) e José mergulha para sempre na piscina azul (no prelo). Além de oficineiro, organiza e articula as oficinas de literatura na Coart/UERJ.

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tradução

Anne Boyer (1973-), por Rafael Mantovani

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Anne Boyer (nascida em 1973) é uma poeta e ensaísta dos EUA. É vencedora de alguns prêmios de poesia e atualmente leciona no Kansas City Art Institute. Entre seus livros publicados, destacam-se “Garments Against Women” (2015) e “A Handbook of Disappointed Fate” (2018). Para 2019 está previsto seu novo livro de poemas, “The Undying”, acerca de sua experiência como paciente de câncer. Sua escrita assume frequentemente a forma de ensaios poéticos e poemas em prosa ou narrativos, demonstrando pouca preocupação com a distinção de gêneros.

O primeiro dos poemas a seguir é, segundo a autora, uma interpretação livre do Encantamento 189 do Livro dos Mortos egípcio. Os Livros dos Mortos (porque havia inúmeras versões) faziam parte de rituais funerários, e eram basicamente compilações de fórmulas mágicas para proteger a pessoa defunta na perigosa jornada pelo mundo dos mortos. O Encantamento 189 especificamente pretende evitar que a pessoa seja virada de cabeça para baixo, assim invertendo o processo digestivo e fazendo-a ingerir urina e fezes.

Conheça mais em
https://www.poetryfoundation.org/poets/anne-boyer
http://www.anneboyer.com/

Rafael Mantovani

* * *

Eu não vou comer bosta

o que eu realmente odeio, eu não vou comer; o que eu odeio é bosta, e eu não vou comer bosta. Não vou consumir bosta. Não vou experimentar bosta. Não vou deixar que a bosta chegue perto dos meus dedos. Não vou relar o braço na bosta, e não vou encostar nela nem com a ponta do pé.
“Você vai viver do quê,” dizem para mim os poderosos, “se não vai comer bosta? O que você vai comer neste lugar para onde desceu?”
“Vou me fartar daquilo que sempre foi nosso.”
“Onde você vai comer essa comida, isso que você afirma que já é seu? Onde vai sequer achar um imóvel para poder comer essa comida, você que na sua outra vida não conseguia pagar nem uma quitinete no centro?” dizem para mim os poderosos.
“Vou comer embaixo da árvore das mulheres mortas, pois ali tem comida para todo mundo que precisa. Elas retomaram os campos e as florestas, lá as plantas verdes estão crescendo, e lá nós vamos viver de pão e cerveja; nesse lugar há pessoas que coordenam a si mesmas e a qualidade dos seus afetos, seus ódios e suas adorações, enquanto coordenam os movimentos e as produções de seus corpos para não precisarem comer bosta, nesse lugar há pessoas que vêm atender à porta.”
Abram para mim; que haja lugar para mim, criem um caminho para mim, para que eu possa ficar aqui como uma alma viva, no lugar onde quero estar.
Eu não serei dominada por estes inimigos. Eu odeio bosta e não vou comer bosta. Descendo para esta terra, não serei contaminada pela bosta que os poderosos querem que eu coma, a bosta que eles dizem que é inevitável. Saiam de perto de mim, todos os que querem que eu coma bosta; eu voei para o céu como uma andorinha, eu gritei como um ganso, então pousei nesta árvore no meio desta ilha no meio desta enchente. Eu voei e pousei, desci para dentro da enchente mas não me afoguei, e não vou deixar que os nossos inimigos me obriguem a comer bosta.
O que eu odeio, eu não vou comer; o que minha alma odeia é bosta, e a bosta não vai entrar no meu corpo. Não vou colocar bosta entre os lábios. Não vou comer bosta no parque empresarial nem perto do mar, num campus universitário, no canteiro de um condomínio. Não vou pegar nada das margens do seu lago. O que eu odeio é bosta, e eu não vou comer bosta. Não vou comer bosta; mesmo depois de morta, não vou descer de ponta-cabeça por causa de vocês.

