poesia, tradução

Rose Ausländer (1901-1988), por Luiz Abdala Jr.

A história de Rose Ausländer ecoa a de milhares. Nascida no multifronteirístico Império Austro Húngaro, mais precisamente na região de Bucovina (entre o que hoje é a Romênia e a Ucrânia), em uma família de origem judaica da comunidade de língua alemã e iídiche da região, a poeta logo parte para os Estados Unidos com o objetivo superar a crise financeira que viviam os seus pais. Retorna a Bucovina no final dos anos 20, devido a um adoecimento da mãe, e depara-se logo de cara com os primeiros movimentos do horror nazista. Impedida de deixar Bucovina, sobrevive à ascensão do nazismo e à Segunda Guerra Mundial escondendo-se, com a mãe, em guetos da região. Já em 1946 parte novamente para os Estados Unidos, onde se estabelece por cerca de 20 anos e corta relações com a lírica moderna alemã, deixando não só de ler a poesia contemporânea em alemão como também de escrever no idioma, passando a compor em inglês. Vivendo em Nova York, Ausländer aproxima-se de nomes importantes do modernismo norte-americano tais como: Robert Frost, William Carlos Williams, T.S Eliot, E. E. Cummings… e também trava relações com a poeta Marianne Moore, uma forte influência para Ausländer. Apenas no final dos anos 50, bastante motivada por um encontro com o conterrâneo e companheiro de juventude, Paul Celan, Ausländer volta paulatinamente a escrever em alemão. Em 1967 retorna definitivamente à Alemanha e à lírica alemã, falecendo na cidade de Düsseldorf em 1988.

A trajetória errante da poeta é um dos motivos que atravessam o seu trabalho poético. A origem judaica, a relação conflituosa com o alemão, o exílio, a vivência nos Estados Unidos são experiências que se entreveem em uma poesia que jamais nega a língua, mas sempre a coloca em desconfiança, em uma relação de deslizar constante. Partindo da discussão adorniana sobre a possibilidade de fazer poesia após Auschwitz, Ausländer parece dizer que sim, pois “as palavras me ditam: escreva-nos[1]. Escrever não é apenas um gesto necessário, mas incontrolável na medida em que o escrever escreve-se no escritor. Porém, estendendo a discussão, qual é então a possibilidade de escrever poesia em alemão após Auschwitz?  Como escrever poesia na mesma língua de uma máquina de genocídio moderno? Como escrever em sua língua materna, mas que é também a língua que tentou te matar? Aqui as relações e vínculos se tornam mais delicados e conceitos unificadores como pátria e língua materna não parecem dar conta das relações sensíveis que a poesia estabelece com a linguagem. Nesse sentido, o trabalho poético de Rose Ausländer é também um gesto de testemunho e resistência. Testemunho das complexas relações sensíveis com as noções de território e língua, da experiência histórica-subjetiva e da memória, e resistência na medida em que as próprias noções de território e língua são colocadas em desestabilidade e diferença, em que o escrever em alemão jamais deixará de ser escrever na língua do nazismo, do horror, porém pode vir a ser também outra coisa, outras coisas. Em tempos em que estratégias de manipulação do discurso estão explícitas, apontando que modos de dizer não são somente modos diferentes de falar, mas de agir, Ausländer abre uma imprescindível reflexão sobre a palavra e as relações que com ela incessantemente construímos (e também destruímos). 

Os poemas aqui selecionados são de diferentes fases da poeta, mas mantém elos em comum. Todos eles foram retirados do livro Rose Ausländer – Gedichte (Fischer Verlag, 2012), coletânea organizada por Helmut Braun e que contempla parte considerável da produção poética da autora, que no total contabiliza mais de três mil poemas escritos.


[1]Weil Wörter mir diktieren: schreib uns”, trecho do ensaio Alles kann motiv sein da autora.

Zwischenzeilwort

Viele Gedichte gefunden
aber
Ich suche das Wort
Zwischenzeilwort
im bunten Buchstabentanz
Konsonanten Vokale
Vokabeln ich taste
die Weite und Tiefe
der Wörter
suche erfinden
das verstohlene
Wort

Palavra entre-linha

Muitos poemas encontraram
porém
Eu busco pela palavra
A palavra entre-linha
Na alegre roda da letra
Consoantes vogais
Verbetes tateio
a amplidão e o abismo
das palavras
procuro atinar
a furtiva
palavra

§

Mutterland

Mein Vaterland ist tot
sie haben es begraben
im Feuer

Ich lebe
in meinem Mutterland
Wort

Mátria

Minha pátria morreu
a enterraram
no fogo

Eu vivo
na minha mátria
Palavra

§

Ich vergesse nicht

Ich vergesse nicht

das Elternhaus
die Mutterstimme
den ersten Kuß
die Berge der Bukowina
die Flucht im ersten Weltkrieg
das Darben in Wien
die Bomben im zweiten Weltkrieg
den Einmarsch der Nazis
das Angstbeben im keller
den Arzt der unser Leben rettete
das bittersüße Amerika

Hölderlin Trakl Celan

meine Schreibqual
den Schreibzwang
noch immer

Eu não me esqueço

Eu não me esqueço

da casa dos pais
da voz da mãe
do primeiro beijo
dos montes de Bucovina
da fuga na primeira guerra
da penúria em Viena
das bombas na segunda guerra
da marcha nazista
do tremor no porão
do médico que salvou nossa vida
da agridoce América

Hölderlin Trakl Celan

minha aflição em escrever
a obsessão em escrever
de novo e de novo

§

Wer bin ich

Wenn ich verzweifelt bin
schreib ich Gedichte

Bin ich fröhlich
schreiben sich die Gedichte
in mich

Wer bin ich
wenn ich nicht
schreibe

Quem sou eu

Em desespero,
eu escrevo poemas

Quando contente,
os poemas se escrevem
em mim

Quem sou eu
Quando não
escrevo

§

Sätze

 Kristalle
unregelmäßig
kompakt und durchsichtig
hinter ihnen die Dinge
erkennbar

Diese Sucht
nach bindenden Worten
Satz an Satz
weiterzugreifen
in die bekannte
unbegreifliche
Welt

Frases

Cristais
irregulares
compactos e transparentes
detrás de si as coisas
reconhecíveis

Essa busca
pelas palavras atadas
frase na frase
apalpando apalpando
no conhecido
impalpável
mundo

§

Spiel

Treibst dein Spiel mit mir
Sprache
schon spielst du mir manchmal
mit

Spiel mit mit
ich bin alt
nicht älter als du
Traumwort

Finger
   Augen
       Worte
unendlicher Spielraum

Spiel mit mir
ich bin jung
nicht jünger als du
Traumwort

Wer spielt uns auf
wenn ich mit dir
mein Spiel treibe

du mich verspielst
an die Nacht

Jogo

Língua
conduza seu jogo comigo
às vezes você joga seu jogo
comigo

Jogue comigo
sou velha
não mais velha do que você
Verbonírico

Dedos
     Olhos
           Palavras
infinito jogo de dados

Jogue comigo
sou jovem
não mais jovem do que você
Verbonírico

Quem nos toca
quando eu jogo
meu jogo contigo

você me joga
para a noite

§

Was du nicht weißt

Als wüßtest du
woher

Als wüßten Wasser Sterne Luft

Was du nicht weißt
erschafft
dein Wort

unwissend
sicher

O que você não sabe

Como se você soubesse
da onde

Como se soubessem água estrelas ar

O que você não sabe
cria
sua palavra

desconhecida
segura

§

Mein Gedicht

Mein Gedicht
ich atme dich
ein und aus

Die Erde armet
dich und mich
aus und ein

Aus ihrem Atem geboren
mein Gedicht

Meu poema

Meu poema
te respiro
inspiro e expiro

A terra respira
eu e você
expira e inspira

Do seu respiro nasce
meu poema

§

Nicht vergessen I

Heute
hat ein Gedicht
mich wieder erschaffen

Ich freute mich
am Leben
bewunderte die Landschaft
vor meinem Fenster

Ich vergaß
das Gedicht zu schreiben
vergaß es

Es hat mich
nicht vergessen
kam zurück zu mir
und schrieb sich
in meine Worte

Não esquecer I

Hoje
um poema
novamente me criou

Me alegrei
com a vida
admirando a paisagem
da minha janela

Eu esqueci
de escrever o poema
esqueci

Ele não
esqueceu
veio logo até a mim
e se escreveu
nas minhas palavras

§

Mutter Sprache

Ich habe mich
in mich verwandelt
von Augenblick zu Augenblick

in Stücke zersplittert
auf dem Wortweg

Mutter Sprache
setzt mich zusammen

Menschmosaik

Língua mãe

De momento em momento
eu me transformei
em mim mesma

Estilhaçada em pedaços
no palavrandar

Língua mãe
me reconstrua

 Mosaico-humano

§

Miteinander

für Marie Luise Kaschnitz

Du
und der Kirschbaum
und die rasende Straße
und der Ozean
und der Blitz

Du
und deine Angst
und dein Zorn
und dein Aberglaube
und dein Glaube
             “Let My People Go”

Du
und der Stern
und das Wort Stern
und das Hauptwort
un das Nebenwort

und das Nebeneinander
und das Miteinander
und
   du

Convivência

para Marie Luise Kaschnitz

Você
e a cerejeira
e a rua rápida
e o oceano
e o relâmpago

Você
e o seu medo
e sua cólera
e sua superstição
e sua crença
     “Let My People Go”

Você
e a estrela
e a palavra estrela
e a palavra principal
e a palavra auxiliar

e a coexistência
e a convivência
e
     você

Padrão
tradução

Arquíloco de Paros (fr. 128 West), por Matheus Mavericco

archilochus1A poesia antiga nos encanta com quitutes tais como as peripécias homéricas ou os fragmentos de Safo, mas, se querem saber, nem sempre é fácil degustá-los da maneira devida. Precisamos despir praticamente toda a nossa indumentária conceitual antes de perambularmos pelas veredas da Hélade. O que hoje, por exemplo, nos apetece encontrar em poemas líricos, toda aquela de paz de espírito em saber que para além das fronteiras geográficas existem homens e mulheres que também padecem de um amor não correspondido, se num primeiro momento parece ser encontrável em restolhos poéticos antigos, numa análise mais detida revela-se como um verdadeiro baile de máscaras e personas regido pelo compasso do que a tradição e as convenções retóricas do tempo ditavam.

Com Arquíloco a armadilha permanece. Não são poucos os estudiosos que louvam em sua figura uma individualidade muito próxima da nossa, uma coisa pelo jeito mais aberta e franca do que a literatura grega até então tinha pra mostrar. Se a primeira impressão causada por sua poesia pode e deve ser debatida e contestada até que sintonizemos nossas antenas na frequência dos gregos, por outro lado, de maneira análoga ao que sentimos quando lemos o nosso árcade Tomás Antônio Gonzaga, no qual, como notou o Antonio Candido num texto certeiro sobre sua poesia, conseguimos ver, por trás de todas as convenções e lugares-comuns que acinzelavam a poesia do período, uma coisa mais palpável, mais direta, a figura de Marília recostada na janela e cruzando olhares ao acaso com os do poeta; de maneira análoga, eu diria, ao que parecemos sentir quando lemos o nosso Gonzaga, eu penso que podemos sentir lendo Arquíloco, este soldado nascido em Paros que conseguia mesclar o cotidiano militar a requintes de sensibilidade no mínimo desconcertantes. Vejam o caso de seu fragmento 13 W, de tonalidade muito próxima do 128 W, para o qual tomo a liberdade de fornecer ao leitor duas traduções:

fr. 13 W
κήδεα μὲν στονόεντα, Περίκλεες, οὔτε τις ἀστῶν
μεμφόμενος θαλίῃς τέρψεται οὐδὲ πόλις·
τοίους γὰρ κατὰ κῦμα πολυφλοίσβοιο θαλάσσης
ἔκλυσεν, οἰδαλέους δ᾿ ἀμφ᾿ ὀδύνῃς ἔχομεν
πνεύμονας. ἀλλὰ θεοὶ γὰρ ἀνηκέστοισι κακοῖσιν,
ὦ φίλ᾿, ἐπὶ κρατερὴν τλημοσύνην ἔθεσαν
φάρμακον. ἄλλοτε ἄλλος ἔχει τόδε· νῦν μὲν ἐς ἡμέας
ἐτράπεθ᾿, αἱματόεν δ᾿ ἕλκος ἀναστένομεν,
ἐξαῦτις δ᾿ ἑτέρους ἐπαμείψεται. ἀλλὰ τάχιστα
τλῆτε, γυναικεῖον πένθος ἀπωσάμενοι.