I Will Not Eat Shit

what I really hate, I will not eat; what I hate is shit, and I will not eat it. I will not consume it. I will not taste it. It will not come near my fingers. I will not brush my arm against shit, and I will not touch it with my toes.
“What will you live on,” say the powerful to me, “if you won’t eat shit? What will you eat in this
place to which you have descended?”
“I will feast on what has always been ours.”
“Where will you eat this food, what you claim is already yours? where will you even find the real estate on which to eat it, who in your other life couldn’t afford half a duplex?” say the powerful to me.
“I will eat under the tree of the dead women, for there is food there for all who need it. They’ve taken back the fields and forests, there the green plants are growing, and there we will live on bread and beer; in this place, there are people who arrange themselves and the quality of their affections, their hatreds and their adorations, along with arranging the motions and productions of their bodies so they do not have to eat shit, in this place there are people to answer the door.”
Open to me; may there be room for me, make a path for me, that I can stay here as a living soul in the place that I want to be.
I will not be subdued by these enemies. I hate shit and I will not eat it. As I descend to this land, I will not be contaminated by the shit the powerful want me to eat, the shit they say is inevitable. Go away from me all who want me to eat shit; I have flown up into the heavens like a swallow, I have cackled like a goose, then I have landed on this tree in the middle of this island in the middle of this flood. I have flown up and landed, I have descended into the flood but I am not drowned, and I won’t be made to eat shit by our enemies.
What I hate, I will not eat; what my soul hates is shit, and it will not enter my body. I will not put it between my lips. I will not eat shit in the office park or near the ocean, on a college campus, on the median of a suburban street. I will not take anything from the banks of your pond. What I hate is shit, and I will not eat shit. I will not eat shit; even in death, I will not descend upside down for you.

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O que parece a cova mas não é

sempre cair num buraco, depois dizer “ok, essa não é sua cova, saia desse buraco”, sair do buraco que não é a cova, cair num buraco outra vez, dizer “ok, essa também não é sua cova, saia desse buraco”, sair desse buraco, cair em outro; às vezes cair num buraco dentro de um buraco, ou muitos buracos dentro de buracos, sair deles um depois do outro, depois cair de novo, dizer “essa não é sua cova, saia do buraco”; às vezes ser empurrada, dizer “você não pode me empurrar para dentro desse buraco, ele não é minha cova”, e sair com a cabeça erguida, depois cair de novo num buraco sem ninguém empurrar; às vezes cair num conjunto de buracos cujas estruturas são previsíveis, ideológicas e muito antigas, cair frequentemente nesse conjunto de buracos estruturais e impessoais; às vezes cair em buracos junto com outras pessoas, com outras pessoas dizer “essa não é nossa cova coletiva, saiam desse buraco”, todas juntas saírem do buraco juntas, mãos e pernas e braços e escadas humanas umas das outras para sair do buraco que não é a cova coletiva mas que só dá para sair juntas; às vezes cair por vontade própria num buraco que não é a cova porque na verdade é mais fácil do que não cair num buraco, mas depois de estar lá dentro, perceber que não é a cova, acabar saindo do buraco; às vezes cair num buraco e ficar ali definhando por dias, semanas, meses, anos, porque embora não seja a cova, mesmo assim é muito difícil sair e você sabe que depois desse buraco só tem outro e mais outro; às vezes examinar a paisagem de buracos e desejar um buraco final de alta qualidade; às vezes pensar em quem caiu em buracos que não são covas mas talvez seria melhor se fossem; às vezes contemplar com anseio demais o buraco final enquanto tenta evitar os provisórios; às vezes cair e sair obedientemente, com perfeita bravura, dizer “vejam com que maestria e espírito eu me levanto de novo do que parece a cova mas não é!”

What Resembles the Grave but Isn’t

always falling into a hole, then saying “ok, this is not your grave, get out of this hole,” getting out of the hole which is not the grave, falling into a hole again, saying “ok, this is also not your grave, get out of this hole,” getting out of that hole, falling into another one; sometimes falling into a hole within a hole, or many holes within holes, getting out of them one after the other, then falling again, saying “this is not your grave, get out ot the hole”; sometimes being pushed, saying “you can not push me into this hole, it is not my grave,” and getting out defiantly, then falling into a hole again without any pushing; sometimes falling into a set of holes whose structures are predictable, ideological, and long dug, often falling into this set of structural and impersonal holes; sometimes falling into holes with other people, with other people, saying “this is not our mass grave, get out of this hole,” all together getting out of the hole together, hands and legs and arms and human ladders of each other to get out of the hole that is not the mass grave but that will only be gotten out of together; sometimes the willful-falling into a hole which is not the grave because it is easier than not falling into a hole really, but then once in it, realizing it is not the grave, getting out of the hole eventually; sometimes falling into a hole and languishing there for days, weeks, months, years, because while not the grave very difficult, still, to climb out of and you know after this hole there’s just another and another; sometimes surveying the landscape of holes and wishing for a high quality final hole; sometimes thinking of who has fallen into holes which are not graves but might be better if they were; sometimes too ardently contemplating the final hole while trying to avoid the provisional ones; sometimes dutifully falling and getting out, with perfect fortitude, saying “look at the skill and spirit with which I rise from that which resembles the grave but isn’t!”

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