Hoje aos festins não vai folgar, ó Péricles,
Nem a cidade ou cidadão: prantos sem fim
Vertemos pelos náufragos que o cavo pélago
Tragou, e inchados os pulmões temos de dor.
Mas por consolo os deuses põem um fim ao mal
Que agora impõem a nós, depois aos outros.
Vai amanhã sentir alguém o mal que agora sentes,
Abandonemos fêmeo pranto, olhando em frente.

(trad. Antonio Medina Rodrigues)

Nosso pranto, Péricles, não será malvisto,
pois nas festas ninguém terá prazer:
bravos homens a onda do mar polissonante
levou, e a dor inflou-nos os pulmões.
Mas os deuses, meu amigo, aos males sem cura
deram por remédio a firme paciência.
O mal vem ora a uns, ora a outros: a nós
voltou-se, e a sangrenta chaga choramos;
mas logo cairá noutra parte. Vamos, deixe
o feminino choro e seja forte.

(trad. Marcelo Tápia)

O leitor encontrará uma reflexão ótima sobre a poesia de Arquíloco lendo o ensaio que o Guilherme dedicou ao poeta, publicado ano passado pela Zazie (clique aqui), no qual o ensaísta se vê diante do incômodo ético de traduzir, dentre outros, um fragmento recém-descoberto de Arquíloco que narra um estupro. No fragmento que trago abaixo pra vocês, de uma beleza e sabedoria aptas a serem destiladas em palestras motivacionais, existe uma construção curiosa que faz de um poema armado até os dentes de espírito bélico em uma conclamação suave dirigida ao coração, essa parte do corpo que corriqueiramente nos coloca para fora do prumo e que, para Arquíloco, é o nosso guerreirinho (<3).

Agradeço a Rafael Brunhara por, além de gentilmente ter transcrito as traduções de Aluízio Coimbra e Paula Corrêa (esta última dona, ao que me consta, de um finíssimo ensaio sobre Arquíloco), ceder sua primeira versão para o fragmento.

ARQUÍLOCO, fr. 128 West

θυμέ, θύμ’, ἀμηχάνοισι κήδεσιν κυκώμενε,
†ἀναδευ δυσμενῶν† δ’ ἀλέξεο προσβαλὼν ἐναντίον
στέρνον †ἐνδοκοισιν ἐχθρῶν πλησίον κατασταθεὶς
ἀσφαλέως· καὶ μήτε νικέων ἀμφάδην ἀγάλλεο,
μηδὲ νικηθεὶς ἐν οἴκωι καταπεσὼν ὀδύρεο,
ἀλλὰ χαρτοῖσίν τε χαῖρε καὶ κακοῖσιν ἀσχάλα
μὴ λίην, γίνωσκε δ’ οἷος ῥυσμὸς ἀνθρώπους ἔχει.

*

trad. Aluízio Coimbra [1941]

Coração, que insanáveis males cercam,
teus inimigos, peito a peito, enfrenta,
de perto e firme contra os seus embustes.
Vencedor, não blasones; nem, vencido,
no lar te prostres; mas desfruta, alegre,
o que é bom, sem que as penas te consumam,
e aprende que tal é da vida o ritmo.

*

trad. José Cavalcante de Souza [1978]
Coração, coração de imediatos nojos agitado,
levanta, às aflições resiste lançado em contrário
peito, a embustes de inimigos de perto contraposto
cim firmeza; e nem vencendo abertamente exultes
nem derrotado em casa abatido te lamentes,
mas com alegrias te alegra e com reveses te aflige
sem excesso; e conhece qual ritmo regra os homens.

*

trad. Paula Corrêa [1998 e 2009]

Coração, coração, por inelutáveis males conturbado,
ergue-te e, sendo hostil, defende-te lançando um peito
adverso, perto de inimigos emboscados permanecendo
firme, nem vencendo, abertamente exultes,
ou vencido, em casa caído lamentes,
mas com alegrias alegra-te e os males lastima
sem excesso, pois reconhece qual ritmo regra os homens.

*

trad. Maria Helena da Rocha Pereira [2003]
Coração, meu coração, que afligem penas sem remédio,
eia! Afasta os inimigos, opondo-lhes um peito
adverso. Mantém-te firme ao pé das ciladas
dos contrários. Se venceres, não exultes abertamente.
Vencido, não te deites em casa a gemer.
Mas goza as alegrias, dói-te com as desgraças,
sem exagero. Aprende a conhecer o ritmo que governa os homens.

*

trad. Carlos A. Martins de Jesus [2008]

Coração, ó coração, por males sem remédio derrubado,
ergue-te! Defende-te dos inimigos, opondo-lhes um peito
adverso, firme suportando as ciladas dos que te são hostis!
Se venceres, em demasia não rejubiles,
nem, vencido, em casa te deites em pranto.
Alegra-te antes com as alegrias, dói-te com as tristezas,
sem exagero. Aprende bem o ritmo que domina os homens.

*

trad. Rafael Brunhara [2008; 1ª versão]
Ânimo, ânimo, convulso por aflições sem cura,
Levanta, protege-te dos inimigos volvendo adverso
peito em infensas traições próximo postado
firme; E vencendo não exultes abertamente
nem vencido em casa caído lamentes,
Mas com alegrias alegra-te e deplora males
Sem excesso: conhece qual ritmo rege os homens.

*

trad. Glória Onelley e Shirley Peçanha [2013]

Coração, coração, perturbado por dores irremediáveis, levanta com coragem,
defende-te, lançando teu peito contra os inimigos,
colocando-te firmemente perto deles em emboscada!
Se venceres, não te enalteças publicamente,
nem, se vencido, te lamentes, deixando-te abater em casa.
Vamos, alegra-te com os prazeres e não te irrites em demasia com as infelicidades!
Reconhece que tal ritmo governa os homens.

*

trad. Leonardo Antunes [2014]
Alma minha, perturbada por tristezas incuráveis,
Põe-te em pé, defende-te dos que se lançam contra ti;
Peito firme frente as emboscadas dos teus inimigos.
Na vitória, não exultes em triunfo abertamente,
Nem te deixes abater em casa, sendo derrotada;
Mas alegra-te nas alegrias e lamenta os males
Sem excesso, conhecendo o ritmo que rege os homens.

Gravação: https://www.youtube.com/watch?v=cqqfGzvwVks

*

trad. Trajano Vieira [2017]

Coração, coração, turbado pela dor
incontornável, reage! Arroja o peito contra
o inimigo: estático, na expectativa
do ataque. Se venceres, nada de exultar
aos quatro ventos. Nada de gemer em casa,
se perdes. Goza do que apraz, modera a dor
no revés! Sabe o ritmo que domina os vivos!

*

trad. Guilherme Gontijo Flores [2018]
Peito, peito, combalido de imbatíveis aflições,
anda, avança, enfrenta frente a frente a força hostil e traz
todo o seio contra a horrenda multidão feroz de ardis,
firme, força! E não exultes caso acabes por vencer,
nem vencido vás tombar gemendo no teu próprio lar,
mas em teus deleites goza e em teus revezes chora, sim,
sem excessos, saibas: cada ritmo age em cada ser.

*

trad. Rafael Brunhara [2019; 2ª versão]

Coração, coração, por lutos inelutáveis agitado,
levanta, protege-te dos oponentes, volvendo adverso
peito, nas emboscadas inimigas próximo postado
firme; e vencendo, não exultes abertamente,
nem vencido, em casa caído lamentes,
mas com alegrias alegra-te e deplora males,
sem excesso: aprende que ritmo rege a humanidade.

Padrão
poesia, tradução

Mary Oliver, por Yuri Amaury

Mary Oliver foi uma poeta norte-americana nascida em Maple Highs, Ohio. Apesar de ter tido uma infância conturbada no seio de uma família disfuncional (negligenciada pela mãe, abusada pelo pai, vítima de pesadelos recorrentes), Oliver guardou boas lembranças da vizinhança semi-rural da zona suburbana de Cleveland, onde adquiriu desde cedo o hábito de perambular pelos bosques (geralmente, com um volume de poesia na mochila). Publicou seu primeiro livro de poemas, No Voyage and other poems, em 1963, um ano antes de mudar-se para a cidade costeira de Provincetown, Massachusetts, com a fotógrafa Molly Malone Cook, que conhecera no final dos anos 50 e que permaneceu sua companheira até sua morte em 2005. Nos últimos anos de sua vida, Oliver mudou-se para a Flórida, onde veio a morrer em decorrência de um linfoma em 17 de janeiro de 2019.

Em sua extensa obra poética, transparece a influência de Ralph Waldo Emerson, Henry David Thoreau e Walt Whitman – principalmente devido à presença da natureza como tema privilegiado. Largamente baseados em lembranças da infância e reflexões sobre o tempo e a paisagem natural observada em suas caminhadas diárias, os poemas de Oliver não podem, no entanto, ser acusados de ingenuidade romântica (como fizeram alguns críticos): as observações imagéticas e os raciocínios pontuados em seus versos se encaixam na tradição do Transcendentalismo, apresentando-se como uma espécie de desdobramento contemporâneo dos impulsos poéticos de Emerson. Alguns críticos detratores de Oliver denunciam o caráter inofensivo e auto-ajuda de determinados poemas de sua obra (por exemplo, Wild Geese – provavelmente, o mais célebre da poeta); o conjunto de sua poesia, porém – como os poemas abaixo bem mostram -, revela uma sensibilidade madura e um olhar atento e profundo, expressos em uma linguagem simples e direta.

Yuri Amaury é licenciado em Letras Português-Inglês pela UTFPR e mestrando em Estudos Literários pela UFPR.

* * *

At Black River

All day
   its dark, slick bronze soaks
     in a mossy place,
         its teeth,

a multitude
   set
     for the comedy
         that never comes –

its tail
   knobbed and shiny,
     and with a heavy-weight’s punch
         packed around the bone.

In beautiful Florida
   he is king
     of his own part
         of the black river,

and from his nap
   he will wake
     into the warm darkness
         to boom, and thrust forward,

paralyzing
   the swift, thin-waisted fish,
     or the bird
         in its frilled, white gown

that has dipped down
   from the heaven of leaves
     one last time,
         to drink.

Don’t think
   I’m not afraid.
     There is such an unleashing
         of horror.

Then I remember:
   death comes before
     the rolling away
         of the stone.

No Rio Negro

Todo o dia
   seu bronze escuro e liso se banha
     num lugar musgoso,
         seus dentes,

multidão
   a postos
     pra comédia
         que nunca vem –

sua cauda
   nodosa e brilhante,
     e com um soco de peso-pesado
         guardado em volta do osso.

Na beleza da Flórida
   ele é rei
     da sua própria parte
         do rio negro,

e da sua sesta
   ele vai acordar
     no morno da escuridão
         pra troar, e arremeter adiante,

paralisando
   o peixe ágil, de cintura fina,
     ou a ave
         de robe branco rufado

que mergulhou
   de um céu de folhas
     uma última vez,
         pra beber.

Não ache
   que não tenho medo.
     Tamanha é a liberação
         de horror.

Aí eu lembro:
   a morte vem antes
     de rolar pra longe
         a pedra.

§

Breakage

I go down to the edge of the sea.
How everything shines in the morning light!
The cusp of the whelk,
the broken cupboard of the clam,
the opened, blue mussels,
moon snails, pale pink and barnacle scarred—
and nothing at all whole or shut, but tattered, split,
dropped by the gulls onto the gray rocks and all the moisture gone.
It’s like a schoolhouse
of little words,
thousands of words.
First you figure out what each one means by itself,
the jingle, the periwinkle, the scallop
       full of moonlight.

Then you begin, slowly, to read the whole story.

Rebentação

Eu desço até a beira do mar.
Tudo brilha tanto na luz da manhã!
A ponta do búzio,
o armarinho quebrado da amêijoa,
os mexilhões abertos, azuis,
litorinas, rosa-pálidas e riscadas de craca –
e nada disso inteiro ou fechado, mas em frangalhos, fendido,
largado pelas gaivotas sobre as rochas cinzas e toda umidade                                                                                              [perdida.
É como uma escola
de pequenas palavras,
milhares de palavras.
Primeiro você descobre o significado de cada uma em si,
o tatuí, a pervinca, a vieira
repleta de luar.

Aí você começa, lentamente, a ler a história inteira.

§

Beside the waterfall

At dawn
   the big dog –
     Winston by name –
         reached down

into the leaves – tulips and willows mostly –
   beside the white
     waterfall,
         and dragged out,

into plain sight,
   a fawn;
     it was scarcely larger
         than a rabbit

and, thankfully,
   it was dead.
     Winston
         looked over the

delicate, spotted body and then
   deftly
     tackled
         the beautiful flower-like head,

breaking it and
   breaking it off and
     swallowing it.
         All the while this was happening

it was growing lighter.
   When I called to him
     Winston merely looked up.
         Grizzled around the chin

and with kind eyes,
   he, too, if you’re willing,
     had a face
         like a flower; and then the red sun,

which had been rising all the while anyway,
   broke
     clear of the trees and dropped its wild, clawed light
         over everything.

Do lado da cachoeira

Ao amanhecer
   o grande cão –
     de nome Winston –
         se abaixou

entre as folhas – tulipas e salgueiros, na maioria –
   do lado da cachoeira
     branca,
         e arrastou pra fora,

à luz do dia,
   uma corça;
     era pouco maior
         que um coelho

e felizmente,
   estava morta.
     Winston
         examinou o

delicado corpo pintado e aí
   com perícia
     atacou
         a bela cabeça, que lembrava uma flor,

partindo-a e
   arrancando-a e
     engolindo-a.
         Enquanto isso estava acontecendo

estava ficando mais claro.
   Quando eu o chamei
     Winston só ergueu o olhar.
         Grisalho perto do queixo

e com olhos gentis,
   ele também, pensando bem,
     tinha uma cara
         como flor; e aí o sol, rubro,

que continuou nascendo enquanto isso,
   se
     desprendeu das árvores e derrubou sua luz selvagem,
                                                                                     [dentada
         sobre toda coisa.

§

Fall

the black oaks
fling their bronze fruit
into all the pockets of the earth
            pock pock

they knock against the thresholds
the roof the sidewalk
fill the eaves
            the bottom line

of the old gold song
of the almost finished year
what is spring all that tender
            green stuff

compared to this
falling of tiny oak trees
out of the oak trees
            then the clouds

gathering thick along the west
then advancing
then closing over
            breaking open

the silence
then the rain
dashing its silver seeds
            against the house

Outono

os carvalhos pretos
lançam frutos brônzeos
pra dentro de todos os bolsos da terra
            poc poc

eles se chocam com os umbrais
com o teto a calçada
enchem as calhas
            o fechamento

da velha canção dourada
do ano quase terminado
o que é a primavera toda aquela tenra
            coisa verde

comparada com esse
cair de pequenos carvalhos
de cima dos carvalhos
            aí as nuvens

acumulando-se grossas no oeste
aí avançando
aí fechando em volta
            rompendo ao meio

o silêncio
aí a chuva
atirando sementes de prata
            contra a casa

§

Death at a great distance

The ripe, floating caps
   of the fly amanita
     glow in the pinewoods.
         I don’t even think
           of the eventual corruption of my body,

but of how quaint and humorous they are,
   like a collection of doorknobs,
     half-moons,
         then a yellow drizzle of flying saucers.
           In any case

they won’t hurt me unless
   I take them between my lips
     and swallow, which I know enough
         not to do. Once, in the south,
           I had this happen:

the soft rope of a water moccasin
   slid down the red knees
     of a mangrove, the hundreds of ribs
         housed in their smooth, white
           sleeves of muscle moving it

like a happiness
   toward the water, where some bubbles
     on the surface of that underworld announced
         a fatal carelessness. I didn’t
           even then move toward the fine point

of the story, but stood in my lonely body
   amazed and full of attention as it fell
     like a stream of glowing syrup into
         the dark water, as death
           blurted out of that perfectly arranged mouth.

Morte em grande distância

Os flutuantes gorros maduros
   do agário-das-moscas
     fosforescem nos pinhais.
         Eu nem chego a pensar
           no eventual apodrecimento do meu corpo,

mas no quanto eles são cômicos e esquisitos,
   como uma coleção de maçanetas,
     meias-luas,
         aí um chuvisco amarelo de discos voadores.
           Em todo caso

eles não vão me fazer mal a não ser
   que eu os pegue entre os lábios
     e engula, o que eu sei bem que
         não devo fazer. Uma vez, no sul,
           foi acontecer comigo:

o cordão macio duma cobra-d’água
   desceu deslizando pelos joelhos rubros
     dum mangue, as centenas de costelas
         alojadas nas suas lisas capas
           brancas de músculo movendo-as

como uma felicidade
   em direção à água, onde umas bolhas
     na superfície daquele submundo anunciavam
         um descuido fatal. Eu não
           fui nem nessa hora até o ponto alto

da história, mas fiquei com meu corpo solitário
   maravilhada e cheia de atenção enquanto ela caía
     como um riacho de melado brilhante
         na água escura, enquanto morte
           escapava por aquela boca perfeitamente arrumada.

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poesia

Vinícius Mahier (1994—)

Vinícius Mahier nasceu em Campo Belo, Minas Gerais, em novembro de 1994. É mestrando em Letras pela Universidade Federal de São João del-Rei. Publica seus poemas no blog ridiculus sum.

ULTRASSONOGRAFIA

que você trepe comigo como se eu fosse uma mulher
eu não sou uma mulher como se eu fosse ou fosse
uma mulher que você ama como se fosse uma mulher
que você nunca como se eu fosse uma buceta inteira
dentro deste esperma como se eu fosse o teu olhar
inteiro seminal prostático como se eu fosse a tua boca
inteira dentro desta língua como se eu fosse eu a tua língua
inteira como se eu fosse uma mulher ou duas
ou duas metades serradas ao meio
como se eu fosse uma mulher de quatro
como se eu fosse uma mulher de pé
uma mulher sintaxe lexical dos teus joelhos
à garganta no teu cu nos teus buracos
como se eu fosse essa mulher imprópria essa mulher
que cresce você é essa mulher que cresce como se eu fosse
uma mulher do mundo no fundo do fundo da falta
de nome do teu específico fosso o que fosse
fundo fundo vasto fundo se eu me chamasse vinícius
eu seria mulher não seria você fosse eu que fosso
tua virilha é alta como uma torre a minha torre
uma buceta russa dentro da tua virilha que você
me coma como se eu fosse uma mulher que você
me chupe como se eu fosse uma mulher que você
menstrue como se eu fosse uma mulher que você
me dá como se eu fosse uma mulher que dá falando-se
da fêmea vivípara quando expele do útero o ser que gerou
que você trepe comigo como se eu fosse essa mulher
não outra não essa como se eu fosse eu fosse
uma mulher que você não ama como se eu fosse
uma mulher que você enxerga como se eu fosse
uma mulher que você tateia como se eu fosse
uma mulher que você liquida como se eu fosse
uma mulher que eu nunca fui a não ser na última quarta
quando eu te disse eu te amo longe da minha boca
que você me quebra como se eu fosse o osso a cadela
que você não larga o tutano que você não vaza cria
como se eu fosse a tua imagem e semelhança
afastada exilada arrancada amputada adorada de mim
no membro que eu já perdi a dor do membro fantasma
como se eu dissesse que ela mesma iria comprar as flores
ao invés de ganir diante do nada e eu fodo contigo
como se eu fosse a mulher que você devora homens como ar
como se eu fosse outra corpo a corpo comigo mesma
como se eu fosse quase imaginária concreta ereta indivisível
e eu tivesse acordado com coceira no hímen
como se eu fosse a esfinge a teus pés mutáveis
a autobiografia de todo mundo em uma única manhã
como se eu fosse a jocasta do nosso incesto deliberado
como se eu fosse a antígona do que se ergue a céu aberto
como se eu fosse a medeia do que permito vivo
como se eu fosse a lisístrata na tua guerra do peloponeso
como se eu fosse a mulher da mulher de lot
como se eu fosse a virgem do teu cristo redentor
braços abertos sobre a guanabara como se eu fosse
o rio o terceiro rio na tua margem de erros
como se eu fosse nascer como se eu fosse mulher
como se eu fosse um homem.

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poesia, tradução

“A traição da moendeira”, de Goethe, por Mauricio Mendonça Cardozo

Este poema, também conhecido como “A traição da moleira” [Der Müllerin Verrat], é parte do conto “La folle en pèlerinage“, publicado anonimamente em 1789 nos Cahiers de lecture, revista alemã que veiculava apenas textos em língua francesa. Sua autoria até hoje permanece desconhecida. Tomando algumas liberdades poéticas, Goethe traduz para o alemão o conto e o poema, inserindo o conjunto, sob o título de “A disparatada peregrina” [Die pilgernde Törin], no quinto capítulo do primeiro livro de sua obra Os anos de peregrinação de Wilhelm Meister (1821-1829). Nesse contexto, Goethe não atribui ao poema um título próprio.

Segundo anota uma das edições críticas da obra de Goethe (Hamburger AusgabeRomane und Novellen III, volume 8, p.569), o autor alemão não traduz a novela a partir da versão publicada em 1789, mas, sim, a partir de uma cópia manuscrita, com pequenas variações, até hoje disponível no Goethe- und Schiller-Archiv, em Weimar. Uma versão dita mais “literal”, traduzida para o alemão por seu secretário Riemer, pode também ter servido de base para a versão final de Goethe.

Seguindo a tradição das baladas populares e dos dramas musicais, o poema, em alemão, é uma canção formada por 10 oitavas, em tetrâmetros (octossilábicos) de pés jâmbicos. As estrofes, o padrão rímico e a predominância estrutural de células jâmbicas são reproduzidos nesta versão em português, que, no entanto, acomoda essa romança burlesca em versos dodecassílabos.

Mauricio Mendonça Cardozo (Curitiba, 1971) é professor de teoria da tradução e tradução literária na Universidade Federal do Paraná, em Curitiba (Brasil). É tradutor de autores como E. E. Cummings, Rainer Maria Rilke, Paul Celan, Heinrich Heine, Theodor Storm, entre outros, com destaque à tradução da autobiografia Poesia e Verdade, de Goethe, contemplada com o Prêmio Paulo Rónai de Tradução, em 2018. É autor do livro de poemas quarentaequatro (Circuito, 2016).

* * *

A traição da moendeira

D’onde ele vem com seu mantô e tão ligeiro,
Nem bem o dia alvoreceu no oriente?
Será que o vento frio o fez de passageiro
E edificou o nosso amigo penitente?
Quem foi, me digam: quem roubou o seu chapéu?
Será que anda a pés descalços por que gosta?
Por que caminhos, revirando terra e céu,
Chegou à mata regelada da alta encosta?

Estranhamente abandonou o seu chatô,
Onde ele sempre diversão pôde encontrar,
E se ele não tivesse em mãos o seu mantô,
Mas que vergonha que ele então iria passar!
Pois foi assim que alguém, pregando-lhe uma peça,
Pegou-lhe a roupa, pegou trouxa, pegou tudo:
O pobre amigo desvestido até a cabeça,
Por pouco não virou um Adão de tão desnudo.

Por que arriscar-se pela vida tão faceiro
Por uma fruta, fruto ensejo do dessiso,
Que de tão bela, no quintal do moendeiro,
Iguala àquela nos jardins do paraíso?
Não vai fazer mais uma destas outra vez;
Saiu correndo, ali não volta mais tão cedo!
Na noite fria, remoendo o seu revés,
Vai lamentando amargamente o desenredo:

– Não pude ler em seu olhar de fogo ardente
Uma só sílaba que fosse de traição!
Quando comigo, parecia tão contente,
Mas já tramava o negro intento de sua ação.
Pod’ria eu já ter sonhado nos seus braços
Quão traiçoeiro o coração dela batia?
Até o Cupido ela mandou deter o passo,
Que, demorando-se, brindou-nos com alegria.

– Aproveitou-se da paixão que me inebriava,
E aquela noite se estendeu sem mais ter fim,
Mas de manhã, raiando o dia, toda brava,
Saiu gritando por sua mãe, sem dó de mim!
Aí surgiu de uma só vez a parentada.
Foi tanta gente, mal cabiam num só quarto!
E veio irmão, irmã e a tia adoentada,
E veio primo, prima e um tio já tendo infarto!

– A gritaria furibunda estava feita!
Cada parente virou um bicho diferente.
“Flor e grinalda, só assim é que se ajeita!”,
É o que exigia ali de mim toda essa gente.
“Mas o que é isso? Vocês todos estão loucos?
Por que a pressão sobre esse moço tão ingênuo?
Não é nada fácil conquistar esses tesouros,
Isso demanda certo tato e algum engenho.

Saibam vocês que se o Cupido faz seus jogos,
Ele só joga quando chega o tempo certo:
Se no moinho a floração começa logo,
O fim dos anos em botão já está bem perto” –.
Roubaram então a trouxa e as roupas do rapaz
E até o mantô já estavam prestes a pegar.
Como é que toda aquela gente tão falaz
Foi se encovar numa casinha tão vulgar.

– Pois eu saltei e disparei trovões e raios,
Abri passagem pela turba alvoroçada;
E ainda pude olhar p’ra ela de soslaio,
Mas, ai de mim, como era bela a desgraçada!
O povo todo se rendeu à minha ira,
Mas sem deixar de desfiar o xingatório;
Dizendo coisas que é melhor que eu não refira,
Eu finalmente me livrei daquela escória.

– Dessas mocinhas do interior e da cidade,
Eu delas fujo como um gato rescaldado!
Que tal deixarem às damas d’alta sociedade
Esse prazer de desvestir os seus criados!?
Mas se vocês também são hábeis nessas artes
E não se atêm às sempiternas ligações,
Ao menos lembrem de variar o seu comparte,
E não me venham com essas suas delações –.

Cantava assim na noite fria o tremebundo,
Nem um só ramo em pleno inverno enverdecia.
Mas eu me rio de suas mágoas mais profundas,
Já que no fundo elas são mais que merecidas;
É o que acontece a qualquer um que, à luz do dia,
Engana a amada que o acompanha a vida inteira,
E à noite sem temer Cupido, em quem se fia,
Vai rastejando para os braços da moendeira.

Der Müllerin Verrat

Woher im Mantel so geschwinde,
Da kaum der Tag in Osten graut?
Hat wohl der Freund beim scharfen Winde
Auf einer Wallfahrt sich erbaut?
Wer hat ihm seinen Hut genommen?
Mag er mit Willen barfuß gehn?
Wie ist er in den Wald gekommen
Auf den beschneiten, wilden Höhn?

Gar wunderlich von warmer Stätte,
Wo er sich bessern Spaß versprach,
Und wenn er nicht den Mantel hätte,
Wie gräßlich wäre seine Schmach!
So hat ihn jener Schalk betrogen
Und ihm das Bündel abgepackt:
Der arme Freund ist ausgezogen,
Beinah wie Adam bloß und nackt.

Warum auch ging er solche Wege
Nach jenem Apfel voll Gefahr,
Der freilich schön im Mühlgehege
Wie sonst im Paradiese war!
Er wird den Scherz nicht leicht erneuen;
Er drückte schnell sich aus dem Haus,
Und bricht auf einmal nun im Freien
In bittre, laute Klagen aus:

»Ich las in ihren Feuerblicken
Doch keine Silbe von Verrat!
Sie schien mit mir sich zu entzücken
Und sann auf solche schwarze Tat!
Konnt ich in ihren Armen träumen,
Wie meuchlerisch der Busen schlug?
Sie hieß den raschen Amor säumen,
Und günstig war er uns genug.

Sich meiner Liebe zu erfreuen,
Der Nacht, die nie ein Ende nahm,
Und erst die Mutter anzuschreien
Jetzt eben, als der Morgen kam!
Da drang ein Dutzend Anverwandten
Herein, ein wahrer Menschenstrom!
Da kamen Brüder, guckten Tanten,
Da stand ein Vetter und ein Ohm!

Das war ein Toben, war ein Wüten!
Ein jeder schien ein andres Tier.
Da forderten sie Kranz und Blüten
Mit gräßlichem Geschrei von mir.
›Was dringt ihr alle wie von Sinnen
Auf den unschuld’gen Jüngling ein!
Denn solche Schätze zu gewinnen,
Da muß man viel behender sein.

Weiß Amor seinem schönen Spiele
Doch immer zeitig nachzugehn:
Er läßt fürwahr nicht in der Mühle
Die Blumen sechzehn Jahre stehn.‹ –
Da raubten sie das Kleiderbündel
Und wollten auch den Mantel noch.
Wie nur so viel verflucht Gesindel
Im engen Hause sich verkroch!

Da sprang ich auf und tobt’ und fluchte,
Gewiß, durch alle durchzugehn.
Ich sah noch einmal die Verruchte,
Und ach! sie war noch immer schön.
Sie alle wichen meinem Grimme,
Doch flog noch manches wilde Wort;
So macht’ ich mich mit Donnerstimme
Noch endlich aus der Höhle fort.

Man soll euch Mädchen auf dem Lande
Wie Mädchen aus den Städten fliehn!
So lasset doch den Fraun von Stande
Die Lust, die Diener auszuziehn!
Doch seid ihr auch von den Geübten
Und kennt ihr keine zarte Pflicht,
So ändert immer die Geliebten,
Doch sie verraten müßt ihr nicht.«

So singt er in der Winterstunde,
Wo nicht ein armes Hälmchen grünt.
Ich lache seiner tiefen Wunde,
Denn wirklich ist sie wohlverdient;
So geh’ es jedem, der am Tage
Sein edles Liebchen frech belügt
Und nachts, mit allzu kühner Wage,
Zu Amors falscher Mühle kriecht.

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poesia, tradução

Cecilia Pavón (1973—), por Danilo Diógenes

Cecilia Pavón é uma poeta argentina, nascida em Mendoza, em 1973. Vive em Buenos Aires, onde licenciou-se em Letras pela Universidade de Buenos Aires. Em 1999 fundou, junto com Fernanda Laguna, a editora e galeria Belleza y Felicidad, espaço que serviu de plataforma para a difusão de novos artistas e escritores.

Danilo Diógenes nasceu no Espírito Santo, em 1990. Vive no Rio de Janeiro. Licenciou-se em Letras (Português-Literaturas) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde cursa o mestrado em Ciência da Literatura e atua como coordenador adjunto do Núcleo Poesia do Programa Avançado de Cultura Contemporânea (PACC).

* * *

Gonçalo

Nem em um milhão de anos

Volto a escrever entre drogados, mas
sem me drogar.
Junto a Gonçalo, vestido de jeans
ele tomou droga para cavalos, me pede
que o acompanhe para falar ao telefone
(com o hospital?) está atordoado, coitadinho
parece um pobre anjo ferido,
um pobre animal indefeso.
Por que você usou isso, Gonçalo?

Para provar, só para provar.

Estamos num shopping,
somos amigos do dono,
está fechado porque já é de madrugada
e há uma festa.

Caminhamos por este lugar tão grande
cheio de glamour, luxo, sofisticação.
O piso de parquet brilha.
Quando chegamos em sua casa ele se deita
como um peso morto
Deixa-se cair e tira a roupa.
Pare de escrever mentalmente,
ele me diz,
e me mostra
uma revista pornô que um amigo lhe deu de presente.
Não é uma revista vulgar,
é pornografia estetizada,
e agradeço aos céus por ter um
amante tão sutil esta noite

Uma mulher com oito picas na cara,
nunca tinha visto
algo parecido,
mas ela é bonita,
verdadeiramente bonita,
e parece muito segura do que está fazendo.

Fazemos amor e conversamos.
Estou cansada de tanto falar,
as letras misturam-se com qualquer coisa,
Minha mente e minha garganta se perdem.
Gonçalo me fala sobre a praia.
A praia é seu lugar favorito,
quer morrer na praia,
quer deixar tudo e ir para uma ilha deserta.
Eu,
não posso parar de olhar
as portas do armário,
vai de uma parede a outra,
não tem nada dentro.
Lindo armário,
lhe digo,
e como está bem decorada
a tua casa.
E ao escutar isso ele me abraça
com tanta paixão
e me dá milhões de beijos
os melhores beijos que recebi
os beijos que eu estava esperando

milhões de anos.

Gonzalo

No en un millón de años

Vuelvo a escribir entre drogados, pero
sin drogarme.
Junto a Gonzalo, vestido de jeans
tomó drogas para caballos, me pide que
lo acompañe a hablar por teléfono
(al hospital?) está mareado, pobrecito
parece un pobre ángel herido,
un pobre animal desamparado.
¿Por qué tomaste eso, Gonzalo?

Para probar, sólo para probar.

Estamos en un shopping,
somos amigos del dueño,
está cerrado porque ya es la madrugada
y hay una fiesta.

Caminamos por este lugar tan grande
lleno de glamour, lujo, sofisticación.
El piso de parquet brilla.
Cuando llegamos a su casa se acuesta
como un peso muerto
Se deja caer y se desviste.
Dejá de escribir con la mente
me dice,
y me muestra
una revista porno que le regaló un amigo
No es una revista vulgar,
es pornografía estetizada,
y le agradezco al cielo tener un
amante tan sutil esta noche

Una mujer con ocho pijas en la cara,
nunca había visto
algo parecido,
pero ella es hermosa,
verdaderamente hermosa,
y parece muy segura de lo que hace.

Hacemos el amor y conversamos.
Estoy exhausta de tanto hablar,
las letras se mezclan con cualquier cosa,
se me pierde la mente y la garganta.
Gonzalo habla sobre la playa.
La playa es su lugar preferido,
quiere morir en la playa,
quiere dejar todo e irse a una isla desierta.
Yo,
no puedo parar de mirar
las puertas del placard.
Va de pared a pared,
Adentro no hay nada.
Qué lindo placard,
le digo,
y qué bien decorada
está tu casa.
Y al escuchar esto me abraza
con tanta pasión
y me da millones de besos
los mejores besos que he recibido
los besos que estaba esperando
hace
millones de años.

[De Un hotel con mi nombre, 2012]

§ 

Balas de anis

Fecharam os shoppings, os bancos, os cinemas
você só pensa em se deixar levar como
essa vagabunda do filme
vanguardista, sem argumento, de que te falou
um amigo numa festa
Nunca foi a lugar nenhum
e quando pôde sair
só chegou a um país em que te roubaram
a imaginação.
E de volta
no aeroporto
os empregados da linha aérea tiveram que amarrar
com uma corda a sua mala
que explodiu por estar cheia de coisas.
Você ama as bicicletas ou a dança:
pensa que só elas poderiam te dar
um sentimento de mudança concreto
sai para buscar amigos
volta sozinha
os dias passam e você não liga para os telefones
anotados com letra tão pequena
em pedaços de papel
deixa-os na sacada
e o sol apaga os números.

Caramelos de anís

Cerraron los shoppings, los bancos, los cines
sólo pensás en dejarte llevar como
esa vagabunda de la película
vanguardista, sin argumento, de la que te habló
un amigo en un baile
Nunca fuiste ninguna parte
y cuando pudiste salir
sólo llegaste a un país en el que te robaron
la imaginación.
Y de vuelta
en el aeropuerto
los empleados de la aerolínea tuvieron que rodear
con una cuerda tu valija
que explotó por estar llena de cosas.
Amás las bicicletas o la danza:
pensás que sólo ellas podrían darte
un sentimiento de cambio concreto
salís a buscar amigos
volvés sola
pasan los días y no llamás a los teléfonos
anotados con letra tan pequeña
en papelitos
los dejás en el balcón
y el sol le borra los números.

[De Un hotel con mi nombre, 2012]

§

Desejo

Quantas formas de desejo existem? é possível haver tantas?
Não poderia haver um milagre, através do qual eu fechasse
os olhos e simplesmente te encontrasse me beijando e isso
trouxesse sobre si a marca da eternidade ou o infinito?

Mas deve haver tantos desejos quanto formas: quadrado,
com forma de flecha, redondo, triangular, com pontas,
com arestas, vertical, desfeito, inanimado.

Ainda lembro o momento em que o amor parecia
possível: mês de novembro, ar luminoso, um cara
dormia comigo,
conversávamos na cama enquanto fumávamos maconha
misturada com tabaco, ele segurava minha mão
por debaixo dos lençóis.

Faz seis meses que não beijo ninguém.
Seis meses sem fazer amor. Tenho 27 anos,
desde os 18 isso nunca tinha me acontecido.

Meu corpo em estado de alerta, poderia usar muitos verbos
para descrevê-los paredes que se levantam
e que são povoadas por espécies de hidras mentais.

É outono, lamento que o inverno se aproxime.
Sinto que me devem um verão.

Deseo

¿Cuántas formas de deseo existen? ¿puede ser que tantas?
¿No podría llegar un milagro, a través del cual yo cerrara
los ojos y simplemente te encontrara besándome y eso
cargara sobre sí la marca de la eternidad o el infinito?

Pero debe haber tantos deseos como formas: cuadrado,
con forma de flecha, redondo, triangular, con puntas,
con aristas, vertical, deshecho, inanimado.

Todavía recuerdo el momento en que el amor parecía
posible: mes de noviembre, aire luminoso, un muchacho
dormía conmigo,
hablábamos en la cama mientras fumábamos marihuana
y tabaco mezclados, él me tomaba la mano
bajo las sábanas.

Hace seis meses que no he besado a nadie.
Seis meses sin hacer el amor. Tengo 27 años,
desde los 18, nunca antes me había pasado.

Mi cuerpo en estado de alerta, podría usar muchos verbos
para describirlo paredes que se levantan
y que vienen a poblar especies de hiedras mentales.

Es otoño, lamento que se acerque el invierno.
Siento que me deben un verano.

[De Un hotel con mi nombre, 2012]

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